quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Kim Kataguiri e o velho fascismo da direita brasileira



O jornal Folha de S. Paulo anunciou esta semana o seu mais novo colunista: Kim Kataguiri, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), coletivo que tem organizado – junto a outros grupos de direita – manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O jovem de 19 anos se junta agora a outros colunistas antipetistas da Folha, como Reinaldo Azevedo e o senador Ronaldo Caiado (DEM). Por trás do discurso bonito de dar voz a todos os tipos de opiniões, restam poucas dúvidas do viés à direita do jornal, abrindo um espaço que deveria ser de qualidade para um rapaz que largou a faculdade de economia por considerar que “sabia mais que os professores”.

A realidade é que, no Brasil, as coisas funcionam de um modo bastante curioso. Se você é de esquerda, para ter acesso aos canais da grande mídia, é preciso mestrado, doutorado, alguns livros e/ou artigos importantes escritos e nenhuma opinião muito radical. Ou, é claro, ser artista famoso. Agora, se você é de direita, basta ser minimamente articulado que você recebe o espaço que quiser, mesmo com opiniões mal fundamentadas e – como no caso de Kim – sem exigência de diploma ou renome, vociferando muito ódio e pouca informação.

Mas a culpa não é do rapaz se há jornais que querem lhe dar espaço. Se querem ouvi-lo, é porque ele tem algo a ser dito. Ontem, dia 19/01, então foi a estreia de sua coluna. E o que vimos? Nada de novo. O velho discurso fascista da direita brasileira travestido de liberalismo. Quer criminalizar o Movimento Passe Livre (MPL) por conta das atitudes de alguns indivíduos que cometem crimes durante os protestos.

Primeiro de tudo, é preciso dizer que Kim é bastante ingrato. Se o MBL existe, é por causa do MPL (Movimento Passe Livre => Movimento Brasil Livre, entenderam?), mais especificamente do legado de junho de 2013. Quando o MPL saiu das ruas no meio do calor de junho, após a queda das tarifas, as pessoas nas ruas ficaram órfãs de quem os guiassem, e assim começaram a nascer esses coletivos de direita, um deles o MBL.

Agora, Kim quer acabar com quem começou tudo. Talvez lhe falte alguma memória. Se apenas nos protestos do MPL acontecem esses atos de “black blocs”, por que apenas nos protestos do MBL há pessoas pedindo intervenção militar? Ele deveria lembrar que isso é um crime também. Está na Constituição Federal, artigo 5º, inciso XLIV: “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”. Está previsto também na Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), artigos 22, inciso I (“É considerado crime fazer, em público, propaganda de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social”) e 23, incisos I e II (“Incitar à subversão da ordem política ou social; à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis”). Pena: reclusão de 1 a 4 anos.

É preciso lembrar também as inúmeras vezes que meros transeuntes foram agredidos apenas por estarem trajados de vermelho durante os atos do MBL. Ou, mais gravemente, no acampamento em Brasília, quando um indivíduo sacou uma arma e efetuou disparos contra a Marcha de Mulheres Negras.

É valido que Kim questione por que estes atos de vandalismo ocorrem durante os protestos do MPL, mas talvez ele devesse se perguntar também por que todos estes crimes acima ocorrem apenas durante as passeatas do seu MBL. Seguindo este raciocínio, se ele é um dos líderes das passeatas, ele não deveria responsabilizado criminalmente por isso? Ou, talvez, seguindo a sua lógica torta, a lei só valha para os outros. De fato, nada mais fascista do que querer criminalizar movimentos sociais de esquerda. Nada de novo nisso. Afinal, é o mesmo grupo que quer criminalizar o PT também. “Brasil livre é Brasil sem PT”, dizem. Será que ele lembra (ou aprendeu) em que momentos da história partidos e organizações de esquerda foram criminalizados? Kim, o mesmo que comparou feministas a miojo, não se considera fascista. Para ele, como disse numa entrevista, o fascismo se resume a querer que tudo seja controlado pelo Estado, o que é mais próxima da esquerda do que dele, já que ele é um liberal.

Talvez se estudasse mais saberia que não é tão simples assim. O fascismo sempre foi um mar de contradições. Apesar de “triunfantemente antiliberal”, como o renomado historiador Eric Hobsbawn ressalta, o fascismo sempre recebeu apoio dos liberais em todos os países em que passou por ser, essencialmente, anticomunista. Além disso, Hobsbawn, em A Era dos Extremos, define o fascismo como “a combinação de valores conservadores, técnicas de democracia de massa e a inovadora ideologia de barbarismo irracionalista, centrada em essência no nacionalismo”. Soa familiar? Você, leitor, diria que parece mais com uma descrição dos atos do Passe Livre, ou do MBL?

Ainda há outras asneiras que Kim fala por aí que merecem ser refutadas, como a ideia maluca de privatizar educação e saúde públicas e instituir um sistema de vouchers, o que por si só vale outro post. Mas se este será o nível da sua nova coluna na Folha, é uma pena. Dizem que nada mais triste que um jovem de direita. Eu diria que é triste ter uma direita tão mal representada, com ideias arcaicas, e ainda mais repetidas por um jovem que não completou nem 20 anos. Mas o pior é saber que tem público. Julgando pelo nível dos comentários de leitores da Folha, talvez a escolha de colunista foi certa. Afinal, do jeito em que estamos, qualquer coisa melhor deve ser mesmo jogar pérolas aos porcos. 

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