quarta-feira, 25 de março de 2015

Mídia protege FHC e PSDB, mas quem se importa?



Quando eu era criança, eu achava que tudo que estava escrito era verdade. Se saiu no jornal, tinha que ser verdade, como que alguém seria irresponsável de escrever algo que não era verdade? Santa inocência! Com o tempo, você vai descobrindo que, no mundo dos adultos, erros, omissões e distorções da verdade realmente acontecem, para a nossa decepção. Às vezes, por acidente, é verdade. Em outros momentos, entretanto, totalmente de propósito.

“Podemos tirar, se achar melhor”. Esta é a frase, em parênteses, que um jornalista escreveu em artigo da Agência Reuters logo após um parágrafo lembrando que Pedro Barusco admite ter começado a receber propinas na Petrobras em 1997, ainda no governo FHC. A ideia por trás da mensagem é simples: podemos adicionar esse parágrafo falando que a corrupção começou no governo FHC, mas se o editor achar que é melhor omitir essa informação, podemos tirar. O recado era confidencial, é claro; pena que alguém esqueceu de tirar antes de publicar.

Essa intenção na mídia de proteger FHC e o PSDB não é exatamente novidade. Recentemente, vazou ainformação de dentro da Globo que a ordem era para não citar o nome de FHC em matérias relacionadas ao escândalo da Petrobras (vulgo Petrolão). O malabarismo é tanto que, quando necessário, precisam dizer que a corrupção na estatal começou no período anterior ao governo petista, sem citar nomes ou partidos, como se vê no truque realizado pela Globonews na imagem inicial do post. Tudo para que os telespectadores continuem associando a corrupção apenas ao PT.

E não é só neste escândalo que a mídia agiu de forma parcial. Quem colocou na Globonews no domingo, dia 15 de março, pôde acompanhar uma cobertura cinematográfica, o dia todo, das manifestações contra o governo Dilma, que totalizaram 210 mil pessoas, de acordo com o Datafolha (ou 1 milhão, de acordo com a isenta e imparcial – só que não – PM paulista, número com o qual os jornalistas da Globonews se regozijavam ao citá-lo repetidas vezes). “As maiores manifestações populares desde as Diretas Já”, eles diziam. Tudo bem então... mas alguém ouviu falar de uma manifestação no dia 20 de março, quando dezenas de milhares de professores estaduais tomaram a Av. Paulista em greve? Não? Pois é. Para a mídia, um protesto contra o governo estadual de Geraldo Alckmin, do PSDB, parece não ser tão importante.

A questão da água em São Paulo foi outra em que a mídia agiu de forma lamentável. Apesar de inúmeros especialistas apontarem que o motivo da falta d’água era essencialmente por má gestão dos recursos hídricos (ou seja, falta de investimentos, preparação e competência do governo do estado), a mídia insistiu na tese repetida pelo governo estadual que tudo era em razão da falta de chuvas. Em pleno século XXI, querem nos convencer de que dependemos das chuvas para ter água, assim como homens das cavernas, embora lugares muito mais secos e com índices pluviométricos muito mais baixos do que a “grande seca” que São Paulo sofreu ainda conseguiam ter água disponível para a sua população. Coitado de São Pedro...

Mas para não ficar parecendo paranoia, ou se basear num aparente “achômetro”, utilizemos estudos a respeito para comprovar este viés da mídia, então. Um grupo de estudantes e pesquisadores da UERJ fez uma análise de conteúdo dos principais veículos de informação, criando o que eles chamaram de Manchetômetro, e comprovou que a mídia batia muito mais em Dilma e no PT do que qualquer outro candidato e partido. Alguns podem dizer que isso ocorre porque o PT está no governo e, portanto, está mais em evidência. Mas e o governo estadual do PSDB? Quando se vê alguma notícia ou manchete negativa a respeito? Para os inocentes que disserem que não há nada negativo a se reportar, resta lamentar. O próximo passo dos criadores do Manchetômetro, no entanto, é interessante: comparar a atuação da mídia na reeleição de Dilma com aquela na reeleição de FHC. São resultados pelos quais vale a pena aguardar.

Mesmo assim, dito tudo isso, fica a pergunta: quem se importa que a mídia protege o PSDB? Porque, se ela estivesse protegendo o PT, ia ser um escândalo de enormes proporções. Diriam que o governo está comprando a mídia, que estamos nos tornando a Venezuela, uma nova ditadura, etc. Quando é o contrário, as pessoas agem com a maior naturalidade. O PT é demonizado, o PSDB é protegido, apenas a ordem natural das coisas. Mas se a mídia serve como o 4º poder em uma democracia, controlando a informação divulgada e vigiando as instituições e os políticos, certamente algumas regras, alguns limites devem ser impostos. Se não, quem vigia os vigilantes? 

Todavia, quando setores da esquerda falam de democratização e regulamentação dos meios de comunicação, inúmeras pessoas se levantam em revolta, dizendo que é censura (apesar disso ser bastante comum em países desenvolvidos e democráticos). É como se dissessem: “Ei, deixem-nos permanecer ignorantes, não queremos uma mídia mais democrática e plural!” E o resultado final é este, uma classe média (a maior consumidora da grande mídia) cada vez mais idiotizada, repetindo o que formadores de opinião lhes ensinam, como, por exemplo, a ter ódio de um partido e a achar que não há corrupção no outro. É triste. Pobre da democracia. Pobre de nós, brasileiros.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um novo junho?



15 de março de 2015 chegou e trouxe grandes manifestações por todo o Brasil. De acordo com o Datafolha, apenas em São Paulo, na região da Av. Paulista, cerca de 210 mil pessoas foram à manifestação. Nem se compara com as manifestações convocada pela CUT dois dias antes, no dia 13/03, em defesa da Petrobras, da democracia, dos direitos trabalhistas e da reforma política, que reuniu, também de acordo com o Datafolha, 41 mil pessoas (note que no ato de sexta-feira, a PM minimizou o número de manifestantes, calculando 10 mil presentes. Já no ato do domingo, calculou cerca de 1 milhão. Tendenciosos? Imagina!). Assim, ainda de acordo com o Datafolha, este seria o maior protesto na capital paulista (e no país) desde as Diretas Já. Será que estamos, portanto, entrando em um novo ciclo de protestos como em junho de 2013?

Primeiro de tudo, devo dizer que discordo da conclusão do Datafolha. É preciso lembrar que o instituto não mediu o número de manifestantes na segunda-feira do dia 17 de junho de 2013, quando os atos do Movimento Passe Livre atingiram um ápice em São Paulo. Estando presente naquele momento histórico, e de acordo com algumas estimativas, acredito que o número de manifestantes naquele dia era levemente superior ao de ontem. Além disso, no dia 20 de junho de 2013, pesquisadores estimam que 300 mil pessoas saíram às ruas na Candelária, no Rio de Janeiro. Um número, portanto, superior aos de ontem em São Paulo.

Em segundo lugar, não é possível afirmar a possibilidade de um novo junho pura e simplesmente porque junho nunca acabou. O espírito de junho se mantém bem vivo e, hoje, estamos apenas testemunhando um desdobramento de um processo que começou naquele período. O gigante que acordou nunca voltou mesmo a dormir, mas se manteve desperto, desorientado e irritado, fazendo emergir, de tempos em tempos, a sua fúria contra tudo e contra todos.

Este processo, é verdade, não teve um resultado claro nas urnas, a não ser com o aumento de abstenções e de votos brancos e nulos, além de um desgaste do petismo, apesar da (apertada) reeleição de Dilma Rousseff. Contudo, nas ruas, o efeito se manteve claro, com um aumento de greves e manifestações, além de uma mobilização política maior de movimentos de direita. Lembremos que junho de 2013 começou com atos organizados por um grupo de esquerda, o Movimento Passe Livre, que, porém, trouxe indivíduos à rua, a maioria pela 1ª vez, incomodados com os excessos cometidos pela PM, além da insatisfação latente com a corrupção, a inflação e o alto custo de vida. Trazendo pautas de direita, como a rejeição aos partidos e um discurso anti-governo, eles causaram um recuo da esquerda, fazendo com que os protestos perdessem o foco e acabassem se dispersando. Todavia, estas pessoas que aprenderam a força das ruas pegaram o gosto da coisa, e o desejo de voltar para lá permaneceu. Ontem foi apenas o resultado deste anseio latente que voltou a florescer.

Algo notável – e inegável – do ato de ontem é que era predominantemente de pessoas brancas de classe média. Em junho, a periferia acabou se juntando aos protestos, embora tardiamente; desta vez, esta adesão é mais improvável, embora o eventual aumento do desemprego deva acender a insatisfação dentre as camadas mais pobres com o governo Dilma. A faixa etária dos presentes também era mais alta do que o comum, condizente, também, com a adesão de grupos não-tradicionais tardiamente nas jornadas de junho, depois dos jovens e estudantes darem início aos atos.

Além disso, como previsto, as pautas eram bastante difusas: alguns queriam o impeachment; outros queriam uma intervenção militar, esbanjando faixas e pedindo “socorro” às Forças Armadas e à comunidade internacional para protegê-los do bolivarianismo e do comunismo (?); e mais uns outros, provavelmente a maioria, esteve presente para expressar a sua insatisfação com a corrupção, a piora da economia, etc, sem necessariamente defender alguma das outras duas causas. Como o ato atraiu bastante atenção, saindo das redes sociais e ganhando a mídia tradicional, ele foi tratado como um evento social, ganhando um clima mais de festa (e pelo vestuário das pessoas, parecia Copa do Mundo) do que de protesto, o que ajudou a inflar o número de participantes, apesar do discurso ainda virulento de ódio e repleto de antipetismo. Entretanto, pelo mesmo motivo, e diferentemente de junho, o ato não deve desencadear uma série de grandes protestos diários. A enorme maioria dos manifestantes não é ativista tradicional, não tendo, portanto, o pique e a disposição para se dedicar diariamente à causa. Mesmo assim, outro ato foi marcado para o distante dia 12 de abril, que, salvo se acontecer algum fato novo, deve atrair menos participantes do que ontem.

Dito isso, em termos de repercussão política, o PT ainda está mais perdido que cego em tiroteio. É verdade que a grande massa dos manifestantes é de gente que não votou na Dilma e, portanto, não tem tanta moral para se dizer “traída” pela campanha da então candidata. Por outro lado, também é verdade que a insatisfação com o governo já não é mais restrita a uma elite branca, e é crescente entre setores mais carentes, seja por se sentirem enganados pelas promessas de campanha quebradas, seja pela visível e progressiva piora na economia. Tentar culpar essa burguesia por não aceitar o resultado nas urnas é uma meia verdade. O resto da história o PT ainda não entendeu bem, e faz papel de ridículo ao culpar apenas o golpismo ou então o ex-presidente FHC.

Ao mesmo tempo, a oposição ganha ânimo, mas sem conseguir destaque. O mais notório destas manifestações é que nenhum político conseguiu capitalizar muito bem essa insatisfação desde junho. A princípio, Marina Silva conseguiu surfar nessa onda, mas nem o falecimento de Eduardo Campos, que abriu caminho para a sua candidatura à presidência, conseguiu impulsioná-la como liderança no país após seus sucessivos erros políticos. Aécio Neves nem tentou ir ao ato: preferiu ficar na varanda de seu apartamento em Ipanema, acenando à distância. Por fim, nem mesmo Jair Bolsonaro, “ídolo” de muitos dos manifestantes, conseguiu sair por cima: ao ser chamado para discursar, sofreu fortes vaias dos presentes, fazendo-o desistir da ideia. A lógica das manifestações segue ainda na aversão à política tradicional, o que deixa a oposição sem saber muito como agir. Mesmo se alguns políticos mais desastrados embarcarem na ideia de impeachment, a maioria vai continuar, por enquanto, cautelosa em relação ao assunto, aguardando os desdobramentos tanto das investigações quanto dos protestos.

E qual é a solução para tudo isso? Obviamente, os atos erram o alvo ao centrar o fogo na presidente Dilma ou no PT (ver post anterior). Porém, se em junho os protestos começaram com a esquerda, e depois a direita sequestrou as pautas, o inverso pode ocorrer agora. A direita começou um novo momento de protestos; talvez seja hora, portanto, da esquerda começar a agir e tentar levar a pauta para o seu lado, mais especificamente focando na reforma política, questão de suma importância e abordada aqui nas últimas postagens do blog. Esta é a esperança dos governistas, inclusive: o alvo passaria a ser então o Congresso, colocando pressão para que este aprove uma reforma política que atenda mais aos interesses da sociedade do que os seus próprios, dando um respiro à presidente Dilma, que pouco pode fazer a respeito sem o apoio dos deputados e senadores. Mesmo assim, verdade seja dita, é um grave erro da presidente se omitir neste momento tenso em que seus eleitores estão ficando nervosos e impacientes.

Assim, a oportunidade que se apresenta agora, em uma nova série de manifestações pelo país, não deve ser desperdiçada. Como disse Vladimir Safatle numa recente entrevista, a Nova República acabou. Que este seja então o momento de refundar a democracia no Brasil. O gigante está nervoso e tem pressa. Ou então, corremos o risco de cair em tentações autoritárias, tudo que o país menos precisa.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Se você acha que o PT é o problema, você ainda não entendeu nada



Domingo, dia 15/03, haverá uma grande manifestação pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff e protestando contra o atual governo do PT. Além de insatisfeitos com a piora da economia, a grande motivação dos manifestantes seria a corrupção endêmica no país, ainda mais após a revelação do escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras. Do jeito que falam, parece que a corrupção era inexistente no Brasil no período 1964-1985 (ditadura militar), passou a existir até 1994 (governos Sarney, Collor e Itamar), teve uma pausa entre 1995 e 2002 (governo FHC), e voltou com força a partir de 2003 (governos Lula e Dilma). Será mesmo lógico pensar que a corrupção piorou drasticamente nos últimos anos por causa do PT? Se você realmente pensa isso, você ainda não entendeu como funciona o sistema político brasileiro.

Usemos este escândalo da Petrobras como exemplo. Se o PT fosse o maior problema, seria de se esperar que o partido teria o maior número de políticos citados nas delações. No entanto, o procurador-geral da República sugeriu a investigação contra apenas 6 políticos do PT, contra 7 do PMDB e 32 (!) do PP. Como apontado no post anterior do blog, estes dois partidos não só foram aliados do governo do PT nos últimos 12 anos como também foram aliados do governo FHC, do PSDB. Ou seja, será que estes partidos sempre foram corruptos, ou só passaram a se corromper depois que o PT entrou no poder?

A resposta para esta pergunta se encontra no sistema político brasileiro. Nosso sistema é chamado por cientistas políticos de “presidencialismo de coalizão”. A Constituição Federal de 1988 foi pensada para um sistema parlamentarista, criando um Parlamento forte, com amplos poderes; no entanto, com o plebiscito em 1993, a sociedade brasileira escolheu o presidencialismo. O problema disso é que, como neste sistema eleitoral votamos em pessoas – e não nos partidos –, a Câmara dos Deputados acaba tendo um grande número de partidos representados. E como um presidente precisa da maioria dos votos para aprovar um projeto de lei e 3/5 do total para uma emenda constitucional, o seu partido precisa formar uma ampla coalizão com diferentes partidos para conseguir esse percentual mínimo de apoio. Caso contrário, nada que o governo enviar para o Congresso como projeto será aprovado. Afinal, não espere a boa vontade dos parlamentares para votar projetos apenas pensando no “bem do país” sem nenhuma contrapartida.

Vamos usar um exemplo real: temos 513 deputados federais, e para conseguir a maioria dos votos, é necessário uma coalizão com pelo menos 257 deputados. O PT, em 2014, com a maior bancada de todos os partidos, elegeu apenas 70 deputados federais. Aí procura o apoio do PMDB, que tem 66. Depois, o PP, com 36. Aí surgem outros, como o PSD, com 37. O fiel PCdoB, com 10. O PRB, ligado à Igreja Universal, com 21. Só que mesmo com todas essas alianças, depois de tudo, o governo só vai contar com o apoio de 240 deputados. Ou seja, é preciso ainda mais. Complicado, não? E o caminho para o PSDB seria mais complicado ainda, pois o partido conta com apenas 54 deputados federais.

E, assim, o que geralmente os outros partidos querem para apoiar o governo? Espaço no governo e na máquina estatal, o que significa posições em ministérios importantes, direções em estatais, a escolha de indicados para cargos comissionados, etc. Isso dentro da legalidade, é claro. De forma ilegal, há as propinas, o que, infelizmente, é revelado ao público em poucas ocasiões. Como no caso do escândalo conhecido como “mensalão”. O presidente do PTB, Roberto Jefferson, denunciou o esquema em 2005, assumindo que ele e seu partido eram beneficiários do esquema. Como o mesmo partido também foi da base aliada de FHC, será que o mesmo esquema de corrupção também não existia antes? E, pior, não seria lógico supor que a sua denúncia ocorreu por insatisfação em razão do tratamento (e do valor) recebido de dirigentes do PT?

“Pobrezinho do PT, vítima do sistema”, então? Óbvio que não. Não é possível dizer se conseguiriam governar sem fazer alianças espúrias com partidos sem a mínima afinidade ideológica. Há quem advogue que o presidente consiga a aprovação de seus projetos clamando pela pressão popular. Todavia, o último presidente que tentou governar sem apoio – Fernando Collor – acabou sofrendo impeachment. De qualquer forma, os petistas não fizeram tantos esforços para alternar esse sistema e acabaram se submetendo ao modo tradicional de se fazer política no país.

Isso, evidentemente, não significa que a solução seja o partido de oposição, o PSDB. Oras, eles já tiveram a sua chance e também parecem interessados em manter tudo como está. Se Aécio Neves se elegesse, buscaria o apoio de todos esses partidos (aliás, parte considerável de ambos o PP e o PMDB apoiaram a candidatura de Aécio). Seria tolice achar que os corruptos iam abrir mão da corrupção com outro partido no poder. É notório, por exemplo, o caso da compra de votos para a emenda constitucional que possibilitou a reeleição de FHC. Mas ninguém mandou investigou, ninguém puniu, e ficou por isso mesmo. O positivo do momento agora é que a Polícia Federal e o Ministério Público têm mais autonomia para investigar do que antigamente (mérito do PT, queira ou não).

Portanto, se não importa o partido que vença, pois ele terá que fazer as mesmas coisas para governar, está na hora de repensar o sistema, não? Para isso que serve a tal da reforma política. E este deveria ser o mote de todo brasileiro indignado neste momento. Porque derrubar um presidente hoje pode parecer legal, mas amanhã tudo continua o mesmo (ou pior). Então que tal nos unirmos e pensarmos o país em conjunto? Hein?

segunda-feira, 9 de março de 2015

A lista de Janot e a reforma política



No final da última sexta-feira (06/03), foi revelada, enfim, a lista dos políticos a serem investigados em razão da Operação Lava-Jato. Dos 47 listados, 32 são do PP, 7 do PMDB (incluindo o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros), 6 do PT, 1 do PTB e 1 do PSDB. Além deles, também foram citados os candidatos à presidência das últimas eleições, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), além do ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Porém, o primeiro teve o pedido de arquivamento da investigação, e os outros dois não serão investigados por já se encontrarem falecidos.

Inicialmente, o que essa lista nos diz? Que todos os grandes partidos estão envolvidos neste grande escândalo de corrupção, seja governo ou oposição. É verdade que a mera investigação não é sinônima de culpa (da mesma forma que arquivamento não é sinônimo de inocência), mas o fato de haver políticos de todos esses partidos citados mostra como o maniqueísmo na política brasileira não passa de uma tolice infantil. Se figuras importantes do PT estão envolvidas, Antonio Anastasia, cria política de Aécio Neves, também surge como suspeito. No final, ninguém se safa.

Falta explicar a razão de colocar a reforma política no título. O que uma coisa tem a ver com a outra? Os dois partidos com mais políticos citados no esquema de corrupção na Petrobras, PP e PMDB, são aliados do governo do PT. Volte 20 anos no tempo, e quem você encontra como aliados do PSDB de FHC? Os mesmos PMDB e PP (com outro nome, PPB). Ou seja, são partidos que estão no governo há mais de 20 anos, independentemente de quem seja o presidente. Ah, e o PTB? É o mesmo partido de Roberto Jefferson, lembra dele, do mensalão? Pois é, adivinha quem era aliado de FHC?

Esses partidos vivem em torno do poder. Ganhe Dilma, ganhasse Aécio, eles continuariam no governo, e nenhum dos dois poderia recusar o apoio. Infelizmente, o sistema político brasileiro é tal que faz com que seja preciso negociar com diversos partidos para garantir a tal da “governabilidade” (ou seja, conseguir apoio necessário para votar os projetos no Congresso Nacional). Quem não fez isso acabou sendo derrubado, que foi o caso de Fernando Collor (inclusive, ele é o citado do PTB).

Longe de mim querer, com este texto, tirar do PT a responsabilidade dessas alianças espúrias. Porém, qualquer um que entrar fará o mesmo se quiser tentar aprovar algo. O fato deste escândalo envolver tantos partidos diferente, de governo e oposição, além dos presidentes da Câmara e do Senado, gera uma forte crise institucional, mostrando como o nosso sistema político está falido. Não há melhor momento, portanto, do que este para reivindicar uma reforma política. Mas uma reforma de verdade, que não sirva aos interesses de nenhum partido, mas da sociedade brasileira. 

Conforme nos aproximamos de um período de grande turbulência social, seria importante unificar os atos em prol desta mesma causa. Pelo contrário, continuaremos nesta picuinha PT x PSDB, “fica PT” x “fora PT”, que só serve para os interesses dos poderosos, que estão pouco se lixando para o destino do país. O risco é de deixarmos esta oportunidade passar para focar no alvo errado.