quinta-feira, 7 de abril de 2016

Os verde-amarelos e a definição de fascismo



Nos últimos tempos, alguns fatos inusitados têm ocorrido no cenário político brasileiro. Sedes do PT ao redor do país são atacadas e depredadas; uma médica recusa atender o filho de uma mulher petista; uma professora de Direito da USP faz um discurso passional contra Lula e o PT, mais lembrando uma pastora neopentecostal do que uma jurista; homens, mulheres, crianças e até cachorros são agredidos nas ruas por utilizarem a cor vermelha, e assim vai. São situações cada vez mais frequentes que tem feito o Brasil lembrar um cenário de Estado fascista.

Não é à toa, portanto, que tem sido comum chamar os “verde-amarelos” das manifestações contra o PT e o governo Dilma de fascistas. No entanto, não parece ser uma alcunha que os incomoda. E não é porque concordam; parece que eles simplesmente não entendem do que se trata de fato. É como chamar de “coxinha”. O que significa? Além de um salgado gorduroso, não quer dizer nada, apenas uma palavra qualquer sendo utilizada de forma pejorativa. O indivíduo reflete tanto sobre ser coxinha quanto sobre ser fascista, pois, para ele, ambas têm o mesmo significado: nenhum.

Diferentemente de coxinha, entretanto, fascistas não são apenas um nome pejorativo, eles foram uma realidade histórica. Como se sabe (ou dever-se-ia saber), o fascismo foi um movimento político que surgiu com força nas primeiras décadas do século XX – principalmente na Itália (com Benito Mussolini) e na Alemanha, com sua variante no nazismo (com Adolf Hitler) – como uma alternativa à dicotomia do capitalismo liberal e do socialismo. Foi uma ideologia baseada mais num caráter passional do que racional, e assim, cheia de contradições: antiliberal, sem deixar de ser capitalista (inclusive tendo o apoio de muitos liberais); antidemocrática, sem deixar de utilizar a máquina democrática para se promover; anticomunista, sem deixar de imitar algumas de suas estratégias e simbolismos; etc.

O historiador Eric Hobsbawm em A Era dos Extremos buscou fornecer uma definição para o fascismo. Para ele, tratava-se de uma “combinação de valores conservadores, (as) técnicas de democracia de massa, e uma ideologia inovadora de selvageria irracional, essencialmente centrados no nacionalismo”. Era também, de acordo com ele, em tom quase profético, “a prova de que o homem pode, sem dificuldade, combinar crenças malucas sobre o mundo com um domínio confiante da alta tecnologia contemporânea”.

Não é difícil encontrar paralelo dessa definição nos verde-amarelos brasileiros. E, seguindo a tradição fascista, eles não vieram sem uma quantidade considerável de contradições. Defendem a democracia enquanto buscam usurpá-la. Protestam contra a corrupção, mas ignoram a mesma de seus aliados (ou a de si mesmos). Criticam o Estado enquanto louvam as forças repressivas deste, em particular a Polícia Militar. Mas talvez a maior contradição venha do seu pretenso nacionalismo.

Não há nada mais falso e contraditório do que o nacionalismo dos verde-amarelos. Vestem-se de verde e amarelo, vão para as ruas, hasteiam e balançam bandeiras nacionais com vigor, choram e se emocionam com o hino nacional, entram em transe numa demonstração de histeria eufórica na luta por um país melhor, tudo ao mesmo tempo em que, na hora de dificuldade, zombam do país, criticam tudo o que é brasileiro e falam em ir embora pra Miami (ou qualquer outro lugar de 1º mundo). Ou então, se o país não corresponde às suas expectativas, pedem separatismo da sua região. No fim, desprezam o próprio povo, sua cultura e suas raças, e na primeira oportunidade, levantam a bandeira de outros países, dispostos a entregar as riquezas, as instituições e a dignidade do Brasil para eles.

("Trump: ganhe e ajude o Brasil")

Tudo, é verdade, aliado a ideias estapafúrdias sobre o Brasil e o mundo. Tendo como referências pessoas como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e, o suprassumo do absurdo, Olavo de Carvalho, os verde-amarelos ultrapassam a barreira da ignorância. Crenças malucas como que o PT planeja um golpe comunista (após 13 anos, provavelmente a tentativa de golpe mais lenta e da história), que a ONU é comunista, que direitos humanos só servem para defender bandidos, que a corrupção no Brasil teve início no governo do PT, que Lula é um bilionário, etc, têm terreno fértil nessas pessoas, apesar de toda a tecnologia disponível para as pessoas se informarem.

Isso nos leva a outra definição sobre fascismo, a de Theodor Adorno. O autor, em A Personalidade Autoritária, afirma: "O fascismo, a fim de ser bem-sucedido como um movimento político, deve ter uma base de massa. Ele deve assegurar não só a submissão amedrontada, mas a cooperação ativa da grande maioria das pessoas. Uma vez que por sua própria natureza favorece a poucos à custa de muitos, ele não pode possivelmente demonstrar, portanto, que vai melhorar a situação da maioria das pessoas, que os seus interesses reais serão atendidos. Ele deve, então, fazer o seu principal apelo não ao próprio interesse racional, mas às necessidades, muitas vezes emocionais - frequentemente aos desejos e medos mais primitivos e irracionais.” Mas se a propaganda fascista é enganosa, por que as pessoas são tão facilmente enganadas? Adorno responde: “Por conta, pode se supor, da sua estrutura de personalidade; dos padrões estabelecidos há muito tempo de esperanças e aspirações, medos e ansiedades que os dispõem a certas crenças e os tornam resistentes a outras. A tarefa da propaganda fascista, em outras palavras, se torna mais fácil na medida em que potenciais antidemocráticos já existem nas grandes massas."

Assim, então, que surgiram os grandes movimentos sociais de direita, inspirados diretamente nas jornadas de junho de 2013. Com nomes como “Movimento Brasil Livre” (referência ao Movimento Passe Livre); “Vem Pra Rua” (um dos motes de junho de 2013) e “Revoltados Online”, esses grupos, liderados em sua maioria por jovens com pobre formação intelectual e financiados por fontes suspeitas, têm convocado sistematicamente a população para protestar nas ruas contra o governo. Pautados por esse patriotismo à la Copa do Mundo e uma ideologia liberal que ilusoriamente interessa a uma classe média cansada de “sustentar” os programas sociais direcionados aos mais pobres, esses movimentos têm atraído grandes multidões às ruas do país.

É verdade, contudo, que o grande mote das manifestações dos verde-amarelos é a luta contra a corrupção. Surge, então, um simbolismo ilusório: tiramos o PT do poder, e o problema vai se resolver. Como? Não se sabe. Mas este é o primeiro passo, para não dizer o passo definitivo. Depois, de acordo com eles, virão os outros: PMDB, PSDB, etc. Só que os outros marcham ao lado deles. E os outros não querem o fim da corrupção, apenas mais poder. Mesmo assim, os verde-amarelos acreditam que estão no caminho certo. Afinal, a mídia diz que sim, e ela não pode estar errada, não?


E por que esse discurso funciona? Justamente, como Adorno atesta, porque apela “aos desejos e medos mais primitivos e irracionais”. Os verde-amarelos, em sua essência de classe média, têm medo. Medo de um partido cuja popularidade eles não conseguem entendem, da violência das grandes cidades, de perderem seu estilo de vida, de perderem espaço, etc. Instigados por articulistas dispostos a fomentar esse medo, como os já citados, eles fabricam um fantasma ilusório o qual temem e querem combater: o do comunismo. A corrupção seria apenas o exemplo mais concreto de sua existência. Daí emerge a luta do Bem contra o Mal e a necessidade urgente de combatê-lo, o que explica o alto grau de mobilização e voluntarismo entre os manifestantes.

Do medo, então, nasce o ódio. Uma obsessão em destruir o inimigo. E irrompe a “selvageria irracional”, descrita por Hobsbawm. O inimigo precisa ser combatido em todos os lugares, a qualquer custo. Depredações, ofensas virtuais, negar atendimento e até agressões a quem pensa diferente, ou até a quem simplesmente decidiu colocar uma roupa vermelha. E esse é um dos problemas do fascismo: ele não tem limites. Como apela aos instintos mais primitivos, uma vez que ele é instalado dentro das pessoas, é difícil revertê-lo ou impor limites morais. Assim, todos que discordam de seus métodos e palavras de ordem, mesmo entre aliados, são considerados subversivos, traidores. O que explica por que Alckmin e Aécio foram hostilizados na Av. Paulista, por que Reinaldo Azevedo já foi chamado de “petralha” (termo que ele mesmo criou, veja a ironia), e por que Marcelo Reis, criador do Revoltados Online, um dos grupos mais tóxicos de extrema-direita da internet, também foi expulso da Av. Paulista aos gritos de “petralha” e “comunista”.

(Um nazista segura uma placa que diz: "Alemães! Resistam! Não comprem de judeus!")

A razão pertence apenas a um herói, a um líder carismático. Geralmente, a mídia tem um papel importante em moldá-lo. No momento, trata-se do juiz Sérgio Moro. No futuro, podem surgir outros, aproveitando-se da ignorância e do ódio desmedidos desta população, em particular figuras nefastas como o deputado Jair Bolsonaro. O fascismo, então, se personifica, ganha corpo, e o que era um ensaio pode começar a se tornar realidade.

Portanto, quando chamamos os verde-amarelos de fascistas, é mais do que uma ofensa. É um alerta. Por ora, pode-se dizer que temos no país um movimento protofascista, ou seja, que flerta com o fascismo e seus métodos, embora ainda não tenha corpo nem cabeça. Mas pode ganhar. E como a história ensina, o fascismo e suas variantes nunca acabaram bem. Da mesma forma que quem é manipulado não sabe que o é, o mesmo parece ocorrer entre fascistas. Eles não sabem que caminham a passos largos rumo ao fascismo. E se não é possível apelar à sua razão, que alertemos aqueles de fora para não se juntarem às suas fileiras. Antes que seja tarde demais.

11 comentários:

  1. Excelente análise das aberrações que estamos assistindo no Brasil de agora

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  2. Guardado e impresso para botar nas mãos de outras pessoas.

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    1. Só se for para limpar a bunda... Só use em caso de necessidade!

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  3. bela tentativa de passar atestado de burrice ao povo invertem td e tiram o cu da reta comunista de merda tenha vergonha na cara

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    1. No dia que o estado de direito fazer vista grossa: Vamos varrer vçes da fçe da terra.Covardes,sua cara nao nega seu Fabio,tu tem cara de menininha.

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    2. Você não tem cedilha.
      Mulher e menina não é ofensa. Obrigada, de nada machista fascista!

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  4. Blog cadente e conivente com o maior escândalo de corrupção do mundo. Ou patrocinado chapa branca.

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  5. Pra variar, quem caiu na rede nāo vai admitir que tudo isso possa ser uma análise verdadeira da situação.
    Excelente "dissertação"! Parabéns!

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  6. Pra variar, quem caiu na rede nāo vai admitir que tudo isso possa ser uma análise verdadeira da situação.
    Excelente "dissertação"! Parabéns!

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  7. Pra variar, quem caiu na rede nāo vai admitir que tudo isso possa ser uma análise verdadeira da situação.
    Excelente "dissertação"! Parabéns!

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