segunda-feira, 13 de abril de 2015

“A gente quer impiti… o quê?”



Como esperado, o protesto do dia 12/04 foi menor do que o de 15/03, reunindo cerca de 100 mil pessoas, de acordo com o Datafolha, em comparação com os 210 mil de março. Isso não surpreende por vários motivos: muito tempo se passou de um protesto para o outro; surgiram outras questões no debate político nacional, como o PL 4.330, que regulamenta as terceirizações no país, além dos desmandos do PMDB no Legislativo; não surgiram provas que envolvessem a presidente Dilma no escândalo da Petrobras; além, é claro, da dificuldade de mobilizar uma multidão de pessoas por muito tempo. Quem foi ao 15/03 não é o típico ativista político; portanto, ir uma vez já lhe dá uma sensação de “missão cumprida”, embora o objetivo continue longe de ser alcançado.

Enquanto isso, um dia antes, o mesmo Datafolha divulgou uma pesquisa que mostra que 63% da população brasileira (ou seja, quase 2/3) acredita que deveria ser aberto um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Parece um dado assustador, se não fosse outro achado desanimador: cerca de 59% não sabe o que ocorre no evento de um impeachment. Destrinchando os dados, é pior do que parece: 39% não tem ideia do que acontece, 12% acha que Aécio Neves assumiria o poder e 8% acredita que outras pessoas assumiriam (não o vice). Dos cerca de 42% que sabem que o vice-presidente que assume o poder, cerca de 2/3 (29% de todos os entrevistados) não sabem quem é. Ou seja, apenas míseros 13% sabem que assumiria o atual vice-presidente, Michel Temer, do PMDB. Isso no geral, pois quando se trata de questionar apenas quem apoia o impeachment, há um grau de desconhecimento ainda maior.

Sendo assim, quando chamam os manifestantes de analfabetos políticos, parece que a afirmação não está longe da realidade. A verdade é que há um grau de politização muito baixo no debate político nacional, e surgem assim no imaginário popular soluções mágicas, que já ocorreram antes, como é o próprio impeachment. Todavia, estas pessoas não sabem algumas questões muito básicas da democracia: por exemplo, que impeachment é um instrumento jurídico, que serve para abrir um processo administrativo para destituir um político por crime de responsabilidade no cargo em que exerce. Neste caso, não há qualquer possibilidade de abrir um processo de impeachment contra a presidente Dilma, pois não há qualquer indício de envolvimento ou responsabilidade da presidente pelo escândalo da Petrobras. “Ah, mas o dinheiro da campanha dela em 2010 veio de propina”. Se for comprovado isso, que se abram os devidos processos legais. Porém, mesmo que isso seja comprovado, como o procurador-geral da República advertiu, não se trata um crime de responsabilidade, pois não é um ato que Dilma teria cometido enquanto no cargo de presidente, impossibilitando seu impeachment. E pela legislação atual, ela só poderia ser investigada e punida depois de deixar o cargo.

Além disso, a maioria da população defende impeachment por uma razão muito simples: não é porque sabem o que é um impeachment, mas por que a maioria está insatisfeita com o seu governo e quer que ela saia. Esse é um sentimento inteiramente válido; porém, insatisfação com o governo e querer colocar outro no lugar não são motivos para impeachment. A presidente Dilma foi eleita para os próximos 4 anos; portanto, se querem outra pessoa no lugar, aguardem 2018. É claro que podem pressionar a presidente para renunciar ao cargo, o que é, também, completamente válido. Porém, a pressão teria que ser realmente muito grande, de todos os setores da população, o que a impossibilitaria de continuar no cargo. Até o momento, apesar de toda a sua fragilidade em manter a base aliada, não é o que está ocorrendo.


O problema, enfim, como foi dito, é que estamos vivendo um momento em que o grau de politização é muito baixo, o que é péssimo para a democracia e perigoso para o país. Demonizar um partido ou um grupo político esconde os vícios de outros partidos que são mais similares do que parecem, quando não piores. Além disso, são em momentos assim em que surgem soluções milagrosas, como o impeachment, neste caso, como se fosse resolver todos os problemas do país (colocando o PMDB no poder? Aham, senta lá, Claudia) ou salvadores da pátria, o que é muito pior. Ainda não surgiu nenhum político que capitalizasse a crise política que vivemos. Ainda. Só que o fantasma de um novo Collor continua a nos rondar. Resta saber se a história, que já se repetiu como tragédia, vai se repetir como farsa, como diria Marx.