segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um novo 1964



Um Congresso hostil; a grande mídia e setores religiosos contra o governo; milhares nas ruas protestando contra o presidente eleito de viés progressista, pedindo a sua saída e uma intervenção militar, com gritos de “O Brasil não é Cuba” e “Fora Comunismo”. Soa familiar? Podia ser 2014, mas o ano aqui é 1964. E a intervenção militar veio, com a promessa de nos “salvar” do comunismo. Porém, com ela, veio uma ditadura de mais de 20 anos que matou, torturou e envergonhou o Brasil.

Agora, exatos 50 anos depois, assistimos novamente a eventos similares aos que antecederam o golpe que depôs João Goulart. Será que não aprenderam nada? Parece que não. Afinal, não existe “intervenção militar constitucional”, como alguns dos manifestantes querem acreditar. Podem dar o nome que quiserem, mas o ato de 1º de novembro foi antidemocrático e golpista. Em 1964, esperava-se que os militares fizessem apenas um governo de transição. Hoje, a história ensina que é muita inocência esperar que os militares tirem um presidente do poder e voltem ao quartel logo em seguida.

Felizmente, o contexto é outro. A mídia pode ser contra o governo Dilma, e é responsável em partes por fomentar o ódio ao PT, mas parece ter aprendido a lição do que significa uma intervenção militar. O cenário internacional também é diferente: não estamos na Guerra Fria, nem há um embate Capitalismo x Comunismo. Se grande parte da historiografia concorda que não havia risco do Brasil se tornar comunista no governo Jango, hoje, então, muito menos. Se o golpe, em 1964, obteve reconhecimento e apoio internacional, hoje, teria apenas repúdio. E o Congresso, apesar de dar trabalho para a presidente, está interessado apenas em discutir a sua fatia do poder, que seria diminuída com um golpe militar.

Sobretudo e mais importante, a realidade é que não há um respaldo popular a um golpe militar no Brasil. Em 1964, centenas de milhares saíram às ruas em protestos contra o governo e pedindo uma intervenção militar. Em 2014, foram apenas 2.500 pessoas.  E esses 2.500 não representam nem de longe a totalidade dos eleitores do candidato derrotado Aécio Neves. Inclusive, causam-lhes vergonha. A grande maioria da sociedade brasileira quer e prefere a democracia. Contudo, inflamada com o cenário pós-junho de 2013, a extrema-direita também quer mostrar suas asinhas. Não há a menor chance de um novo 1964. Mas eles bem querem. Os gritos e frases de ordem são os mesmos. O que não podemos é deixar esse discurso ganhar mais força e crescer. Porque, como andam dizendo por aí, é fácil pedir por uma ditadura na democracia. Já o contrário...