quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Análise do horário eleitoral para presidente



Ontem (19/08) começou o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio. É o momento mais esperado das campanhas políticas, pois é quando as pessoas passam a prestar mais atenção na política e nas eleições que se aproximam. Até então, o cenário era razoavelmente estável. Agora, os marqueteiros farão de tudo para mudar o humor do eleitor e alterar os resultados das pesquisas de opinião. Como o primeiro programa mostra um pouco do que cada candidato pretende apresentar ao logo da campanha, segue então uma breve análise do que foi apresentando por quem considero os 5 principais candidatos da disputa à presidência.

O PSB dedicou o seu curto tempo de 2 minutos e 3 segundos para fazer uma homenagem a Eduardo Campos. O programa mostrou imagens dele nas campanhas de 2006 e 2010, além de momentos junto a família e a Marina Silva, terminando com a frase que se tornou agora o lema de sua memória: “Não vamos desistir do Brasil”. Resta a Marina incorporar esse mote à campanha conforme ela recebe o bastão para liderar a coligação.

O programa do PSDB, de Aécio Neves, de duração de 4 minutos e 35 segundos, começou com um pequeno relato da candidato lamentando a morte de Eduardo Campos, contando um pouco da relação entre os dois. Depois, Aécio deu um discurso artificial, citando basicamente todas as questões que as pesquisas de opinião já identificaram sobre o que o brasileiro quer ou pensa, inclusive de que o Brasil melhorou durante o governo Lula. Deste modo, Dilma teria piorado o país e só ele poderia levar o Brasil de volta aos trilhos. O programa termina dizendo “Bem-vindos a um novo jeito de governar”. Mote difícil de convencer, quando alguém lembra que o PSDB já teve a sua vez no governo federal.

Enquanto isso, com seus longos 11 minutos e 24 segundos, o programa de Dilma, do PT, começou valorizando as conquistas sociais dos últimos 12 anos e se isentando de responsabilidade dos problemas recentes na economia, atribuindo a culpa à crise internacional. Depois, mostrou o dia-a-dia de Dilma em sua casa, desde cuidando do jardim até cozinhando e brincando com os cachorros. Uma tentativa de mostrar uma Dilma mais humana, dona-de-casa, mãe, distante da imagem de mera “gerentona”. Pra completar, foram mostradas diferentes imagens da presidente cumprimentando, beijando e abraçando pessoas em diferentes lugares. Parte do tempo ainda foi dedicada para falar dos diferentes programas sociais implementados por seu governo, além dos projetos de infraestrutura atualmente em andamento no país. Pra terminar, Lula aparece defendendo a sua candidata, lembrando como o seu segundo mandato foi melhor do que o primeiro, e prometendo que Dilma fará o mesmo. Além de um jingle meio sem graça que não deve pegar.

Por fim, dois candidatos menores, com cerca de 1 minuto de TV, e totalmente opostos um ao outro. O primeiro, Pastor Everaldo, do PSC, incorporou um discurso de direita em sua totalidade: seja na defesa da família e da ordem, no âmbito social, seja na defesa do estado mínimo, no âmbito econômico. Em reflexão, torna-se curiosa a relação estreita que se forma entre o pentecostalismo e a ideologia do capital. Por outro lado, Luciana Genro, do PSOL, apresenta-se aos eleitores mostrando um pouco da sua biografia e focando nas jornadas de junho e o desejo de mudança dos brasileiros, principalmente no sentido de que é possível governar de um modo diferente.

Isso foi apenas o começo, mas algumas previsões e questionamentos já podem ser feitos. Marina terá pouco tempo na TV, embora mais do que em 2010, e terá que aproveitá-lo bem para incrementar o seu capital político atual, além de se defender dos eventuais ataques de seus opositores. Já Aécio parece que começou do jeito que o PSDB sempre começa: uma mensagem de idealismo pouco convincente, pautada no que as pesquisas de opinião dizem, e que, ao longo da campanha, parte para um tom mais agressivo de ataque ao PT. Se assim for o caso, o PSDB será, mais uma vez, derrotado. Só que, desta vez, corre o risco de sair no 1º turno. Neste momento, o inimigo de Aécio deve ser Marina, não Dilma.

O PT acertou o tom a mostrar uma Dilma mais humana. Seu erro foi se trancar no palácio do governo em vez de falar mais das conquistas de seu governo. Agora, com mais tempo de TV que todos os outros candidatos juntos, ela terá amplas oportunidades de expor tudo o que fez e o que está fazendo, de forma aumentada ou não. Só não pode se acomodar com isso. De qualquer modo, ter um cabo eleitoral como Lula é uma grande ajuda, e o discurso de que o segundo mandato de Dilma será melhor, assim como foi o dele, pode colar entre aqueles saudosos do ex-metalúrgico presidente, mas ainda descrentes de sua sucessora.

Por fim, o Pastor Everaldo, apesar do caráter caricato e de ser uma figura política despreparada, tem uma base forte entre alguns setores evangélicos. Além disso, é o único candidato claramente de direita (claramente porque Aécio finge que não é). Portanto, sua postura franca em relação ao conservadorismo e à defesa do Estado mínimo pode conquistar a adesão de mais eleitores, mesmo entre não-evangélicos. Ainda assim, não vai alcançar grandes voos. Enquanto isso, Luciana Genro sofre com o pouco tempo de TV que o seu partido, o PSOL, possui. Mais uma vez, a esquerda não conseguiu formar uma frente única, restando ao partido a militância nas ruas e virtual. Ela não deve subir muito nas pesquisas, mas talvez ganhe um ou outro ponto a mais se cativar os insatisfeitos das manifestações das ruas.

O tom dos candidatos deve subir conforme as eleições se aproximam, mas o primeiro programa tende a delinear um pouco da estratégia de cada um. Veremos como a campanha se desenrola; afinal, imprevistos acontecem, como a morte de Eduardo Campos. Muita água ainda vai rolar. E o jogo apenas começou.

PS: Dispenso a análise para a campanha de deputados federais. Infelizmente, é a mesma piada de sempre.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Eduardo Campos morreu... e agora?



No dia 13 de agosto, enquanto sobrevoava a cidade de Santos, o jato que levava o candidato à presidência Eduardo Campos (PSB) caiu numa área residencial, matando ele e mais 6 pessoas. Além de uma tragédia inesperada, a morte do 3º colocado nas pesquisas coloca dúvidas sobre como sucederá a corrida presidencial. E agora, o que vai acontecer?

Não demorou muito para que inúmeras pessoas elaborassem todo tipo de conjecturas e teorias de conspiração. Eduardo Campos tem 13 letras, morreu no dia 13, o DDD de Santos é 13, o número do PT é 13, e mais um monte de asneiras numerológicas. Crendices à parte, a verdade é que ninguém saiu beneficiado de uma tragédia dessas: nem Dilma, nem Aécio, nem o PSB. Apenas uma pessoa pode sair ganhando disso tudo, pelo menos em termos políticos: Marina Silva.

No caso de falecimento de um candidato, a legislação eleitoral permite que a coligação de partidos tenha 10 dias para a indicação de um substituto. Deste modo, é até lógico que a escolha natural do novo candidato seja Marina, a vice da chapa de Eduardo Campos. Ele tinha poucas chances de vencer as eleições em 2014 – e devia saber disso. Tudo serviria de ensaio para 2018, quando o PT dificilmente terá um sucessor de peso. Marina, no entanto, já está pronta para 2014. Com um cacife eleitoral considerável, herdado das eleições de 2010, ela chegaria com força na corrida presidencial, mais do que Campos, ainda mais com o impulso a ser conquistado pela comoção em torno da tragédia.

Mas se a escolha é natural, é preciso ressaltar que ela não é automática. O jornalista Josias de Souza identificou bem esta questão no seu blog ao relatar o desconforto compreensível de dirigentes do PSB com Marina. Afinal, a ex-candidata pelo PV entrou no PSB como uma legenda de aluguel – é questão de tempo para que ela saia, uma vez que seu partido Rede Sustentabilidade seja lançado, deixando o PSB de mãos abanando. Por outro lado, lançar outro nome pode ser pior ainda. Sem a presença de Eduardo Campos, que controlava e unia o partido, o PSB corre o risco de se desfacelar em vários pedaços. Poderia até apresentar um candidato mais afinado com a direção do partido, é verdade; contudo, eliminaria qualquer chance de se apresentar como 3ª vida para a disputa PT-PSDB. E isso sem falar na opção de desistir de um candidato próprio, o que apenas beneficiaria Dilma.

A saída mais sensata – mesmo que a menos pior – seria então a escolha por Marina. Só que, para manter a coligação unida ao seu redor, talvez seja preciso mostrar habilidade política, coisa que ela já demonstrou não ter, enquanto Campos tinha de sobra. Assim, Marina tem poucos dias para definir todo o seu futuro político: se ressurge da tragédia como uma protagonista, ou se reafirma a sua condição de coadjuvante inepta e tola.

Caso Marina seja confirmada como candidata, o jogo muda. Ela certamente vai roubar votos de Dilma e Aécio, além de incorporar muitos – não todos – os seguidores de Campos e alguns indecisos carentes de uma 3ª opção viável. É provável, portanto, que já figure com um percentual de votos muito acima que seu antecessor nas próximas pesquisas de opinião. E o 2º turno, que antes era uma dúvida, torna-se uma quase certeza.

O mais prejudicado por isso, inicialmente, seria Aécio. Ele corre o sério risco de perder o 2º lugar para Marina, deixando o PSDB fora do 2º turno das eleições presidenciais pela 1ª vez em 20 anos. Seria um golpe bem duro – tanto para as pretensões do candidato quanto para o partido. Mesmo se mantiver o 2º lugar, certamente não terá o apoio no 2º turno de Marina, que, no mínimo, deve se manter neutra, assim como nas eleições passadas, o que apenas favoreceria Dilma.

A candidata do PT também encara um cenário desfavorável. Podia antes vencer no 1º turno, o que, com a entrada de Marina, torna-se muito improvável. Se for para o 2º turno contra Aécio, ainda mantém grandes chances de vencer. Entretanto, se Marina Silva passar para o 2º turno, é certo que ela herdará a grande maioria dos eleitores do tucano, ansiosos por uma mudança de poder. Logo, as chances de Dilma perder se tornariam grandes, e Marina poderia então se tornar a segunda mulher – e primeira evangélica e negra – presidente do Brasil.


Meses atrás, eu dizia que, para Dilma perder as eleições, uma grande tragédia teria que ocorrer – fosse um desastre na organização da Copa do Mundo, novos protestos em grande escala, outro escândalo de corrupção, etc. Pelo contrário, sua eleição estava praticamente garantida. A morte de um político pode ser o evento necessário para alterar os rumos da história. Exemplos não faltam, como a morte de Tancredo que tornou Sarney presidente. Poderia também a morte de Eduardo Campos ser este episódio que mude todos os prognósticos? Talvez. Por ora, aguardemos os próximos capítulos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um problema chamado Hideki



Um laudo do Gate e do Instituto de Criminalística descobriu o que todo mundo já sabia: os artefatos supostamente encontrados com Fábio Hideki Harano e Rafael Lusvarghi, que seriam o motivo para as suas prisões, não eram incendiários, e muito menos explosivos. Sendo assim, a justiça tem até o fim da semana para decidir se revoga a prisão preventiva dos dois com base nessa nova informação. E agora?

Agora tudo fica bem complicado. Tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o Secretário de Segurança Pública Fernando Grella se esquivaram do resultado do laudo afirmando que os dois ainda são réus por associação criminosa e incitação ao crime. E essas acusações se baseiam no quê? Bem, o Ministério Público afirmou que manteve a prisão preventiva dos dois com base no testemunho dos policiais. Pausa para reflexão: apenas de policiais? Pois é, mantiveram a prisão por confiança na “experiência” e na “fé pública” dos policiais que os prenderam. Sim, meus caros, vocês não leram errado: apesar de ninguém confiar na polícia brasileira depois de tantos escândalos de execuções, provas de crimes plantadas, etc, a justiça confia, e ainda cegamente! Dá para acreditar? E pra piorar o caso, o último pedido de liberdade dos dois foi negado pelo juiz da 10ª Vara Criminal, Marcelo Matias Pereira, com a argumentação de que os dois faziam parte de uma “esquerda caviar”. Sim, é sério. Este é o estado atual da nossa polícia e do nosso sistema judiciário.

Mas tratemos do caso. Vou me ater ao de Hideki, que já relatei aqui ser meu amigo, e por desconhecer mais detalhes do caso do Rafael. Sabe-se bem que o Hideki já estava marcado pela polícia. Ativista presente em diversas manifestações, a polícia identificou nele um suposto líder de grupos que faziam esses protestos, em especial os mais violentos, protagonizados pelos black-blocs. Só que o Hideki não tem nada a ver com os black-blocs, e sequer apoia a prática, apenas atuando como ativista independente. A pergunta que fica é: será que a polícia sabia disso, e quis usá-lo apenas como bode expiatório, ou o setor de inteligência da polícia é tão ruim (o que não seria surpreendente, já que o filósofo russo Mikhail Bakunin foi citado no Rio como possível suspeito) que eles realmente acreditam que Fábio pode ser o líder de facção criminosa que eles tanto procuram?

Qualquer uma das opções é preocupante. Ou a polícia é desonesta, ou ela é ineficiente. Pra não dizer que é as duas coisas. O problema agora é o que fazer. Se soltarem Hideki, ele terá muitas bombas a apresentar, mas não as do tipo que explodem. O que ele disser na mídia pode pegar muito mal: para a polícia, para a justiça e, especialmente, para o governador que busca a reeleição. Hideki não é qualquer um – é um cara inteligente, bem articulado, e compreende muito bem a situação. Vai incomodar e muito. O processo contra ele pelas outras acusações vai continuar, é verdade, mas se enfim for inocentado de tudo, poderá até processar o Estado.

Só que há também a opção de não soltarem. Aí a pressão vai continuar crescendo, vai continuar a atrair a atenção de grupos nacionais e internacionais de direitos humanos por manter injustamente uma prisão política. É um risco que pode ser melhor (para eles) do que deixá-lo falar. Há muitos interesses em jogo, como o pai de Hideki já afirmou numa recente entrevista, e por isso, toda cautela é necessária. Mas o que me preocupa, particularmente, é o risco que o próprio Hideki corre. Há não tanto tempo atrás, prenderam um jornalista e simularam o seu suicídio dentro da prisão, talvez com medo do estrago do que ele poderia causar se voltasse às ruas e contasse tudo o que aconteceu. Seu nome era Vladimir Herzog. Execuções dentro de presídios no Brasil ainda são corriqueiras, e não tenho dúvidas de que, no mínimo, já passou pela cabeça de alguma autoridade que a melhor opção seria dar um “sumiço” no Fábio. Acidentes acontecem, não é mesmo?

Seja como for, é importante estar de olhos bem abertos. Este caso é um exemplo bem claro do conflito entre o Brasil da ditadura e o Brasil democrático. Ainda há um passado autoritário que não conseguimos nos desvencilhar totalmente, e que mostra estar bem vivo toda vez que se busca superá-lo. Assim, o desfecho dessa história será crucial para saber quem saiu ganhando desde Junho de 2013: o Brasil de seu passado nefasto ou o Brasil de um futuro – quem sabe –  próspero.

Nota: Minutos após a publicação do texto no blog, o mesmo juiz mandou soltar os manifestantes, como relatado em notícia da Folha. Que seja o princípio de justiça a ser feita e cumprida.