terça-feira, 28 de outubro de 2014

“Foi só pelos 20 centavos?”



As redes sociais estão perplexas com a eleição de Dilma. Não bastou os patrões doutrinarem suas empregadas e funcionários ou os médicos alertarem seus pacientes em postos públicos de saúde que Aécio seria o melhor para o país. Dilma ganhou mesmo assim, mesmo que por uma margem estreita de votos. Tem quem relate não conhecer ninguém que vota nela, ache que foi só por causa do Bolsa Família no Nordeste, acredite que o povo não lê sobre a corrupção do PT ou lamente que o gigante que tinha acordado em junho de 2013 tenha voltado a dormir. Era só mesmo pelos 20 centavos, dizem. Será mesmo? Eu temo ter que dizer outra coisa: saia da sua bolha!

Para entender por que Dilma foi reeleita, apesar de toda a torcida contra, é preciso esclarecer cada uma dessas crenças. Primeiro, não se engane: as jornadas de junho do ano passado não eram contra a Dilma e muito menos a favor do PSDB ou do Aécio. Se você assistiu a tudo pela janela ou pela televisão, até dá para perdoar um pouco que não tenha compreendido o que ocorreu naquele período. Mas se você esteve lá, o caso é grave, pois você não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo à sua volta. Não, não era só pelos 20 centavos: começou assim, nos protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa. Entretanto, com a repressão violenta da Polícia Militar a manifestantes pacíficos, parte da população se indignou e saiu às ruas em protesto pelos abusos vistos na TV. Dos 20 centavos, partiu para a PEC 37, a reforma política, e o anseio por melhores serviços públicos de transporte, saúde e educação. Não era contra algum político específico, seja o prefeito, o governador ou a presidente, apesar de um ou outro grito de “for a Fulano”. Era contra a forma de se fazer política no país, a falta de representatividade e a sensação de não ter sua voz ouvida (sobre isso e o resultado das eleições no 1º turno, ver aqui no blog). E, acreditem ou não, se há algum governante que entendeu essa situação, foi a própria Dilma ao colocar em pauta a questão da reforma política.

“Mas olha a corrupção do PT!”. Olha, se o motivo da sua aversão ao PT é por ele ser corrupto, e com isso você vota no PSDB, o mal-informado aqui é você. Não quero dizer que o PT é um exemplo de ética. Infelizmente, não é. Mas o PSDB muito menos. Há inúmeros escândalos envolvendo os tucanos, muitos deles mais graves e envolvendo montantes muito maiores que o mensalão petista, como, por exemplo, o cartel do metrô em São Paulo. O problema é que a mídia não noticia os casos do PSDB com a mesma intensidade que faz com o PT. O Manchetômetro, iniciativa de um grupo de estudantes e professores da UERJ para analisar as manchetes dos principais veículos de imprensa, comprova que o PT recebe mais manchetes negativas. Você pode dizer que isso ocorre simplesmente porque o PT tem mais coisas negativas para se noticiar, mas isso seria inocência, não? Basta andar até qualquer banca de jornais para ver como a mídia tem um lado. Talvez seja hora de parar e refletir sobre o quanto você está sendo manipulado por ela.

“O PT só ganhou por causa do Nordeste, que vive de Bolsa Família!” Se isso fosse verdade, o Aécio ganharia, pois Dilma ainda precisava ter uma votação expressiva no resto do país. E isso, de fato, ocorreu: Dilma venceu em Minas Gerais (terra onde o tucano governou), Rio de Janeiro, e ainda obteve votações expressivas em outras partes mais ricas do país, como o Rio Grande do Sul, onde Aécio ganhou com apenas 53% dos votos válidos. Agora, achar que o Nordeste vota em Dilma apenas por causa do Bolsa Família não passa de preconceito. A realidade é que o governo do PT investiu numa região que era esquecida pelos antigos presidentes do Brasil, e eles sentiram a diferença. Não foram apenas programas sociais, mas investimentos em infraestrutura, a atração de indústrias, empregos, que revolucionaram a economia da região (ver aqui). Enquanto o resto do país está com baixo crescimento econômico, ou então em recessão, é o Nordeste que tem puxado o país para frente, liderando o crescimento no Brasil. Sim, quem diria, o Nordeste sendo a locomotiva do país. Uma região que antes era assolada pela seca, a fome e a falta de oportunidades agora teve um governo que mudou a sua realidade. Vai muito além do Bolsa Família. Talvez você não saiba, ou porque nunca colocou os pés no Nordeste, ou porque só foi para curtir as praias e o Carnaval. Mas quem mora lá sabe. Não é lógico que um povo vote num governo que lhe fez bem?

“Mas todo mundo que eu conheço votou no Aécio!” Repito: saia da sua bolha. Sabe aquela diarista sua, que vai até sua casa uma vez por semana? Ou aquela manicure que fez as suas unhas na semana passada? Quem sabe até mesmo o seu porteiro, ao qual você raramente dá bom dia? Pois é, talvez eles todos tenham votado na Dilma. Talvez você até tenha perguntado a essas pessoas em quem elas iriam votar, e todas elas tenham dito que no Aécio. E talvez tenham votado mesmo. Mas talvez – e ressalto aqui o talvez – essas pessoas não se sintam à vontade para dizer a verdade para você. Infelizmente, o que mais tem se visto é pessoas terem que falar baixo ou se calar sobre votar na Dilma e no PT por medo de seus patrões, clientes, etc. Por um lado, é ótimo que o voto seja secreto, e que cada um possa fazer o que quiser, sem precisar dar satisfação a ninguém. Por outro, é triste o preconceito nas ruas, principalmente aqui em São Paulo, contra quem vota no PT. Chamam de “ignorantes”, “alienados”, “burros”, ou se acham que você está no “nível” delas, demonstram decepção com a sua escolha. “Nossa, mas pensei que você era uma pessoa esclarecida, como pode votar no PT?” Pois é, o problema é que, quem sabe, o ignorante pode ser você.

É claro, nem quero dizer aqui que todo eleitor do Aécio é ignorante. Se você disser que votou nele por causa da corrupção e realmente acredita nisso, então direi que sim, você está, no mínimo, mal-informado; caso contrário, talvez você esteja fazendo a escolha mais adequada aos seus interesses e às suas crenças pessoais. Se você acha que a meritocracia realmente funciona, que o Estado deve intervir menos na economia, deixando a maior parte dos serviços para a iniciativa privada, e que a desigualdade social não é um problema tão grave e que faz parte da sociedade, o Aécio parece ser mesmo a melhor opção para você. É uma opção informada, em conformidade com os seus interesses. Dito isto, não é lógico, portanto, que alguém que não concorde com essa visão de mundo vote também de acordo com seus interesses? Oras, o pobre querer votar num partido que se dirija a ele é apenas uma forma de defender seus interesses também. Igualmente para aquele que, mesmo de classe social similar à sua, discorde da sua ideologia, e acredite que o Estado deve, sim, intervir mais na economia, oferecer mais serviços públicos, e tentar reduzir as disparidades na sociedade. Um voto pode ser por falta de informação, mas também pode ser por pura e simples defesa de interesses. E se o rico faz isso, por que o pobre também não pode?

Por fim, eu queria ainda voltar à pauta do ódio. Porque uma coisa está bem clara: Aécio até poderia ter ganho as eleições, se não fosse o ódio e preconceito de muitos (não todos, provavelmente nem a maioria) de seus eleitores. Afinal, há uma insatisfação moderada da população com o governo atual, e muita gente estava disposta a tentar algo novo, dar uma chance. Mas esse discurso de ódio afastou um número considerável de pessoas e provocou a militância contrária de outras, o que foi determinante para virar a balança. Pois uma coisa é discordar do voto de alguém; outra muito diferente é ter ódio pelos adversários. Então vamos refletir: de alguma maneira, esse ódio é justificável? Ou será o ódio em qualquer circunstância justificável? Não imagino que alguém tenha tido a sua casa invadida por petistas, que roubaram tudo, estupraram e mataram toda a sua família. Aí sim daria para entender tanto sangue nos olhos, mas na ausência disso, por quê? Será que este ódio não é alimentado por uma mídia comandada por gente muito mais rica do que você, com interesses bem diferentes dos seus? Ou você acha que por ganhar 5 mil, 6 mil, quem sabe até 10 mil reais por mês, já faz parte da elite brasileira? Sabe de nada, inocente. Ou será então que este ódio é pela perda de privilégios, por ver outro tipo de gente, com a qual você não está acostumado a conviver, concorrendo pelos mesmos postos de emprego, as mesmas vagas nas universidades, jantando nos mesmos restaurantes e embarcando nos mesmos aviões rumo a Buenos Aires (pra não dizer Miami)? Bons tempos aqueles quando toda família de classe média podia ter sua empregada, não? Mas já parou para pensar que ela, a sua empregada, talvez quisesse ser também uma engenheira, uma advogada, ou uma médica? É este o seu medo?

E nem entremos no medo do Brasil virar Cuba, Venezuela ou Bolívia. Pra começar, a maioria dos brasileiros acha que sabe algo sobre esses países, mas não sabe nada. A Bolívia, a propósito, tem sido elogiada mundo afora pelo crescimento econômico e redistribuição social. Mas deixemos esses países de lado, pois o governo atual nem em plano quer ser parecido com esses países. A realidade é que já tivemos 12 anos de PT no governo federal e nunca, em nenhum momento, a nossa democracia entrou em risco. Não caminhamos um centímetro para o autoritarismo, muito menos para o comunismo.

Também esqueça esse discurso que o país está dividido. Democracia não é a tirania da maioria, mas uma forma de governo onde a vontade da maioria prevalece sem deixar de proteger os direitos das minorias. “Ah, mas a maioria não elegeu Dilma, porque tem os votos brancos, nulos, as abstenções...” Em quase nenhum lugar do mundo alguém se elege com a maioria absoluta do eleitorado. Disputas acirradas são comuns, assim como são divisões regionais. Nos EUA, o norte e o litoral são mais Democratas; o sul e o interior, mais Republicanos. No Reino Unido, o norte é mais Trabalhista; o sul, Conservador. E assim vai, assim que funciona a democracia representativa. Se você quer que o seu candidato vença da próxima vez, faça militância, converse com as pessoas, mostre que suas ideias são melhores. Sair pedindo impeachment e não aceitar a vontade da maioria é querer impor a sua à força.

Assim, se há um espectro que ronda o Brasil, não é o do comunismo, mas o do fascismo. Não por causa do governo, mas por causa de um discurso reacionário e conservador que ecoa com cada vez mais força na sociedade. Democracia significa aceitar a opinião dos outros quando ela for diferente da sua. Agora, se você está pregando a separação do país, ou assinou e divulgou uma lista de impeachment da presidente Dilma, você não é um democrata. Você é um fascista. Não é o PT que quer uma ditadura no país. Quem quer uma ditadura é você, onde apenas a sua opinião vale, apesar de ser minoritária. Pelo menos Aécio e grandes figuras do PSDB aceitaram a derrota e pediram a união dos brasileiros, prometendo não fazer uma oposição destrutiva. Está na hora de seguir o exemplo.

domingo, 26 de outubro de 2014

O orgulho venceu o ódio



Com mais de 3 milhões de votos, e uma diferença de cerca de 3%, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves na eleição presidencial mais dura desde a redemocratização brasileira.

Foi uma disputa acirrada, cheia de reviravoltas. O resultado do 1º turno, que elegeu o Congresso mais conservador desde 1964, já tinha causado uma ressaca forte na esquerda brasileira.  Mas a virulência da militância de Aécio e o risco de perder as eleições mexeu com muita gente que, mesmo com suas críticas ao atual governo, se levantou para lutar contra o retrocesso. O ódio que espumava nas ruas, nas bancas e nas redes sociais acabou ferindo o orgulho: o orgulho de ter origem humilde, o orgulho de ser da periferia, o orgulho de ser LGBT, o orgulho de ser negro, o orgulho de ser nordestino, o orgulho de ser petista, o orgulho de ser de esquerda. E esse orgulho ferido saiu às ruas, numa mobilização que não se via desde 1989 por um político. Se, em 2002, a esperança venceu o medo, podemos dizer que, em 2014, o orgulho venceu o ódio.


Há muito o que se fazer, é verdade. Mudanças são necessárias. Mas nem a tentativa desesperada da mídia de ganhar no grito foi o suficiente para mudar a vontade do povo. E essa mobilização, até por setores críticos da esquerda em prol da candidatura de Dilma, não deve ser esquecida no próximo governo. Que sirva de lição de que não se pode se acomodar, mesmo quando há avanços; ao mesmo tempo, que a oposição lembre que não dá para querer ganhar uma eleição com base no ódio, isso só afasta as pessoas. Agora, resta desejar que sejam 4 anos melhores para todos os brasileiros, sem ódio, sem rancor, e em união por um país melhor. Vermelhos, azuis ou não, ainda vivemos sob a mesma pátria. Essa é a beleza da democracia.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Por que votarei em Dilma



Joseph Pulitzer, um renomado jornalista norte-americano, uma vez disse: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”

Neste 2º turno das eleições presidenciais, declaro que não votarei em Aécio. Eu poderia citar diversas razões, como a sua visão econômica (como foi detalhada aqui no blog), a construção de um aeroporto em terras de sua família, casos de corrupção e/ou improbidade administrativa na sua gestão (como na saúde), censura e perseguição a jornalistas de oposição (ver aqui e aqui), ter aliado e amigo pessoal envolvido com o tráfico de drogas (ver o mini-documentário Helicoca), entre outras. Só que eu não vou votar no Aécio por outro motivo, bem mais pontual: por causa dos eleitores de Aécio.

Apesar de tudo que citei, talvez Aécio pudesse ser a melhor opção para o país. Acreditem ou não, mas eu sempre me questiono sobre as minhas crenças, analiso ideias diferentes da minha e me pergunto se eu não poderia estar errado e, os outros, certos. Talvez a visão do candidato tucano seja a melhor para o Brasil. Quem sabe? Mas a prova de fogo, para mim, trata-se da seguinte questão: se eu apoiasse Aécio, ao lado de quem eu iria ficar? Quem seriam as pessoas à minha volta?

Aí começa o problema. Não mais que de repente, eu me veria ao lado de pessoas raivosas, irracionais, racistas, homofóbicas, xenófobas, intolerantes e preconceituosas de todo tipo, que, sem razão, usam da violência contra minorias e todos aqueles que possuem uma visão diferente. E eu não quero estar ao lado desse tipo de gente, que vocifera asneiras, como se a Guerra Fria ainda existisse, tudo em prol de um "fora PT", "fora Dilma", "fora comunismo" (?), e só. Afinal, se esse é o eleitor do cara, é para eles que Aécio deverá prestar contas, uma vez eleito, não é?


Você, eleitor do Aécio mais ponderado, já deve estar me xingando, dizendo que você e muita gente não é assim. Talvez você apenas acredite que a visão neoliberal seja melhor para a economia. Discordo, mas posso respeitar. Talvez você creia que o PT roubou muito e o Brasil precisa de ética. Eu diria que, na melhor das hipóteses, você está sendo enganado, pois o PSDB não é nenhum exemplo de ética ou combate à corrupção, já que os maiores escândalos envolvem justamente este partido, e com montantes muito superiores ao mensalão petista. Mesmo que você conteste os números abaixo, uma pesquisa pela internet mostra que a realidade não está distante disso.


Mas eu lhe digo, eleitor tucano, que compreendo que nem todo mundo é assim. Não diria nem que é a maioria, ou que os eleitores de Dilma são todos santos. Contudo, é muita gente. E não adianta dizer que são fakes, que é só na internet (leia os comentários de qualquer notícia sobre política). Basta sair às ruas e ver o que muitos de seus eleitores falam. Como o filho do dono de uma rede de supermercados em Pato Branco que fez este singelo vídeo. Antes de deletar sua conta nas redes sociais, estavam lá as suas mensagens de apoio ao Aécio. É impossível aceitar que eu fique ao mesmo lado deste tipo de gente.


E nem são só seus eleitores. Quem apoia Aécio? Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia, etc. Ou seja, as forças mais conservadoras e reacionárias do país. E tem mais: vá a qualquer banca de jornal e veja as principais revistas e jornais. Quase todos possuem capas em prol de Aécio ou contra a Dilma. Sem falar que, toda vez que ele sobe nas pesquisas, a bolsa de valores sobe e o mercado financeiro se anima. A grande mídia e o mercado financeiro quer, e muito, a sua eleição. Me diga então: por que eu ficaria ao lado dos mais poderosos? Que interesses escusos eu estaria defendendo sem saber ao elegê-lo apenas em razão de um discurso vago de “mudança”?

Tendo consciência de tudo isso, eu não posso votar no Aécio. Não mesmo. Mais do que tudo, ele reforça a minha certeza de que o correto nesta eleição é votar em Dilma. Mesmo sendo um voto crítico. Não acho que seu governo foi perfeito, tenho inúmeras críticas que eu poderia fazer. Entretanto, sempre apoiarei um projeto de país que vise os mais pobres, os mais necessitados, e que busque a redução contínua da desigualdade social, o maior mal assola este país. Talvez a eleição de Aécio me beneficie. Afinal, fui e sou uma pessoa privilegiada, por ser branco, de olhos claros, paulista, vindo de classe alta, etc. Mas voto em Dilma porque não posso pensar apenas em mim. É preciso pensar no outro também. E o outro precisa mais do que eu.

Você, que pensa em votar branco ou nulo por achar que são todos iguais, sugiro que reconsidere a ideia. A virulência no discurso dos eleitores de Aécio é tóxica demais para tomar para si o país. A sua eleição representa a vitória do ódio, alimentado pela mídia que busca apenas seus próprios interesses, e isso nunca é bom em lugar algum. E se eles fossem tão iguais, não haveria esse apoio tão escancarado, embora não-declarado, da grande mídia e do mercado financeiro.


Neste momento, se as pesquisas estiverem corretas, cada vez se torna mais provável a derrota de Aécio. Mas parece que, pela 1ª vez, um candidato pode perder não por seus próprios defeitos (que são muitos), mas pelos de seus eleitores. Em reação a todo esse ódio, tem ocorrido uma bela mobilização pelas ruas em defesa da candidatura de Dilma, num grau que não se via talvez desde 1989, culminando no grande comício na PUC de São Paulo. Que seja um lembrete a ela e ao PT de que, apesar de todo o apoio, é preciso repensar o modo de fazer política no país. Neste ano de disputa acirrada, trata-se muito mais de um repúdio ao ódio do que de um voto por paixão.

Deixo, por fim, um último vídeo que ilustra a situação. E ao vê-lo, refaço a pergunta que fiz a mim mesmo: com que pessoas você quer estar no final? De que lado você quer ficar? Eu, com convicção, já escolhi o meu.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

A política econômica de Aécio e Dilma



O principal tópico que diferencia as candidaturas de Dilma e Aécio é a política econômica. Aliás, este tem sido um dos principais argumentos (quando existem) pelos eleitores de Aécio para justificar o seu voto.  Portanto, é importante esclarecer um pouco mais sobre as diferenças entre o que Dilma fez em sua política econômica e como cada candidato lidaria com a situação econômica atual para fazer o país voltar a crescer. E embora economia não seja exatamente a minha especialidade, creio que posso contribuir para desmistificar algumas questões em debate.

Primeiramente, é necessário contextualizar a situação econômica do Brasil em relação ao momento pelo qual passa o mundo neste momento. Nos tempos do governo Lula, é verdade que o país foi amplamente beneficiado pela alta de commodities (minérios, produtos agrícolas, etc, dos quais o Brasil é um grande exportador), alavancada pela forte demanda da China, o que facilitou a grande expansão econômica. Com a grave crise financeira internacional de 2008 e a queda nos preços dos commodities, o Brasil teve que mudar sua estratégia e, diferentemente de outros países ao redor do mundo que recorreram ao arrocho salarial e ao corte de benefícios sociais, apostou no mercado interno para impulsionar o crescimento, aumentando o crédito e cortando impostos em alguns setores-chave da economia, como construção civil, automóveis, eletrodomésticos, etc. A tática funcionou, e enquanto muitos países ricos sofriam com o alto desemprego, privatização de instituições públicas e cortes em salários e benefícios, o Brasil manteve o pleno emprego, com taxas históricas mínimas de desemprego, e a economia em movimento.

Com a eleição de Dilma, foi dado um passo além. Uma demanda antiga do empresariado era a redução da taxa de juros para impulsionar o investimento privado, e até o momento isso não tinha sido feito por temor de que a inflação voltasse. Seu governo então ousou e reduziu a taxa Selic ao nível mais baixo de sua história, facilitando o crédito para a população que quisesse fazer algum financiamento e para o empresariado que quisesse fazer novos investimentos. A população, de fato, aproveitou a facilidade de crédito para a compra de imóveis, automóveis, entre outros bens; o empresariado, no entanto, não respondeu aos incentivos como era esperado. Talvez por falta de confiança no governo, temor em relação à economia internacional, ou falta de ousadia mesmo, a verdade é que a indústria não seguiu os passos que o governo antecipava. Ao mesmo tempo, o alto consumo gerou inflação, que levou ao endividamento, e com os temores de um retorno aos tempos de inflação alta, o governo Dilma recuou na sua estratégia e aumentou os juros de volta. Esgotava-se a estratégia de focar no mercado interno para lidar com a crise, e desta vez era necessário buscar outras alternativas para fazer o Brasil voltar a crescer.

É verdade que o governo Dilma teve que lidar com outros problemas também. Primeiro, a crise internacional continua – apesar de alguns esboços de recuperação –, o que, junto a um dólar relativamente baixo, insiste em prejudicar a indústria e a balança comercial do país. Depois, houve alguns “acidentes de percurso” da gestão Dilma-Mantega. A maior reclamação do mercado em relação a Dilma é o seu intervencionismo na economia, pois isso traria instabilidade e desconfiança. Por exemplo, a presidente renegociou os contratos de distribuição de energia, baixando as tarifas praticadas para a indústria e o consumidor. Entretanto, a falta de chuvas no último ano prejudicou o setor, que recorreu às usinas termoelétricas para a geração de energia, que são mais caras. Assim, com as tarifas mais baixas, o setor está tendo prejuízo. Além disso, a presidente é acusada de congelar os preços para não fazer a inflação subir ainda mais, como da gasolina, que estava defasado devido aos preços internacionais do petróleo, o que vem causando prejuízo à Petrobrás e outras indústrias de petróleo e gás. Por isso, esses setores têm demonstrado insatisfação há algum tempo com Dilma, e pedindo a cabeça do ministro Mantega.

Agora, o Brasil está com a economia no freio de mão e uma inflação no limite da meta. O que fazer? Aécio e Dilma apresentam as duas alternativas mais frequentes num momento de crise: a neoliberal e a keynesiana.

Aécio Neves já sinalizou que Armínio Fraga seria seu Ministro da Fazenda. Quem é Armínio? Para quem não lembra, ele foi o presidente do Banco Central no segundo governo de FHC, quando promoveu juros altos que aumentaram e muito o desemprego da época. Economista influente, com dupla cidadania americana e de viés liberal: não é de se espantar, portanto, que Aécio e Armínio sejam os favoritos do mercado. De fato, Aécio defende bastante o que ele fez em Minas Gerais, classificando como “choque de gestão”. O que ele prega, na verdade, é seguir o receituário neoliberal para se lidar com uma crise: corte de gastos do governo, elevação da taxa de juros (diminuindo a oferta monetária, o que causa lá na frente a queda da inflação), aumento de privatizações, cortes em gastos sociais, etc. Ele defende a forte redução na inflação, e na macroeconomia, há um trade-off entre a inflação e o desemprego. Ou seja, de acordo com a curva de Phillips, ao se buscar diminuir a inflação, reduzindo a circulação de dinheiro na economia e dificultando o crédito, o que temos é o aumento do desemprego (menos pessoas consumindo, diminui-se a produção, o que leva a demissões). Isso sem falar no arrocho de salários, e mais outra mazelas, tudo para deixar o mercado “se reestruturar” para fazer a economia “voltar a crescer”. Isso é o que seu discurso quer dizer, embora não admita em público. Afinal, declarar que pretende congelar programas sociais e que haverá aumento de desemprego seria suicídio político.


Por outro lado, Dilma já tem adotado outro antídoto para fazer a economia voltar a ter um crescimento maior. O seu governo parece seguir uma linha mais keynesiana, que defende o aumento dos investimentos públicos para movimentar a economia. Como o modelo de crescimento baseado no consumo do mercado doméstico parece ter se estagnado, Dilma decidiu tirar do papel as inúmeras obras de infraestrutura que o país tanto precisava para diminuir o “custo Brasil” e aumentar a competitividade da indústria brasileira. Só que o governo não tinha os recursos e a capacidade para fazer os investimentos sozinho sem ter que aumentar os impostos ou tirar dinheiro de outras áreas; portanto, a solução foi ceder às parcerias público-privadas para que as coisas andassem. E assim começaram inúmeras obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc, que devem alterar bastante a infraestrutura deficiente do país, ao mesmo tempo em que gera emprego e faz a roda da economia girar.

Essas obras já estão em andamento, e os próximos presidentes vão se beneficiar disso daqui a uns 5, 10 anos. No entanto, quem vencer pode adotar políticas diferentes em relação a isso: Dilma continuará o foco nessa estratégia, enquanto Aécio deverá adotar as medidas mencionadas de combate à inflação e de reforço do poder do mercado. Dificilmente ele fará uma interrupção nas obras, mas a continuidade deste tipo de política pode entrar em risco. A verdade é que este é um movimento cíclico: um país consegue melhorias sociais, eventualmente entra em recessão, e surge o receituário neoliberal como "salvador da Pátria", desmantelando os avanços anteriores como se a culpa dos gastos com programas sociais. O que é melhor para o país? Cabe ao eleitor decidir, mas talvez seja melhor tentar algo diferente deste ciclo, como o que Dilma tem buscado. E caso haja dúvidas, melhor perguntar ao povo de Espanha, Portugal, Grécia, entre outros países europeus sofrendo com a tal da “austeridade” neoliberal. Eles, certamente, não parecem muito felizes com isso.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Campanha suja no Whatsapp



Neste domingo, dia 12 de outubro, recebi uma mensagem de vídeo de um número +1-240-436-2706, o que significa que vem dos EUA. O vídeo era do Danilo Gentili, zombando do Aécio por cheirar cocaína, este aqui. Eu não conhecia este número, ou a pessoa que enviou, então se tratava de spam. Tratei de enviar uma mensagem, para ver se a pessoa respondia. Imediatamente, recebi  a seguinte resposta automática:

“Sorry, we can’t deliver your message to the advertiser. This message was sent from http://www.whatsgateway.com/ for bulk messaging services.”

Além disso, a mensagem dava algumas instruções, como saber o número de celular de quem enviou:

“To view the mobile number of last sender, write * followed by number 1.”

Enviei *1, e fui olhar do que se tratava esse Whatsgateway. Aparentemente, é um site pago para quem quer divulgar algum produto por meio de mensagens em massa do Whatsapp. A tabela de preços pode ser vista aqui.

No dia seguinte, recebi a resposta com o número de telefone do indivíduo. Não vou postar o número aqui, mas era de Minas Gerais. E como o Facebook permite que você encontre perfis por meio do celular, a pessoa encontrada foi esta aqui: https://www.facebook.com/eduardomesquita01

Não saberia dizer se o ato foi por iniciativa própria, se foi um laranja, ou algo orquestrado pela militância do PT. O fato é que este tipo de campanha não só é imoral, como é ilegal. Mesmo assim, antes que alguém comece a bradar contra o PT, dizendo que eles são tudo assim mesmo, etc, a verdade é que eu já tinha ouvido sobre esse tipo de campanha suja pelo Whatsapp, só que vindo da militância do PSDB. O Sakamoto dá um exemplo de campanha viral aqui. Ou seja, não há santos nesta história.

Golpes baixos e imorais fazem parte do histórico da militância do PSDB ao longo das últimas campanhas eleitorais. A novidade em 2014 é ver o PT, talvez pelo medo de perder as eleições, chafurdando na mesma lama e em grau semelhante. E não falo apenas de mensagens depreciativas pelo Whatsapp, mas da disseminação de diversos sites e blogs inventando boatos sobre Aécio Neves. Sinceramente, acho que nem precisa, pois o próprio candidato já possui esqueletos demais no armário. Desconstruir o candidato, mostrando suas contradições e fraquezas, faz parte da campanha eleitoral, como já reforcei aqui. Mas recorrer à mentira e a atos ilegais é perder a razão.

Assim, o pior legado destas eleições não vai depender de quem se eleger. Este legado já ocorreu: foi a falência moral dos dois principais partidos do país, que não medem os esforços para vencer e recorrem a qualquer artifício para ludibriar seu eleitorado em potencial. Quem perdeu fomos nós. Uma lástima.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os bons protestam, os maus elegem



Depois da festa da democracia, veio a ressaca. E das fortes...

Marina Silva, que por várias semanas liderou a disputa para a presidência, acabou fora do 2º turno, numa arrancada de última hora de Aécio Neves. Em São Paulo, o PSDB não só assegurou, como reforçou o seu domínio no estado, apesar de todos os problemas (e são muitos), em especial a falta d’água. E ainda teve como deputados mais votados Celso Russomanno, Tiririca, Pastor Marco Feliciano e Bruno Covas (cujo assessor foi preso recentemente pela Polícia Federal com R$ 100 mil em espécie). Enquanto isso, no Rio de Janeiro, teremos um 2º turno entre Pezão (PMDB), sucessor do impopular Sérgio Cabral, e Crivella (PRB), ex-bispo da Igreja Universal e sobrinho de Edir Macedo. Além disso, Jair Bolsonaro e Clarissa Garotinho foram os deputados mais votados. E pra fechar com chave de ouro, de acordo com o Diap, temos o Congresso eleito mais conservador desde 1964. Parece que a única coisa a se dizer é: “Tudo aquilo que rolou em junho de 2013 foi para isso?”

Primeiro de tudo, a derrota de Marina ainda no 1º turno não é absurda. Eu já tinha alertado aqui no blog sobre os percalços que uma candidatura de 3ª via precisa enfrentar, e Marina não se saiu bem ao lidar com eles. O povo queria mudanças, mas acabou tendo, mais uma vez, o velho embate PT x PSDB, com Aécio aparecendo mais forte do que se esperava. Como explicar isso? Bem, a direita apoiou Marina até onde deu, na esperança de vencer o PT, mas vendo sua candidatura se esvaziar e suas chances de vitória diminuírem, migrou de volta em peso para o PSDB. Além disso, o que acontece geralmente na política – e isso em toda parte do mundo – é que, quando as pessoas querem mudança, elas não querem mudar exatamente tudo. Tipo, até querem, mas elas têm medo. Medo do novo, medo de arriscar, medo de experimentar algo que nunca provaram. Então elas mudam, sim, só que para o velho, o conhecido, o que não surpreende. E isso ocorre de forma até irracional. Por exemplo: o partido de esquerda no governo não investe direito na saúde pública. O que o povo insatisfeito faz? Elege o partido de direita, que vai lá, e tenta privatizar a saúde. O povo sabe que a direita é capaz disso? Até sabe. Mas a insatisfação e o desejo de mudança pode cegar o eleitor, fazendo um voto irracional apenas por fazer. Foi assim no Reino Unido, foi assim na Espanha... pode ser assim no Brasil.

E voltando ao nosso país, lembremos de junho. Sim, aquela massa de pessoas nas ruas, lutando por seus direitos, conseguindo impor uma derrota nos governos e colocando medo nos políticos. Foi um grande momento histórico. Ainda assim, que fique bem claro: junho de 2013 não foi um despertar do povo para tudo que há de errado na política; não foi um movimento revolucionário de esquerda de luta rumo ao socialismo; não foi nem uma revolta contra o governo do PT. Junho foi uma catarse, uma resposta caótica aos preços altos, à violência policial e à descrença na política. As pessoas estavam insatisfeitas e extravasaram isso nas ruas. E isso é bom, porque o brasileiro redescobriu o poder das ruas. Mas não foi algo muito além disso.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar outro fator: enquanto mais de 1 milhão foi às ruas, a maioria da população ficou em casa. Alguns dos que viram tudo da janela talvez quisessem se juntar ao povo, mas tiveram medo da violência; outros até estavam insatisfeitos, mas com outras coisas, e tinham medo das pautas nas ruas; enquanto uns outros poucos só estavam com medo, porque queriam manter tudo como estava. Ou seja, um monte de gente com medo, assistindo àquilo tudo sem entender nada. Um ano depois, todas essas pessoas tiveram agora a sua chance de dizer o que pensam nas urnas. E quem tem medo faz o quê? Se agarra nos candidatos que prometem restabelecer a ordem. Lembram que na Turquia houve protestos e mais protestos também? Pois é, na hora das urnas, o primeiro-ministro Recep Erdogan saiu vitorioso mesmo assim. A maioria das janelas assim decidiu.

Aí entra outro fator nestas eleições: a participação. Como agiu o eleitor insatisfeito com a política? Alguns podem ter apoiado a Marina, vendo-a como expoente, de fato, de uma nova política (seja lá o que isso for agora); outros, podem ter militado por candidaturas mais à esquerda, como a de Luciana Genro e Eduardo Jorge. Mas a verdade é que muita gente simplesmente se isentou de participar. Em São Paulo, a abstenção foi de 19,5%, enquanto os votos brancos e nulos totalizaram 17%; no Rio, a abstenção foi de 20,1%, e os votos brancos e nulos, 17,5%. E isso na votação para governador. Ou seja, 36% dos eleitores, mais do que o suficiente para impedir a eleição de Alckmin no 1º turno, simplesmente não participaram do pleito. Para deputados federais e estaduais então, os votos brancos e nulos foram próximos de 20% nos dois estados. E para o Senado, em São Paulo, pior ainda: chegou a 26,2%, o que contribuiu para a derrota de um dos melhores políticos brasileiros, Eduardo Suplicy.

Longe de mim, é claro, querer culpar os resultados assustadores nas eleições apenas em quem votou branco e nulo ou se absteve. Nem mesmo pretendo dividir a política no maniqueísmo do bem x mal. Mas a realidade é que tem muito eleitor consciente deixando de votar por desânimo, descrença, protesto, enquanto os maus eleitores – aqueles que só pensam no próprio umbigo, que vendem seu voto, que votam em qualquer um ou no primeiro santinho que veem pela frente –, esses continuam votando. O voto nulo, como protesto, é apenas isso. Não impede ninguém de se eleger; pelo contrário, até facilita. Quem vê a sujeira na política e se torna descrente pode se ausentar de participar dela, mas quem contribui para o retrocesso, como os reacionários, os que vendem seu voto, os fundamentalistas, etc, esses vão continuar elegendo o que há de pior. E são eles que vão governar.

A imagem no começo do texto serve para ilustrar como se sente esse eleitor. “PT ou PSDB, tanto faz!” Mas será mesmo? Por mais críticas que se possa fazer ao governo atual, há ainda fortes diferenças ideológicas entre os dois partidos e, em especial, entre suas bases eleitorais. Agora, no 2º turno entre Dilma e Aécio, é razoável concluir que nenhum projeto representa exatamente como você pensa. Contudo, é bom pensar se um voto crítico não é melhor. Uma vez, um colega espanhol levantou uns números mostrando que os votos na direita espanhola eram praticamente sempre os mesmos a cada eleição; não cresciam, nem desciam muito. O que mudava, no entanto, era o número de votos que a esquerda recebia. Sempre que houvesse uma decepção com a esquerda, a abstenção crescia, e era o suficiente para a direita vencer as eleições. Portanto, é preciso pensar se é isso que o Brasil quer daqui para frente, pois podem ter certeza de uma coisa: vendo, enfim, a possibilidade de retornar ao governo depois de 12 anos, a direita vai usar todas as suas armas para vencer. Estejam preparados: serão semanas árduas até 26 de outubro.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O que Alckmin e o PSDB fizeram por São Paulo em 20 anos?


Quem assistiu ao longo do tempo a campanha de Geraldo Alckmin, do PSDB, para reeleição ao governo de São Paulo, talvez imaginou que vive no Reino de Deus na Terra. Metrô para todo lado, saúde e educação de 1º mundo, uma população segura, saudável e feliz. Isso sem falar no ufanismo paulista, que é de revirar o estômago. Passa-se mais tempo falando de projetos que um dia, quem sabe, serão feitos, em vez do que já foi realizado. E como sabemos, infelizmente, a realidade é muito diferente. Alckmin já governou São Paulo por 10 anos; o PSDB, por 20. E por todo esse tempo, São Paulo sofreu, em absolutamente todos os aspectos. Duvida? Vejamos um por um, então.

Muito se fala na riqueza de São Paulo. Mais uma vez, quem assistiu aos programas de Alckmin na TV pode pensar que, antes do PSDB, São Paulo era um estado pobre e devastado. Mais um pouco, e eles alegariam que começaram o ciclo do café por aqui. A verdade é que São Paulo é, e tem sido desde antes dos fundadores do PSDB nascerem, o estado mais rico da federação. E embora isso não tenha mudado, São Paulo ficou, sim, relativamente mais pobre. Em 1995, a participação de São Paulo no PIB nacional era de cerca de 35%. Hoje, em 2014, está em 31,4%. Foi sob o atual governo de Alckmin, inclusive, que São Paulo teve sua maior queda. Em 2010, era de 33,1%. Ou seja, em 4 anos, houve uma queda igual ao que PSDB causou nos outros 16.

Mesmo assim, São Paulo continua o estado mais rico da federação, um eleitor tucano poderia afirmar. Pois é, e sendo assim, é de se esperar que o estado mais rico da federação tenha os melhores serviços de saúde e educação, não? Não. A verdade é que ambas as áreas estão em péssima situação.

Na saúde, o negócio vai de mal a pior. Espera-se que uma gestão da saúde abra mais leitos para a população, não é mesmo? Muito pelo contrário, o governo Alckmin conseguiu fazer o oposto. Em seu governo, somente na capital, 383 leitos foram fechados. Usando um exemplo mais claro, quem mais sofreu com o descaso da saúde foram os portadores do vírus HIV. O governo Alckmin fechou leitos para essa população, além de fechar a histórica Casa da Aids, transferindo os seus 3 mil pacientes para o Hospital Emílio Ribas. Onde já se viu concentrar mais pacientes num lugar já lotado para aumentar a eficiência do tratamento? Pois é, somente no mundo fabuloso de Alckmin.

A educação, então, não dá nem para passar de ano. Neste ano, os estudantes da rede estadual tiveram o pior desempenho em 6 anos. Mas se São Paulo é o estado mais rico da nação, então deve ter mesmo assim os melhores índice de educação, certo? Errado. De acordo com os dados do Pisa, São Paulo tem apenas a 5ª melhor rede estadual, e que, mesmo assim, está abaixo da média nacional. Talvez o que explique isso seja o baixíssimo investimento em educação no estado. São Paulo é apenas o 18º no ranking dos estados que mais gastam com educação em relação a seu PIB. Ou seja, comparativamente, estados como Piauí, Amapá, Acre, Roraima, etc, gastam mais do que São Paulo.

Isso se reflete também na situação das universidades estaduais. Apesar de serem as melhores do país, USP, Unesp e Unicamp entraram em crise neste ano por falta de recursos. O caso da USP se torna mais grave pela péssima gestão de João Grandino Rodas, que nem foi eleito pelo conselho universitário, mas indicado de forma autoritária pelo então governador José Serra. O resultado foi o congelamento de salários e discussões sobre privatização, quando a crise foi causada pura e simplesmente por má administração. Isso causou uma longa greve, em grande parte devido à teimosia e arrogância do atual reitor e do governador Alckmin, que não queriam negociar.

“Pelo menos o Alckmin colocou mais policiais na rua.” Pode até ser, mas isso não resultou em maior segurança, pelo contrário. A polícia nos protege de quem? Afinal, a PM paulista matou duas pessoas por dia em 2014. De 2006 a 2010, ela matou mais do que todas as polícias dos EUA juntas. E nada disso resultou em redução da criminalidade, pois houve um aumento no número de latrocínios e roubos de cargas em 2013. Isso sem falar na prisão arbitrária de manifestantes pouco antes da Copa do Mundo, de forma a ludibriar a população de que havia preso líderes do grupo black blocs.

E o metrô então? A malha metroviária de São Paulo, que é responsabilidade do governo do estado, é uma vergonha. O paulista parece ignorar este fato, comparando com o resto do país. Mas e se comparar com o resto do mundo? Vejamos alguns exemplos. Londres? 408km. Nova York? 368km. Tokyo? 292km. Seoul? 287km. E São PauloApenas 78,4km. Alguém pode dizer que a comparação é inválida, porque estas cidades começaram a construção de seus metrôs muito antes. Algumas cidades, sim. Mas Seoul começou em 1974; o mesmo ano que São Paulo. Pegue outra cidade comparável a São Paulo, como a Cidade do México. O metrô foi inaugurado em 1969 e tem 201km. Mais que o dobro. Agora, quer uma comparação ainda mais deprimente? O metrô de Shanghai foi inaugurado em 1993, pouco antes do início da gestão do PSDB em São Paulo. Hoje? Possui 538km de linhas. Um ritmo de 25km de metrô construídos por ano. Enquanto isso, em 20 anos, o PSDB entregou apenas 32km. Ou seja, um pouco mais do que Shanghai entrega por ano. O que significa uma média de 1,6km construído por ano durante a gestão tucana. Absolutamente lamentável.

E o descaso com o metrô não para por aí. Em 2010, Alckmin havia prometido entregar 30km de metrô até 2014. Vai entregar apenas 4km, ou seja, 13% das obras prometidas. E quando o PSDB entrega as obras, 79% delas são em anos eleitorais. Mas por que tanta ineficiência? Talvez o cartel do metrô explique, um esquema de fraude nas licitações para a construção e manutenção de suas linhas. Estima-se que o estado tenha sido lesado em, pelo menos, R$ 450 milhões. Ou seja, pelo menos três vezes mais do que a estimativa mais pessimista do mensalão do PT, tão alardeado pela mídia conservadora como o maior esquema de corrupção da história brasileira. E pra fechar com chave de ouro – talvez literalmente –, o candidato Alckmin recebeu pelo menos R$ 4 milhões em doações para sua campanha eleitoral de três das empresas investigadas pela formação de cartel. Dá para acreditar?

Isso lembrando que o metrô é apenas parte do problema. Pergunte ao povo da Baixada Santista, por exemplo, há quanto tempo eles esperam a construção de um túnel ou ponte (cada eleição é uma promessa diferente) entre Santos e Guarujá. Em 2014, o percurso entre as duas cidades é feito da forma mais arcaica: por balsa.

“Ah, mas as estradas de São Paulo são um tapete!”. Dá uma raiva ouvir isso, não? Como se isso justificasse os altíssimos pedágios cobrados nas estradas paulistas. Para se ter uma ideia, em 2011, o brasileiro gastou em média R$ 9,13 em pedágio por cada 100km de rodovia; o paulista, enquanto isso, pagou R$ 16,04, quase o dobro. Isso os torna não somente os mais caros do país, mas como uns dos mais caros do mundo, especialmente se levar em conta a renda per capita. Além disso, a lucratividade das concessionárias de rodovias de São Paulo é abismal. Acredite, a empresa que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, por exemplo, foi duas vezes mais lucrativa do que bancos como o Bradesco e o Banco do Brasil. Ou seja, a privatização das estradas paulistas foi uma irresponsabilidade do governo do estado que priorizou o lucro de grandes empresas em vez do bem-estar do seu cidadão. Mais uma "grande" obra da gestão tucana.

Por fim, há ainda uma questão extremamente alarmante que surgiu neste ano: a crise da falta d’água. Sim, pode ter sido a maior seca em 80 anos, é verdade que há muito desperdício no uso da água, mas a realidade é apenas uma: a crise é primordialmente por falta de investimentos do governo do estado. Se tem dúvidas, pergunta a esta relatora da ONU. E Alckmin, visando a sua reeleição, finge não haver racionamento, que é praticado não-oficialmente por toda a região metropolitana, principalmente nas periferias. Tudo isso lembrando que o governo do PSDB negociou os papéis da Sabesp na Bolsa de Nova York, que acumularam alta de 601% em 10 anos (ou seja, foram negociados por uma pechincha, lesando o estado), e que tem seus lucros distribuídos entre acionistas estrangeiros. Ou seja, a água que falta na sua torneira se tornou dinheiro na conta de investidores de outros países.

A situação é tão grave que, para pessoas que trabalham no setor de recursos hídricos, já se comenta sobre uma contagem regressiva para o juízo final; ou seja, o dia em que as reservas vão secar e não vai ter água na torneira para mais ninguém. Apesar do estado crítico, a mídia parece tratar uma questão gravíssima como esta com extrema tranquilidade. Imagine se fosse um governador do PT? Por enquanto, a Sabesp garante o abastecimento até março de 2015. Veremos o que dirão depois das eleições. Talvez "salve-se quem puder".

Há ainda outras questões que poderiam ser citadas, como a poluição e o meio-ambiente, tendo como exemplo esta promessa não cumprida de Alckmin em 2003 de tornar o rio Tietê limpo e navegável, mas este é um balanço geral da atual situação do estado de São Paulo. E como pode se ver, a realidade é que temos um estado mal administrado, abandonado e saqueado. Mesmo assim, Geraldo Alckmin segue incrivelmente firme para a reeleição no 1º turno. Como explicar isso? Há diversas hipóteses. É verdade que o povo paulista é muito conservador, especialmente o interior; que a mídia paulista blinda o governo tucano da maior parte dos ataques e denúncias, deixando a população pouco informada sobre o que realmente acontece; que as pessoas nem sabem o que um governador faz, culpando o presidente ou o prefeito por problemas de responsabilidade do estado em vez disso; que há um anti-petismo fortíssimo no estado – em grande parte devido, mais uma vez, à mídia –, o que impede a formação de uma oposição viável, e assim vai. Eu ainda adicionaria uma tese minha de que o paulista acredita que o PSDB protege São Paulo e sua riqueza do resto da nação, reforçando a imagem ufanista de locomotiva do país, etc. Mas o problema é que este orgulho cego está levando o estado ao abismo. É preciso fazer algo para mudar.

Você, que está lendo este texto, precisa fazer a sua parte. Converse com amigos, família, qualquer um. Se quiser, pode votar no Padilha, do PT. Odeia o PT ou a esquerda? Então tem o Skaf, do PMDB, que é tudo, menos um candidato de esquerda, representando mais o setor do empresariado liberal. Não gosta dele também? Ainda há vários outros candidatos para escolher. O que não se pode é votar em branco ou nulo, e muito menos no próprio Alckmin. Entregar mais 4 anos para o PSDB seria nada menos do que premiar a incompetência. São Paulo merece e pode muito, muito mais do que este péssimo governo. O que falta é o povo paulista descobrir isso.