sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Por que tanto ódio ao PT



Agressões e ofensas a ministros petistas nas ruas e restaurantes, ataque terrorista no Instituto Lula, grandes protestos raivosos pedindo a extinção do PT e a cabeça da presidente... vivemos tempos difíceis, de muito ódio e insensatez. É compreensível entender insatisfação com o governo; afinal, poucos concordariam que tudo está bem. Mas por que tanto ódio? Do jeito que algumas pessoas se comportam, parece que um petista entrou na casa delas, roubou tudo, matou a família e deixou de brinde uma estrelinha do PT. Certamente, qualquer antipetista terá uma resposta pronta para explicar por que tanto ódio ao PT, citando os vários casos de corrupção e, agora, a crise econômica. Mas se você acha que o problema é simplesmente a corrupção ou a crise, está muito enganado.

É preciso ressaltar de início que o antipetismo não é um fenômeno novo. O Partido dos Trabalhadores nasceu com uma lógica diferente daquela dos outros partidos: rejeitava a conciliação como forma de transição democrática do regime militar e apontava o caráter elitista deste processo, excluindo a classe trabalhadora e os movimentos sociais do debate. Questionar a pretensa “paz” entre as classes sociais e adotar uma postura combativa, radical com relação à política logo provocou repúdio nos setores conservadores da sociedade, que pretendiam manter tudo como estava e que ainda repetiam o discurso anticomunista de 1964.

Uma vez no governo, esse ódio começa a aparecer de forma mais clara primeiro nas críticas ao Bolsa Família, e depois com o escândalo conhecido como “mensalão”. Sendo assim, uma visão simplista reduziria este ódio a chavões como “a elite não quer que pobre ande de avião” ou “o PT é partido mais corrupto do Brasil”. É verdade que nada disso está totalmente longe da realidade, mas é um pouco mais complexo do que isso.

Engana-se, primeiro de tudo, quem pensa que o ódio parte da elite. Quer dizer, da elite mesmo, dos ricos, milionários. Não, essa gente pode até não simpatizar com as ideias do PT, mas, no geral, eles nunca ganharam tanto dinheiro. A elite pode até preferir outro partido no poder, por achar que poderia lucrar ainda mais, mas o PT, do jeito que é hoje, não lhe representa uma ameaça real. O ódio contra o PT vem mesmo dos setores de classe média tradicional e alta.

Se o Brasil cresceu e se desenvolveu durante o governo do PT (quer dizer, até há uns dois anos atrás), por que a classe média teria ódio do partido? Sim, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres ficaram menos pobres, mas a classe média... bem, a classe média, na melhor das hipóteses, ficou estagnada. Sendo mais pragmático, a classe média perdeu privilégios, e nada irrita mais um grupo do que a perda de privilégios.

Explico: como já disse, é muito mais complexo do que “o aeroporto virou rodoviária, agora tenho que dividir avião com pobre”. A classe média perdeu mesmo alguns privilégios. Basta lembrar como era o Brasil de 30 anos atrás: os ricos levavam vidas nababescas, e a classe média uma vida bastante confortável, com pouca dificuldade para ingressar na universidade e depois arranjar um emprego bom com salário razoável. Casa, carro, tudo estava a seu acesso, inclusive poder pagar escola particular pros filhos e ter uma empregada que dormisse em casa, numa extensão tenebrosa da senzala.

Agora voltemos para 2015. Os pais desta família de classe média estão se aposentando muito depois do que gostariam, e com um salário menor do que pretendiam. Seus filhos não têm a vida fácil que seus pais tiveram: ter um diploma universitário não é mais o bastante, e os salários iniciais estão cada vez mais baixos. Como os mais pobres tiveram uma ascensão social, aumentou a concorrência por vagas, tanto nas melhores universidades (que, agora, também têm cotas raciais) quanto no mercado de trabalho, então esses jovens estão tendo que se esforçar como nunca sem conseguir alcançar o nível de conforto que seus pais tinham. Ter casa e carro no seu nome aos 30 anos? Esqueça, com o custo de vida mais alto, isso está cada vez mais difícil. Como a procura está cada vez mais alta, escolas particulares também estão mais caras, assim como convênios de saúde, diminuindo cada vez mais a quantia que a família pode gastar com supérfluos, como viagens e restaurantes. Empregada então, nem pensar, ainda mais uma que durma no emprego. A oferta diminuiu, os salários subiram muito e, para completar, elas ainda conquistaram direitos trabalhistas, o que complicou tudo. Só rico para conseguir manter uma empregada doméstica hoje em dia.

Dizendo de forma mais explícita, sem se mexer muito mais do que estava acostumada, a classe média não consegue mais manter o nível de conforto que tinha no Brasil de antigamente. Enquanto ela vê notícias e mais notícias dizendo que o país está melhorando, ela não enxerga isso na sua realidade, além de ver a sua qualidade de vida piorar. Ademais, a classe média não entende que história é essa que os mais pobres melhoraram de vida. Ainda há favelas, ainda há criminalidade, ainda temos níveis educacionais muito baixos, então que melhora é essa? Mas como Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, bem disse em sua campanha eleitoral, a vida das pessoas melhorou da porta de casa para dentro, não para fora. Quem apenas passa de carro por fora realmente não enxerga, e isso apenas se compreende entrando na casa das pessoas e percebendo o conforto que elas adquiriram: TV, DVD, computador, carro, geladeira, fogão, máquina de lavar, videogame, etc. Sem falar na maior possibilidade de aquisição de serviços, como viagens de avião, comer em restaurantes, etc. Todos itens aparentemente supérfluos, mas que são uma conquista para essa gente que só via esses aparelhos nas novelas e nas casas dos patrões.

Sendo assim, esta classe média tradicional não se vê contemplada pelo PT. Pior, olha o partido como se agisse deliberadamente contra ela, enchendo-a de impostos e dificultando cada vez mais a manutenção do seu conforto (leia-se: privilégios). Há um caráter egoísta nesta análise, insensível aos anseios dos mais pobres, mas não é totalmente injustificável. Esse, de fato, foi um dos grandes erros do PT: sobrecarregar a classe média com uma política de redistribuição de renda sem mexer nos privilégios dos mais ricos. É claro, a crítica de que o PT promoveu a inclusão social através do consumo, e não por serviços públicos de maior qualidade, é inteiramente válida. Contudo, é perfeitamente compreensível que os setores mais pobres se sintam, pela primeira vez, vislumbrados por um governo que possibilitou o acesso a confortos que antes apenas a classe média poderia desfrutar.

Dito tudo isso, não é possível negar que a corrupção contribuiu para a forte rejeição ao partido de alguns setores da sociedade. O grande problema foi o PT posar de partido da ética e depois repetir os mesmos malfeitos que outros partidos cometiam. Parte da indignação, portanto, vem disso, de depositarem confiança no PT, e depois se decepcionarem amargamente ao ver que era só mais um partido como os outros. A sensação de ter a esperança traída tende a provocar uma debandada ao lado oposto do espectro político. Não é à toa que o país com mais neonazistas na Europa seja a Rússia, após a decepção com a queda do socialismo.

Mas quem pensa que “nunca houve tanta corrupção nesse país” ou é hipócrita ou muito inocente. Nunca se roubou tão pouco no Brasil, pelo menos de forma sistêmica, e o que ainda é muito, sem querer aqui diminuir o peso da culpa, muito menos justificar os erros do PT de se envolver em casos de corrupção. Até mesmo o empresário tucano (?) Ricardo Semler reconheceu o mesmo. A grande diferença é que, antes, nada era investigado e ninguém era punido, salvo casos excepcionais. Isso é tão verdade que já ouvi um funcionário público reclamando que uma das razões que tinha raiva do PT é que até para roubar tinha ficado mais difícil.

Não é o que mídia faz parecer, é verdade. O seu papel foi crucial para fixar na mente das pessoas a ideia de que o PT não apenas era um partido corrupto como todos os outros, mas que era ainda pior, como uma organização criminosa. Com uma predominância de veículos de direita na grande mídia, interessados em derrubar o PT ao mesmo tempo em que poupam a oposição (entende-se: PSDB) da mesma agressividade, formulou-se entre a classe média, a maior consumidora deste tipo de mídia tradicional, a crença de que o PT era o problema. Não é o sistema político-eleitoral, não é a nossa cultura do “jeitinho”, do pouco respeito à coisa pública, não são os mais poderosos o problema. A culpa é, simplesmente, do PT.

Misture tudo isso num caldeirão, adicione junho de 2013, que fez a direita redescobrir os protestos de rua, e conclua com uma grave crise econômica, e temos o triste cenário fascista de hoje em que o objetivo de alguns é destruir o PT, mesmo que com isso destrua-se a democracia e o país juntos. Os últimos acontecimentos de pedido de impeachment sem base legal para tanto expõem a velha tradição da direita brasileira de pouco apreço à democracia. E a história se repete como farsa com o PSDB adotando o mesmo caráter golpista da UDN de mais de 50 anos atrás.

No fim, para evitar maiores tragédias, é preciso lembrar que política nunca deve ser praticada com ódio. A história fornece inúmeros exemplos de que isso nunca acaba bem. Há inúmeros motivos para se estar insatisfeito com o governo atual e com a atuação do PT no poder, especialmente por parte da classe média. Nada que justifique, no entanto, o ódio desmedido a um partido só. É muito fácil adotar o PT como vilão e não reconhecer que os problemas que assolam o Brasil são muito mais complexos do que isso. E o risco de seguir esta lógica, infelizmente, é de retroceder nas poucas conquistas que tivemos nos últimos anos, devolver o país às mãos daqueles que nunca se preocuparam em melhorá-lo e deixar o sonho de país fraterno, desenvolvido e justo cada vez mais distante.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Notas sobre a rejeição de contas no TCU



A presidente Dilma Rousseff conseguiu a façanha de ser a 1ª presidente a ter as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União. Isso abre as portas para um impeachment? Não necessariamente. Neste momento delicado, de crise política e econômica, cabe ressaltar alguns pontos que não estão claros para aqueles nos extremos do debate.

Primeiro de tudo, o parecer do TCU não tem caráter definitivo, mas consultivo. Quem decide pela rejeição das contas é o Congresso Nacional. Se este aprovar o parecer do TCU, aí sim as contas do governo são rejeitadas. No entanto, há várias ressalvas para o que pode ocorrer.

O primeiro problema é que isso nunca ocorreu com um presidente. Quando ocorreu, em especial com governadores, a punição foi de multas a até a perda de elegibilidade; ou seja, o político não poderia concorrer a cargo público por determinado período de tempo. Nunca serviu para um processo de impeachment.

O argumento da oposição é de que isso poderia se configurar como crime de responsabilidade, a base jurídica para o impeachment. Mais uma vez, outro problema: não há nada que fundamente que a rejeição das contas considere um crime de responsabilidade. Não há precedente de interpretação assim. Teria que ser decidido pelo Supremo Tribunal Federal. E ainda há um fator mais complicado: o ato foi feito em governo anterior. Ou seja, ainda teria que ser avaliado se a presidente Dilma Rousseff pode ser punida por crime de responsabilidade no seu mandato atual por atos de mandato passado, e a jurisprudência tende a dizer que não. Diversos juristas já se manifestaram que o argumento para o impeachment, com base nas "pedaladas fiscais", de fato, é fraco (até porque governos anteriores fizeram o mesmo, embora em menor grau).

Claro, isso pouco importa para os oposicionistas. Um motivo técnico, mesmo que fraco, é o suficiente para inflamar o discurso pró-impeachment, mesmo que isso fosse negativo para o país. Para o governo, Dilma e o PT, mesmo que isso não resulte num impeachment, a rejeição das contas é desmoralizante. Significa irresponsabilidade com as contas públicas e os esforços para omitir isso de modo a se manter no poder a qualquer custo. Um eventual impeachment encorajaria a postura do PT de posar de vítima, com algum “quê” de razão. A melhor punição deveria vir das urnas, fazendo o partido refletir sobre seus atos e perceber que o seu método de governar entrou em falência.

A situação piora ainda mais a crise política, que, por sua vez, complica mais a crise econômica. O melhor seria que a primeira terminasse para que a sociedade e o governo focassem em como resolver a segunda. No entanto, parece que o Brasil ainda terá tempos sombrios pela frente. O que, no final das contas, não beneficia ninguém.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O voo e a queda de Eduardo Cunha



A mitologia é repleta de histórias que nos ensinam muito sobre os fatos do cotidiano. É o caso de Ícaro, o homem que, na mitologia grega, ganhou asas. Assoberbado pela liberdade que as asas lhe davam e pela sua beleza quando refletida nos raios solares, Ícaro ignorou os repetidos apelos de seu pai para não se aproximar do sol. Assim, só foi perceber tarde demais que suas asas estavam sendo derretidas pelo calor. Em desespero, acabou suplicando por seu pai enquanto caía em queda livre até o oceano para a sua morte.

Me pergunto se Eduardo Cunha conhece esta história. Para quem não o conhece, ele não é nenhum novato na política: seu nome aparece nas notícias de corrupção desde o governo Collor, com forte ligação com o notório PC Farias enquanto assumiu um cargo na Telerj. Também se destacou por ser um eficiente lobista de empresas de telecomunicações, assumindo um papel de destaque, por exemplo, contra o Marco Civil da Internet. Mas nada se compara ao destaque que conquistou agora como Presidente da Câmara dos Deputados.

Cunha ganhou muito em sua trajetória política. Mas parece que o sucesso lhe subiu à cabeça. O bom de fazer política nos bastidores é que ninguém nota muito no que você está fazendo, embora mantenha grande influência. Só que quando você fica em evidência, embora também tenha mais poder, é mais fácil de ser derrubado. E agora, no caso de Cunha, a acusação de ter pedido US$ 5 milhões em propina pode cair como uma pá de cal na sua longa e bem-sucedida carreira política.

O deputado sabe que seu fim deve estar próximo, mesmo com todas as manobras que tem feito para evita-lo. Porém, diferentemente de um honrado capitão de navio que deixa todos se salvarem para depois buscar a própria salvação, Cunha quer garantir que, se o barco afundar, ele leve o maior número de pessoas consigo. Outros deputados, ministros, a presidente Dilma Rousseff, e, se possível, a própria República. Se ele não pode mandar no Brasil, que ninguém mande, e levemos todos o país ao buraco.

Contudo, apesar da sua postura apocalíptica (muito cristã, aliás, o que condiz com o fato de ser evangélico), nada deve impedir a degola de Cunha. Até o seu impetuoso pronunciamento na televisão virou motivo de piada, tamanha a falta de traquejo na frente das câmeras. Após anunciar o rompimento formal (que, na prática, já existia) com o governo, esperava que outros o acompanhassem. O governo declarou o ato como “pessoal”. Seu partido também. Poucos aliados lhe declararam apoio, muitos têm mantido o silêncio, com medo de afundarem junto, e alguns já pedem sua cabeça. O PSDB, antes seu parceiro na cruzada contra o PT, fingiu que não tinha nada com isso.

A pergunta que resta é: até quando ele fica? Dizem que em agosto os procuradores devem fazer uma denúncia formal aos casos mais graves e com provas mais consistentes, como o de Cunha. Se isso se realizar, sua queda será inevitável. E, diga-se de passagem, vai tarde. É inadmissível que alguém permaneça no cargo de presidente da Câmara depois de acusações gravíssimas como essa, ainda mais repleta de fortes indícios de veracidade.

Se ele sair antes dos protestos contra a presidente Dilma marcados para 16 de agosto, melhor ainda. Perdem força aqueles que acham que um impeachment seria solução para a crise política e econômica que abate o país. Por outro lado, cresceria também a ideia de que só uma ampla reforma política pode devolver algum resquício de legitimidade ao Congresso Nacional, que, de longe, é a instituição mais falida do país. Tudo vai depender da força do insensato e exacerbado antipetismo que tem reinado na discussão política do Brasil. É isso que tem tirado o foco daqueles, como o dito cujo, que só pensam em afundar o país junto com eles.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Precisamos de outro 7x1



Há exato 1 ano, eu estava lá no Mineirão, em Belo Horizonte, assistindo ao fatídico Brasil x Alemanha que nunca vai ser esquecido. Meu relato desta experiência pode ser lido aqui, mas se eu pudesse acrescentar algo, diria que saí levemente otimista de lá. Afinal, uma tragédia destas havia de causar alguma mudança séria na administração do futebol brasileiro, fazer as pessoas repensarem tudo que estava ocorrendo ao seu redor. Que nada... estava redondamente enganado.

A comissão técnica praticamente se abdicou da responsabilidade, dizendo que até ali tinha sido um trabalho bem feito. A CBF agiu como se não fosse com ela. Os jogadores trataram como se fizesse parte do esporte. E tudo seguiu como antes... ah não, espera, pior: aí pra resolver a questão, eles trouxeram o Dunga de volta. Assim, nada contra a pessoa dele, mas é como se estivessem tentando curar um paciente com uma droga já tentada anteriormente. "Tenta de novo, vai que agora dá, né?" E o brasileiro? Fizeram protestos, depredaram a sede da CBF? Nada. Aceitaram passivamente, como se não tivesse jeito mesmo.

Só que não ficou por aí, muito menos restrito ao futebol. Logo em seguida, tivemos possivelmente o pior processo eleitoral desde 1989, elegendo o Congresso mais conservador desde 1964, e com um nível de debate extremamente baixo. No último minuto, uma matéria suja de uma revista desonesta tentou mudar o resultado do jogo, mas não foi o suficiente. Só que talvez teria sido melhor se mudasse: reelegemos uma presidente que fez campanha de esquerda para, logo em seguida, jogar todo o discurso fora, adotar uma agenda de direita e fazer tudo aquilo que tinha prometido não fazer.

Já deu? Espera, que tem mais. O candidato derrotado, não sabendo perder, mesmo que por pouco (bola na trave não é gol, amiguinho), fez um circo junto a seus eleitores, questionando o resultado e entrando numa cruzada para desmoralizar o sistema eleitoral. Como isso não deu certo, agora ele e seu partido embarcam na aventura de tentar derrubar a presidente a qualquer custo. Esta que, diga-se de passagem, conseguiu o “mérito” de ter uma aprovação tão alta quanto o índice de inflação, ficando na corda bamba seja por lambanças nas contas públicas, seja por um escândalo de corrupção que atinge tudo e todos.

No meio da disputa entre um partido desmoralizado que contou lorotas para se manter no poder e outro que faria a mesma coisa, mas age como se não tivesse nada a ver com isso, um presidente da Câmara dos Deputados, que deve estar assistindo muito a uma série do Netflix, manda e desmanda no país, atropelando o regimento e a Constituição, e jogando com governo e oposição, que tentam ambos agradá-lo. Aprova-se então a doação de empresas a partidos políticos – o cerne de toda a corrupção – em uma reforma política mais falsa que nota de 3 reais, e adota-se uma agenda conservadora que busca soluções simples e ineficazes para problemas graves, como a redução da maioridade penal.

E, para piorar, o grande público aplaude. Não só aplaude como participa da barbárie. Protestos contra a corrupção vestindo a camisa de uma instituição corrupta, pedidos de intervenção militar, marchas organizadas por adolescentes que mal entraram na universidade, mas já acham que sabem mais que os professores, um horror que só. E pior, tudo baseado na crença de que um partido personifica a corrupção no país. Sim, apenas um partido e seus membros é que são o problema. Aí fazem vídeo nervosinho no YouTube, agridem pessoas na rua, fazem adesivos que simulam a presidente sendo violentada, lincham e amarram no poste o suposto bandido, buscam a justiça com as próprias mãos... e tudo travestido de um nacionalismo fajuto conjugado a um ódio pelo próprio povo. Contraditório? Imagina, é apenas Brasil.

Ah, já ia esquecendo do futebol. Foi preciso que a justiça dos EUA (oi?) prendesse o presidente da CBF, e nem assim as coisas mudaram. Sai o número seis, entra o meia dúzia. Sabe como é... futebol, feijoada, e nada acontece. Ou melhor, tudo se repete. Neymar fica fora da Copa (América) depois de jogo contra a Colômbia e Brasil perde (de novo) para o Paraguai nos pênaltis (outra vez). Nem o futebol feminino, coitado, que não tem nada a ver com a história, conseguiu dar alegria (aliás, alguém viu ou ouviu falar na TV brasileira que havia Copa do Mundo de futebol feminino?). Perderam para a fraca Austrália num jogo tão ruim que pareciam os homens jogando.

Tudo isso só me leva a concluir como fato uma piada que se consagrou: 7x1 foi pouco, muito pouco. Na verdade, não foi nada. O Brasil merece mais. Parece que outro 7x1, seja na área que for, é iminente, questão de tempo. Que assim seja, então. Quem sabe outra tragédia acorde, enfim, o brasileiro para a realidade. Ou talvez não, talvez eu esteja sendo levianamente otimista outra vez. O grau de insensatez cresceu tanto que virou passeio. Pois é... precisamos mesmo de outro 7x1. E urgente.

sábado, 4 de julho de 2015

O futuro nas mãos da Grécia



Amanhã, ocorrerá o referendo que pode decidir o futuro da Grécia e da Europa. Os gregos terão a opção de dizer “sim” ou “não” ao plano de ajuda financeira e austeridade oferecido pela “troika” (Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional). Muitos, no entanto, têm erroneamente interpretado o referendo como uma decisão sobre a Grécia permanecer na zona do Euro e até mesmo dentro da União Europeia. Só que a questão é muito mais complexa do que isso.

Caso o “não” vença, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, do partido Syriza, prometeu voltar à mesa de negociações com novos termos, amparado pela vontade do povo grego. E aí, sabe-se lá o que o futuro espera. Caso o “sim” vença, isso será uma derrota do governo, que prometeu renunciar se for este o resultado.

Na realidade, a Grécia já sofreu muito com a famosa austeridade implementada nos últimos anos. Sim, o Estado grego era inchado, com alguns benefícios insustentáveis e mal utilizados. Sim, os governos anteriores foram irresponsáveis de adquirirem dívidas impagáveis. E, sim, dívidas adquiridas devem ser pagas. Porém, a Grécia tem feito de tudo para pagar essa dívida, e o que o seu povo ganhou? Uma queda no PIB de cerca de 25%, um desemprego também de 25%, um êxodo das melhores cabeças do país, e assim vai. Um país em frangalhos, que perdeu a confiança em si mesmo.

Agora, pensando o outro lado, da “troika”, até que ponto querem levar a Grécia para que esta pague suas dívidas? Muito já foi pago, e os juros continuam a se acumular. Não seria hora, então, de perdoar ao menos parte da dívida? Renegociar os termos para que o país consiga se reerguer, até por uma questão humanitária? Ou os bolsos de banqueiros, que já estão cheios, são mais importantes do que a situação socioeconômica de uma nação inteira?

O povo grego, cansado dos partidos tradicionais e de uma política que arrasou o seu país, elegeu um partido não-tradicional de esquerda, Syriza, justamente para acabar com a austeridade. Desde então, o primeiro-ministro Tsipras, junto a seu destemido ministro das Finanças, Yannis Varoufakis (provavelmente o único ministro das Finanças a ser celebrado e abraçado no meio da rua pelo seu povo) têm lutado ferozmente contra o que a “troika” tenta impor ao povo grego. Por outro lado, a mesma "troika", encabeçada pelo líder da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, coloca a Grécia contra a parede, evitando negociar termos mais favoráveis com o Syriza com medo de que outros países, como Portugal, Espanha, ou até mesmo Itália, sigam pelo mesmo caminho. O sucesso do Syriza abriria as portas para outros movimentos similares conquistarem o mesmo em seus países, e é o que esse grupo menos quer. Assim, sacrifica-se a Grécia para salvar um sistema antidemocrático, submisso ao poder financeiro e que ameaça o sonho de uma Europa unida.

Mas o perigo de um fracasso do Syriza é ainda maior. Como David Harvey já disse numa entrevista, com a perda de confiança do povo grego nos partidos tradicionais, se o Syriza fracassar, a alternativa que resta é o fascismo, representado pelo partido Aurora Dourada. Afinal, em um cenário de crise, é natural que as pessoas recorram aos extremos. A Europa já conheceu o resultado de permitir que movimentos de extrema-direita cheguem ao poder, e nunca chegamos tão próximo de um cenário assim, com uma crise econômica forte e uma onda de xenofobia, em mais de 70 anos. Será mesmo que vale a pena destruir o Syriza – tudo em prol de um lucro maior – para colocar alguém bem mais perigoso à Europa no lugar?

As pesquisas de opinião, no momento, estão divididas. Embora o “não” tenha começado bem à frente, o medo com relação ao futuro fez com que muitos gregos mudassem de ideia e defendessem o “sim”. Eles não querem mais austeridade, mas também não querem sair da zona do Euro nem sair da União Europeia. Uma amiga grega admitiu que, com dor no coração, iria votar “sim”, pois acha que o seu país está à beira da ruína e, infelizmente, o governo do Syriza não tinha apresentado nenhum plano para o futuro, o que a deixava insegura. O medo, neste caso, venceu a esperança. Porém, ela acredita que o clima na Grécia seja de uma vitória do "não", apesar de ninguém saber o que pode ocorrer.

De fato, o grande desafio para a esquerda grega (e mundial) é oferecer um futuro plausível, que não seja apenas um sonho, de alternativa à austeridade e ao controle financeiro sobre a política. A política não pode ser feita apenas de belos discursos e ideais bonitos, as pessoas também querem ações. E enquanto a esquerda fracassar em apresentar uma alternativa aos desmandos da direita e do capital financeiro, principalmente quando for chamada para assumir o governo e arrumar a casa, ela sairá mais enfraquecida e perderá mais terreno na disputa política.


De qualquer modo, o resultado do referendo de amanhã deve balançar as estruturas da Europa. A escolha é entre a resignação de um caminho sem saída ou um tiro no escuro pela esperança de um futuro diferente e melhor. O sistema financeiro e os líderes da troika pedem para que os gregos votem “sim”; a esquerda e intelectuais ao redor do mundo pedem para os mesmos digam “não”. Há quem diga que votar “não” significa colocar tudo a perder. Mas para quem não tem mais nada, aceitar mais uma humilhação pode representar a perda de nada – a não ser de si mesmo. A decisão, todavia, é somente dos gregos. Os inventores da democracia, ironicamente, decidirão os rumos de seu país e da Europa através do voto. Que prevaleça a vontade do povo.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Marcha pela Liberdade e o fracasso do liberalismo



Lembram daquela marcha até Brasília que o Movimento Brasil Livre, “liderado” pelo Mao Tsé Tung da direita, o Luis Carlos Prestes às avessas, Kim Kataguiri? Aquele mesmo, que se vangloriou de ter colocado mais de 1 milhão de pessoas na rua (de acordo com a contagem isenta da PM paulista)? Sim, aquele que respondeu ao convite para uma entrevista enviando a foto de uma bunda? Pois é, o que nem parecia que ocorreu já acabou também, nesta última quarta-feira, dia 27 de maio, reunindo 300 míseras pessoas, quando se pensava em juntar 30 mil.

A famigerada “Marcha Pela Liberdade” – como eles chamaram – para pedir o impeachment de Dilma Rousseff, se fosse digna de ser lembrada na história, seria pelo menos conhecida como a Marcha do Fracasso. Já não bastasse o mico de inventar uma marcha apoiada por alguns carros e ônibus (porque é muito fácil caminhar alguns quilômetros por dia quando você pode mais tarde descansar os pezinhos dentro do ônibus, sem dormir no relento). O que será que esperavam, que pessoas do país inteiro se juntassem a eles? Oras, eles até tinham apoio de uma parcela da população, mas é aquela que vive se vangloriando em relação aos movimentos de esquerda de que ela trabalha e, portanto, não tem tempo para essas vagabundagens. Afinal, só vagabundo para poder ficar marchando por mais de um mês, recebendo financiamento sei lá de onde e... ops. Por um momento, pensei estar falando de militantes de esquerda.

A marcha teve ainda um episódio triste, um acidente que feriu Kim e outra ativista que ali estava. Menos mal que ninguém se feriu gravemente. Mas até um acidente se torna mico quando o mascote mirim dos liberais precisa ser socorrido pelo SAMU, do serviço público de saúde. O Estado, aquele velho e grande Estado que os liberais tanto detestam, mas para o qual sempre pedem socorro quando estão em apuros. Sempre. E para piorar – ou colocar a cereja no bolo – o pobre rapaz apenas sofreu o acidente por causa de um motorista bêbado. Isso depois que a página do Instituto Mises publica um texto defendendo o direito de dirigir alcoolizado, contra a intervenção do Estado. Ahh, esse Estado maldito que não permite que os outros saiam por aí dirigindo bêbados. O jovem defensor do “Menos Marx, mais Mises” deveria ser coerente e lembrar, então, que o motorista estava em seu direito. Afinal, estrada não é lugar para vagabundo ficar andando mesmo, não é?

No fim, a realidade é que o fracasso desta marcha simboliza o fracasso do liberalismo como ideologia. Kim diz ter conseguido reunir mais de 1 milhão de pessoas na Paulista. Dirão que foi mérito seu, fruto do seu próprio esforço. Quis ir mais longe e organizar uma grande marcha. Não faltou atenção da mídia, nem mesmo apoio à ideia que ele defendia. De acordo com o Datafolha, 63% dos brasileiros defendem a abertura do processo de impeachment. Assim, se não faltou publicidade nem um produto atraente, o fracasso retumbante só pode ter sido por falta de esforço. Devia ter andado mais pelo país, usado menos o ônibus. Então se esforce mais da próxima vez, Kim. Mas se algo der errado, não se preocupe, pois o Estado estará lá de novo para te resgatar. Ah, e pra dizer que não ganhou nada, tirou uma foto com a nata da direita conservadora e tudo que há de mais podre na política brasileira. Que fique de souvenir ou (má) recordação.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

“A gente quer impiti… o quê?”



Como esperado, o protesto do dia 12/04 foi menor do que o de 15/03, reunindo cerca de 100 mil pessoas, de acordo com o Datafolha, em comparação com os 210 mil de março. Isso não surpreende por vários motivos: muito tempo se passou de um protesto para o outro; surgiram outras questões no debate político nacional, como o PL 4.330, que regulamenta as terceirizações no país, além dos desmandos do PMDB no Legislativo; não surgiram provas que envolvessem a presidente Dilma no escândalo da Petrobras; além, é claro, da dificuldade de mobilizar uma multidão de pessoas por muito tempo. Quem foi ao 15/03 não é o típico ativista político; portanto, ir uma vez já lhe dá uma sensação de “missão cumprida”, embora o objetivo continue longe de ser alcançado.

Enquanto isso, um dia antes, o mesmo Datafolha divulgou uma pesquisa que mostra que 63% da população brasileira (ou seja, quase 2/3) acredita que deveria ser aberto um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Parece um dado assustador, se não fosse outro achado desanimador: cerca de 59% não sabe o que ocorre no evento de um impeachment. Destrinchando os dados, é pior do que parece: 39% não tem ideia do que acontece, 12% acha que Aécio Neves assumiria o poder e 8% acredita que outras pessoas assumiriam (não o vice). Dos cerca de 42% que sabem que o vice-presidente que assume o poder, cerca de 2/3 (29% de todos os entrevistados) não sabem quem é. Ou seja, apenas míseros 13% sabem que assumiria o atual vice-presidente, Michel Temer, do PMDB. Isso no geral, pois quando se trata de questionar apenas quem apoia o impeachment, há um grau de desconhecimento ainda maior.

Sendo assim, quando chamam os manifestantes de analfabetos políticos, parece que a afirmação não está longe da realidade. A verdade é que há um grau de politização muito baixo no debate político nacional, e surgem assim no imaginário popular soluções mágicas, que já ocorreram antes, como é o próprio impeachment. Todavia, estas pessoas não sabem algumas questões muito básicas da democracia: por exemplo, que impeachment é um instrumento jurídico, que serve para abrir um processo administrativo para destituir um político por crime de responsabilidade no cargo em que exerce. Neste caso, não há qualquer possibilidade de abrir um processo de impeachment contra a presidente Dilma, pois não há qualquer indício de envolvimento ou responsabilidade da presidente pelo escândalo da Petrobras. “Ah, mas o dinheiro da campanha dela em 2010 veio de propina”. Se for comprovado isso, que se abram os devidos processos legais. Porém, mesmo que isso seja comprovado, como o procurador-geral da República advertiu, não se trata um crime de responsabilidade, pois não é um ato que Dilma teria cometido enquanto no cargo de presidente, impossibilitando seu impeachment. E pela legislação atual, ela só poderia ser investigada e punida depois de deixar o cargo.

Além disso, a maioria da população defende impeachment por uma razão muito simples: não é porque sabem o que é um impeachment, mas por que a maioria está insatisfeita com o seu governo e quer que ela saia. Esse é um sentimento inteiramente válido; porém, insatisfação com o governo e querer colocar outro no lugar não são motivos para impeachment. A presidente Dilma foi eleita para os próximos 4 anos; portanto, se querem outra pessoa no lugar, aguardem 2018. É claro que podem pressionar a presidente para renunciar ao cargo, o que é, também, completamente válido. Porém, a pressão teria que ser realmente muito grande, de todos os setores da população, o que a impossibilitaria de continuar no cargo. Até o momento, apesar de toda a sua fragilidade em manter a base aliada, não é o que está ocorrendo.


O problema, enfim, como foi dito, é que estamos vivendo um momento em que o grau de politização é muito baixo, o que é péssimo para a democracia e perigoso para o país. Demonizar um partido ou um grupo político esconde os vícios de outros partidos que são mais similares do que parecem, quando não piores. Além disso, são em momentos assim em que surgem soluções milagrosas, como o impeachment, neste caso, como se fosse resolver todos os problemas do país (colocando o PMDB no poder? Aham, senta lá, Claudia) ou salvadores da pátria, o que é muito pior. Ainda não surgiu nenhum político que capitalizasse a crise política que vivemos. Ainda. Só que o fantasma de um novo Collor continua a nos rondar. Resta saber se a história, que já se repetiu como tragédia, vai se repetir como farsa, como diria Marx.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mídia protege FHC e PSDB, mas quem se importa?



Quando eu era criança, eu achava que tudo que estava escrito era verdade. Se saiu no jornal, tinha que ser verdade, como que alguém seria irresponsável de escrever algo que não era verdade? Santa inocência! Com o tempo, você vai descobrindo que, no mundo dos adultos, erros, omissões e distorções da verdade realmente acontecem, para a nossa decepção. Às vezes, por acidente, é verdade. Em outros momentos, entretanto, totalmente de propósito.

“Podemos tirar, se achar melhor”. Esta é a frase, em parênteses, que um jornalista escreveu em artigo da Agência Reuters logo após um parágrafo lembrando que Pedro Barusco admite ter começado a receber propinas na Petrobras em 1997, ainda no governo FHC. A ideia por trás da mensagem é simples: podemos adicionar esse parágrafo falando que a corrupção começou no governo FHC, mas se o editor achar que é melhor omitir essa informação, podemos tirar. O recado era confidencial, é claro; pena que alguém esqueceu de tirar antes de publicar.

Essa intenção na mídia de proteger FHC e o PSDB não é exatamente novidade. Recentemente, vazou ainformação de dentro da Globo que a ordem era para não citar o nome de FHC em matérias relacionadas ao escândalo da Petrobras (vulgo Petrolão). O malabarismo é tanto que, quando necessário, precisam dizer que a corrupção na estatal começou no período anterior ao governo petista, sem citar nomes ou partidos, como se vê no truque realizado pela Globonews na imagem inicial do post. Tudo para que os telespectadores continuem associando a corrupção apenas ao PT.

E não é só neste escândalo que a mídia agiu de forma parcial. Quem colocou na Globonews no domingo, dia 15 de março, pôde acompanhar uma cobertura cinematográfica, o dia todo, das manifestações contra o governo Dilma, que totalizaram 210 mil pessoas, de acordo com o Datafolha (ou 1 milhão, de acordo com a isenta e imparcial – só que não – PM paulista, número com o qual os jornalistas da Globonews se regozijavam ao citá-lo repetidas vezes). “As maiores manifestações populares desde as Diretas Já”, eles diziam. Tudo bem então... mas alguém ouviu falar de uma manifestação no dia 20 de março, quando dezenas de milhares de professores estaduais tomaram a Av. Paulista em greve? Não? Pois é. Para a mídia, um protesto contra o governo estadual de Geraldo Alckmin, do PSDB, parece não ser tão importante.

A questão da água em São Paulo foi outra em que a mídia agiu de forma lamentável. Apesar de inúmeros especialistas apontarem que o motivo da falta d’água era essencialmente por má gestão dos recursos hídricos (ou seja, falta de investimentos, preparação e competência do governo do estado), a mídia insistiu na tese repetida pelo governo estadual que tudo era em razão da falta de chuvas. Em pleno século XXI, querem nos convencer de que dependemos das chuvas para ter água, assim como homens das cavernas, embora lugares muito mais secos e com índices pluviométricos muito mais baixos do que a “grande seca” que São Paulo sofreu ainda conseguiam ter água disponível para a sua população. Coitado de São Pedro...

Mas para não ficar parecendo paranoia, ou se basear num aparente “achômetro”, utilizemos estudos a respeito para comprovar este viés da mídia, então. Um grupo de estudantes e pesquisadores da UERJ fez uma análise de conteúdo dos principais veículos de informação, criando o que eles chamaram de Manchetômetro, e comprovou que a mídia batia muito mais em Dilma e no PT do que qualquer outro candidato e partido. Alguns podem dizer que isso ocorre porque o PT está no governo e, portanto, está mais em evidência. Mas e o governo estadual do PSDB? Quando se vê alguma notícia ou manchete negativa a respeito? Para os inocentes que disserem que não há nada negativo a se reportar, resta lamentar. O próximo passo dos criadores do Manchetômetro, no entanto, é interessante: comparar a atuação da mídia na reeleição de Dilma com aquela na reeleição de FHC. São resultados pelos quais vale a pena aguardar.

Mesmo assim, dito tudo isso, fica a pergunta: quem se importa que a mídia protege o PSDB? Porque, se ela estivesse protegendo o PT, ia ser um escândalo de enormes proporções. Diriam que o governo está comprando a mídia, que estamos nos tornando a Venezuela, uma nova ditadura, etc. Quando é o contrário, as pessoas agem com a maior naturalidade. O PT é demonizado, o PSDB é protegido, apenas a ordem natural das coisas. Mas se a mídia serve como o 4º poder em uma democracia, controlando a informação divulgada e vigiando as instituições e os políticos, certamente algumas regras, alguns limites devem ser impostos. Se não, quem vigia os vigilantes? 

Todavia, quando setores da esquerda falam de democratização e regulamentação dos meios de comunicação, inúmeras pessoas se levantam em revolta, dizendo que é censura (apesar disso ser bastante comum em países desenvolvidos e democráticos). É como se dissessem: “Ei, deixem-nos permanecer ignorantes, não queremos uma mídia mais democrática e plural!” E o resultado final é este, uma classe média (a maior consumidora da grande mídia) cada vez mais idiotizada, repetindo o que formadores de opinião lhes ensinam, como, por exemplo, a ter ódio de um partido e a achar que não há corrupção no outro. É triste. Pobre da democracia. Pobre de nós, brasileiros.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um novo junho?



15 de março de 2015 chegou e trouxe grandes manifestações por todo o Brasil. De acordo com o Datafolha, apenas em São Paulo, na região da Av. Paulista, cerca de 210 mil pessoas foram à manifestação. Nem se compara com as manifestações convocada pela CUT dois dias antes, no dia 13/03, em defesa da Petrobras, da democracia, dos direitos trabalhistas e da reforma política, que reuniu, também de acordo com o Datafolha, 41 mil pessoas (note que no ato de sexta-feira, a PM minimizou o número de manifestantes, calculando 10 mil presentes. Já no ato do domingo, calculou cerca de 1 milhão. Tendenciosos? Imagina!). Assim, ainda de acordo com o Datafolha, este seria o maior protesto na capital paulista (e no país) desde as Diretas Já. Será que estamos, portanto, entrando em um novo ciclo de protestos como em junho de 2013?

Primeiro de tudo, devo dizer que discordo da conclusão do Datafolha. É preciso lembrar que o instituto não mediu o número de manifestantes na segunda-feira do dia 17 de junho de 2013, quando os atos do Movimento Passe Livre atingiram um ápice em São Paulo. Estando presente naquele momento histórico, e de acordo com algumas estimativas, acredito que o número de manifestantes naquele dia era levemente superior ao de ontem. Além disso, no dia 20 de junho de 2013, pesquisadores estimam que 300 mil pessoas saíram às ruas na Candelária, no Rio de Janeiro. Um número, portanto, superior aos de ontem em São Paulo.

Em segundo lugar, não é possível afirmar a possibilidade de um novo junho pura e simplesmente porque junho nunca acabou. O espírito de junho se mantém bem vivo e, hoje, estamos apenas testemunhando um desdobramento de um processo que começou naquele período. O gigante que acordou nunca voltou mesmo a dormir, mas se manteve desperto, desorientado e irritado, fazendo emergir, de tempos em tempos, a sua fúria contra tudo e contra todos.

Este processo, é verdade, não teve um resultado claro nas urnas, a não ser com o aumento de abstenções e de votos brancos e nulos, além de um desgaste do petismo, apesar da (apertada) reeleição de Dilma Rousseff. Contudo, nas ruas, o efeito se manteve claro, com um aumento de greves e manifestações, além de uma mobilização política maior de movimentos de direita. Lembremos que junho de 2013 começou com atos organizados por um grupo de esquerda, o Movimento Passe Livre, que, porém, trouxe indivíduos à rua, a maioria pela 1ª vez, incomodados com os excessos cometidos pela PM, além da insatisfação latente com a corrupção, a inflação e o alto custo de vida. Trazendo pautas de direita, como a rejeição aos partidos e um discurso anti-governo, eles causaram um recuo da esquerda, fazendo com que os protestos perdessem o foco e acabassem se dispersando. Todavia, estas pessoas que aprenderam a força das ruas pegaram o gosto da coisa, e o desejo de voltar para lá permaneceu. Ontem foi apenas o resultado deste anseio latente que voltou a florescer.

Algo notável – e inegável – do ato de ontem é que era predominantemente de pessoas brancas de classe média. Em junho, a periferia acabou se juntando aos protestos, embora tardiamente; desta vez, esta adesão é mais improvável, embora o eventual aumento do desemprego deva acender a insatisfação dentre as camadas mais pobres com o governo Dilma. A faixa etária dos presentes também era mais alta do que o comum, condizente, também, com a adesão de grupos não-tradicionais tardiamente nas jornadas de junho, depois dos jovens e estudantes darem início aos atos.

Além disso, como previsto, as pautas eram bastante difusas: alguns queriam o impeachment; outros queriam uma intervenção militar, esbanjando faixas e pedindo “socorro” às Forças Armadas e à comunidade internacional para protegê-los do bolivarianismo e do comunismo (?); e mais uns outros, provavelmente a maioria, esteve presente para expressar a sua insatisfação com a corrupção, a piora da economia, etc, sem necessariamente defender alguma das outras duas causas. Como o ato atraiu bastante atenção, saindo das redes sociais e ganhando a mídia tradicional, ele foi tratado como um evento social, ganhando um clima mais de festa (e pelo vestuário das pessoas, parecia Copa do Mundo) do que de protesto, o que ajudou a inflar o número de participantes, apesar do discurso ainda virulento de ódio e repleto de antipetismo. Entretanto, pelo mesmo motivo, e diferentemente de junho, o ato não deve desencadear uma série de grandes protestos diários. A enorme maioria dos manifestantes não é ativista tradicional, não tendo, portanto, o pique e a disposição para se dedicar diariamente à causa. Mesmo assim, outro ato foi marcado para o distante dia 12 de abril, que, salvo se acontecer algum fato novo, deve atrair menos participantes do que ontem.

Dito isso, em termos de repercussão política, o PT ainda está mais perdido que cego em tiroteio. É verdade que a grande massa dos manifestantes é de gente que não votou na Dilma e, portanto, não tem tanta moral para se dizer “traída” pela campanha da então candidata. Por outro lado, também é verdade que a insatisfação com o governo já não é mais restrita a uma elite branca, e é crescente entre setores mais carentes, seja por se sentirem enganados pelas promessas de campanha quebradas, seja pela visível e progressiva piora na economia. Tentar culpar essa burguesia por não aceitar o resultado nas urnas é uma meia verdade. O resto da história o PT ainda não entendeu bem, e faz papel de ridículo ao culpar apenas o golpismo ou então o ex-presidente FHC.

Ao mesmo tempo, a oposição ganha ânimo, mas sem conseguir destaque. O mais notório destas manifestações é que nenhum político conseguiu capitalizar muito bem essa insatisfação desde junho. A princípio, Marina Silva conseguiu surfar nessa onda, mas nem o falecimento de Eduardo Campos, que abriu caminho para a sua candidatura à presidência, conseguiu impulsioná-la como liderança no país após seus sucessivos erros políticos. Aécio Neves nem tentou ir ao ato: preferiu ficar na varanda de seu apartamento em Ipanema, acenando à distância. Por fim, nem mesmo Jair Bolsonaro, “ídolo” de muitos dos manifestantes, conseguiu sair por cima: ao ser chamado para discursar, sofreu fortes vaias dos presentes, fazendo-o desistir da ideia. A lógica das manifestações segue ainda na aversão à política tradicional, o que deixa a oposição sem saber muito como agir. Mesmo se alguns políticos mais desastrados embarcarem na ideia de impeachment, a maioria vai continuar, por enquanto, cautelosa em relação ao assunto, aguardando os desdobramentos tanto das investigações quanto dos protestos.

E qual é a solução para tudo isso? Obviamente, os atos erram o alvo ao centrar o fogo na presidente Dilma ou no PT (ver post anterior). Porém, se em junho os protestos começaram com a esquerda, e depois a direita sequestrou as pautas, o inverso pode ocorrer agora. A direita começou um novo momento de protestos; talvez seja hora, portanto, da esquerda começar a agir e tentar levar a pauta para o seu lado, mais especificamente focando na reforma política, questão de suma importância e abordada aqui nas últimas postagens do blog. Esta é a esperança dos governistas, inclusive: o alvo passaria a ser então o Congresso, colocando pressão para que este aprove uma reforma política que atenda mais aos interesses da sociedade do que os seus próprios, dando um respiro à presidente Dilma, que pouco pode fazer a respeito sem o apoio dos deputados e senadores. Mesmo assim, verdade seja dita, é um grave erro da presidente se omitir neste momento tenso em que seus eleitores estão ficando nervosos e impacientes.

Assim, a oportunidade que se apresenta agora, em uma nova série de manifestações pelo país, não deve ser desperdiçada. Como disse Vladimir Safatle numa recente entrevista, a Nova República acabou. Que este seja então o momento de refundar a democracia no Brasil. O gigante está nervoso e tem pressa. Ou então, corremos o risco de cair em tentações autoritárias, tudo que o país menos precisa.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Se você acha que o PT é o problema, você ainda não entendeu nada



Domingo, dia 15/03, haverá uma grande manifestação pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff e protestando contra o atual governo do PT. Além de insatisfeitos com a piora da economia, a grande motivação dos manifestantes seria a corrupção endêmica no país, ainda mais após a revelação do escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras. Do jeito que falam, parece que a corrupção era inexistente no Brasil no período 1964-1985 (ditadura militar), passou a existir até 1994 (governos Sarney, Collor e Itamar), teve uma pausa entre 1995 e 2002 (governo FHC), e voltou com força a partir de 2003 (governos Lula e Dilma). Será mesmo lógico pensar que a corrupção piorou drasticamente nos últimos anos por causa do PT? Se você realmente pensa isso, você ainda não entendeu como funciona o sistema político brasileiro.

Usemos este escândalo da Petrobras como exemplo. Se o PT fosse o maior problema, seria de se esperar que o partido teria o maior número de políticos citados nas delações. No entanto, o procurador-geral da República sugeriu a investigação contra apenas 6 políticos do PT, contra 7 do PMDB e 32 (!) do PP. Como apontado no post anterior do blog, estes dois partidos não só foram aliados do governo do PT nos últimos 12 anos como também foram aliados do governo FHC, do PSDB. Ou seja, será que estes partidos sempre foram corruptos, ou só passaram a se corromper depois que o PT entrou no poder?

A resposta para esta pergunta se encontra no sistema político brasileiro. Nosso sistema é chamado por cientistas políticos de “presidencialismo de coalizão”. A Constituição Federal de 1988 foi pensada para um sistema parlamentarista, criando um Parlamento forte, com amplos poderes; no entanto, com o plebiscito em 1993, a sociedade brasileira escolheu o presidencialismo. O problema disso é que, como neste sistema eleitoral votamos em pessoas – e não nos partidos –, a Câmara dos Deputados acaba tendo um grande número de partidos representados. E como um presidente precisa da maioria dos votos para aprovar um projeto de lei e 3/5 do total para uma emenda constitucional, o seu partido precisa formar uma ampla coalizão com diferentes partidos para conseguir esse percentual mínimo de apoio. Caso contrário, nada que o governo enviar para o Congresso como projeto será aprovado. Afinal, não espere a boa vontade dos parlamentares para votar projetos apenas pensando no “bem do país” sem nenhuma contrapartida.

Vamos usar um exemplo real: temos 513 deputados federais, e para conseguir a maioria dos votos, é necessário uma coalizão com pelo menos 257 deputados. O PT, em 2014, com a maior bancada de todos os partidos, elegeu apenas 70 deputados federais. Aí procura o apoio do PMDB, que tem 66. Depois, o PP, com 36. Aí surgem outros, como o PSD, com 37. O fiel PCdoB, com 10. O PRB, ligado à Igreja Universal, com 21. Só que mesmo com todas essas alianças, depois de tudo, o governo só vai contar com o apoio de 240 deputados. Ou seja, é preciso ainda mais. Complicado, não? E o caminho para o PSDB seria mais complicado ainda, pois o partido conta com apenas 54 deputados federais.

E, assim, o que geralmente os outros partidos querem para apoiar o governo? Espaço no governo e na máquina estatal, o que significa posições em ministérios importantes, direções em estatais, a escolha de indicados para cargos comissionados, etc. Isso dentro da legalidade, é claro. De forma ilegal, há as propinas, o que, infelizmente, é revelado ao público em poucas ocasiões. Como no caso do escândalo conhecido como “mensalão”. O presidente do PTB, Roberto Jefferson, denunciou o esquema em 2005, assumindo que ele e seu partido eram beneficiários do esquema. Como o mesmo partido também foi da base aliada de FHC, será que o mesmo esquema de corrupção também não existia antes? E, pior, não seria lógico supor que a sua denúncia ocorreu por insatisfação em razão do tratamento (e do valor) recebido de dirigentes do PT?

“Pobrezinho do PT, vítima do sistema”, então? Óbvio que não. Não é possível dizer se conseguiriam governar sem fazer alianças espúrias com partidos sem a mínima afinidade ideológica. Há quem advogue que o presidente consiga a aprovação de seus projetos clamando pela pressão popular. Todavia, o último presidente que tentou governar sem apoio – Fernando Collor – acabou sofrendo impeachment. De qualquer forma, os petistas não fizeram tantos esforços para alternar esse sistema e acabaram se submetendo ao modo tradicional de se fazer política no país.

Isso, evidentemente, não significa que a solução seja o partido de oposição, o PSDB. Oras, eles já tiveram a sua chance e também parecem interessados em manter tudo como está. Se Aécio Neves se elegesse, buscaria o apoio de todos esses partidos (aliás, parte considerável de ambos o PP e o PMDB apoiaram a candidatura de Aécio). Seria tolice achar que os corruptos iam abrir mão da corrupção com outro partido no poder. É notório, por exemplo, o caso da compra de votos para a emenda constitucional que possibilitou a reeleição de FHC. Mas ninguém mandou investigou, ninguém puniu, e ficou por isso mesmo. O positivo do momento agora é que a Polícia Federal e o Ministério Público têm mais autonomia para investigar do que antigamente (mérito do PT, queira ou não).

Portanto, se não importa o partido que vença, pois ele terá que fazer as mesmas coisas para governar, está na hora de repensar o sistema, não? Para isso que serve a tal da reforma política. E este deveria ser o mote de todo brasileiro indignado neste momento. Porque derrubar um presidente hoje pode parecer legal, mas amanhã tudo continua o mesmo (ou pior). Então que tal nos unirmos e pensarmos o país em conjunto? Hein?

segunda-feira, 9 de março de 2015

A lista de Janot e a reforma política



No final da última sexta-feira (06/03), foi revelada, enfim, a lista dos políticos a serem investigados em razão da Operação Lava-Jato. Dos 47 listados, 32 são do PP, 7 do PMDB (incluindo o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros), 6 do PT, 1 do PTB e 1 do PSDB. Além deles, também foram citados os candidatos à presidência das últimas eleições, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), além do ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Porém, o primeiro teve o pedido de arquivamento da investigação, e os outros dois não serão investigados por já se encontrarem falecidos.

Inicialmente, o que essa lista nos diz? Que todos os grandes partidos estão envolvidos neste grande escândalo de corrupção, seja governo ou oposição. É verdade que a mera investigação não é sinônima de culpa (da mesma forma que arquivamento não é sinônimo de inocência), mas o fato de haver políticos de todos esses partidos citados mostra como o maniqueísmo na política brasileira não passa de uma tolice infantil. Se figuras importantes do PT estão envolvidas, Antonio Anastasia, cria política de Aécio Neves, também surge como suspeito. No final, ninguém se safa.

Falta explicar a razão de colocar a reforma política no título. O que uma coisa tem a ver com a outra? Os dois partidos com mais políticos citados no esquema de corrupção na Petrobras, PP e PMDB, são aliados do governo do PT. Volte 20 anos no tempo, e quem você encontra como aliados do PSDB de FHC? Os mesmos PMDB e PP (com outro nome, PPB). Ou seja, são partidos que estão no governo há mais de 20 anos, independentemente de quem seja o presidente. Ah, e o PTB? É o mesmo partido de Roberto Jefferson, lembra dele, do mensalão? Pois é, adivinha quem era aliado de FHC?

Esses partidos vivem em torno do poder. Ganhe Dilma, ganhasse Aécio, eles continuariam no governo, e nenhum dos dois poderia recusar o apoio. Infelizmente, o sistema político brasileiro é tal que faz com que seja preciso negociar com diversos partidos para garantir a tal da “governabilidade” (ou seja, conseguir apoio necessário para votar os projetos no Congresso Nacional). Quem não fez isso acabou sendo derrubado, que foi o caso de Fernando Collor (inclusive, ele é o citado do PTB).

Longe de mim querer, com este texto, tirar do PT a responsabilidade dessas alianças espúrias. Porém, qualquer um que entrar fará o mesmo se quiser tentar aprovar algo. O fato deste escândalo envolver tantos partidos diferente, de governo e oposição, além dos presidentes da Câmara e do Senado, gera uma forte crise institucional, mostrando como o nosso sistema político está falido. Não há melhor momento, portanto, do que este para reivindicar uma reforma política. Mas uma reforma de verdade, que não sirva aos interesses de nenhum partido, mas da sociedade brasileira. 

Conforme nos aproximamos de um período de grande turbulência social, seria importante unificar os atos em prol desta mesma causa. Pelo contrário, continuaremos nesta picuinha PT x PSDB, “fica PT” x “fora PT”, que só serve para os interesses dos poderosos, que estão pouco se lixando para o destino do país. O risco é de deixarmos esta oportunidade passar para focar no alvo errado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O recado do PMDB



"Não, não são as estrelas que vão me guiar. São as escolhas que vão me levar." Com esta mensagem enigmática, o PMDB abriu o seu programa político na noite de ontem (26/02), após inúmeras chamadas na TV pelas últimas semanas convidando os brasileiros a assisti-lo. No fim, após tanto drama, qual foi então o recado que o PMDB tinha a dar para o Brasil?

Primeiro, tratemos da mensagem enigmática de abertura. A primeira frase não deixa muitas dúvidas: é uma clara referência ao PT (lembrando que o seu símbolo é uma estrela). Ou seja, é para ficar bem claro que o PMDB não vai ser submisso ao PT. Já a segunda frase deixa algumas questões no ar. Que escolhas seriam essas?

O resto do programa tentou então explicar, e continuou com uma série de falas dos piores (ou melhores?) quadros do PMDB: Michel Temer, Kátia Abreu, Helder Barbalho, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, etc, todos com cargos de grande escalão no governo falando de promessas vazias, como a de uma reforma política que sirva aos interesses da sociedade (partindo, justamente, do partido menos interessado em fazê-la? Faz-me rir), e ressaltando como o PMDB é o maior partido do Brasil. Parece ufanista falar disso, mas lembremos: se Dilma sofre impeachment, entra o vice. Partido? PMDB. Se ele cai, entra o presidente da Câmara. Partido? PMDB. Se ele também sai fora, entra o presidente do Senado. Partido? Adivinha. Volta à pergunta, então: quem manda mesmo neste país?

Mas voltando ao tema das escolhas, parece que o PMDB realmente acredita (ou quer que o brasileiro pense isso) que o partido foi escolhido pela sociedade para governar o país. Afinal, todos ali foram eleitos pelo povo brasileiro, por que não? Mas talvez a melhor tradução do que significam essas “escolhas” ficou para a fala de Eunício Oliveira, líder do partido no Senado. O próprio senador já havia dado uma dica do que o programa seria em outra entrevista (ver aqui); contudo, em um certo momento do programa de ontem, ele diz: “Porque eu entendo que o primeiro e maior sentimento de um parlamentar deve ser o da honra. O da honra de ter o crédito da sociedade, de ter sido escolhido como seu representante. E, como tal, jamais promover algo que não seja do interesse dela. Como líder do maior partido do Brasil, é meu dever levar esse sentimento às últimas consequências.”

Podemos interpretar algumas coisas desta fala, em particular dos trechos destacados. Considerando o atual clima pesado na política nacional, com um aumento do antipetismo e chamados crescentes de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a mensagem soa o seguinte: enquanto não for um sentimento dominante da sociedade, o PMDB não vai apoiar um impeachment. No entanto, se parecer esta a vontade da sociedade civil, juntando-se à ausência de concessões de poder do PT ao PMDB, o partido não vai hesitar em se rebelar e levar tudo às últimas consequências; ou seja, derrubar o governo atual.


A mensagem, portanto, está dada. O PT deve agir rápido se quiser manter o seu mais importante – e mais perigoso – aliado. A tentativa de se desvencilhar do PMDB para governar com outros aliados fracassou, como mostra a recente aprovação do projeto de lei que dificulta a fusão para criar novos partidos, intenção de Gilberto Kassab. Agora, resta fazer mais concessões ao partido ou enfrentar a fúria de quem participou praticamente todos os governos desde a redemocratização. Num momento frágil como este, restam poucas opções para o PT a não ser agradar seu semialiado. Pelo contrário, o recado foi dado. Que a presidente Dilma não pague para ver.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A derrota do Movimento Passe Livre: por que junho de 2013 não se repetiu?



Na última quarta-feira (18/02), o MPL (Movimento Passe Livre) organizou um evento carnavalesco de protesto contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, mas quase ninguém se importou. Sem muito alarde, os atos organizados pelo movimento desde janeiro foram perdendo força gradualmente até serem esquecidos quase por completo pela mídia e pelo resto da população. Declara-se oficialmente, portanto, a derrota do MPL, e a “vitória” dos governos municipal e estadual de São Paulo na queda de braço pelo aumento das tarifas. Mas o que ocorreu desta vez? Por que o MPL não conseguiu repetir os grandes atos de junho de 2013? Será que a população não aceitou um aumento de 20 centavos, mas tolerou um de 50?

Primeiro, é preciso lembrar que as jornadas de junho de 2013, como já foi dito aqui no blog, nunca foram essencialmente sobre os 20 centavos. Claro, o símbolo foi esse, mas os protestos se tornaram grandes em repúdio à violência da Polícia Militar, que reprimiu os atos com força desproporcional. Depois, é claro, isso se uniu à insatisfação geral com a política no país e o aumento do custo de vida nas grandes cidades, onde entra, enfim, a questão das tarifas. Em outras palavras, junho foi, na verdade, um acidente histórico, no qual o MPL teve a sorte de estar no lugar e na hora certa. Ainda que o movimento tenha algum mérito pelas mobilizações, acredite, ele é menor do que parece.

Dito isso, há uma conjunção de fatores para o contexto de 2015 que explicam o fracasso dos atos. De início, é possível citar a esperteza – advinda do conhecimento histórico – do prefeito Fernando Haddad. Estabelecer o aumento das tarifas para janeiro não foi por acaso: a escolha se deveu, em boa parte, por motivo de ser um mês de férias escolares. O que tem a ver? Bem, certamente o prefeito já leu muito sobre maio de 1968, na França. Naquele mês – resumindo a história – estudantes saíram às ruas de Paris em protestos anticapitalistas, que foram logo acompanhados de greves gerais dos trabalhadores franceses. O escopo dos atos foi tão grande que havia o temor até de uma revolução comunista (contexto de Guerra Fria), o que forçou o governo de Charles de Gaulle a dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Os protestos iam bem até que... começaram a se desmobilizar em junho. Um dos principais motivos? Férias escolares. Muitos universitários, que compunham grande parte dos manifestantes, voltaram para suas casas no interior com o fim das aulas; ou seja, estudavam em Paris, mas suas casas eram em outros lugares. Além disso, o ambiente estudantil era um epicentro de discussão e mobilização. Perdendo este espaço com as férias, houve uma grande desmobilização dos atos, que perderam força e acabaram morrendo na praia.

Voltando para o Brasil, em 2015, é certo que grande parte dos que vão aos atos do MPL são estudantes. Longe das universidades em razão das férias, alguns em suas cidades de origem, ou simplesmente sem o espaço universitário para discussão e mobilização, os atos não teriam tanta força; como, de fato, não tiveram. Junte a isso a decisão do prefeito de conceder passe livre (pauta do MPL) aos mesmos estudantes. Beneficiando os mais interessados em protestar, Haddad atacou a raiz dos atos, desmobilizando-os de dentro para fora.

É importante citar outra questão também: o descrédito sofrido pelo MPL depois de junho. Ele cresceu em apoio após junho, é verdade; no entanto, muitas das pessoas que saíram às ruas daquela vez se sentiram traídas pelo movimento quando este cancelou novos atos após a queda das tarifas de volta a R$ 3,00. Uma vez nas ruas, a população indignada queria continuar colocando sua insatisfação contra a política institucional para fora. Porém, quando olharam para o MPL em busca de um guia para essa catarse generalizada, o movimento recuou e abandonou aqueles que saíram às ruas para apoiá-los na causa das tarifas. Pode não ser exatamente como ocorreu, mas foi como muitos se sentiram: traídos e abandonados. A verdade é que o Movimento Passe Livre teve a história nas mãos; todavia, preso à pauta única dos transportes, recuou quando tudo ficou grande demais. O problema é que este recuo não seria perdoado por aqueles que descobriram as ruas pela 1ª vez.

Além disso, há outro problema: a violência. Compreende-se aqui violência dos dois lados: dos manifestantes e da polícia. Por parte dos manifestantes, não chega a ser realmente deles, mas pelo que veio a ser conhecido como black blocs. Surgindo nos momentos finais das jornadas de junho, os black blocs, ao promoverem ataques a símbolos do governo e do capital, intimidaram aqueles que queriam participar dos atos de forma pacífica (a maioria da população). A atuação deste grupo motiva, por outro lado, maior repressão da polícia, outro fator que desestimula a adesão aos atos. Se as pessoas repudiam a violência policial, elas também a temem, e se percebem que há grupos que provocam a polícia a agir, certamente terão pouco interesse em participar dos protestos.

Por fim, é importante notar que o momento do país é muito diferente. Em 2013, havia uma insatisfação latente com a política no país, mas nenhum problema muito urgente. No começo de 2015, o cenário é totalmente diferente: crise econômica, inflação, um enorme escândalo de corrupção, falta d’água, desgaste severo do governo, e crise de legitimidade da democracia representativa no país. Quando se leva tudo isso em consideração, o problema do aumento das tarifas parece pequeno demais para se levar a sério. Até existe uma vontade da população sair às ruas; entretanto, 50 centavos não parece ser mais o motivo certo, mesmo que simbólico. No fim, o que tem ocorrido é que as pessoas têm extravasado a vontade de se manifestar pelos motivos errados, como os que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff (ver post anterior). Perde-se o foco para os problemas reais do país enquanto a vontade de expor a insatisfação continua presente, o que não deixa de ser um legado das jornadas de junho.

Sendo assim, se junho de 2013 não foi tanto mérito do Movimento Passe Livre, o seu fracasso em 2015 também não é tanto sua culpa. Aliás, considerando a discussão gerada em torno de sua pauta, o pedido de auditoria por parte da prefeitura sobre os custos e lucros do transporte público municipal, a adoção de passe livre a estudantes, etc, é possível dizer que o movimento obteve mais sucessos do que qualquer outra coisa. Contudo, não foi desta vez que foi possível barrar o aumento de tarifas. Hoje, o foco da sociedade é outro; portanto, que outros movimentos sociais consigam mobilizar esta insatisfação para os grandes problemas que assolam o Brasil. O momento do país pede por isso. E urgente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O impeachment e o rancor dos derrotados



Há uma palavra que conseguiu sair dos porões da extrema-direita e ganhou espaço, nos últimos dias, no debate público, especialmente na mídia: impeachment. O escândalo de corrupção na Petrobras cada vez mais tem fomentado discussões sobre se a presidente Dilma Rousseff poderia estar sujeita a um processo de impeachment, assim como ocorreu com Fernando Collor em 1992. O que muitos parecem ignorar, no entanto, é a diferença gritante nos casos.

É verdade que temos vários ingredientes para o impeachment. Há um jurista afirmando que há base legal para o pedido; há um grande escândalo de corrupção envolvendo os partidos governistas; estamos em crise econômica; há protestos, embora minoritários, pedindo pela saída da presidente Dilma e, de fato, a sua popularidade sofreu uma forte queda nos últimos dias. Só que, ao contrário do que o tal jurista acredita, falta um ingrediente essencial: algo que comprometa a própria presidente e que, portanto, justifique o seu impeachment.

O processo de impeachment no Brasil é regulado pela lei 1.079/50, que se aplica quando o presidente da República, governadores e prefeitos estão sujeitos à cassação de seus mandatos por cometerem crimes de responsabilidade aplicáveis a eles, atentando contra os seguintes preceitos: a existência da União; o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação; o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; a segurança interna do País; a probidade na administração; a lei orçamentária; o cumprimento das leis e das decisões judiciais.

Tendo a lei em mente, é preciso um certo malabarismo para tentar acusar a presidente Dilma de crime de responsabilidade. Oras, seguindo o rigor do jurista conservador Ives Gandra da Silva Martins, nenhum presidente sobreviveria a um mandato inteiro: Lula teria caído com o escândalo do “mensalão”, e FHC com a compra de votos para a emenda da reeleição, o que o teria beneficiado diretamente, inclusive. Democracia nenhuma sobreviveria a tantas interrupções de mandato.

“Ah, mas, na Grécia, eles tiveram 6 governos em 6 anos diferentes”. Nem sei se este é o número exato, mas enfim, é preciso compreender que se tratam de sistemas diferentes: parlamentarismo e presidencialismo. No parlamentarismo, há o que se chama voto de confiança: em um momento de crise política, a oposição pode propor uma votação para ver se o governo atual ainda detém a maioria no legislativo. Caso o governo saia derrotado, normalmente, o primeiro-ministro renuncia e há uma tentativa de formação de um novo governo. Caso isso não seja possível, dissolve-se o parlamento e convocam-se novas eleições.

Só que no presidencialismo não é assim que funciona. Um presidente pode continuar no governo mesmo sem maioria no parlamento, mesmo com falta de confiança, mesmo com a economia em recessão e a popularidade em crise. Claro que ele pode sofrer pressão para renunciar, mas para um impeachment, é preciso cumprir os requisitos da lei. Para entender como é (e deve ser) um evento raro num sistema presidencialista, nos Estados Unidos, onde o sistema existe há mais de 200 anos e já teve 44 presidentes, apenas 2 deles sofreram impeachment (e um renunciou antes que enfrentasse o processo, Richard Nixon).

Sim, o Brasil é diferente, tem mais problemas no seu sistema político, etc, mas os Estados Unidos também não são essa coca-cola toda. No novo regime pós-ditadura, começamos mal, com o primeiro presidente-eleito, Fernando Collor, sofrendo impeachment. Mas, no caso dele, foi inevitável: havia denúncias sérias envolvendo diretamente o seu nome em corrupção, além de planos econômicos fracassados e a popularidade muito em baixa. É verdade também que o impeachment é um julgamento político: Collor foi absolvido das acusações posteriormente pela justiça. Mas também é sinal de como ele acabou isolado na presidência, pois não havia mais sustentação para o seu governo, perdendo apoio de toda a sua base aliada.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito sobre Dilma. Embora frágil, a presidente mantém uma ampla base aliada no Congresso, mesmo que em teoria. Sua popularidade caiu, mas isso faz parte do jogo democrático. Enquanto ela tem 23% de aprovação e 44% de rejeição, Collor, no fim de seu governo, tinha apenas 9% de aprovação, e 68% de rejeição. Ainda são índices ruins para a petista, mas FHC chegou a ter índices de popularidade similares e conseguiu terminar seu governo mesmo assim.

Levando tudo isso em conta, está claro que não faz sentido, neste momento, levantar a bandeira de impeachment. E por que alguns insistem tanto na ideia? Bem, chame de rancor dos derrotados. Há pessoas que ainda não engoliram que o seu candidato foi derrotado, mais uma vez, nas urnas, e querem derrubar o governo a qualquer custo. Certamente, isso não é uma atitude republicana.

Até porque é bom lembrar de uma coisa: se Dilma Rousseff sofre impeachment, quem assume é o seu vice, Michel Temer, do PMDB. Caso ele seja impedido também, quem assume é o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, também do PMDB (sobre ele, ver post anterior). Se ele sai, entra o presidente do Senado, Renan Calheiros (cujo currículo também não impressiona). Partido? PMDB, mais uma vez. E se nenhum deles servir, assume o presidente do Supremo Tribunal Federal, atualmente o ministro Ricardo Lewandowski. Ou seja, não há a previsão de convocação de novas eleições, muito menos de chamar o 2º colocado nas eleições passadas. Se perdeu, já era. Tente outra vez daqui a 4 anos.

Ainda há outra questão importante, que é a estabilidade política. Dois impeachments em pouco mais de 20 anos não é uma situação saudável para a democracia, sem falar no ambiente instável que cria. Qual investidor vai querer colocar seu dinheiro num país instável politicamente? Assim, o argumento de eleitores da oposição a favor de impeachment que levantavam a bandeira de melhorias na economia acaba caindo por terra.

Portanto, sejamos maduros. Qualquer pessoa responsável reconhece que não há clima para impeachment. Tudo pode mudar com o tempo, é claro, mas neste instante, é absolutamente impensável. Estamos em um momento delicado, da economia e da política, e criar mais casos não contribui em nada para o bem do país. Quem realmente quer o melhor para o Brasil deve levantar a bandeira não de um impeachment, mas de uma reforma política que atenda aos interesses da sociedade brasileira. Querer derrubar um governo apenas porque não se gosta dele não é apenas infantil: é egoísta e irresponsável. Principalmente na democracia, é importante saber perder e respeitar a vontade da maioria. Ou então, resta o conselho tão repetido pelo candidato derrotados nas eleições: não sejam levianos. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O significado da vitória de Eduardo Cunha



Se você acompanhou os noticiários dos últimos dias, leu que Eduardo Cunha, deputado federal pelo PMDB do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da Câmara de Deputados para os próximos 2 anos. Isso o coloca como o 3º na linha de sucessão presidencial; ou seja, na ausência (ou no famigerado impeachment) de Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer, é ele quem assume a presidência da República.

Quem é Eduardo Cunha? Imagine o tipo de político que o Brasil menos precisa, e este é o cara. Dizendo-se numa cruzada contra “gays, abortistas e maconheiros”, o peemedebista é um conservador fundamentalista que já propôs projeto de lei para proteger heterossexuais de discriminação (?), e se posiciona contra todas as pautas progressistas. Se não fosse o bastante, age como lobista do poderoso setor de telecomunicações: lutou furiosamente contra o Marco Civil da Internet, e já garantiu que não vai permitir que passe a regulamentação dos meios de comunicação, um dos projetos do PT para este mandato. Isso sem falar em inquéritos e acusações relativas a corrupção. E como cabe ao presidente da Câmara a decisão de que projetos colocar em pauta, tenham a certeza que ele fará de tudo para impedir a votação de leis importantes para o país.


E o que significa a sua eleição? Primeiro de tudo, significa que o Congresso Nacional (incluindo aqui o Senado, que reelegeu Renan Calheiros como presidente da casa) está totalmente desconectado da sociedade brasileira, desprezando as vozes das jornadas de junho de 2013. Os deputados elegeram um presidente que está interessado em beneficiar apenas a sua classe e aqueles que o financiaram, nada mais. Portanto, esqueçam a reforma política: nas mãos de Eduardo Cunha, ela será apenas um engodo.

Além disso, Eduardo Cunha é opositor do governo. Sim, apesar de ser do PMDB e do seu partido fazer parte do governo, ele é desafeto da presidente Dilma Rousseff, e já garantiu que o seu mandato colocará a Câmara como “independente” do Executivo. Se ele, sozinho, fosse o problema, tudo bem, mas o PMDB em peso votou nele, mesmo contra a vontade do Planalto. E isso traz um significado ainda mais trágico: apesar da montagem de um ministério monstruoso, chamando nomes absurdos para diferentes pastas – tudo em prol da “governabilidade” –, o governo do PT não conseguiu sequer eleger o presidente da Câmara que queria. Em outras palavras, para que raios serviu tudo aquilo então, todas essas concessões aos partidos da base aliada?

Isso só prova um ponto que o PT insiste em não admitir, que o partido chafurda cada vez mais fundo na lama em prol da tal da governabilidade, e não percebe que não recebe compensação por isso. Que fique bem claro: o PMDB não gosta do PT. Boa parte dos partidos da base aliada (de direita, inclusive) não gosta do PT. Eles simplesmente toleram a aliança porque estar no governo é cômodo, e podem alcançar seus interesses mais facilmente. O PT é tolerado, nunca benquisto. A melhor representação disso foi o vídeo infame de José Sarney votando em outubro do ano passado: com um broche da Dilma, as câmeras o flagram votando em Aécio. Esta é a melhor representação do PMDB e da base aliada do PT: dizem que são aliados, mas agem nos bastidores contra o governo.

Além disso, o PT, parecendo ignorar a crescente rejeição que o partido enfrenta, foi extremamente irresponsável e imaturo neste episódio. Se realmente quisesse colocar um aliado na presidência da Câmara, deveria ter indicado um nome de alguém de outro partido, e não de um petista, como Arlindo Chinaglia. Como não o fez, o 2º governo de Dilma já sofreu seu primeiro grande revés, e terá que aguentar um presidente da Câmara que fará de tudo para aterrorizar o Planalto e colocar seus interesses acima daqueles do governo.

Junto ao pacote de ajustes fiscais do governo, caminhamos em direção a anos bem difíceis. Prometendo mudar o sistema, o PT segue sendo engolido pelo mesmo, cavando a sua cova e se preparando para a sua derrota iminente em 2018. Talvez, quando ocorrer, tenham a cara de pau de se perguntarem o que fizeram de errado. Porém, a pergunta mais sensata talvez seja qual foi a última vez que fizeram algo certo. Venceu Eduardo Cunha; perdeu o PT, perdeu o governo, perdeu o Brasil.