quarta-feira, 23 de julho de 2014

Fechamento da Santa Casa: a culpa é de quem?



Recuperando da depressão pós-Copa, um texto rápido sobre um tópico menor (mas ainda importante) em meio a tanto caos no mundo agora.

O pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o maior hospital filantrópico da América Latina, está com as portas fechadas desde ontem (22/07). Por motivo de dívidas com fornecedores, o hospital estava sem material adequado para continuar funcionando e, portanto, foi forçado a parar o atendimento. Houve muita comoção e muito arremesso de pedras no governo federal. “Culpa da Dilma”, “culpa do PT”, “quem manda investir em estádio e não em hospital”, etc. Calma lá.

Vamos lembrar que a Santa Casa é um hospital filantrópico privado (ou seja, administração privada, mas não cobra de seus pacientes). O atendimento é financiado pelo SUS (de acordo com a tabela do governo federal) e complementado com recursos do governo do estado. Sendo assim, há 3 possíveis culpados nessa história toda, e nenhum exclui o outro. Vejamos:

- O primeiro culpado pode ser mesmo o governo federal. Hospitais filantrópicos recebem repasses do governo federal principalmente pela tabela de procedimentos do SUS. Tabela esta que, de acordo com o provedor da Santa Casa, está desatualizada. O governo federal, em sua defesa diz que não, que, desde 2012, o total repassado pelos procedimentos foi mais que o dobro, além de prover outros incentivos financeiros. O governo federal ainda perdoou as dívidas com o hospital para mantê-lo de pé; os fornecedores, não.

- O segundo pode ser o governo estadual. Poucas pessoas lembram, mas a administração e a aplicação dos recursos da saúde (e educação, inclusive) são de responsabilidade dos estados e municípios. O governo federal repassa os recursos para que os estados e municípios os distribuam como quiserem. Sabe aquele dinheiro desviado da saúde e da educação? Então, geralmente ele se perde no caminho entre o estado/município e o hospital/escola que deveria recebê-lo. Neste caso específico da Santa Casa, o governo do estado diz que tem complementado sistematicamente os hospitais filantrópicos com recursos extras. O Secretário da Saúde, David Uip, anunciou a liberação de R$ 3 milhões de fundos emergenciais, e condiciona mais recursos a uma auditoria das contas do hospital.

- O que nos leva ao terceiro culpado: a própria Santa Casa. Como a administração é privada, o problema pode ser interno. Má administração, problemas de gestão, desvio das verbas públicas recebidas, etc. É preciso fazer uma auditoria no hospital, já que o mesmo recebe dinheiro público, para ver se o motivo para o endividamento vai além de uma possível escassez de recursos recebidos.

“E a prefeitura?”, alguém pode perguntar. A prefeitura não tem nada a ver com isso, porque a Santa Casa tem convênio com o estado. Mesmo assim, a Secretaria Municial de Saúde se prontificou a distribuir seringas, luvas e kits de exames suficientes para uma semana de atendimento para evitar o fechamento da emergência.

Difícil avaliar quem é o verdadeiro culpado. Pode ser um, podem ser dois, podem ser os três. O importante é que, antes de apontar os dedos, é preciso conhecer melhor a situação, tanto específica quanto geral na saúde pública. É mais fácil culpar o cara (ou a mulher) lá de cima, quando o problema pode estar mais embaixo, no governador que nunca leva a culpa por nada (porque ninguém sabe o que ele faz ou pra que serve), ou ainda lá no fim, com a administração do hospital que, para esconder o mau feito, fala o que o povo quer ouvir: “a culpa é dos políticos”. A situação é triste e complicada, mas, falando em saúde, nessas horas em que o fígado fala mais alto, utilizemos o órgão correto: o cérebro. E nem precisa de muito dinheiro pra isso.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O jogo dos 7 erros



O “Mineirazo” aconteceu. Não contra o Chile, mas contra a Alemanha. 7x1. Tem o que dizer?

Antes do jogo, o clima era de confiança. Brasileiros cantavam, faziam festa, brincavam com os alemães. Não havia rivalidade entre os dois países, apesar de serem grandes potências do futebol. Inclusive, em um momento, um grupo de brasileiros e alemães se juntaram pras câmeras para cantar a música dos “mil gols”. Tudo era festa, tudo era cordialidade e brincadeira. Algumas máscaras com o rosto de Neymar são distribuídas, “Força Neymar”, muitas fotos, muita risada. Anunciam a escalação, vibração a cada nome pronunciado. Exceto o de Hulk, que é vaiado. Alguns se retificam, gritam o seu nome. Algo dizia que não seria o dia dele. Toca o hino, mais uma vez aquela grande emoção. O show ia começar. Só que, desta vez, os protagonistas seriam outros.

O Brasil até começou jogando bem. O time parece que quis mostrar trabalho depois da perda de Thiago Silva e Neymar. A torcida estava animada, incentivando a equipe e vaiando os alemães. Tinha tudo para um grande jogo. Escanteio do adversário, Thomas Müller sobra sozinho. Gol da Alemanha. “Como que deixam um cara desses sozinho na área?”, alguém brada. Mas tudo bem, a torcida grita “Eu acredito!” e volta a incentivar o time.

O incentivo não ajuda muito. Gol da Alemanha. O time se mostra perdido, as pessoas se preocupam. Foi fácil, muito fácil. Gol da Alemanha. Os olhares começam a mostrar descrença, enquanto o Brasil se mostra totalmente desorganizado em campo. Gol da Alemanha. Uma ou outra pessoa começa a se levantar e sair. Crianças choram nos braços dos pais; essas são as mais doloridas de se ver. Nós já vimos o Brasil ser campeão, enquanto elas testemunharem uma humilhação dessas é cruel demais. Gol da Alemanha. Começam a pipocar brigas em diferentes cantos do estádio. Torcedores alcoolizados, incrédulos com o que viam, puxam briga com quem não concordava em xingar os jogadores. Forte sinal de que o Brasil não está mesmo pronto para liberar bebidas alcoólicas em jogo de futebol. A segurança se aproxima lentamente para acalmar os ânimos, a torcida grita “Fora!” para os briguentos. Clima péssimo, todo mundo torcendo pra acabar logo a tortura. Fim do 1º tempo. Vaias de alguns, silêncio mortal de outros.

Algumas outras pessoas se levantam para ir embora. “Não dá mais pra assistir isso, não dá”, um homem diz. Minha mãe, em desespero, envia um SMS sugerindo que eu assista fora do estádio, em alguma TV; talvez assim as coisas melhorassem. Mãe tem cada uma, né? “Espero que tentem diminuir o vexame”, o senhor ao meu lado diz. “É o que resta.”

Os times voltam a campo. Alguns ensaiam umas palmas, um incentivo de “Brasil! Brasil!” pra levantar o time, o que é criticado por outros. Duas alterações na equipe. A torcida vibra com a saída de Hulk. Que fim de Copa triste pra ele. O jogo recomeça, e percebe-se claramente que a Alemanha tira o pé do acelerador. Eles também não queriam piorar as coisas, tiveram pena. O Brasil até tenta, mas Neuer não deixa. Pô, quebra essa, Neuer. Nada. E gol da Alemanha. Alguns torcedores começam a xingar a Dilma, que nem no jogo da abertura. Alguém comenta baixinho: “O que a Dilma tem a ver com isso?”. Não importa, o coro ganha leve força. Alguém tinha que levar a culpa. Passam a xingar o Felipão. É a vez de Fred ser substituído. Misto de vaias e comemoração pela substituição. Ele balança a cabeça ao sair. Lamentável.

O clima é de zombaria. Alguns começam a gritar “Olé!” quando a Alemanha passa a bola. Mais uma ou outra briga surge. Todas entre brasileiros, e sempre envolvendo alguém visivelmente alcoolizado. Mas, pelo visto, também teve alemão agredido, como foi relatado aqui. Muito triste. A polícia surge tardiamente para intimidar quem quisesse brigar, já que os seguranças não conseguiam dar conta. E gol da Alemanha. Desta vez, um golaço de Schurrle. Merece palmas.

Anúncio em alemão no estádio. Não dá pra entender nada. Passa um tempo, e falam de novo: em inglês e, finalmente, em português. Pedia para os torcedores da Alemanha permanecerem no estádio após o fim do jogo, por motivos de segurança. Depois, um anúncio em português pedindo ao público que saísse com calma do estádio. Perto do final, completamente desolados, algumas pessoas entoam em lágrimas o canto “Eu sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor”. Um torcedor, descamisado, bêbado e com os olhos vermelhos, começa a xingar: “Torcida de m$&@*! Tem que xingar os caras, não incentivar! Eles são uma vergonha, vocês são uma vergonha!” As pessoas tentam ignorar as provocações e até os empurrões que o bêbado provoca, enquanto os amigos dele tentam (sem tanto esforço) tirá-lo dali. Gol do Brasil, de Oscar. Poucos aplausos, diversas vaias. Fim do jogo. Palmas; talvez para a Alemanha. Vaias; todas, com certeza, para o Brasil. O bêbado ainda ali, xingando e querendo puxar briga. Os amigos ainda ali, fazendo pouco esforço pra levar ele embora. Clima de velório. Que fim deplorável...

Passeando pelo estádio vazio, algumas marcas da derrota: máscaras do Neymar rasgadas, ingressos rasgados, copos comemorativos do jogo pisoteados e quebrados, bandeiras abandonadas no chão. Uma divisória de vidro entre duas seções do estádio se encontrava totalmente rachada, vítima de algum torcedor furioso. E ao longe, uma diminuta torcida alemã que permanecia no estádio cantando e pulando como se não houvesse amanhã. Enquanto isso, lá fora, pessoas quebrando TVs, queimando ônibus, extravasando a sua raiva. Choro, muito choro. O maior desastre do futebol brasileiro.

Como disse no post anterior, a seleção brasileira tem uma forte relação com a auto-estima nacional. É fonte de orgulho e um símbolo de nossa criatividade. Mas, no jogo contra a Alemanha, tudo isso foi destroçado. Não foi apenas uma humilhação ao time; o Brasil sentiu pessoalmente o peso da derrota. E cada um lida com a sua derrota de uma forma: uns choram, outros riem, alguns procuram o culpado, e mais uns outros partem pra violência. Seria normal perder pra Alemanha. Seria até esperado. Mas não de 7x1.

E como explicar o resultado? Ninguém consegue. Eu diria que foi “o jogo dos 7 erros”. Digo 7, porque agora o número virou simbólico. Uma sucessão de erros antes, durante e depois do jogo que vai ficar marcado na história. Enumeremos então: 1) Errou a CBF, que não reformou o futebol brasileiro, que precisa trabalhar as categorias de base e modernizar a sua estrutura, assim como fez o futebol alemão; 2) Errou a comissão técnica, ao deixar o time pilhado, dizendo que já estava com “uma mão na taça” e que ganhar era “obrigação”; 3) Errou outra vez a comissão técnica ao não dar um padrão tático para o time, ausente de meio de campo; 4) Errou de novo a comissão técnica ao não fazer as alterações necessárias ao time, ou fazê-las tardiamente; 5) Errou o time, por não superar a perda de dois de seus jogadores (embora importantes) e se deixar sucumbir à pressão, pois, apesar de serem humanos, jogadores de alto nível deveriam estar acostumados com isso; 6) Errou a torcida nos estádios, que xingou a Dilma, vaiou o hino do Chile e, no jogo da Alemanha, mudou de lado, vaiando e xingando o seu próprio time; 7) E, por fim, errou a torcida no geral que, após a derrota, reviveu o “complexo de vira-lata” e repetiu todo aquele monte de asneiras de que os europeus eram superiores, que foi “a vitória da competência sobre a malandragem”, que tinha vergonha de ser brasileiro, etc.

Foram 7 erros, mas poderiam ser citados outros, como o papel da mídia nisso tudo. Mas creio que estes são os principais. Agora, resta corrigi-los. Não para amanhã, no jogo pelo 3º lugar contra a Holanda, mas para daqui a 4 anos, na Rússia. Felipão já tinha dito antes do jogo: “a catástrofe é uma oportunidade”. Que o legado desses 7x1 seja então essa oportunidade: de reestruturação do futebol brasileiro, modernizando as nossas ligas, retirando poder de cartolas corruptos e investindo nas categorias de base; da busca de uma nova comissão técnica, mais moderna, antenada com o que está acontecendo lá fora, mesmo que para isso seja necessário trazer alguém de fora; do reconhecimento de que o futebol brasileiro não é o melhor, não está na vanguarda, e que pode e deve aprender com os estrangeiros; e da percepção de que é preciso respeitar melhor tanto os nossos atletas quanto os adversários - afinal, já temos uma Olimpíada daqui a 2 anos.

Talvez a imagem mais simbólica da derrota de terça-feira seja a do “gaúcho da Copa”, uma figurinha carimbada da torcida brasileira em Copas. Após o momento triste, ele entregou a taça que carregava a uma alemã, dizendo: "Leve para a final. Como você pode ver, não é fácil, mas você merece. Parabéns." É como se estivesse passando o bastão, pelo menos neste momento. Agora, se o Brasil quiser retomar o bastão, voltar a ser o país do futebol, vai ter que trabalhar por isso. Pelo menos no melhor estilo alemão. A derrota a gente supera; faz parte do futebol. Mas as crianças chorando... isso não vai ser fácil esquecer. Isso e o hino cantado à capella. Momentos inesquecíveis para o resto da vida.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Por que torcer para a seleção brasileira?


(Buda Mendes/Getty Images)

Essa é uma pergunta que pode ter respostas óbvias para ambos os lados. Por um lado, torcer para a seleção brasileira se torna um ato automático pelo simples fato de ser brasileiro, nada mais. Por outro, por que torcer – em nome de um patriotismo barato que surge apenas de 4 em 4 anos – para 23 jogadores de futebol que ganham mais em um mês do que a enorme maioria dos brasileiros ganha em um ano (pra não dizer em toda a vida), e que ainda são comandados por uma empresa de caráter no mínimo duvidoso que os gerencia, como é a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF?

Respondendo aos motivos contrários citados acima, temo discordar. Torcer para a seleção do seu país não precisa ser por nacionalismo, barato ou não. É natural torcer pelos seus semelhantes, com quem você se identifica de alguma forma. E por mais que alguém tente negar, somos todos brasileiros, temos uma identificação linguística e cultural que nos aproxima, o que vai muito além de meramente possuir o mesmo passaporte. Mas reconheço que alguns não se reconhecem como brasileiros (mesmo o sendo, em todos os aspectos), ou sentem vergonha de sua origem. Faz parte.

Quanto à CBF, também tenho minhas reservas em relação a sua administração e seus dirigentes. Entretanto, eles não são a seleção, da mesma forma que os governantes da nação não são o país. Quem faz o Brasil é o povo brasileiro, não seus governantes; quem faz a seleção são os jogadores, não seus dirigentes.

Para mim, no entanto, a resposta a essa pergunta ainda é um pouco mais complexa. Primeiro, é verdade que adoro esportes, em particular o futebol. É fácil, portanto, me envolver numa competição grandiosa como é a Copa do Mundo. Depois, obviamente, sou brasileiro e me identifico como tal. Logo, torço pelos jogadores que representam o meu país. Mas por mais lógicas que sejam, nenhuma destas razões chega a ser a principal. Há questões ainda mais profundas que condicionam a minha torcida e que exigem melhor explicação.

Todos sabemos que o futebol brasileiro é o mais conhecido no mundo. O único pentacampeão mundial, o Brasil é a potência a ser batida, o que é motivo de orgulho para a enorme maioria dos brasileiros. Porém, não foi sempre assim. Para isso ocorrer, foi necessária uma longa caminhada, que começou em 1958. Na verdade, corrijo: começa em 1950, na primeira Copa realizada no Brasil.

Em 1950, o Brasil teve a oportunidade de realizar a Copa do Mundo de futebol, esporte que já se estabelecia como paixão nacional. Havia um sonho de que o país pudesse vencer a Copa pela 1ª vez, ainda mais jogando em casa. Todavia, ficamos no quase: o Uruguai venceu a final no Maracanã, e os brasileiros ficaram arrasados. Não éramos os melhores do mundo, o sonho havia terminado. E a culpa era nossa.

Para o Brasil, a derrota de 1950, mais conhecida como o “Maracanazo”, só podia ter ocorrido porque o brasileiro era inferior às outras nações. Nação formada de mestiços, nada podia dar certo neste país e, portanto, jamais seríamos grandes ou os melhores em qualquer coisa. Este sentimento de inferioridade, aflorado no pós-1950, acabou ganhando nome, o “complexo de vira-lata”, cunhado pelo escritor Nelson Rodrigues. Assim, então, o brasileiro se via: um eterno vira-lata, sem chances de competir com os outros de pedigree.

Aí veio 1958, veio Pelé e, enfim, o Brasil ganhou a Copa, mesmo em terras longínquas. Sim, podíamos ser os melhores do mundo. E ganhamos de novo em 1962, mesmo sem Pelé, lesionado logo no começo. Mas bastou perder em 1966 para o “complexo de vira-lata” voltar com tudo. Tamanha a baixa auto-estima do brasileiro, o pessimismo tomou conta: estávamos ultrapassados, o Brasil foi o melhor apenas por um breve momento, um acidente na história, e agora já tinha sido superado de novo pelo “futebol-força” dos europeus. Mas veio 1970, e o Brasil provou que ainda era bom, que ainda era o melhor. E o resto é história: 1994, 2002... 2014?

O “complexo de vira-lata”, como bem reconheceu Nelson Rodrigues, ultrapassava as fronteiras do futebol, e podia ser encontrado em diferentes esferas da nossa cultura. Contudo, com o reconhecimento global de que o Brasil era a superpotência do esporte, dá para entender por que o futebol se tornou uma das poucas áreas na qual o brasileiro se sente orgulhoso e confiante. Antes somente um esporte, um mero produto de entretenimento, o futebol virou um símbolo nacional, o cartão de visitas de cada brasileiro em qualquer parte do mundo. Duvida? Basta viajar e se apresentar como brasileiro. Geralmente, é o suficiente para conquistar alguns sorrisos; às vezes, pode ser o suficiente para salvar sua vida, como no caso do engenheiro brasileiro, durante a Guerra do Golfo (se não me engano), que foi capturado por insurgentes, mas ao encontrarem consigo uma camisa da seleção e perguntarem se era brasileiro, decidiram soltá-lo.  Assim, a auto-estima do brasileiro se tornou fortemente ligada ao sucesso da seleção, que se tornaria fonte de grandes alegrias, ou de grandes decepções.

Mas há algo ainda mais incrível no poder da seleção brasileira de futebol, pois ela faz o que nenhuma outra força política, religiosa ou cultural consegue: unir o país. Sejam homens ou mulheres, brancos ou negros, heteros ou gays, pobres ou ricos, pessoas de direita ou de esquerda, de todas as regiões do país, de todas as origens, de todas as crenças; todos se juntam perto de uma TV para assistir à seleção, apesar de todas as fraturas, desigualdades e divisões do país. Se a seleção joga, todos se unem pela mesma causa, mesmo que por apenas 90 minutos. Dá para imaginar outra força tão unificadora?

Além disso, poucos grupos conseguem refletir tão bem a diversidade étnica do brasileiro. Na seleção, as três principais raças que compõem o Brasil estão representadas: por exemplo, os brancos, com Oscar e Henrique; os negros, com Fernandinho e Willian; e até mesmo os indígenas, visíveis nos traços marcantes de Paulinho e Thiago Silva. A diversidade brasileira se reflete no grupo de forma tão democrática que parece forçado, institucionalizado. Mas não, é apenas um retrato fiel do país.

Não se enganem, no entanto, de achar que o futebol pode ser subordinar à política; em outras palavras, de achar que, se o Brasil ganhar, o governo atual é o maior beneficiado. Tolos os que pensam que o brasileiro é tão manipulável. Sim, a atual presidente vai se beneficiar da Copa ter sido um sucesso, mas a seleção ganhar o hexa está além disso. Por mais que isso mexa com a auto-estima do brasileiro, ele sabe separar as coisas. Pelo contrário, o PSDB teria ganho de novo em 2002, depois do Brasil ganhar o campeonato, não?

Mas ainda há outro motivo importante (pelo menos para mim) para torcer pela seleção brasileira que é relevante citar: os próprios jogadores. Muito se criticou em relação ao choro excessivo da equipe em diferentes momentos do campeonato. Ruim? Ruim seria se não tivessem chorado. Se choraram de emoção, é porque compreendem que a alegria ou tristeza de 200 milhões de pessoas estão sob a responsabilidade deles. O peso de inúmeros torcedores, que são exigentes, que querem nada menos que o melhor deles, pois o orgulho de uma nação inteira está em jogo, e que está assistindo a tudo bem de perto. A vontade de corresponder a essas expectativas acaba gerando esse nervosismo, o que é natural; afinal, todos eles ainda são demasiadamente humanos.

Isso sem falar nas diferentes histórias individuais. Como Thiago Silva, que superou a tuberculose e o risco de encerrar a carreira de forma prematura para dar a volta por cima e ser hoje o capitão da seleção. Ou Júlio César, o goleiro que falhou na última Copa, mas teve o caráter de ser o primeiro a dar entrevistas e admitir o erro, antes de chorar no colo da mãe na volta ao Brasil. Mas ele se reergueu, recuperou a confiança do treinador, e conseguiu a redenção nos pênaltis contra o Chile, nas oitavas-de-final. E o David Luiz? Tem jogador mais carismático do que ele? Ele canta o hino a plenos pulmões, se entrega jogando tudo na defesa, e ainda faz gols. Sem contar o seu jeito descontraído e alegre, o que o torna um favorito das crianças - motivo, inclusive, que o fez recusar participar de um comercial de cervejas. Não são dignos de serem campeões?

Ah, e ainda tem o Neymar. Alguém ainda tem dúvidas de que o cara é craque? Com todas as reservas que alguém possa fazer em relação à sua imagem de estrela tão atrelada ao marketing, o jogador aceitou com bravura a responsabilidade de ser o camisa 10 da seleção, mesmo com apenas 22 anos. Era só um garoto com o sonho de jogar a Copa, ainda mais no seu país: sonho que, infelizmente, foi interrompido por uma entrada maldosa do colombiano Zuñiga. A propósito, muito se falou da atenção excessiva dada a sua lesão em comparação à tragédia em Belo Horizonte, com a queda do viaduto que matou duas pessoas. A comparação é injusta. Mortes em uma tragédia são sempre lamentadas, mas não é possível chorar por toda pessoa que morre. Lamentamos, mas não padecemos quando é algo distante de nós, até mesmo em prol da nossa sanidade. Por outro lado, Neymar é tudo, menos distante para cada brasileiro. É impossível passar o dia sem vê-lo pelo menos alguma vez na televisão. É um garoto que vimos crescer, se tornar um craque, ganhar o mundo. Aí, em um instante, vimos o seu sonho terminar. A questão aqui não é o peso de cada tragédia, mas o quanto ela nos é próxima. E o Neymar já era íntimo de cada um de nós.

Assim, o time ficou sem seu maior craque. E agora, em sua honra, precisa jogar mais ainda. Contra a Alemanha, que é difícil. Mas não impossível. Enquanto preparo minhas coisas para pegar o ônibus para Belo Horizonte, me lembro do outro Brasil x Alemanha. Em 2002, após o Brasil ganhar a Copa, a TV mostrou imagens de pessoas comemorando a vitória ao redor do mundo. Um destes lugares era o pobre Haiti. A repórter então perguntou a um menino por que ele comemorava tanto a conquista brasileira. Ele disse: “O Brasil é pobre, como nós, e eles vencerem os ricos nos dá esperança de que nós também podemos vencê-los”. Dá para contrariar isso? 

Como Felipão disse, a catástrofe é uma oportunidade. Amanhã, que nos tornemos o 12º jogador que traga a alegria ou o choro a muito mais do que 200 milhões de habitantes, e que os sonhos em jogo se tornem realidade. Eu acredito. Que venha a Alemanha!

terça-feira, 1 de julho de 2014

O jogo mais tenso da Copa: crônicas de um Brasil x Chile


O Chile sempre foi freguês do Brasil, todo mundo sabe. Mas havia algo de diferente desta vez. Antes de ir ao estádio, os chilenos estavam afoitos, confiantes. Você perguntava a eles qual o placar que eles esperavam, e sempre a mesma resposta: “2x1 Chile”. E os brasileiros zombavam, dizendo que ia ser goleada. Mas essa confiança excessiva logo iria se mostrar infundada.

Na chegada ao Mineirão, ficava claro que, apesar de toda a confiança dos chilenos, os brasileiros seriam a grande maioria no estádio. O mar de amarelinhos se deslocava lentamente para os portões, até que fui abordado por uma entrevistadora do Datafolha. Diversas perguntas foram feitas sobre temas como renda, cor, como o ingresso foi comprado, opinião sobre a organização para o jogo, sobre as vaias à presidente Dilma, sobre o governo Dilma, etc. O resultado da pesquisa pode ser visto aqui, comprovando, como relatado em post anterior do blog, que os brasileiros que foram aos jogos fazem mesmo parte de uma elite branca, e que não foi a maioria que vaiou a presidente.

Já no entorno do estádio, muita batucada e música dos brasileiros. Uma crítica constante à torcida brasileira é a ausência de cantos e gritos que saiam do “eu sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor” de sempre. Assim, a Brahma distribuiu panfletos com alguns versos de uma música nova para a torcida cantar. Fora do estádio, até que a torcida adotou a canção e aprovou, cantando bastante antes de começar o jogo, mas bastou o apito inicial para todo mundo esquecer e cantar o mesmo de sempre.

Em comparação ao jogo da abertura, havia algumas diferenças. Desta vez, parecia ser uma torcida menos família, e um pouco mais torcida de jogo de futebol. Ainda assim, havia muitos que, acostumados a torcer apenas pela TV, estavam indo a um jogo de futebol pela 1ª vez, tendo a sorte de conseguir um ingresso pelo site da FIFA, ou por conhecer alguém que arranjou os ingressos de alguma forma. De qualquer modo, todos se uniam ao zombar dos chilenos que iam chegando em pequenos grupos, fazendo uma nova versão do grito chileno com “Chi-chi-chi, Le-le-le, veio aqui pra se f...!”

Ao achar meu lugar no estádio, pouco à frente e à direita do miolo da torcida chilena, dois ingleses com camisas do Brasil estavam ao meu lado. Eles comentaram a emoção de assistir ao Brasil jogar, que seria um jogo difícil, e mostraram um papel com a letra do hino brasileiro. “É pra gente cantar junto”, um deles disse. “Moro em São Paulo há 3 anos, falo português, mas esse hino é difícil né?” Sorri e concordei.

Só que o clima de zombaria, infelizmente, se estendeu até mesmo ao grande momento dos hinos. Quando os chilenos quiseram cantar a capella o restante de seu hino nacional, alguns brasileiros vaiaram. Os chilenos responderam à altura, vaiando o hino brasileiro, tirando a magia de um momento que deveria ser bonito para todos. Parece que a lição que fica é que há uma tendência do brasileiro de seguir a lógica de “se não gosto de algo, eu não preciso aceitar”. Um individualismo pueril, antidemocrático, que se exalta em diversos momentos, mas fica mais feio ainda em eventos esportivos desta magnitude, quando o entendimento e a harmonia entre os povos deveria ser a regra. O respeito aos adversários é algo que precisa ser trabalhado aqui, para não ficar preso a um nacionalismo barato, altamente manipulável e nefasto. Mas, bola rolando, bola pra frente.

O Brasil começa dominando o jogo e a torcida segue junto. Os chilenos apoiam a sua seleção, mas os brasileiros abafam seus gritos. A união do time com a torcida funciona: 1x0 Brasil. Os chilenos ficam preocupados, parecem temer que tudo vai dar errado, enquanto os brasileiros se assanham e começam a cantar: “Um, dois, três: o Chile é freguês!”. Talvez aí o time relaxou. Erro crasso de Hulk ao receber um lateral e Alexis Sánchez aproveita pra empatar. Explosão chilena, que, na comemoração, arremessa alguns copos em direção à torcida brasileira. Os ânimos se acirram, os brasileiros gritam com os chilenos: “Jogar copo, não!”. Parecia que uma briga estava prestes a começar, mas todos se acalmaram; todos, menos os chilenos, que não pararam mais de cantar, enquanto os brasileiros se calaram com a decepção.

No segundo tempo, o Chile começa melhor, e a torcida brasileira continua preocupada.  Alguns se levantam, tentam motivar a torcida, que grita “Brasil!”, ao que os chilenos respondem alternadamente com “Chupador!”. Mas a maioria dos brasileiros ficava sentada, não sabia o que fazer, não estava acostumada a apoiar a seleção sob pressão, sem o jogo nas mãos. E, assim, sob o olhar preocupado de muitos e com o Chile cantando e vibrando, o jogo se arrastou para a prorrogação.

O Brasil começou melhor a prorrogação, pois o Chile estava acabado, exausto. Mas o ataque não dava certo, a bola não chegava. Eu já me resignava com a possibilidade do Brasil perder. Nas oitavas? Tudo bem, o Chile tinha uma grande equipe. Poxa, mas dava pra ser mais. Tinha ainda os pênaltis. O Brasil tem um histórico bom, o Júlio César é bom pegador de pênaltis, e os chilenos estão mortos, sem energia... mas também vão encarar o empate como uma vitória, o emocional pode contar a favor deles. Tudo bem, há esperança nos pênaltis. Mas antes, aos 14 do 2º tempo da prorrogação, Pinilla manda uma bola no travessão. Troco olhares com outro torcedor, e sem falar nada, nos dissemos: “Cara, o que foi isso?”. Surreal.

Pênaltis então. A torcida grita “É Júlio César! É Júlio César!”. David Luiz cobra e converte, para alívio geral. Chega Pinilla para cobrar e a torcida vaia, treme as mãos. Parece que funciona, pois ele erra. Comemoração de todos, e uma mulher de seus 40 e poucos anos à minha esquerda, antes discreta e calada, agora estende a mão para um “high-five”. Vamos que vamos. O gesto se repete com a outra defesa de Júlio Cesar, mas Willian e Hulk erram os seus também. Neymar cumpre a sua parte, agora só faltava Jara. Na trave e pra fora. Explosão de todos. A mulher ao meu lado agora me abraça e pulamos junto de alegria. É Copa do Mundo. Abraçamos mais outro cara e pulamos felizes. A torcida brasileira dá tchauzinho pros chilenos, que choram copiosamente. Era a chance deles, mas faz parte. Antes eles do que nós.


Na saída do estádio, mais zombaria dos brasileiros para os chilenos. A maioria aceita de cabeça baixa, mas um não gosta e vai pedir satisfação. Brasileiros de um lado, chilenos de outro tentam acalmar a situação, dizer que é brincadeira, mas vai dizer isso pra quem acabou de perder? Se fosse o Brasil, teria briga, com certeza. Ainda bem que não teve briga. Ainda bem que o Brasil ganhou.

No caminho da volta, uma cena curiosa. O ônibus que transportava os torcedores presentes no jogo passava ao lado do hotel onde a seleção estava hospedada. Vários curiosos já se reuniam lá para saudar os vitoriosos; porém, ao ver o ônibus com os torcedores do estádio, alguns balançaram bandeiras e aplaudiram em comemoração. Era como se dissessem: “Vocês sofreram lá juntos também, valeu pela força!”. A união do torcedor do estádio e da TV, pelo menos por um momento.

De volta ao albergue, alguns chilenos vão chegando aos poucos, com cara de que “não deu”, e nos sentamos juntos para ver os lances do jogo na TV. Ao rever o último pênalti, alguns chilenos reclamam, xingam; um deles chora. Quase, mas não foi desta vez. Eles começam a arrumar as malas, se despedem dos brasileiros. Um deles, antes de partir, aperta minha mão e diz: “Tenga una buena vida”. E é isso aí. A vida segue.