sexta-feira, 13 de maio de 2016

O silêncio ensurdecedor das panelas



O jogo de cartas marcadas finalmente chegou ao seu fim. Dilma foi afastada pelo Senado por até 180 dias, e Michel Temer, do PMDB, assumiu o seu lugar. Os verde-amarelos venceram, conseguiram o que queriam: tirar um governo legitimamente eleito do poder e, especialmente, um partido que governava o país há mais de 13 anos. Diziam que era o primeiro passo para acabar com a corrupção: “Primeiro a Dilma, depois o Temer, o Aécio, o Cunha, e todos os outros”. Cunha, de fato, caiu (até o momento), mas apenas por intervenção – muito tardia, diga-se de passagem – do STF. Porém, entra Temer, e o que ouvimos? Um silêncio que dói mais aos ouvidos do que qualquer sinfonia de panelas.

Muitos querem aguardar antes de opinar, é verdade. Mas, vejam bem, desde o início há inúmeros motivos para não ficar calado. Temer assume um governo dando uma guinada de 180º no programa para o qual a sua chapa foi eleita, a maior mudança ideológica desde 1964. Extingue importantes pastas e ministérios, em especial o Ministério da Cultura; fala em reformas que, incondicionalmente, visarão prejudicar mais o trabalhador; admite que irá transferir à iniciativa privada tudo o que for possível, privatizando muito do patrimônio nacional, entre outras muitas políticas conservadoras. É verdade que essas pautas são do agrado e interesse de muitos dos manifestantes verde-amarelos, mas seriam da maioria da população? Certamente, não.

E tem mais: o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admite aumentar a idade mínima para a aposentadoria, além de reconhecer que mantém a ideia de recriar a CPMF (alô, FIESP! Quá!); o  novo ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, fala que “BolsaFamília não pode ser objetivo de vida”, como se ganhar menos de 100 reais por mês assim o fosse; o novo ministro da Justiça (e Cidadania – só que não) e ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes, já foi advogado de Eduardo Cunha, de uma cooperativa do PCC, é notório pela repressão de manifestantes de esquerda, e já prometeu reprimir os movimentos sociais; o novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, teve contatos com a petroleira Chevron, admitindo o plano de privatizar o pré-sal, de acordo com vazamentos doWikileaks; e, falando em Wikileaks, agora saiu a notícia que Michel Temer, o próprio, agiu como informante dos EUA. Poderia citar ainda o bispo da Universal que virou ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; o ministro da Educação que vem do DEM, partido que se opôs com veemência a todos os projetos benéficos para a educação, como o Prouni, o FIES, os royalties do pré-sal para a educação, etc; Kassab no ministério de Ciência e Tecnologia, que agora agrega Comunicações também, relegando a ciência a um papel de pouca importância, entre outras indicações nefastas. Ah, e sem esquecer do fato de que todos os ministros são homens, e ainda mais brancos, numa ausência gritante de minorias, o primeiro ministério assim desde o governo Geisel. Sim, desde a ditadura.

Quer ainda mais? O novo governo, símbolo da luta contra a corrupção, nomeou pelo menos 7 ministros investigados pela Lava Jato (algumas fontes falam em 8 ministros, ou até 9, como alvos da operação); quer dizer, mais ou menos 1/3 de todo o seu ministério. Enquanto isso, fez-se todo um escarcéu por conta da indicação de Lula, que nem réu era. Ou seja, mais um 7x1 para a nossa conta. Temer ainda extinguiu a Controladoria Geral da União (CGU) como órgão independente de fiscalização, outro golpe duro no combate à corrupção. O jornal Folha de S. Paulo relata que o PMDB tenta "neutralizar os danos da Lava Jato". E para fechar a enredo, o Gilmar Mendes – aquele ministro do STF com bico de tucano – um dia após autorizar o inquérito contra Aécio Neves, por conta de delações na Lava Jato, decide suspender a coleta de provas, alegando que não há razões para isso. Não surpreende que o mesmo Aécio, candidato de oposição à chapa pela qual Michel Temer se elegeu, estava lá na posse de Temer, trocando afagos e abraços. Pois é, gol da Alemanha.

E tudo isso – acreditem – se deu em apenas 1 (um) dia de governo. Apenas 1. Imagina o que vem pela frente? E mesmo com tudo isso, o que se ouviu daqueles que batiam panela a cada discurso de Dilma enquanto Temer discursava? O silêncio ensurdecedor do consentimento. Pior: em alguns lugares, há relatos de fogos de comemoração. Será que alguns ficaram chocados demais para reagir? Será que não estão sabendo do que está acontecendo? Ou será que aprovam tudo isso? Uma coisa certamente ficou muito clara, o que já estávamos alertando há bastante tempo: o foco nunca foi o combate à corrupção, o objetivo era apenas retirar o PT do poder, e mais pelos seus acertos do que pelos seus erros. E para isso patrocinaram um golpe, um governo ilegítimo, tudo com base em interesses mesquinhos e indiferença com relação aos mais necessitados.

Alguns vão alegar que não sabiam que isso tudo iria ocorrer se protestassem pelo impeachment da Dilma. Tamanha inocência não pode ser perdoada. Traz à memória, na verdade, o relato de Traudl Junge, secretário de Hitler durante o regime nazista. Ela alegou que era jovem, que sempre foi desinteressada em política, e que ignorou os alertas de sinal amarelo que surgiam na sua cabeça sobre o que ocorria durante o regime; portanto, acabou não sabendo das atrocidades que Hitler e os nazistas cometiam. Porém, como ela mesmo admite, certa vez encontrou uma placa de homenagem a Sophie Scholl, jovem militante que foi morta pelo regime e um símbolo da resistência antinazista, e Traudl percebeu que as duas haviam nascido no mesmo ano. Assim, se uma garota como ela pôde perceber como aquilo tudo era nefasto, ela não tinha desculpas por não ter ido atrás de se informar melhor sobre o que estava ocorrendo.

O mesmo pode ser dito sobre os verde-amarelos e aqueles que diziam estar combatendo a corrupção. Não há como dizer que não poderiam saber o que iria ocorrer. Hoje, aliás, com a internet, é ainda mais grave: não havia como ignorar os inúmeros alertas feitos de todos os lados, não há como afirmar que não tinham como saber. Agora, só nos resta cobrar a fatura. Por um lado, não seremos nós que teremos que explicar a nossos filhos e netos o apoio a tamanha patifaria. Por outro, é preciso, mais do que nunca, se mobilizar para impedir maiores retrocessos, inclusive mostrando a todos aqueles que apoiaram esse despautério o erro de seus atos para que tenham a chance de colocar a mão na consciência e fazer o que é correto. Viramos uma piada, uma vergonha internacional, como noticia a mídia ao redor do mundo. Depois de anos de progressos e estabilidade na democracia, saímos disso tudo como uma verdadeira República de Bananas. Yes, we have bananas. But the bananas are us.

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