quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Todo mundo pode; menos o PT



Muito tem se falado nos últimos dias dos ataques e da campanha de medo promovida pelo PT contra a candidata do PSB, Marina Silva. “Oh meu Deus, como pode o PT recorrer a esse tipo de artimanha, que coisa feia!” E eu pergunto: é sério mesmo que tem gente com melindre por conta disso?

Primeiro de tudo, é importante lembrar: isso é algo que foi feito com o PT sistematicamente desde a sua fundação. Depois da massificação da Internet então, nem se fala. Quem não lembra da Regina Duarte dizendo que tinha medo caso o Lula ganhasse as eleições em 2002? E isso era só a cereja do bolo. A própria Marina Silva reconhece quantas andanças eles tinham que fazer para convencer as pessoas de que o PT não iria tomar a propriedade das pessoas, fazer com que elas aceitassem moradores de rua em casa, entre outros absurdos.

Tudo isso é imoral, é verdade. Mas tem um sério problema: funciona. Não é à toa que o lema do PT em 2002 era “a esperança vai vencer o medo”.  As pessoas tinham muito medo do Lula no poder, e não era por acaso. Havia um discurso amedrontador infiltrado na população que, uma vez enraizado, era difícil mudar. Só que esse terrorismo psicológico nunca deixou de existir, mesmo depois de 2002. Por exemplo, setores de oposição, juntos à mídia que os apoia, conseguiram convencer a população de que o mensalão era “o maior esquema de corrupção da história”, quando, na verdade, mesmo nas previsões mais pessimistas, ele ficaria longe até do top 10. Mas a questão nunca foi realmente essa: todo mundo podia ser corrupto; menos o PT.

Claro que o PT sempre posou de partido da ética, então o choque de estar envolvido num esquema de corrupção é maior. Mas o caso nem de longe foi tratado com a isenção necessária. Logo, fixou-se a ideia entre muita gente de que este foi mesmo o maior esquema de corrupção já visto, que nunca houve tanta roubalheira no Brasil, e que o PT era mais corrupto do que os outros. Aquela ideia de “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”, sabe?

Pois bem, voltando às eleições. A campanha negativa existe porque ela funciona. Não totalmente, porque também pode criar uma imagem ruim de quem está atacando. Mas ela desconstrói o outro candidato, planta a dúvida e acende a insegurança no eleitor. Pra isso que existe o marketing político, pra mexer com as emoções das pessoas. Não é bonito, é claro. Mas funciona. E funciona, principalmente, porque o eleitor brasileiro ainda se mede muito pelas emoções, e pouco pelas ideias. Caso se pautasse meramente pelas propostas de cada candidato, e as compreendesse de fato, ataques e campanhas de medo não teriam sucesso. Muito pelo contrário.

“Ah, mas o PT não precisava descer o nível, podia sair com moral dessas eleições.” Moral não ganha eleições, parceiro. E isso é o mais importante. Muito pior é ver o PT fingindo que não há nada de errado no país, que não há nenhum corrupto no seu governo, ou apertando a mão de Maluf, Sarney, Collor, etc. Isso, sim, deveria chocar e ser preocupante. Agora, críticas por descer o nível de campanha vindas dos mesmos partidos que sempre utilizaram esse tipo de artimanha ou das mesmas pessoas que compatilham inverdades pela internet? Ora essa, me poupem...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O que deu errado para a campanha de Aécio?



Conforme as pesquisas eleitorais demonstram, Aécio Neves encontra-se cada vez mais distante das duas primeiras colocadas, Dilma Rousseff e Marina Silva, e se consolida num distante 3º lugar. Logo, pela 1ª vez em 20 anos, o PSDB corre o sério risco de ficar de fora do 2º turno das eleições presidenciais – um golpe pesado no partido que já governou o país por 8 anos e se manteve como principal opositor do governo do PT. Mas o que deu errado para o PSDB e seu candidato, Aécio Neves?

Primeiro de tudo, é importante repetir o mantra que todo mundo já sabe: desde que perdeu as eleições em 2002, o PSDB não soube ser oposição. Pois é, depois de saírem do governo federal, os tucanos nunca mais encontraram um discurso próprio: primeiro, o partido negou seu passado das privatizações; depois, se fez de conservador, o que não era; e agora, volta a reafirmar o passado que antes negou. E as contradições não param por aí: antes, o PSDB foi contra o Bolsa-Família; agora, promete reforçá-lo. Antes, atacava Lula sem piedade; agora, reconhece seu bom governo e declara-se como seu melhor sucessor. E assim vai. A coerência nunca mais foi seu forte, entrando numa grave crise de identidade que consolidou a imagem do PSDB de partido dos ricos, e não da ética, como tentou formar, ainda mais depois de escândalos como o cartel do metrô em São Paulo, o aeroporto em Minas Gerais, etc.

Aí entra um problema chamado Aécio Neves. Já que nem Alckmin, nem Serra (duas vezes) emplacaram, o PSDB tentou lançar o neto de Tancredo Neves e duas vezes governador de Minas Gerais como candidato à presidência. Quando, em junho de 2013, centenas de milhares de brasileiros foram às ruas, as pessoas protestaram por melhores serviços públicos e contra os partidos tradicionais e a corrupção na política brasileira. Só que, em vez de dar ouvido a essas vozes, Aécio preferiu ouvir aqueles que assistiram aos protestos lá de cima – no alto do ar-condicionado de seus confortáveis escritórios – que pediam menos impostos, menos encargos, menos Estado. O problema é que a ideia de melhores serviços públicos soa incompatível com menos Estado, não?

Aécio também cometeu um erro que foi retomar um discurso de defesa do governo FHC. Não negar o passado até pode parecer honrado, alguns podem argumentar. Contudo, a estratégia é errônea, pois só agrada seus eleitores. A maioria da sociedade brasileira lembra o governo FHC de forma negativa, então louvar um governo que é repudiado pela maioria dificilmente vai cativar a mesma, reforçando a imagem de partido de elite.

Depois, é claro, entra o fator Marina. A candidata do PSB defende uma política econômica similar àquela do tucano, mas não foca nisso. Pelo contrário, ela enfatiza a questão da “nova política” – isso, sim, o que as vozes das ruas pediam. Sem falar, é claro, na promessa de manter o que está bom e melhorar os serviços públicos. Não a pergunte como, mas pelo menos ela promete isso. Já o Aécio até tenta... mas quem acredita?

Por fim, há uma última questão que é mais da tradição da política brasileira: o declínio histórico dos partidos conservadores no Brasil. Ao longo da nossa história, os grandes partidos conservadores sempre passaram por um estranho e forte declínio para serem, enfim, substituídos por outros em seu lugar. O caso mais recente foi o do DEM, ex-PFL. Lembram dele? Do Antônio Carlos Magalhães, todo poderoso no governo FHC, com uma das maiores bancadas no Congresso Nacional? Pois é, hoje não é nem sombra do que já foi. Esses partidos crescem, chegam ao seu auge, aí vão se desintegrando eleição a eleição, até se reduzirem a pó.

Será que este também é o caminho do PSDB? É muito cedo para concluir. Aécio vai tentar se utilizar ao máximo que puder do novo escândalo da Petrobrás – que envolveria políticos dos partidos de Dilma e Marina – para subir nas pesquisas, mas as chances de reverter sua situação são baixas. Além disso, o PSDB, que realmente se tornou o principal partido conservador no Brasil, mostra-se enfraquecido. Neste momento, os tucanos lideram somente em 4 estados na disputa para governador – a metade do que conseguiu eleger em 2010. Se a história se repetir, talvez estejamos mesmo testemunhando o princípio de seu derradeiro declínio.

Mas se o futuro parece sombrio, pelo menos nem tudo está perdido. Em São Paulo, o estado mais rico da nação, o PSDB parece assegurar seu domínio, rumo a 24 anos no poder. Para os paulistas, infelizmente, a temporada de caça a tucanos deve ser adiada mais uma vez.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Marina e a “maldição” da 3ª via



As pesquisas comprovam: se as eleições ocorressem hoje, Marina Silva seria eleita presidente da República, vencendo a presidente Dilma no segundo turno. O furacão Marina não para de crescer e de assustar petistas e tucanos. Sendo assim, muitas pessoas já se renderam ao “já ganhou”, à crença de que já está tudo decidido. Mas não é bem assim. Marina ainda tem que lidar com um grande problema histórico: a “maldição” da 3ª via.

Ser a 3ª via nas eleições não é nada simples. É fato que há uma crise da democracia representativa, e não somente no Brasil, de forma que as sociedades ocidentais andam cansadas dos partidos tradicionais e de uma disputa bipolar. Assim, surgem as candidaturas de 3ª via, de partidos que nunca tiveram a chance de governar, ora apresentando projetos mais radicais, ora prometendo um caminho do meio. O problema é que, apesar da comoção que causam, esses partidos dificilmente ganham.

Olhando o caso brasileiro, temos vários exemplos da história recente:  em 2002, Ciro Gomes chegou a ultrapassar Lula nas pesquisas, mas aí cometeu o grave erro de dizer que o papel de sua esposa na campanha era “dormir com ele”, o que o fez despencar e amargar um distante 3º lugar. Em 2010, Marina Silva foi ganhando cada vez mais espaço durante a campanha e conseguiu quase 20% dos votos no final, surpreendendo a todos e forçando um 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra. E, mais recentemente, nas eleições para prefeito de São Paulo em 2012, o candidato Celso Russomanno liderou as pesquisas até a última semana, mas acabou em terceiro, ficando de fora do 2º turno por poucos votos.

Aí alguns vão dizer: “Ah, mas o caso de Marina é diferente, sua candidatura está mais consolidada.” Sim, isso é verdade. Mas ela ainda terá que lidar com as grandes dificuldades que todo candidato da 3ª via tem que lidar. Em alguns casos, como o de Marina em 2010, este tipo de candidato vai ganhando fôlego durante a campanha, mas não rápido o suficiente para conseguir ficar entre os 2 primeiros no dia das eleições. Em outros, como pode ser com Marina em 2014, quando o candidato consegue chegar ao topo, começam a aparecer os ataques de todos os lados, causando a queda de sua popularidade e demonstrando que seu fôlego era nada mais do que passageiro.

Há diferentes motivos para isso ocorrer. Primeiro, o eleitor de candidatos de 3ª via é volátil: ele não tem uma fidelidade partidária, está apenas cogitando algo novo. Isso explica o rapidíssimo crescimento de Marina no período de duas semanas. E se este eleitor é volátil, ele facilmente se decepciona se o candidato comete algum deslize, diferentemente dos eleitores de partidos tradicionais, que têm uma fidelidade maior a seus partidos. Segundo, os partidos tradicionais possuem uma plataforma mais sólida: você sabe o que esperar deles, porque, provavelmente, já tiveram a chance de governar. Um partido de 3ª via, sem ter uma experiência para apresentar, acaba sendo um tiro no escuro. O eleitor até pode querer algo novo, mas para arriscar, seu grau de insatisfação tem que estar muito alto. E, por fim, candidatos de partidos tradicionais estão amparados por máquinas partidárias e coligações que sustentam seu projeto. Candidatos de 3ª via geralmente apresentam ao eleitorado mais perguntas do que respostas: como irão governar? Com o apoio de quem? Suas propostas são viáveis? E assim vai.

Estes são alguns dos problemas que Marina Silva terá que enfrentar. E agora que a candidata aparece à frente das pesquisas, os ataques à sua candidatura, justificáveis ou não, já começaram. Como fazer uma “nova política” tendo banqueiros como aliados? Como prometer melhor saúde e educação com a proposta de redução do tamanho do Estado na economia? São contradições difíceis de explicar, e Marina tem se mostrado incapaz de respondê-las adequadamente. Os primeiros deslizes também já começam a aparecer, como a volta atrás em alguns pontos de seu programa logo após a pressão do Pastor Silas Malafaia, ou a admissão de que recorre à Bíblia quando está em dúvidas sobre alguma decisão. O seu eleitor, eufórico com a ideia do “novo”, pode rapidamente tirar o corpo fora ao perceber que ela não era tudo aquilo que parecia. E em frente à urna, o medo pode falar mais alto e determinar a escolha pelo que é mais “confiável”.

É difícil dizer qual é o fôlego de Marina. Neste momento, é bem provável que ela passe para o 2º turno; contudo, não seria prudente concluir que Aécio Neves já está fora da disputa. Por um lado, os ataques a Marina devem fazer efeito, freando a sua ascensão; por outro, eleitores tradicionais da direita e do PSDB podem ver Marina como a única capaz de vencer o PT, migrando então o seu apoio de Aécio para a candidata do PSB. A única certeza neste momento é que é muito cedo para cantar vitória. Falta ainda um mês para o 1º turno e muita água ainda vai rolar. A maldição para Marina está apenas começando. Aí sim veremos se o seu santo é dos bons mesmo.