sexta-feira, 24 de julho de 2015

O voo e a queda de Eduardo Cunha



A mitologia é repleta de histórias que nos ensinam muito sobre os fatos do cotidiano. É o caso de Ícaro, o homem que, na mitologia grega, ganhou asas. Assoberbado pela liberdade que as asas lhe davam e pela sua beleza quando refletida nos raios solares, Ícaro ignorou os repetidos apelos de seu pai para não se aproximar do sol. Assim, só foi perceber tarde demais que suas asas estavam sendo derretidas pelo calor. Em desespero, acabou suplicando por seu pai enquanto caía em queda livre até o oceano para a sua morte.

Me pergunto se Eduardo Cunha conhece esta história. Para quem não o conhece, ele não é nenhum novato na política: seu nome aparece nas notícias de corrupção desde o governo Collor, com forte ligação com o notório PC Farias enquanto assumiu um cargo na Telerj. Também se destacou por ser um eficiente lobista de empresas de telecomunicações, assumindo um papel de destaque, por exemplo, contra o Marco Civil da Internet. Mas nada se compara ao destaque que conquistou agora como Presidente da Câmara dos Deputados.

Cunha ganhou muito em sua trajetória política. Mas parece que o sucesso lhe subiu à cabeça. O bom de fazer política nos bastidores é que ninguém nota muito no que você está fazendo, embora mantenha grande influência. Só que quando você fica em evidência, embora também tenha mais poder, é mais fácil de ser derrubado. E agora, no caso de Cunha, a acusação de ter pedido US$ 5 milhões em propina pode cair como uma pá de cal na sua longa e bem-sucedida carreira política.

O deputado sabe que seu fim deve estar próximo, mesmo com todas as manobras que tem feito para evita-lo. Porém, diferentemente de um honrado capitão de navio que deixa todos se salvarem para depois buscar a própria salvação, Cunha quer garantir que, se o barco afundar, ele leve o maior número de pessoas consigo. Outros deputados, ministros, a presidente Dilma Rousseff, e, se possível, a própria República. Se ele não pode mandar no Brasil, que ninguém mande, e levemos todos o país ao buraco.

Contudo, apesar da sua postura apocalíptica (muito cristã, aliás, o que condiz com o fato de ser evangélico), nada deve impedir a degola de Cunha. Até o seu impetuoso pronunciamento na televisão virou motivo de piada, tamanha a falta de traquejo na frente das câmeras. Após anunciar o rompimento formal (que, na prática, já existia) com o governo, esperava que outros o acompanhassem. O governo declarou o ato como “pessoal”. Seu partido também. Poucos aliados lhe declararam apoio, muitos têm mantido o silêncio, com medo de afundarem junto, e alguns já pedem sua cabeça. O PSDB, antes seu parceiro na cruzada contra o PT, fingiu que não tinha nada com isso.

A pergunta que resta é: até quando ele fica? Dizem que em agosto os procuradores devem fazer uma denúncia formal aos casos mais graves e com provas mais consistentes, como o de Cunha. Se isso se realizar, sua queda será inevitável. E, diga-se de passagem, vai tarde. É inadmissível que alguém permaneça no cargo de presidente da Câmara depois de acusações gravíssimas como essa, ainda mais repleta de fortes indícios de veracidade.

Se ele sair antes dos protestos contra a presidente Dilma marcados para 16 de agosto, melhor ainda. Perdem força aqueles que acham que um impeachment seria solução para a crise política e econômica que abate o país. Por outro lado, cresceria também a ideia de que só uma ampla reforma política pode devolver algum resquício de legitimidade ao Congresso Nacional, que, de longe, é a instituição mais falida do país. Tudo vai depender da força do insensato e exacerbado antipetismo que tem reinado na discussão política do Brasil. É isso que tem tirado o foco daqueles, como o dito cujo, que só pensam em afundar o país junto com eles.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Precisamos de outro 7x1



Há exato 1 ano, eu estava lá no Mineirão, em Belo Horizonte, assistindo ao fatídico Brasil x Alemanha que nunca vai ser esquecido. Meu relato desta experiência pode ser lido aqui, mas se eu pudesse acrescentar algo, diria que saí levemente otimista de lá. Afinal, uma tragédia destas havia de causar alguma mudança séria na administração do futebol brasileiro, fazer as pessoas repensarem tudo que estava ocorrendo ao seu redor. Que nada... estava redondamente enganado.

A comissão técnica praticamente se abdicou da responsabilidade, dizendo que até ali tinha sido um trabalho bem feito. A CBF agiu como se não fosse com ela. Os jogadores trataram como se fizesse parte do esporte. E tudo seguiu como antes... ah não, espera, pior: aí pra resolver a questão, eles trouxeram o Dunga de volta. Assim, nada contra a pessoa dele, mas é como se estivessem tentando curar um paciente com uma droga já tentada anteriormente. "Tenta de novo, vai que agora dá, né?" E o brasileiro? Fizeram protestos, depredaram a sede da CBF? Nada. Aceitaram passivamente, como se não tivesse jeito mesmo.

Só que não ficou por aí, muito menos restrito ao futebol. Logo em seguida, tivemos possivelmente o pior processo eleitoral desde 1989, elegendo o Congresso mais conservador desde 1964, e com um nível de debate extremamente baixo. No último minuto, uma matéria suja de uma revista desonesta tentou mudar o resultado do jogo, mas não foi o suficiente. Só que talvez teria sido melhor se mudasse: reelegemos uma presidente que fez campanha de esquerda para, logo em seguida, jogar todo o discurso fora, adotar uma agenda de direita e fazer tudo aquilo que tinha prometido não fazer.

Já deu? Espera, que tem mais. O candidato derrotado, não sabendo perder, mesmo que por pouco (bola na trave não é gol, amiguinho), fez um circo junto a seus eleitores, questionando o resultado e entrando numa cruzada para desmoralizar o sistema eleitoral. Como isso não deu certo, agora ele e seu partido embarcam na aventura de tentar derrubar a presidente a qualquer custo. Esta que, diga-se de passagem, conseguiu o “mérito” de ter uma aprovação tão alta quanto o índice de inflação, ficando na corda bamba seja por lambanças nas contas públicas, seja por um escândalo de corrupção que atinge tudo e todos.

No meio da disputa entre um partido desmoralizado que contou lorotas para se manter no poder e outro que faria a mesma coisa, mas age como se não tivesse nada a ver com isso, um presidente da Câmara dos Deputados, que deve estar assistindo muito a uma série do Netflix, manda e desmanda no país, atropelando o regimento e a Constituição, e jogando com governo e oposição, que tentam ambos agradá-lo. Aprova-se então a doação de empresas a partidos políticos – o cerne de toda a corrupção – em uma reforma política mais falsa que nota de 3 reais, e adota-se uma agenda conservadora que busca soluções simples e ineficazes para problemas graves, como a redução da maioridade penal.

E, para piorar, o grande público aplaude. Não só aplaude como participa da barbárie. Protestos contra a corrupção vestindo a camisa de uma instituição corrupta, pedidos de intervenção militar, marchas organizadas por adolescentes que mal entraram na universidade, mas já acham que sabem mais que os professores, um horror que só. E pior, tudo baseado na crença de que um partido personifica a corrupção no país. Sim, apenas um partido e seus membros é que são o problema. Aí fazem vídeo nervosinho no YouTube, agridem pessoas na rua, fazem adesivos que simulam a presidente sendo violentada, lincham e amarram no poste o suposto bandido, buscam a justiça com as próprias mãos... e tudo travestido de um nacionalismo fajuto conjugado a um ódio pelo próprio povo. Contraditório? Imagina, é apenas Brasil.

Ah, já ia esquecendo do futebol. Foi preciso que a justiça dos EUA (oi?) prendesse o presidente da CBF, e nem assim as coisas mudaram. Sai o número seis, entra o meia dúzia. Sabe como é... futebol, feijoada, e nada acontece. Ou melhor, tudo se repete. Neymar fica fora da Copa (América) depois de jogo contra a Colômbia e Brasil perde (de novo) para o Paraguai nos pênaltis (outra vez). Nem o futebol feminino, coitado, que não tem nada a ver com a história, conseguiu dar alegria (aliás, alguém viu ou ouviu falar na TV brasileira que havia Copa do Mundo de futebol feminino?). Perderam para a fraca Austrália num jogo tão ruim que pareciam os homens jogando.

Tudo isso só me leva a concluir como fato uma piada que se consagrou: 7x1 foi pouco, muito pouco. Na verdade, não foi nada. O Brasil merece mais. Parece que outro 7x1, seja na área que for, é iminente, questão de tempo. Que assim seja, então. Quem sabe outra tragédia acorde, enfim, o brasileiro para a realidade. Ou talvez não, talvez eu esteja sendo levianamente otimista outra vez. O grau de insensatez cresceu tanto que virou passeio. Pois é... precisamos mesmo de outro 7x1. E urgente.

sábado, 4 de julho de 2015

O futuro nas mãos da Grécia



Amanhã, ocorrerá o referendo que pode decidir o futuro da Grécia e da Europa. Os gregos terão a opção de dizer “sim” ou “não” ao plano de ajuda financeira e austeridade oferecido pela “troika” (Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional). Muitos, no entanto, têm erroneamente interpretado o referendo como uma decisão sobre a Grécia permanecer na zona do Euro e até mesmo dentro da União Europeia. Só que a questão é muito mais complexa do que isso.

Caso o “não” vença, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, do partido Syriza, prometeu voltar à mesa de negociações com novos termos, amparado pela vontade do povo grego. E aí, sabe-se lá o que o futuro espera. Caso o “sim” vença, isso será uma derrota do governo, que prometeu renunciar se for este o resultado.

Na realidade, a Grécia já sofreu muito com a famosa austeridade implementada nos últimos anos. Sim, o Estado grego era inchado, com alguns benefícios insustentáveis e mal utilizados. Sim, os governos anteriores foram irresponsáveis de adquirirem dívidas impagáveis. E, sim, dívidas adquiridas devem ser pagas. Porém, a Grécia tem feito de tudo para pagar essa dívida, e o que o seu povo ganhou? Uma queda no PIB de cerca de 25%, um desemprego também de 25%, um êxodo das melhores cabeças do país, e assim vai. Um país em frangalhos, que perdeu a confiança em si mesmo.

Agora, pensando o outro lado, da “troika”, até que ponto querem levar a Grécia para que esta pague suas dívidas? Muito já foi pago, e os juros continuam a se acumular. Não seria hora, então, de perdoar ao menos parte da dívida? Renegociar os termos para que o país consiga se reerguer, até por uma questão humanitária? Ou os bolsos de banqueiros, que já estão cheios, são mais importantes do que a situação socioeconômica de uma nação inteira?

O povo grego, cansado dos partidos tradicionais e de uma política que arrasou o seu país, elegeu um partido não-tradicional de esquerda, Syriza, justamente para acabar com a austeridade. Desde então, o primeiro-ministro Tsipras, junto a seu destemido ministro das Finanças, Yannis Varoufakis (provavelmente o único ministro das Finanças a ser celebrado e abraçado no meio da rua pelo seu povo) têm lutado ferozmente contra o que a “troika” tenta impor ao povo grego. Por outro lado, a mesma "troika", encabeçada pelo líder da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, coloca a Grécia contra a parede, evitando negociar termos mais favoráveis com o Syriza com medo de que outros países, como Portugal, Espanha, ou até mesmo Itália, sigam pelo mesmo caminho. O sucesso do Syriza abriria as portas para outros movimentos similares conquistarem o mesmo em seus países, e é o que esse grupo menos quer. Assim, sacrifica-se a Grécia para salvar um sistema antidemocrático, submisso ao poder financeiro e que ameaça o sonho de uma Europa unida.

Mas o perigo de um fracasso do Syriza é ainda maior. Como David Harvey já disse numa entrevista, com a perda de confiança do povo grego nos partidos tradicionais, se o Syriza fracassar, a alternativa que resta é o fascismo, representado pelo partido Aurora Dourada. Afinal, em um cenário de crise, é natural que as pessoas recorram aos extremos. A Europa já conheceu o resultado de permitir que movimentos de extrema-direita cheguem ao poder, e nunca chegamos tão próximo de um cenário assim, com uma crise econômica forte e uma onda de xenofobia, em mais de 70 anos. Será mesmo que vale a pena destruir o Syriza – tudo em prol de um lucro maior – para colocar alguém bem mais perigoso à Europa no lugar?

As pesquisas de opinião, no momento, estão divididas. Embora o “não” tenha começado bem à frente, o medo com relação ao futuro fez com que muitos gregos mudassem de ideia e defendessem o “sim”. Eles não querem mais austeridade, mas também não querem sair da zona do Euro nem sair da União Europeia. Uma amiga grega admitiu que, com dor no coração, iria votar “sim”, pois acha que o seu país está à beira da ruína e, infelizmente, o governo do Syriza não tinha apresentado nenhum plano para o futuro, o que a deixava insegura. O medo, neste caso, venceu a esperança. Porém, ela acredita que o clima na Grécia seja de uma vitória do "não", apesar de ninguém saber o que pode ocorrer.

De fato, o grande desafio para a esquerda grega (e mundial) é oferecer um futuro plausível, que não seja apenas um sonho, de alternativa à austeridade e ao controle financeiro sobre a política. A política não pode ser feita apenas de belos discursos e ideais bonitos, as pessoas também querem ações. E enquanto a esquerda fracassar em apresentar uma alternativa aos desmandos da direita e do capital financeiro, principalmente quando for chamada para assumir o governo e arrumar a casa, ela sairá mais enfraquecida e perderá mais terreno na disputa política.


De qualquer modo, o resultado do referendo de amanhã deve balançar as estruturas da Europa. A escolha é entre a resignação de um caminho sem saída ou um tiro no escuro pela esperança de um futuro diferente e melhor. O sistema financeiro e os líderes da troika pedem para que os gregos votem “sim”; a esquerda e intelectuais ao redor do mundo pedem para os mesmos digam “não”. Há quem diga que votar “não” significa colocar tudo a perder. Mas para quem não tem mais nada, aceitar mais uma humilhação pode representar a perda de nada – a não ser de si mesmo. A decisão, todavia, é somente dos gregos. Os inventores da democracia, ironicamente, decidirão os rumos de seu país e da Europa através do voto. Que prevaleça a vontade do povo.