sexta-feira, 13 de maio de 2016

O silêncio ensurdecedor das panelas



O jogo de cartas marcadas finalmente chegou ao seu fim. Dilma foi afastada pelo Senado por até 180 dias, e Michel Temer, do PMDB, assumiu o seu lugar. Os verde-amarelos venceram, conseguiram o que queriam: tirar um governo legitimamente eleito do poder e, especialmente, um partido que governava o país há mais de 13 anos. Diziam que era o primeiro passo para acabar com a corrupção: “Primeiro a Dilma, depois o Temer, o Aécio, o Cunha, e todos os outros”. Cunha, de fato, caiu (até o momento), mas apenas por intervenção – muito tardia, diga-se de passagem – do STF. Porém, entra Temer, e o que ouvimos? Um silêncio que dói mais aos ouvidos do que qualquer sinfonia de panelas.

Muitos querem aguardar antes de opinar, é verdade. Mas, vejam bem, desde o início há inúmeros motivos para não ficar calado. Temer assume um governo dando uma guinada de 180º no programa para o qual a sua chapa foi eleita, a maior mudança ideológica desde 1964. Extingue importantes pastas e ministérios, em especial o Ministério da Cultura; fala em reformas que, incondicionalmente, visarão prejudicar mais o trabalhador; admite que irá transferir à iniciativa privada tudo o que for possível, privatizando muito do patrimônio nacional, entre outras muitas políticas conservadoras. É verdade que essas pautas são do agrado e interesse de muitos dos manifestantes verde-amarelos, mas seriam da maioria da população? Certamente, não.

E tem mais: o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admite aumentar a idade mínima para a aposentadoria, além de reconhecer que mantém a ideia de recriar a CPMF (alô, FIESP! Quá!); o  novo ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, fala que “BolsaFamília não pode ser objetivo de vida”, como se ganhar menos de 100 reais por mês assim o fosse; o novo ministro da Justiça (e Cidadania – só que não) e ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes, já foi advogado de Eduardo Cunha, de uma cooperativa do PCC, é notório pela repressão de manifestantes de esquerda, e já prometeu reprimir os movimentos sociais; o novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, teve contatos com a petroleira Chevron, admitindo o plano de privatizar o pré-sal, de acordo com vazamentos doWikileaks; e, falando em Wikileaks, agora saiu a notícia que Michel Temer, o próprio, agiu como informante dos EUA. Poderia citar ainda o bispo da Universal que virou ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; o ministro da Educação que vem do DEM, partido que se opôs com veemência a todos os projetos benéficos para a educação, como o Prouni, o FIES, os royalties do pré-sal para a educação, etc; Kassab no ministério de Ciência e Tecnologia, que agora agrega Comunicações também, relegando a ciência a um papel de pouca importância, entre outras indicações nefastas. Ah, e sem esquecer do fato de que todos os ministros são homens, e ainda mais brancos, numa ausência gritante de minorias, o primeiro ministério assim desde o governo Geisel. Sim, desde a ditadura.

Quer ainda mais? O novo governo, símbolo da luta contra a corrupção, nomeou pelo menos 7 ministros investigados pela Lava Jato (algumas fontes falam em 8 ministros, ou até 9, como alvos da operação); quer dizer, mais ou menos 1/3 de todo o seu ministério. Enquanto isso, fez-se todo um escarcéu por conta da indicação de Lula, que nem réu era. Ou seja, mais um 7x1 para a nossa conta. Temer ainda extinguiu a Controladoria Geral da União (CGU) como órgão independente de fiscalização, outro golpe duro no combate à corrupção. O jornal Folha de S. Paulo relata que o PMDB tenta "neutralizar os danos da Lava Jato". E para fechar a enredo, o Gilmar Mendes – aquele ministro do STF com bico de tucano – um dia após autorizar o inquérito contra Aécio Neves, por conta de delações na Lava Jato, decide suspender a coleta de provas, alegando que não há razões para isso. Não surpreende que o mesmo Aécio, candidato de oposição à chapa pela qual Michel Temer se elegeu, estava lá na posse de Temer, trocando afagos e abraços. Pois é, gol da Alemanha.

E tudo isso – acreditem – se deu em apenas 1 (um) dia de governo. Apenas 1. Imagina o que vem pela frente? E mesmo com tudo isso, o que se ouviu daqueles que batiam panela a cada discurso de Dilma enquanto Temer discursava? O silêncio ensurdecedor do consentimento. Pior: em alguns lugares, há relatos de fogos de comemoração. Será que alguns ficaram chocados demais para reagir? Será que não estão sabendo do que está acontecendo? Ou será que aprovam tudo isso? Uma coisa certamente ficou muito clara, o que já estávamos alertando há bastante tempo: o foco nunca foi o combate à corrupção, o objetivo era apenas retirar o PT do poder, e mais pelos seus acertos do que pelos seus erros. E para isso patrocinaram um golpe, um governo ilegítimo, tudo com base em interesses mesquinhos e indiferença com relação aos mais necessitados.

Alguns vão alegar que não sabiam que isso tudo iria ocorrer se protestassem pelo impeachment da Dilma. Tamanha inocência não pode ser perdoada. Traz à memória, na verdade, o relato de Traudl Junge, secretário de Hitler durante o regime nazista. Ela alegou que era jovem, que sempre foi desinteressada em política, e que ignorou os alertas de sinal amarelo que surgiam na sua cabeça sobre o que ocorria durante o regime; portanto, acabou não sabendo das atrocidades que Hitler e os nazistas cometiam. Porém, como ela mesmo admite, certa vez encontrou uma placa de homenagem a Sophie Scholl, jovem militante que foi morta pelo regime e um símbolo da resistência antinazista, e Traudl percebeu que as duas haviam nascido no mesmo ano. Assim, se uma garota como ela pôde perceber como aquilo tudo era nefasto, ela não tinha desculpas por não ter ido atrás de se informar melhor sobre o que estava ocorrendo.

O mesmo pode ser dito sobre os verde-amarelos e aqueles que diziam estar combatendo a corrupção. Não há como dizer que não poderiam saber o que iria ocorrer. Hoje, aliás, com a internet, é ainda mais grave: não havia como ignorar os inúmeros alertas feitos de todos os lados, não há como afirmar que não tinham como saber. Agora, só nos resta cobrar a fatura. Por um lado, não seremos nós que teremos que explicar a nossos filhos e netos o apoio a tamanha patifaria. Por outro, é preciso, mais do que nunca, se mobilizar para impedir maiores retrocessos, inclusive mostrando a todos aqueles que apoiaram esse despautério o erro de seus atos para que tenham a chance de colocar a mão na consciência e fazer o que é correto. Viramos uma piada, uma vergonha internacional, como noticia a mídia ao redor do mundo. Depois de anos de progressos e estabilidade na democracia, saímos disso tudo como uma verdadeira República de Bananas. Yes, we have bananas. But the bananas are us.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Por que sou contra o impeachment (e você deveria ser também)


(Capa da revista Piauí de janeiro/2016)

Antes de começar a ler o texto, alguns devem pensar: “Ih, lá vem texto de petista...”. Não, não sou petista. Nunca fui filiado ao partido, não recebi um centavo (ou sanduíche) para defende-lo, a maioria dos meus votos nas últimas eleições foi direcionada a outros partidos, e apenas votei em Dilma no 2º turno porque considerava a outra opção pior. Mas isso também não significa que se trata de um texto “isentão”. Sou, sim, uma pessoa de esquerda, que acredita na luta pela redução das desigualdades, e gostaria que o governo atual pendesse mais para este lado do que como age na realidade. Ainda assim, quero discutir a legalidade e a legitimidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff e expor por que sou contra.

“Mas o impeachment é um instrumento democrático, está na Constituição...” Sim, é verdade. Mas ele tem suas regras. Para um governante sofrer um impeachment, o pedido deve ser baseado na premissa de que o mesmo cometeu um crime de responsabilidade durante o seu governo. E este é o problema: não há nenhum indício que aponte que Dilma cometeu um crime de responsabilidade durante o seu governo.

“E as pedaladas fiscais?” As tais pedaladas fiscais não são um crime. São, no máximo, uma manobra com as contas públicas para fechar no azul. Sem grana em caixa para cumprir seus compromissos, o governo tomou empréstimo com os bancos públicos, e depois devolveu o dinheiro. É correto? Não, não deveria ser uma prática corriqueira, e pode gerar punições. Mas não um impeachment. “Ah, mas o TCU reprovou as contas!” O Tribunal de Contas da União é, acima de tudo, um órgão político. Tradicionalmente, quando um governo tem suas contas reprovadas, ou em casos de pedaladas fiscais, a punição foi desde multas ao político e a seu partido até a inelegibilidade do governante em futuras eleições. Todos ex-presidentes fizeram as tais pedaladas fiscais. Pode-se alegar que não na mesma magnitude; porém, não há nenhuma lei ou artigo que especifique que a partir de certo ponto a punição é mais grave. Dos atuais 26 governadores, 16 cometeram as pedaladas. Será necessário pedir o impeachment deles também? Soa insensato, então, basear o impeachment da presidente Dilma num motivo tão frágil. Não há razoabilidade no grau da punição, chega a parecer tão insensato quanto pedir pena de morte para o contribuinte que não pagar os impostos corretamente.

“Mas tem a Lava Jato!” A Operação Lava Jato até agora não encontrou nada que incrimine a presidente Dilma. Tanto que o pedido de impeachment não leva isso em conta. “Mas toda a corrupção na Petrobras, a compra da refinaria de Pasadena, a Dilma era presidente do Conselho da Petrobras, ministra de Minas e Energia...” Se a Dilma tiver alguma culpa nessa história, ela precisa ser investigada e punida. Até agora, não há nada que leve à sua culpa. Porém, aí entra outra questão: um presidente sofre impeachment por ter realizado um crime de responsabilidade durante a sua gestão. Ou seja, o impeachment não pode se basear em atos passados. Se Dilma for culpada de algum crime, ela deve ser punida... mas não com o impeachment. E isso vale também para as pedaladas, pois foram realizadas no seu primeiro mandato. Em seu segundo mandato, ela não pode ser punida por atos que teria cometido no primeiro.

“E o dinheiro desviado da Petrobras por empreiteiras e sendo utilizado como doação de campanha para o PT?” Isso é uma outra questão. Precisa ser averiguado e investigado, e se for verdade, deve levar à cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, convocando, assim, novas eleições. Mas é um processo que demora um pouco mais. É preciso lembrar também que as mesmas empreiteiras que doaram para a campanha de Dilma também doaram para a de Aécio. Não parece razoável, portanto, que as doações para apenas um lado tenham origens ilícitas.

“Mas a delação do Delcídio do Amaral, ex-senador do PT, indica que ela sabia de tudo, que tentou obstruir o trabalho da justiça!” É preciso deixar algo claro: delação premiada não é prova. É simplesmente a palavra de alguém. O que ocorre numa delação premiada é que o delator indica para a polícia alguma trilha para ela investigar se é verdade. E o delator não precisa dizer a verdade. É claro, se mentir, não tem benefícios, mas ele pode dizer meias verdades, entregar apenas o que quer, junto a uma ou outra informação incorreta, e ainda se dar bem. É um método polêmico de conseguir provas, não é totalmente eficaz, pois o delator escolhe o que ou quem entregar, o que pode servir mais aos seus interesses do que àqueles da sociedade. Assim, sem entregar alguma prova concreta (dizer que ouviu a presidente falar algo nos jardins do Planalto não seria uma) ou indicar algo que leve a investigação a encontrar isso, não é possível culpar alguém por um crime. Afinal, um dos princípios básicos da justiça é que todo mundo é inocente até que se prove culpado.

“E os áudios das conversas entre Lula e Dilma, isso prova tudo!” Muito pelo contrário. As conversas telefônicas entre Dilma e Lula não provam nada, nem contra ela, nem contra ele. Acredite: se provasse, Lula estaria rapidamente na cadeia. No máximo, é possível fazer ilações, suspeitar algumas possíveis interpretações. Mas não é prova cabal de nada. Pior: os áudios vazados intencionalmente pelo juiz Sérgio Moro foram obtidos ilegalmente, após a ordem para cessar o grampo telefônico do ex-presidente. Sem falar no vazamento, que também foi ilegal.

“Ok, ok, então digamos que a Dilma não cometeu crime nenhum. Mas eu não quero mais ela como presidente, ela é incompetente demais, mentiu em campanha, apenas precisa sair!” Querer a saída de um presidente é algo totalmente válido, faz parte da democracia. Porém, na ausência de um crime de responsabilidade, defender um impeachment é, sim, um golpe. Você pode ter todos os motivos para ser contra o governo Dilma. É verdade, ela tem feito um péssimo governo. Porém, em respeito às instituições e à democracia, você deveria ter apenas duas opções: aguardar as próximas eleições em 2018 ou protestar e pressionar pela sua renúncia. Forçar a sua saída por um instrumento como um impeachment mostra apenas um pouco apreço pela democracia, típico de quem só aceita as regras do jogo quando lhe convém.

É preciso também ter em mente algumas questões caso o impeachment ocorra. Qual é o benefício de ter Michel Temer, do PMDB, como presidente? A quem isso interessa, de fato? E, pior, ter Eduardo Cunha, o maior bandido que este país já viu, como vice! Lembremos que o PMDB é um dos partidos mais implicados pela Lava Jato. E que, apesar de tudo, Dilma fez pouco para impedir as investigações que pegaram membros graúdos do seu partido. É difícil acreditar que um aliado de Eduardo Cunha, como Temer, não vai fazer nada para barrar as investigações. Com certeza, um dos seus objetivos pode ser exatamente esse: acabar com a Lava Jato. Com a queda do PT, ela teria cumprido seu propósito, teria punido o bastante, e as coisas poderiam continuar “como antes”: muito se fala, pouco se investiga, nada acontece. Afinal, a pressão popular iria diminuir drasticamente, pelo menos por parte dos verde-amarelos. Ou alguém acredita que movimentos como o MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online vão continuar convocando manifestações depois da queda do PT?

O pior é constatar quem está julgando Dilma. De acordo com levantamento feito pela Agência Lupa, com dados da Transparência Brasil, 37 dos 65 membros da Comissão Especial do Impeachment na Câmara dos Deputados possuem pendências com a justiça. Considerando a votação do relatório, 21 dos 38 deputados que votaram a favor possuem pendências com a justiça, enquanto 16 dos 27 parlamentares que votaram contra também estão com alguma ocorrência judicial. Ao todo, dos 513 deputados federais, 303 são investigados por algum crime, 59% do total. No Senado, a situação não é muito diferente: 49 dos 81 senadores (60%) estão respondendo por alguma irregularidade na justiça. Não é à toa que tem se dito que Dilma está sendo julgada por muitos ladrões.

E os mesmos políticos e partidos que querem derrubar Dilma são a favor de projetos nefastos para o país. Eduardo Cunha já avisou que a pauta para a próxima semana será a lei de terceirização, seguindo o interesse daqueles que financiaram a sua campanha, o que coloca em risco os direitos de milhões de trabalhadores. Michel Temer, por outro lado, alertou que seu governo terá reformas “bruscas”. Entendam isso como uma reforma da Previdência que prejudique ainda mais a população, além de um ajuste fiscal ainda mais rígido, cortando investimentos e gastos em áreas cruciais para o país, como educação, saúde, segurança, além dos programas sociais, que podem ser congelados ou até cortados. O que vai dizer então a FIESP quando tivermos que pagar um pato ainda maior? E não pensem que a Petrobras está segura: entregar o pré-sal não é o bastante, até a privatização da Petrobras pode voltar a ser pauta.

Sem falar as bases do julgamento pelo impeachment passam longe do que Dilma fez ou deixou de fazer. Pouco importa a base jurídica, a presidente está sendo julgada de forma estritamente política, e no pior dos sentidos, com o amparo de pesquisas de opinião, manifestações de rua e a negociação de cargos e apoios para um eventual governo Temer. Tudo isso abre um precedente muito grave, de que um presidente pode ser derrubado apenas por perder apoio popular e parlamentar. Isso seria possível se tivéssemos um sistema parlamentarista, mas o que vigora é o presidencialismo, e isso precisa ser respeitado. Pelo contrário, saímos deste processo com um país menor, uma verdadeira República de bananas. Sem falar que Michel Temer é tão impopular quanto Dilma. 58% acham que ele também deve sair, como mostrou o Datafolha. Qual legitimidade, então, teria o seu governo? Apenas por ser amparado por apoio parlamentar? E não se enganem em pensar que a adesão ao impeachment de partidos da base aliada de Dilma trata-se simplesmente de ratos fugindo de um barco afundando. São ratos, sim, mas em busca de um navio com um tesouro maior, que já foi oferecido a eles na surdina, como mostra a romaria à residência oficial de Michel Temer

E para quem acha que a nossa imagem lá fora vai ficar melhor, até mesmo a imprensa internacional já acusou o golpe. Diferentes publicações publicaram editoriais contra o impeachment, muitos que passam longe de ser esquerdistas. O New York Times lembrou que Dilma é “um dos raros políticos que não são acusados de impeachment”. A revista The Economist, que nunca foi a favor do governo Dilma e apoia a sua renúncia, lembra que apenas o sistema judiciário e os eleitores – e não políticos que só trabalham para si mesmos – deveriam decidir o destino da presidente. A Forbes alerta que todas as investigações da Petrobras podem ser encerradas após o impeachment, e que este processo é uma má ideia. E até o Financial Times levanta a suspeita que o impeachment pode levar o país ao caos.

Dito tudo isso, se o impeachment passar, talvez haja um lado positivo. É possível que ele mostre às pessoas que o problema não é o PT, nunca foi. O PT aceitou fazer parte do problema, mas passa longe de ser a origem dele. O problema é um sistema político falido, que precisa urgentemente ser reformado, de forma a beneficiar mais a sociedade brasileira e não aos interesses de uma elite que financia a classe política. Mas para esse despertar ocorrer, isso significa que testemunharemos o nosso país afundar ainda mais. Engana-se quem pensa que haverá paz e coesão social com a queda de Dilma. Não há a mínima possibilidade disso, ainda mais com o retrocesso de conquistas obtidas nos últimos 13 anos. Felizmente, os velhos e novos movimentos sociais estão nas ruas e não vão se calar. Que seja um sinal para a reorganização das forças progressistas e, quem sabe, do próprio PT. Invertendo o lema de Chico Science: “Do caos à lama, da lama ao caos”. E que o caos permita a busca por algo melhor no futuro.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Os verde-amarelos e a definição de fascismo



Nos últimos tempos, alguns fatos inusitados têm ocorrido no cenário político brasileiro. Sedes do PT ao redor do país são atacadas e depredadas; uma médica recusa atender o filho de uma mulher petista; uma professora de Direito da USP faz um discurso passional contra Lula e o PT, mais lembrando uma pastora neopentecostal do que uma jurista; homens, mulheres, crianças e até cachorros são agredidos nas ruas por utilizarem a cor vermelha, e assim vai. São situações cada vez mais frequentes que tem feito o Brasil lembrar um cenário de Estado fascista.

Não é à toa, portanto, que tem sido comum chamar os “verde-amarelos” das manifestações contra o PT e o governo Dilma de fascistas. No entanto, não parece ser uma alcunha que os incomoda. E não é porque concordam; parece que eles simplesmente não entendem do que se trata de fato. É como chamar de “coxinha”. O que significa? Além de um salgado gorduroso, não quer dizer nada, apenas uma palavra qualquer sendo utilizada de forma pejorativa. O indivíduo reflete tanto sobre ser coxinha quanto sobre ser fascista, pois, para ele, ambas têm o mesmo significado: nenhum.

Diferentemente de coxinha, entretanto, fascistas não são apenas um nome pejorativo, eles foram uma realidade histórica. Como se sabe (ou dever-se-ia saber), o fascismo foi um movimento político que surgiu com força nas primeiras décadas do século XX – principalmente na Itália (com Benito Mussolini) e na Alemanha, com sua variante no nazismo (com Adolf Hitler) – como uma alternativa à dicotomia do capitalismo liberal e do socialismo. Foi uma ideologia baseada mais num caráter passional do que racional, e assim, cheia de contradições: antiliberal, sem deixar de ser capitalista (inclusive tendo o apoio de muitos liberais); antidemocrática, sem deixar de utilizar a máquina democrática para se promover; anticomunista, sem deixar de imitar algumas de suas estratégias e simbolismos; etc.

O historiador Eric Hobsbawm em A Era dos Extremos buscou fornecer uma definição para o fascismo. Para ele, tratava-se de uma “combinação de valores conservadores, (as) técnicas de democracia de massa, e uma ideologia inovadora de selvageria irracional, essencialmente centrados no nacionalismo”. Era também, de acordo com ele, em tom quase profético, “a prova de que o homem pode, sem dificuldade, combinar crenças malucas sobre o mundo com um domínio confiante da alta tecnologia contemporânea”.

Não é difícil encontrar paralelo dessa definição nos verde-amarelos brasileiros. E, seguindo a tradição fascista, eles não vieram sem uma quantidade considerável de contradições. Defendem a democracia enquanto buscam usurpá-la. Protestam contra a corrupção, mas ignoram a mesma de seus aliados (ou a de si mesmos). Criticam o Estado enquanto louvam as forças repressivas deste, em particular a Polícia Militar. Mas talvez a maior contradição venha do seu pretenso nacionalismo.

Não há nada mais falso e contraditório do que o nacionalismo dos verde-amarelos. Vestem-se de verde e amarelo, vão para as ruas, hasteiam e balançam bandeiras nacionais com vigor, choram e se emocionam com o hino nacional, entram em transe numa demonstração de histeria eufórica na luta por um país melhor, tudo ao mesmo tempo em que, na hora de dificuldade, zombam do país, criticam tudo o que é brasileiro e falam em ir embora pra Miami (ou qualquer outro lugar de 1º mundo). Ou então, se o país não corresponde às suas expectativas, pedem separatismo da sua região. No fim, desprezam o próprio povo, sua cultura e suas raças, e na primeira oportunidade, levantam a bandeira de outros países, dispostos a entregar as riquezas, as instituições e a dignidade do Brasil para eles.

("Trump: ganhe e ajude o Brasil")

Tudo, é verdade, aliado a ideias estapafúrdias sobre o Brasil e o mundo. Tendo como referências pessoas como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e, o suprassumo do absurdo, Olavo de Carvalho, os verde-amarelos ultrapassam a barreira da ignorância. Crenças malucas como que o PT planeja um golpe comunista (após 13 anos, provavelmente a tentativa de golpe mais lenta e da história), que a ONU é comunista, que direitos humanos só servem para defender bandidos, que a corrupção no Brasil teve início no governo do PT, que Lula é um bilionário, etc, têm terreno fértil nessas pessoas, apesar de toda a tecnologia disponível para as pessoas se informarem.

Isso nos leva a outra definição sobre fascismo, a de Theodor Adorno. O autor, em A Personalidade Autoritária, afirma: "O fascismo, a fim de ser bem-sucedido como um movimento político, deve ter uma base de massa. Ele deve assegurar não só a submissão amedrontada, mas a cooperação ativa da grande maioria das pessoas. Uma vez que por sua própria natureza favorece a poucos à custa de muitos, ele não pode possivelmente demonstrar, portanto, que vai melhorar a situação da maioria das pessoas, que os seus interesses reais serão atendidos. Ele deve, então, fazer o seu principal apelo não ao próprio interesse racional, mas às necessidades, muitas vezes emocionais - frequentemente aos desejos e medos mais primitivos e irracionais.” Mas se a propaganda fascista é enganosa, por que as pessoas são tão facilmente enganadas? Adorno responde: “Por conta, pode se supor, da sua estrutura de personalidade; dos padrões estabelecidos há muito tempo de esperanças e aspirações, medos e ansiedades que os dispõem a certas crenças e os tornam resistentes a outras. A tarefa da propaganda fascista, em outras palavras, se torna mais fácil na medida em que potenciais antidemocráticos já existem nas grandes massas."

Assim, então, que surgiram os grandes movimentos sociais de direita, inspirados diretamente nas jornadas de junho de 2013. Com nomes como “Movimento Brasil Livre” (referência ao Movimento Passe Livre); “Vem Pra Rua” (um dos motes de junho de 2013) e “Revoltados Online”, esses grupos, liderados em sua maioria por jovens com pobre formação intelectual e financiados por fontes suspeitas, têm convocado sistematicamente a população para protestar nas ruas contra o governo. Pautados por esse patriotismo à la Copa do Mundo e uma ideologia liberal que ilusoriamente interessa a uma classe média cansada de “sustentar” os programas sociais direcionados aos mais pobres, esses movimentos têm atraído grandes multidões às ruas do país.

É verdade, contudo, que o grande mote das manifestações dos verde-amarelos é a luta contra a corrupção. Surge, então, um simbolismo ilusório: tiramos o PT do poder, e o problema vai se resolver. Como? Não se sabe. Mas este é o primeiro passo, para não dizer o passo definitivo. Depois, de acordo com eles, virão os outros: PMDB, PSDB, etc. Só que os outros marcham ao lado deles. E os outros não querem o fim da corrupção, apenas mais poder. Mesmo assim, os verde-amarelos acreditam que estão no caminho certo. Afinal, a mídia diz que sim, e ela não pode estar errada, não?


E por que esse discurso funciona? Justamente, como Adorno atesta, porque apela “aos desejos e medos mais primitivos e irracionais”. Os verde-amarelos, em sua essência de classe média, têm medo. Medo de um partido cuja popularidade eles não conseguem entendem, da violência das grandes cidades, de perderem seu estilo de vida, de perderem espaço, etc. Instigados por articulistas dispostos a fomentar esse medo, como os já citados, eles fabricam um fantasma ilusório o qual temem e querem combater: o do comunismo. A corrupção seria apenas o exemplo mais concreto de sua existência. Daí emerge a luta do Bem contra o Mal e a necessidade urgente de combatê-lo, o que explica o alto grau de mobilização e voluntarismo entre os manifestantes.

Do medo, então, nasce o ódio. Uma obsessão em destruir o inimigo. E irrompe a “selvageria irracional”, descrita por Hobsbawm. O inimigo precisa ser combatido em todos os lugares, a qualquer custo. Depredações, ofensas virtuais, negar atendimento e até agressões a quem pensa diferente, ou até a quem simplesmente decidiu colocar uma roupa vermelha. E esse é um dos problemas do fascismo: ele não tem limites. Como apela aos instintos mais primitivos, uma vez que ele é instalado dentro das pessoas, é difícil revertê-lo ou impor limites morais. Assim, todos que discordam de seus métodos e palavras de ordem, mesmo entre aliados, são considerados subversivos, traidores. O que explica por que Alckmin e Aécio foram hostilizados na Av. Paulista, por que Reinaldo Azevedo já foi chamado de “petralha” (termo que ele mesmo criou, veja a ironia), e por que Marcelo Reis, criador do Revoltados Online, um dos grupos mais tóxicos de extrema-direita da internet, também foi expulso da Av. Paulista aos gritos de “petralha” e “comunista”.

(Um nazista segura uma placa que diz: "Alemães! Resistam! Não comprem de judeus!")

A razão pertence apenas a um herói, a um líder carismático. Geralmente, a mídia tem um papel importante em moldá-lo. No momento, trata-se do juiz Sérgio Moro. No futuro, podem surgir outros, aproveitando-se da ignorância e do ódio desmedidos desta população, em particular figuras nefastas como o deputado Jair Bolsonaro. O fascismo, então, se personifica, ganha corpo, e o que era um ensaio pode começar a se tornar realidade.

Portanto, quando chamamos os verde-amarelos de fascistas, é mais do que uma ofensa. É um alerta. Por ora, pode-se dizer que temos no país um movimento protofascista, ou seja, que flerta com o fascismo e seus métodos, embora ainda não tenha corpo nem cabeça. Mas pode ganhar. E como a história ensina, o fascismo e suas variantes nunca acabaram bem. Da mesma forma que quem é manipulado não sabe que o é, o mesmo parece ocorrer entre fascistas. Eles não sabem que caminham a passos largos rumo ao fascismo. E se não é possível apelar à sua razão, que alertemos aqueles de fora para não se juntarem às suas fileiras. Antes que seja tarde demais.

quinta-feira, 17 de março de 2016

O vale-tudo de Moro



Se ainda havia dúvidas das motivações políticas do juiz Sérgio Moro, parece que elas se encerraram ontem. No mesmo dia do anúncio de que Lula seria ministro da Casa Civil, o juiz de Curitiba lançou sua última cartada: divulgou os áudios de grampos telefônicos que teriam sido feitos no celular de Lula. Mas seus atos parecem estar repletos de ilegalidade, como diversos juristas já ressaltaram (vide link), o que poderia inclusive acarretar na exoneração do juiz e até a sua prisão. Como é possível que um juiz vá tão longe para concretizar sua agenda política?

Primeiro, há o fato de que o próprio juiz Moro ordenou o fim das interceptações do ex-presidente Lula às 11h12. A conversa entre Dilma e Lula no telefone ocorre mais de duras horas depois, às 13h32. Se o fim das interceptações já havia sido decretado, qual a legalidade de continuar interceptando os telefonemas e torná-los públicos?

Depois tem a questão que Moro interceptou a ligação envolvendo pessoas com foro privilegiado, como a presidente Dilma Rousseff, além de outros, como o ministro Jaques Wagner. Neste caso, não seria necessária a autorização do STF para grampear a conversa, mesmo se o telefone grampeado fosse apenas o de Lula? Além disso, tem um indício mais grave: o áudio da conversa entre Dilma e Lula dá a entender, pela forma que inicia, que o telefone grampeado era o de Dilma, e não o de Lula. Se isso for verdade, é ainda mais grave.

Por fim, há o vazamento dos áudios. Há juristas que digam que foi ilegal, vide o link fornecido antes e pelos motivos citados acima. Mesmo se não for, por que Moro divulgaria justo ontem, no mesmo dia da confirmação da ida à Casa Civil de Lula? Oras, fica claro que o objetivo foi jogar para a torcida, apelar para a população já que o mesmo não poderia mais investigar Lula. Qual é moralidade de um Juiz de Direito realizar uma militância política dessas?

É inadmissível que um membro do Judiciário milite de forma tão escancarada politicamente. A justiça deveria ser cega, mas neste caso, parece ter partido e candidatos. Aécio Neves foi citado inúmeras vezes na Lava Jato, e onde está a investigação? Ninguém vê, ninguém sabe. Testemunhamos uma perseguição política a apenas um lado, que ficou clara com a desnecessária condução coercitiva do ex-presidente, e que, agora, tornou-se obscena. Qual a legitimidade de um juiz que busca, a qualquer custo, derrubar um governo? Moro conseguiu o que queria, inflamar o cenário político e levar as pessoas às ruas. Mas é a democracia que entra em risco com arbitrariedades assim. Política se faz com a razão, não com a emoção. Ou garantimos a legalidade, ou podemos esquecer que há um Estado de Direito no Brasil.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Enfim, o golpe



O que parecia inverossímil agora está em pleno curso e a todo vapor. As forças conservadoras do país – oposição, empresariado, mercado financeiro, mídia e Judiciário – utilizaram todas as suas armas para concretizar um golpe na democracia brasileira. Aqui, não se trata simplesmente de derrubar Dilma e tomar o poder. O objetivo é muito mais sórdido: acabar com Lula e o PT de uma vez por todas, impedindo, de qualquer maneira, a volta dele e de um partido popular ao poder em 2018 (e por um bom tempo).

Não se busca aqui, com este texto, inocentar Lula e o PT de eventuais crimes. Lula não esclareceu tudo o que deve e há motivos, sim, para se investigar e esclarecer algumas questões. Ao mesmo tempo, é inegável que o segundo mandato de Dilma tem sido desastroso. Porém, mesmo que o primeiro tenha cometido algum crime digno de prisão e que a segunda tenha feito algo que forneça base legal para seu impeachment, a sucessão de eventos das últimas semanas não deixou dúvidas da perseguição política e da motivação ulterior: derrubar o governo a qualquer custo, inclusive o da estabilidade democrática. Seguem os fatos.

O primeiro grande acontecimento foi a – suposta – delação de Delcídio do Amaral. Vazada – ilegalmente, é bom lembrar – para a revista IstoÉ, Delcídio disparou para todos os lados, mas buscou atingir Dilma e Lula, em especial, ao acusá-los de serem coniventes com a corrupção na Petrobrás. O mercado reagiu, levando à forte alta da Bolsa e à queda do dólar, dando um sinal de aprovação a motivos que pudessem levar à queda de Dilma. A oposição também se movimentou, querendo utilizar a delação de Delcídio para fortalecer o argumento do pedido de impeachment.

No dia seguinte, saiu a cartada do Judiciário, mais especificamente do juiz Sérgio Moro: uma operação com 200 policiais vai de manhã cedo à casa de Lula com um mandato de condução coercitiva para levá-lo para depor. Como tudo na operação Lava Jato, é óbvio que a informação já tinha vazado para a mídia, e horas antes do ocorrido, o editor-chefe revista Época, Diego Escosteguy, celebrava que o dia seguinte seria de “especial, cheio de paz e amor”. Condução coercitiva, no saber jurídico, geralmente é um instrumento utilizado para levar o investigado a depor quando ele já foi convocado para tanto e não compareceu. Não era o caso de Lula, o que o juiz e os procuradores sabiam. Assim, deram a desculpa esfarrapada de que a condução coercitiva seria para proteger a integridade do ex-presidente, pois marcar uma data para o depoimento causaria comoção. Oras, e tirar Lula de sua casa com 200 policiais com ampla cobertura da mídia acabaria em quê? O transporte do ex-presidente para colher depoimento no aeroporto de Congonhas também levanta suspeitas. Há relatos de que a Aeronáutica, notando o procedimento estranho da operação, teria impedido a Polícia Federal de levar Lula para Curitiba, para colocá-lo frente a frente com Sérgio Moro. De qualquer modo, a operação levada a cabo de forma autoritária suscitou críticas de inúmeros juristas e diferentes setores da sociedade, apesar do aplauso de setores reacionários, e Lula foi, enfim, solto. Moro chegou mais próximo do que nunca de Lula e atiçou os ânimos dos antipetistas; no entanto, pela primeira vez, se viu na posição de ter que explicar seus atos, levantando dúvidas em parte da população que antes acompanhava a condução da operação Lava Jato, em geral, com bons olhos.

Dias depois, veio a notícia da delação que executivos da empreiteira Andrade Gutierrez teriam feito detalhando doações de origem ilegal para a campanha de Dilma em 2014. Um dos argumentos contra outro processo em curso, a cassação da chapa no TSE, trataria justamente disso, alegando que doações ilegais, se ocorreram, foram em 2010, e não se pode julgar por atos de outra eleição. Porém, com essa nova delação e comprovada a ilegalidade, isso daria base, enfim, para anular sua chapa. Este, de fato, seria o argumento mais forte para derrubar Dilma. O que levanta dúvidas é o seguinte: a Andrade Gutierrez não fez doações apenas para a campanha de Dilma; portanto, por que apenas para a campanha dela os recursos seriam ilegais?

E esse é um dos problemas da chamada delação premiada. Tratada como “Santo Graal” pelos investigadores e pela mídia, é uma base muito frágil para acusar alguém. Afinal, tecnicamente falando, não serve de prova, apenas de indício a ser investigado. Além disso, o delator não precisa contar tudo o que sabe, apenas o que é interessante para a sua defesa. Assim, pode denunciar alguém por interesse ou vingança, enquanto protege outro, sem maiores prejuízos. Não bastasse isso, o delator também pode inventar factoides junto a informações verídicas, o que, mesmo na impossibilidade de comprovar, já causa estrago político o suficiente. É o caso da delação de Delcídio, que relata ter ouvido de Dilma que ela sabia da ilegalidade na compra da refinaria em Pasadena. Sem apresentar provas, contudo, fica palavra contra palavra, mas quem vai ligar para a palavra de Dilma? Ademais, quase uma semana depois, mais detalhes surgiram da tal delação do ex-senador do PT citando também Aécio Neves. Curiosamente, esses detalhes não apareceram na matéria da IstoÉ. E depois dizem que não há vazamentos seletivos, não?

Mas a gota d`água mesmo da semana foi o pedido de prisão do ex-presidente Lula pelo Ministério Público de São Paulo. Sim, o mesmo que não investiga nem condena nenhum dos desmandos do governo do PSDB no estado, agora, pelas mãos dos promotores Cassio Conserino e José Carlos Blat, pede a prisão preventiva de Lula numa argumentação jurídica das mais bisonhas já vistas. Alegando que o ex-presidente envergonharia Marx e “Hegel” (oi?) e que apresentaria um risco para a investigação por ter sido ouvido dizendo “que enfiem o processo no c*”, o MP-SP quis roubar o protagonismo de Sérgio Moro e tomar para si o “privilégio” de prender Lula, como se fosse uma corrida para quem consegue derrubar o cara primeiro. O documento é tão frágil e repleto de ilegalidades que até políticos do PSDB entusiastas do impeachment, como o deputado Carlos Sampaio, criticaram-no. Fica óbvio que os promotores se afobaram na militância política, mas a pressa, com certeza, veio do boato de que Lula poderia ser indicado a um ministério de Dilma. Se isso ocorresse, ele passaria a ter foro privilegiado, saindo da alçada tanto do MP-SP quanto de Moro. Assim, não quiseram perder tempo para pegá-lo, mas acabaram metendo os pés pelas mãos.

A grande sacada, é claro, é que tudo isso ocorreu faltando poucos dias para o protesto contra Dilma, Lula e o PT marcado para p dia 13 de março. Coincidência? Claro que não. O importante era levantar polêmicas e atiçar as pessoas para levá-las às ruas; afinal, o processo não será completo se não tiver o respaldo popular. Por isso, todas as armas foram utilizadas nessas últimas semanas para tentar inflar os protestos ao máximo possível. O PSDB, por exemplo, antes apoiador distante das manifestações, agora publica posts patrocinados no Facebook (belo uso do Fundo Partidário, não?) convocando a população para os protestos. Artistas globais fizeram vídeo bonitinho chamando a população. A FIESP descaradamente marca show de Beatles cover na frente de sua sede, no mesmo dia, para chamar mais gente. E tudo porque sabem que esta é a última chance para conseguir derrubar Dilma e o PT. É a última cartada, e estão vindo com tudo.

Em vista dos fatos e do momento político, dificilmente Dilma se segura no cargo. A capacidade de Lula de resistir às investidas contra ele está para ser testada. Se conseguirem comprovar alguma ilegalidade nos seus atos, conseguirão destruir, enfim, o mito. Caso contrário, correm o risco de deixá-lo mais forte para 2018. O que Moro talvez não esperasse era a reação contrária contra a condução coercitiva de Lula. Houve confrontos na frente da casa de Lula e no aeroporto de Congonhas. Caso este golpe na democracia se concretize, não haverá paz, seja quem for que assuma. Nem PMDB nem PSDB conseguirão um governo tranquilo, pois os ânimos continuarão acirrados. Muitos, inocentemente, acreditam que tirar o PT é o primeiro passo para acabar com a corrupção generalizada no país, e que os próximos alvos seriam os outros políticos e partidos. Santa inocência! Creio que vão se decepcionar quando descobrirem que não é bem assim, contribuindo para o caos.

O país viverá um período muito turbulento se tudo transcorrer desta forma, tudo a custo de projetos de poder. Mesmo assim, há quem ache que tudo está ocorrendo de forma normal. Que a sucessão de eventos é uma coincidência, e não algo orquestrado. Mas, como se diz no ditado popular, quem acredita nisso acredita em qualquer coisa. E quem viver, verá.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Bolsonaro e Trump: duas faces da mesma moeda



Jair Bolsonaro e Donald Trump, apesar de separados por um hemisfério e pelas particularidades de cada país, possuem muitas coisas em comum. Uma delas o fato de deixarem qualquer progressista (ou simplesmente moderada) de cabelos em pé com suas ideias. Apesar disso, no Brasil, uma minoria barulhenta gostaria de ver o ex-militar no poder, enquanto nos EUA, o bilionário americano lidera – até o momento – as prévias para a candidatura do Partido Republicano. O que explica esse despautério?

Quando lembramos que até Hitler foi eleito, sabemos que tudo é possível, até a eleição de candidatos malucos com ideias insensatas. Mas se nos aproveitarmos aqui do exemplo, é preciso entender o que faz com indivíduos assim ganhem notoriedade e, eventualmente, consigam até ser eleitos. O que os diferencia tanto da maioria dos candidatos é que enquanto estes buscam o voto de todos, enfatizando que atendem também às minorias desfavorecidas, figuras de roupagem fascista dirigem os seus discursos apenas à maioria, colocando as minorias como o inimigo em potencial. Foi assim com Hitler, perseguindo os judeus, com Mussolini, perseguindo os socialistas, e é assim com grande parte dos candidatos de extrema-direita na Europa atual, que culpam os problemas nos imigrantes. São o que a mídia tem chamado de populistas de direita.

Mas o que os tornam populistas? O simples fato deles dizerem o que a população quer ouvir, independentemente de ser verdade ou não. Para a mídia, seriam similares a populistas de esquerda que, por outro lado, são aqueles que culpam os problemas da sociedade nos mais ricos, no capital financeiro, nas grandes corporações. A diferença, contudo, é que você não vê pessoas perseguindo banqueiros ou grandes empresários, que fugiriam com medo de violência ou que não possuem meios para se defender. Geralmente, ocorre o oposto: mesmo com a eleição do suposto populista de esquerda, esses grupos continuam tão poderosos e inabaláveis quanto antes. Portanto, parece no mínimo injusto colocá-los no mesmo saco, embora de extremos diferentes – como a mídia faz – com esses políticos que culpam os problemas da sociedade em grupos já discriminados, alimentando o medo e a ignorância em quem não sabe lidar com o diferente, e fomentando o ódio e a violência contra quem não tem como se defender. E com o fracasso da esquerda de combater o suposto inimigo que apregoa, mesmo quando eleita, estes populistas de direita ganham força no debate político.

Assim, o que esses políticos se destacam em fazer é falar o que as pessoas querem ouvir, por pior que isso seja. E essa é grande parte da razão de seu sucesso: seguidores de políticos como Bolsonaro e Trump estão cansados de ouvir que não podem dizer o que pensam. Falar mal dos ricos tornou-se clichê; afinal, antes de serem vilões, eles são um objetivo, uma aspiração. Criticar minorias, isso sim, é o grande tabu. E alguns grupos estão cansados do que chamam de politicamente correto e não poderem expressar o que pensam em público, como que homossexuais são imorais, que feministas são mal-amadas, que negros têm oportunidades iguais aos brancos e se recorrem ao crime é porque querem, que bandido bom é bandido morto, que direitos humanos devem existir para humanos direitos, que muçulmanos são terroristas em potencial, etc. Ou não? São pensamentos muitas vezes majoritários, mas que são condenados publicamente, constrangendo os que pensam assim. Não é revigorante, então, que um político tenha coragem de dizer tudo o que pensam, mas que sentem que não podem mais falar em público para não serem corrigidos ou tachados como ignorantes?

Bolsonaro e Trump representam, então, uma maioria silenciosa, que se sente alijada do poder nas últimas décadas e que não compreende as mudanças na sociedade contemporânea. Como um artigo de dezembro de 2015 na The Economist revela, o eleitor de Trump encontra no candidato um sentimento de “validação”. Quer dizer, ele se sente representado por alguém que fala o que ele pensa de verdade, ao contrário da maioria dos políticos cujas opiniões parecem artificiais e moldadas por seus marqueteiros. O sentimento de identificação torna-se tão forte que seus seguidores passam até a “perdoar” algumas falhas, como as inúmeras gafes e comentários machistas de Trump, e os comentários homofóbicos (mas também machistas e racistas) de Bolsonaro. Assim, o seu eleitor-base surge de grupos majoritários e historicamente privilegiados – como homens, brancos e cristãos – que se sentem deslocados e insatisfeitos com uma sociedade que buscaria diminuir o seu espaço, seguindo a tese antidemocrática da "ditadura da maioria"; ou seja, a ideia de que os direitos e valores da maioria devem prevalecer sobre as minorias. Evocam, desta forma, um passado pretensamente glorioso – calcado num discurso nacionalista e militarista – quando as coisas eram menos complexas e cada um tinha o seu lugar. No caso dos EUA, de um país cristão, dominado pelos brancos, anticomunista e a potência incontestável no mundo (como mostra o lema de campanha de Trump: “Make America Great Again”); enquanto no Brasil, do falacioso discurso de um país onde não havia corruptos, onde as coisas funcionavam, governado por patriotas e no qual “vagabundo não tinha vez”.

Os dois políticos ainda possuem uma carta na mão: são o que se chama de anti-establishment; ou seja, eles não são vistos como políticos tradicionais. Apesar de Bolsonaro ser um político de carreira, ainda seria visto como alguém de fora, por não ser de um grande partido e por não ter tido a chance de governar. A popularidade dos dois representa também, portanto, um fenômeno recente nas democracias modernas, que é a falência da política. Isso significa uma sensação de que os políticos e os partidos tradicionais não conseguem mais representar a vontade da população, que recorre a figuras cada vez mais radicais e populistas em busca de uma mudança “real”.

O pior de tudo, no entanto, é a triste conclusão de que nenhum dos dois representa algo de novo e inovador. Em um país onde a desigualdade social apenas cresce, Donald Trump, um bilionário, representa apenas a sua classe, e não o trabalhador médio americano. Além disso, suas opiniões retrógradas de política externa coloca a grande maioria dos intelectuais conservadores de cabelo em pé, e até a cúpula do Partido Republicano torce para que ele não seja o seu candidato, com medo do estrago que ele poderia causar tanto no partido quanto no país. Jair Bolsonaro também não traz nada de novo à política brasileira. Ampara-se no discurso falacioso de ser o único candidato de direita num país governado apenas pela esquerda, sendo que o único governo genuinamente de esquerda (e olhe lá) foi o do PT, a partir de 2003. Ele representa um passado que precisa ser superado, que é do militarismo nacionalista, além de ideias que não deram certo, como um discurso moralista e patriótico, amparado contraditoriamente na tese do livre-mercado e do Estado mínimo. Já vimos esse filme com Fernando Collor. E considerando as contradições de Bolsonaro, como ser um dos deputados mais faltosos da Câmara, ter feito parte de um dos partidos mais envolvidos em casos de corrupção (o PP) e ter votado consistentemente a favor de projetos impopulares e imorais, como oaumento do salário de parlamentares, parece que a história apenas se repetiria, desta vez como farsa.

É assustador que duas figuras com ideias nefastas como Jair Bolsonaro e Donald Trump sejam sequer considerados candidatos viáveis para a presidência de um país. E justamente por isso que é importante o papel de desconstruir esses candidatos. Nos Estados Unidos, Trump foi subestimado por muito tempo, na certeza de que suas contradições causariam sua queda mais cedo ou mais tarde. Isso não ocorreu e, hoje, o candidato continua liderando as prévias para o Partido Republicano. No caso de Bolsonaro, ainda temos pouco mais de 2 anos até as eleições de 2018; ou seja, bastante tempo para desmistificar a sua imagem. Resta saber se a esquerda fará o seu dever de casa. Caso contrário, as surpresas podem ser desagradáveis.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Kim Kataguiri e o velho fascismo da direita brasileira



O jornal Folha de S. Paulo anunciou esta semana o seu mais novo colunista: Kim Kataguiri, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), coletivo que tem organizado – junto a outros grupos de direita – manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O jovem de 19 anos se junta agora a outros colunistas antipetistas da Folha, como Reinaldo Azevedo e o senador Ronaldo Caiado (DEM). Por trás do discurso bonito de dar voz a todos os tipos de opiniões, restam poucas dúvidas do viés à direita do jornal, abrindo um espaço que deveria ser de qualidade para um rapaz que largou a faculdade de economia por considerar que “sabia mais que os professores”.

A realidade é que, no Brasil, as coisas funcionam de um modo bastante curioso. Se você é de esquerda, para ter acesso aos canais da grande mídia, é preciso mestrado, doutorado, alguns livros e/ou artigos importantes escritos e nenhuma opinião muito radical. Ou, é claro, ser artista famoso. Agora, se você é de direita, basta ser minimamente articulado que você recebe o espaço que quiser, mesmo com opiniões mal fundamentadas e – como no caso de Kim – sem exigência de diploma ou renome, vociferando muito ódio e pouca informação.

Mas a culpa não é do rapaz se há jornais que querem lhe dar espaço. Se querem ouvi-lo, é porque ele tem algo a ser dito. Ontem, dia 19/01, então foi a estreia de sua coluna. E o que vimos? Nada de novo. O velho discurso fascista da direita brasileira travestido de liberalismo. Quer criminalizar o Movimento Passe Livre (MPL) por conta das atitudes de alguns indivíduos que cometem crimes durante os protestos.

Primeiro de tudo, é preciso dizer que Kim é bastante ingrato. Se o MBL existe, é por causa do MPL (Movimento Passe Livre => Movimento Brasil Livre, entenderam?), mais especificamente do legado de junho de 2013. Quando o MPL saiu das ruas no meio do calor de junho, após a queda das tarifas, as pessoas nas ruas ficaram órfãs de quem os guiassem, e assim começaram a nascer esses coletivos de direita, um deles o MBL.

Agora, Kim quer acabar com quem começou tudo. Talvez lhe falte alguma memória. Se apenas nos protestos do MPL acontecem esses atos de “black blocs”, por que apenas nos protestos do MBL há pessoas pedindo intervenção militar? Ele deveria lembrar que isso é um crime também. Está na Constituição Federal, artigo 5º, inciso XLIV: “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”. Está previsto também na Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), artigos 22, inciso I (“É considerado crime fazer, em público, propaganda de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social”) e 23, incisos I e II (“Incitar à subversão da ordem política ou social; à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis”). Pena: reclusão de 1 a 4 anos.

É preciso lembrar também as inúmeras vezes que meros transeuntes foram agredidos apenas por estarem trajados de vermelho durante os atos do MBL. Ou, mais gravemente, no acampamento em Brasília, quando um indivíduo sacou uma arma e efetuou disparos contra a Marcha de Mulheres Negras.

É valido que Kim questione por que estes atos de vandalismo ocorrem durante os protestos do MPL, mas talvez ele devesse se perguntar também por que todos estes crimes acima ocorrem apenas durante as passeatas do seu MBL. Seguindo este raciocínio, se ele é um dos líderes das passeatas, ele não deveria responsabilizado criminalmente por isso? Ou, talvez, seguindo a sua lógica torta, a lei só valha para os outros. De fato, nada mais fascista do que querer criminalizar movimentos sociais de esquerda. Nada de novo nisso. Afinal, é o mesmo grupo que quer criminalizar o PT também. “Brasil livre é Brasil sem PT”, dizem. Será que ele lembra (ou aprendeu) em que momentos da história partidos e organizações de esquerda foram criminalizados? Kim, o mesmo que comparou feministas a miojo, não se considera fascista. Para ele, como disse numa entrevista, o fascismo se resume a querer que tudo seja controlado pelo Estado, o que é mais próxima da esquerda do que dele, já que ele é um liberal.

Talvez se estudasse mais saberia que não é tão simples assim. O fascismo sempre foi um mar de contradições. Apesar de “triunfantemente antiliberal”, como o renomado historiador Eric Hobsbawn ressalta, o fascismo sempre recebeu apoio dos liberais em todos os países em que passou por ser, essencialmente, anticomunista. Além disso, Hobsbawn, em A Era dos Extremos, define o fascismo como “a combinação de valores conservadores, técnicas de democracia de massa e a inovadora ideologia de barbarismo irracionalista, centrada em essência no nacionalismo”. Soa familiar? Você, leitor, diria que parece mais com uma descrição dos atos do Passe Livre, ou do MBL?

Ainda há outras asneiras que Kim fala por aí que merecem ser refutadas, como a ideia maluca de privatizar educação e saúde públicas e instituir um sistema de vouchers, o que por si só vale outro post. Mas se este será o nível da sua nova coluna na Folha, é uma pena. Dizem que nada mais triste que um jovem de direita. Eu diria que é triste ter uma direita tão mal representada, com ideias arcaicas, e ainda mais repetidas por um jovem que não completou nem 20 anos. Mas o pior é saber que tem público. Julgando pelo nível dos comentários de leitores da Folha, talvez a escolha de colunista foi certa. Afinal, do jeito em que estamos, qualquer coisa melhor deve ser mesmo jogar pérolas aos porcos.