sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Por que tanto ódio ao PT



Agressões e ofensas a ministros petistas nas ruas e restaurantes, ataque terrorista no Instituto Lula, grandes protestos raivosos pedindo a extinção do PT e a cabeça da presidente... vivemos tempos difíceis, de muito ódio e insensatez. É compreensível entender insatisfação com o governo; afinal, poucos concordariam que tudo está bem. Mas por que tanto ódio? Do jeito que algumas pessoas se comportam, parece que um petista entrou na casa delas, roubou tudo, matou a família e deixou de brinde uma estrelinha do PT. Certamente, qualquer antipetista terá uma resposta pronta para explicar por que tanto ódio ao PT, citando os vários casos de corrupção e, agora, a crise econômica. Mas se você acha que o problema é simplesmente a corrupção ou a crise, está muito enganado.

É preciso ressaltar de início que o antipetismo não é um fenômeno novo. O Partido dos Trabalhadores nasceu com uma lógica diferente daquela dos outros partidos: rejeitava a conciliação como forma de transição democrática do regime militar e apontava o caráter elitista deste processo, excluindo a classe trabalhadora e os movimentos sociais do debate. Questionar a pretensa “paz” entre as classes sociais e adotar uma postura combativa, radical com relação à política logo provocou repúdio nos setores conservadores da sociedade, que pretendiam manter tudo como estava e que ainda repetiam o discurso anticomunista de 1964.

Uma vez no governo, esse ódio começa a aparecer de forma mais clara primeiro nas críticas ao Bolsa Família, e depois com o escândalo conhecido como “mensalão”. Sendo assim, uma visão simplista reduziria este ódio a chavões como “a elite não quer que pobre ande de avião” ou “o PT é partido mais corrupto do Brasil”. É verdade que nada disso está totalmente longe da realidade, mas é um pouco mais complexo do que isso.

Engana-se, primeiro de tudo, quem pensa que o ódio parte da elite. Quer dizer, da elite mesmo, dos ricos, milionários. Não, essa gente pode até não simpatizar com as ideias do PT, mas, no geral, eles nunca ganharam tanto dinheiro. A elite pode até preferir outro partido no poder, por achar que poderia lucrar ainda mais, mas o PT, do jeito que é hoje, não lhe representa uma ameaça real. O ódio contra o PT vem mesmo dos setores de classe média tradicional e alta.

Se o Brasil cresceu e se desenvolveu durante o governo do PT (quer dizer, até há uns dois anos atrás), por que a classe média teria ódio do partido? Sim, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres ficaram menos pobres, mas a classe média... bem, a classe média, na melhor das hipóteses, ficou estagnada. Sendo mais pragmático, a classe média perdeu privilégios, e nada irrita mais um grupo do que a perda de privilégios.

Explico: como já disse, é muito mais complexo do que “o aeroporto virou rodoviária, agora tenho que dividir avião com pobre”. A classe média perdeu mesmo alguns privilégios. Basta lembrar como era o Brasil de 30 anos atrás: os ricos levavam vidas nababescas, e a classe média uma vida bastante confortável, com pouca dificuldade para ingressar na universidade e depois arranjar um emprego bom com salário razoável. Casa, carro, tudo estava a seu acesso, inclusive poder pagar escola particular pros filhos e ter uma empregada que dormisse em casa, numa extensão tenebrosa da senzala.

Agora voltemos para 2015. Os pais desta família de classe média estão se aposentando muito depois do que gostariam, e com um salário menor do que pretendiam. Seus filhos não têm a vida fácil que seus pais tiveram: ter um diploma universitário não é mais o bastante, e os salários iniciais estão cada vez mais baixos. Como os mais pobres tiveram uma ascensão social, aumentou a concorrência por vagas, tanto nas melhores universidades (que, agora, também têm cotas raciais) quanto no mercado de trabalho, então esses jovens estão tendo que se esforçar como nunca sem conseguir alcançar o nível de conforto que seus pais tinham. Ter casa e carro no seu nome aos 30 anos? Esqueça, com o custo de vida mais alto, isso está cada vez mais difícil. Como a procura está cada vez mais alta, escolas particulares também estão mais caras, assim como convênios de saúde, diminuindo cada vez mais a quantia que a família pode gastar com supérfluos, como viagens e restaurantes. Empregada então, nem pensar, ainda mais uma que durma no emprego. A oferta diminuiu, os salários subiram muito e, para completar, elas ainda conquistaram direitos trabalhistas, o que complicou tudo. Só rico para conseguir manter uma empregada doméstica hoje em dia.

Dizendo de forma mais explícita, sem se mexer muito mais do que estava acostumada, a classe média não consegue mais manter o nível de conforto que tinha no Brasil de antigamente. Enquanto ela vê notícias e mais notícias dizendo que o país está melhorando, ela não enxerga isso na sua realidade, além de ver a sua qualidade de vida piorar. Ademais, a classe média não entende que história é essa que os mais pobres melhoraram de vida. Ainda há favelas, ainda há criminalidade, ainda temos níveis educacionais muito baixos, então que melhora é essa? Mas como Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, bem disse em sua campanha eleitoral, a vida das pessoas melhorou da porta de casa para dentro, não para fora. Quem apenas passa de carro por fora realmente não enxerga, e isso apenas se compreende entrando na casa das pessoas e percebendo o conforto que elas adquiriram: TV, DVD, computador, carro, geladeira, fogão, máquina de lavar, videogame, etc. Sem falar na maior possibilidade de aquisição de serviços, como viagens de avião, comer em restaurantes, etc. Todos itens aparentemente supérfluos, mas que são uma conquista para essa gente que só via esses aparelhos nas novelas e nas casas dos patrões.

Sendo assim, esta classe média tradicional não se vê contemplada pelo PT. Pior, olha o partido como se agisse deliberadamente contra ela, enchendo-a de impostos e dificultando cada vez mais a manutenção do seu conforto (leia-se: privilégios). Há um caráter egoísta nesta análise, insensível aos anseios dos mais pobres, mas não é totalmente injustificável. Esse, de fato, foi um dos grandes erros do PT: sobrecarregar a classe média com uma política de redistribuição de renda sem mexer nos privilégios dos mais ricos. É claro, a crítica de que o PT promoveu a inclusão social através do consumo, e não por serviços públicos de maior qualidade, é inteiramente válida. Contudo, é perfeitamente compreensível que os setores mais pobres se sintam, pela primeira vez, vislumbrados por um governo que possibilitou o acesso a confortos que antes apenas a classe média poderia desfrutar.

Dito tudo isso, não é possível negar que a corrupção contribuiu para a forte rejeição ao partido de alguns setores da sociedade. O grande problema foi o PT posar de partido da ética e depois repetir os mesmos malfeitos que outros partidos cometiam. Parte da indignação, portanto, vem disso, de depositarem confiança no PT, e depois se decepcionarem amargamente ao ver que era só mais um partido como os outros. A sensação de ter a esperança traída tende a provocar uma debandada ao lado oposto do espectro político. Não é à toa que o país com mais neonazistas na Europa seja a Rússia, após a decepção com a queda do socialismo.

Mas quem pensa que “nunca houve tanta corrupção nesse país” ou é hipócrita ou muito inocente. Nunca se roubou tão pouco no Brasil, pelo menos de forma sistêmica, e o que ainda é muito, sem querer aqui diminuir o peso da culpa, muito menos justificar os erros do PT de se envolver em casos de corrupção. Até mesmo o empresário tucano (?) Ricardo Semler reconheceu o mesmo. A grande diferença é que, antes, nada era investigado e ninguém era punido, salvo casos excepcionais. Isso é tão verdade que já ouvi um funcionário público reclamando que uma das razões que tinha raiva do PT é que até para roubar tinha ficado mais difícil.

Não é o que mídia faz parecer, é verdade. O seu papel foi crucial para fixar na mente das pessoas a ideia de que o PT não apenas era um partido corrupto como todos os outros, mas que era ainda pior, como uma organização criminosa. Com uma predominância de veículos de direita na grande mídia, interessados em derrubar o PT ao mesmo tempo em que poupam a oposição (entende-se: PSDB) da mesma agressividade, formulou-se entre a classe média, a maior consumidora deste tipo de mídia tradicional, a crença de que o PT era o problema. Não é o sistema político-eleitoral, não é a nossa cultura do “jeitinho”, do pouco respeito à coisa pública, não são os mais poderosos o problema. A culpa é, simplesmente, do PT.

Misture tudo isso num caldeirão, adicione junho de 2013, que fez a direita redescobrir os protestos de rua, e conclua com uma grave crise econômica, e temos o triste cenário fascista de hoje em que o objetivo de alguns é destruir o PT, mesmo que com isso destrua-se a democracia e o país juntos. Os últimos acontecimentos de pedido de impeachment sem base legal para tanto expõem a velha tradição da direita brasileira de pouco apreço à democracia. E a história se repete como farsa com o PSDB adotando o mesmo caráter golpista da UDN de mais de 50 anos atrás.

No fim, para evitar maiores tragédias, é preciso lembrar que política nunca deve ser praticada com ódio. A história fornece inúmeros exemplos de que isso nunca acaba bem. Há inúmeros motivos para se estar insatisfeito com o governo atual e com a atuação do PT no poder, especialmente por parte da classe média. Nada que justifique, no entanto, o ódio desmedido a um partido só. É muito fácil adotar o PT como vilão e não reconhecer que os problemas que assolam o Brasil são muito mais complexos do que isso. E o risco de seguir esta lógica, infelizmente, é de retroceder nas poucas conquistas que tivemos nos últimos anos, devolver o país às mãos daqueles que nunca se preocuparam em melhorá-lo e deixar o sonho de país fraterno, desenvolvido e justo cada vez mais distante.