quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Bolsonaro e Trump: duas faces da mesma moeda



Jair Bolsonaro e Donald Trump, apesar de separados por um hemisfério e pelas particularidades de cada país, possuem muitas coisas em comum. Uma delas o fato de deixarem qualquer progressista (ou simplesmente moderada) de cabelos em pé com suas ideias. Apesar disso, no Brasil, uma minoria barulhenta gostaria de ver o ex-militar no poder, enquanto nos EUA, o bilionário americano lidera – até o momento – as prévias para a candidatura do Partido Republicano. O que explica esse despautério?

Quando lembramos que até Hitler foi eleito, sabemos que tudo é possível, até a eleição de candidatos malucos com ideias insensatas. Mas se nos aproveitarmos aqui do exemplo, é preciso entender o que faz com indivíduos assim ganhem notoriedade e, eventualmente, consigam até ser eleitos. O que os diferencia tanto da maioria dos candidatos é que enquanto estes buscam o voto de todos, enfatizando que atendem também às minorias desfavorecidas, figuras de roupagem fascista dirigem os seus discursos apenas à maioria, colocando as minorias como o inimigo em potencial. Foi assim com Hitler, perseguindo os judeus, com Mussolini, perseguindo os socialistas, e é assim com grande parte dos candidatos de extrema-direita na Europa atual, que culpam os problemas nos imigrantes. São o que a mídia tem chamado de populistas de direita.

Mas o que os tornam populistas? O simples fato deles dizerem o que a população quer ouvir, independentemente de ser verdade ou não. Para a mídia, seriam similares a populistas de esquerda que, por outro lado, são aqueles que culpam os problemas da sociedade nos mais ricos, no capital financeiro, nas grandes corporações. A diferença, contudo, é que você não vê pessoas perseguindo banqueiros ou grandes empresários, que fugiriam com medo de violência ou que não possuem meios para se defender. Geralmente, ocorre o oposto: mesmo com a eleição do suposto populista de esquerda, esses grupos continuam tão poderosos e inabaláveis quanto antes. Portanto, parece no mínimo injusto colocá-los no mesmo saco, embora de extremos diferentes – como a mídia faz – com esses políticos que culpam os problemas da sociedade em grupos já discriminados, alimentando o medo e a ignorância em quem não sabe lidar com o diferente, e fomentando o ódio e a violência contra quem não tem como se defender. E com o fracasso da esquerda de combater o suposto inimigo que apregoa, mesmo quando eleita, estes populistas de direita ganham força no debate político.

Assim, o que esses políticos se destacam em fazer é falar o que as pessoas querem ouvir, por pior que isso seja. E essa é grande parte da razão de seu sucesso: seguidores de políticos como Bolsonaro e Trump estão cansados de ouvir que não podem dizer o que pensam. Falar mal dos ricos tornou-se clichê; afinal, antes de serem vilões, eles são um objetivo, uma aspiração. Criticar minorias, isso sim, é o grande tabu. E alguns grupos estão cansados do que chamam de politicamente correto e não poderem expressar o que pensam em público, como que homossexuais são imorais, que feministas são mal-amadas, que negros têm oportunidades iguais aos brancos e se recorrem ao crime é porque querem, que bandido bom é bandido morto, que direitos humanos devem existir para humanos direitos, que muçulmanos são terroristas em potencial, etc. Ou não? São pensamentos muitas vezes majoritários, mas que são condenados publicamente, constrangendo os que pensam assim. Não é revigorante, então, que um político tenha coragem de dizer tudo o que pensam, mas que sentem que não podem mais falar em público para não serem corrigidos ou tachados como ignorantes?

Bolsonaro e Trump representam, então, uma maioria silenciosa, que se sente alijada do poder nas últimas décadas e que não compreende as mudanças na sociedade contemporânea. Como um artigo de dezembro de 2015 na The Economist revela, o eleitor de Trump encontra no candidato um sentimento de “validação”. Quer dizer, ele se sente representado por alguém que fala o que ele pensa de verdade, ao contrário da maioria dos políticos cujas opiniões parecem artificiais e moldadas por seus marqueteiros. O sentimento de identificação torna-se tão forte que seus seguidores passam até a “perdoar” algumas falhas, como as inúmeras gafes e comentários machistas de Trump, e os comentários homofóbicos (mas também machistas e racistas) de Bolsonaro. Assim, o seu eleitor-base surge de grupos majoritários e historicamente privilegiados – como homens, brancos e cristãos – que se sentem deslocados e insatisfeitos com uma sociedade que buscaria diminuir o seu espaço, seguindo a tese antidemocrática da "ditadura da maioria"; ou seja, a ideia de que os direitos e valores da maioria devem prevalecer sobre as minorias. Evocam, desta forma, um passado pretensamente glorioso – calcado num discurso nacionalista e militarista – quando as coisas eram menos complexas e cada um tinha o seu lugar. No caso dos EUA, de um país cristão, dominado pelos brancos, anticomunista e a potência incontestável no mundo (como mostra o lema de campanha de Trump: “Make America Great Again”); enquanto no Brasil, do falacioso discurso de um país onde não havia corruptos, onde as coisas funcionavam, governado por patriotas e no qual “vagabundo não tinha vez”.

Os dois políticos ainda possuem uma carta na mão: são o que se chama de anti-establishment; ou seja, eles não são vistos como políticos tradicionais. Apesar de Bolsonaro ser um político de carreira, ainda seria visto como alguém de fora, por não ser de um grande partido e por não ter tido a chance de governar. A popularidade dos dois representa também, portanto, um fenômeno recente nas democracias modernas, que é a falência da política. Isso significa uma sensação de que os políticos e os partidos tradicionais não conseguem mais representar a vontade da população, que recorre a figuras cada vez mais radicais e populistas em busca de uma mudança “real”.

O pior de tudo, no entanto, é a triste conclusão de que nenhum dos dois representa algo de novo e inovador. Em um país onde a desigualdade social apenas cresce, Donald Trump, um bilionário, representa apenas a sua classe, e não o trabalhador médio americano. Além disso, suas opiniões retrógradas de política externa coloca a grande maioria dos intelectuais conservadores de cabelo em pé, e até a cúpula do Partido Republicano torce para que ele não seja o seu candidato, com medo do estrago que ele poderia causar tanto no partido quanto no país. Jair Bolsonaro também não traz nada de novo à política brasileira. Ampara-se no discurso falacioso de ser o único candidato de direita num país governado apenas pela esquerda, sendo que o único governo genuinamente de esquerda (e olhe lá) foi o do PT, a partir de 2003. Ele representa um passado que precisa ser superado, que é do militarismo nacionalista, além de ideias que não deram certo, como um discurso moralista e patriótico, amparado contraditoriamente na tese do livre-mercado e do Estado mínimo. Já vimos esse filme com Fernando Collor. E considerando as contradições de Bolsonaro, como ser um dos deputados mais faltosos da Câmara, ter feito parte de um dos partidos mais envolvidos em casos de corrupção (o PP) e ter votado consistentemente a favor de projetos impopulares e imorais, como oaumento do salário de parlamentares, parece que a história apenas se repetiria, desta vez como farsa.

É assustador que duas figuras com ideias nefastas como Jair Bolsonaro e Donald Trump sejam sequer considerados candidatos viáveis para a presidência de um país. E justamente por isso que é importante o papel de desconstruir esses candidatos. Nos Estados Unidos, Trump foi subestimado por muito tempo, na certeza de que suas contradições causariam sua queda mais cedo ou mais tarde. Isso não ocorreu e, hoje, o candidato continua liderando as prévias para o Partido Republicano. No caso de Bolsonaro, ainda temos pouco mais de 2 anos até as eleições de 2018; ou seja, bastante tempo para desmistificar a sua imagem. Resta saber se a esquerda fará o seu dever de casa. Caso contrário, as surpresas podem ser desagradáveis.