sexta-feira, 27 de junho de 2014

Aqueles cegos pelo ódio...


Segunda-feira, dia 23 de junho, jogo do Brasil. Nas ruas de São Paulo, alguns manifestantes do “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa” protestavam contra os gastos do evento, enquanto o resto da população se preparava para assistir ao jogo, seja em casa, nos bares, ou até mesmo no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Apesar do protesto pacífico, dois manifestantes que nem estavam no meio da multidão, Rafael Marques Lusvarghi, de 29 anos, e Fábio Hideki Harano, de 26, foram presos como suspeitos de integrar os “black blocs”, acusados dos crimes de associação criminosa, incitação da violência, resistência à prisão, desacato à autoridade e porte de artefato explosivo. Recentemente, a Justiça negou os pedidos de liberdade provisória e decretou a prisão preventiva dos dois, que, até o momento, continuam presos.  

O Fábio é meu amigo. Ou quase. A gente tinha as nossas diferenças, o que, às vezes, resultava numa discussão mais acalorada. Na última, após perder a paciência, até o retirei da lista de amigos do Facebook, mas isso não o impediu de enviar mensagens, de tempos em tempos, para discutir algumas questões políticas, às quais, é verdade, eu nem sempre respondia. Já o conheço há uns 8 anos, quando praticávamos kendô juntos. Ele era meio chato às vezes, patrulhava as pessoas com um discurso mais politicamente correto, o que incomodava e afastava as pessoas que não concordavam. Eu tinha um pouco de paciência – por concordar com ele em aspectos gerais e saber que ele era legal, com boas intenções – mas nem sempre.

Ontem, dia 26 de junho, houve um protesto de 200 a 300 pessoas no vão do MASP, em São Paulo, pedindo a libertação dos dois jovens presos. Desde o começo, havia mais policiais do que manifestantes, todos estrategicamente colocados de forma a cercar quem estivesse lá. Com algumas faixas e cartazes dizendo “Ditadura Não”, os presentes batucavam tambores e entoavam diferentes cantos como “Libertem os presos, lutar é um direito!”, ou “O terrorista é o governador, Fábio Hideki é um trabalhador!”.


O Hideki é trabalhador. E estudante. Primeiro, ele entrou na Poli, da USP, pra fazer engenharia. Viu que aquilo não era a cara dele, e decidiu fazer Ciências Sociais. Só que ele não era filhinho de papai - como alguns gostam de chamar pessoas do movimento estudantil - e precisava trabalhar, então passou num concurso para técnico de laboratório dentro da universidade. Me falaram que agora fazia outro curso, Jornalismo talvez, não sei. Não duvido, com a inteligência e dedicação dele, sei que ele podia entrar em qualquer curso. E, pra “piorar”, ainda dedicou o pouco tempo que lhe sobrava ora como voluntário, dando aulas em cursinhos populares pré-vestibular, ora como ativista político, em questões que nem o afetavam diretamente. Ele podia ser tudo, menos um vagabundo.


Durante o protesto de ontem, a PM e a tropa de choque cercavam os manifestantes nos 4 lados, intimidando todos ali. Em um momento, as pessoas saíram de baixo do vão do MASP e foram para a rua, interditando uma das vias da Av. Paulista. Imediatamente, a polícia fechou os dois lados da rua onde os manifestantes estavam, bloquearam a saída para a outra via, formaram outra fila da tropa de choque fechando o acesso à rua que desce ao lado da MASP, e ainda colocaram a cavalaria em formação a uns 100m dali, prontos para o ataque. Os manifestantes gritavam “Fora PM” e “Não à repressão”, enquanto os policiais ficavam parados, de prontidão. O ambiente era tenso, e parecia que bastava um leve deslize para o comando ordenar o ataque da polícia sobre os manifestantes pacíficos.




O Harano era pacífico. Ele era excêntrico, tudo bem. Numa época, inventou de andar com bengala, porque achava o acessório estiloso. Isso talvez explique porque raios ele andava com um capacete pra se proteger da polícia no protesto de segunda. Mas ele era pacífico. Um cara de boa, nunca participou de atos violentos. Adorava crianças, até se vestia como heróis de desenho animado para diverti-las. Um vídeo circulado na internet demonstra que não encontraram nada de perigoso no meio dos seus pertences quando o abordaram no metrô. Só que o Harano também é azarado. Quando houve invasão na reitoria da USP, ele não participou, mas conhecia quem tinha participado. Num belo dia, após perder o último ônibus para voltar pra casa, achou que era melhor passar a noite com seus amigos no prédio da reitoria. Foi quando a polícia invadiu e prendeu os estudantes que estavam presentes. Na hora errada, no lugar errado, para variar.


Mais para o final do ato de ontem, chegaram pelo menos três camburões da tropa de choque, e se posicionaram atrás dos policiais com a porta dos fundos aberta. Parecia que era questão de momento para que aquilo virasse uma zona de guerra, e todo mundo fosse parar na delegacia. Nas ruas em volta, as pessoas observavam, tiravam fotos, comentavam entre si que era um exagero. Alguns gringos, presentes na cidade para a Copa do Mundo, olhavam tudo surpresos num misto de medo com curiosidade. Alguns paravam para tirar foto e filmar a polícia, com suas escopetas enormes, enquanto outros hesitavam em continuar atravessando a Paulista, com medo do que pudesse acontecer. Pra terminar, um homem, sem saber de nada sobre nada, discutiu com os manifestantes dizendo que a prisão dos jovens tinha sido justa. Felizmente, foi o momento mais quente da noite. Sem ter para onde ir com o ato, as pessoas foram se dispersando e o protesto chegou ao fim.


No domingo, um dia antes de ser preso, o Japonês me mandou uma mensagem no Facebook, me indicando um texto por causa de uma discussão recente que havíamos tido com outro amigo. Com o título “O que querem aqueles cegos pelo ódio?”, cuja autoria desconheço, destaco um trecho:

Para provar que suas crenças são as únicas e verdadeiras não medem esforços. Em seu maniqueísmo, permitem-se fazer qualquer grosseria, qualquer baixaria e qualquer ofensa, para seus inimigos não existe respeito, educação ou civilidade – somente o ódio. Ódio que exclusivamente cria mais ódio e intolerância, nada mais. Não podem comparar, já que isso desconstruiria sua visão de mundo. Não conseguem dialogar, porquê isso exigiria que o ódio seja posto de lado. Não contribuem com ideias e soluções para os nossos problemas, pois todas as suas respostas estão no passado e o novo significaria a mudança que tanto temem. Seu medo e seu ódio são alimentados e instrumentalizados por uma elite e grandes empresas midiáticas que somente pensam em si mesmas.”
  
Pois é, Jaspion. Apesar das nossas discordâncias, entre a gente, está tudo bem. Pena que o Estado não pensa da mesma forma. Você acabou sendo a vítima deste mesmo ódio que denunciou. Mas tudo bem, eles estão errados. Eles passarão, e você, passarinho. Apenas volte logo.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

O que significa ser da “elite branca”


                                          (Foto: AP Photo/Shuji Kajiyama)

Muita gente ficou incomodada com o termo “elite branca” – utilizado por diversos jornalistas e inclusive por mim no artigo anterior – para descrever os torcedores presentes na abertura da Copa do Mundo em São Paulo. Uns disseram que era preconceito; outros, até mesmo, que era racismo. O fato é que algumas pessoas, até quem não estava no estádio, sentiram-se pessoalmente atingidas e ofendidas pelo termo, que foi inicialmente cunhado pelo ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, ao descrever uma minoria da sociedade paulista que reclamava da violência.

Antes de tudo, é importante lembrar: o que é ser de elite? De acordo com o dicionário Houaiss: e.li.te s.f. 1 o melhor ou mais valorizado num grupo social 2 minoria que domina um grupo. De acordo com o IBGE, em notícia do UOL, um negro no Brasil ganha em média 57,4% do que ganha um branco. Em termos mais claros, um negro brasileiro ganha, em média, R$ 1.374,79, enquanto um trabalhador de cor branca ganha R$ 2.396,74. Portanto, seguindo a definição do Houaiss, e com base apenas na diferença salarial (podemos comprovar isso olhando também para diversos outros dados, como escolaridade, representação política, proporção em cargos gerenciais, etc), ser branco no Brasil é, sim, ser de elite.

Isso tudo numa sociedade que, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, se declara 47,7% branca e 50,7% negra e parda. Mas aí alguns podem argumentar: “Ah, mas há negros ricos e brancos pobres. Até estes brancos, que são pobres, são de elite?” Sim, eles são. Porque o branco pobre dificilmente vai sofrer com batida policial. O branco vai ter mais facilidade para conseguir mulheres; afinal, é mais fácil até de ser apresentado à família (argumento que eu mesmo já ouvi). O branco tem mais chances de ser contratado em vez do negro com o mesmo currículo, por ser mais “apresentável”. O branco não vai ser convidado para pegar o elevador de serviço. E assim vai, entre muitas outras formas, que um negro poderia descrever melhor, de como um indivíduo de cor branca é privilegiado no Brasil. É claro que isso não significa que um negro rico não esteja melhor ou mais feliz em sua vida do que um branco pobre. Ele apenas não vai ter algumas facilidades que o branco, por ora, teve ou tem.

Além disso, há diferentes tipos de elites, dada a diversidade de grupos sociais no seio da sociedade. Podemos, então, ter uma elite racial, sexual, de orientação sexual, de beleza, financeira, intelectual, entre outras. É verdade também que, geralmente, uma acaba levando à outra: quem é branco tem mais chance de ficar rico, o que permite gastar mais com tratamentos de beleza e, também, com educação, e assim vai. Mas não necessariamente.

É um erro, portanto, pensar que a elite branca e, evidentemente, financeira (dado o custo dos ingressos) que vaiou e xingou a presidente no estádio era, também, uma elite intelectual. Sim, podem ter até seus diplomas em universidades de nível, seus MBAs estampados na parede, etc, mas isso não tem nada a ver com civilidade, conhecimento geral, e muito menos com politização. O que se viu no estádio foi uma manifestação de classe: uma elite, privilegiada, que atacou uma figura política que não as representa. Afinal, quem ali já dependeu de educação básica e saúde públicas? Isso pra não dizer de um Bolsa-Família. A mídia estrangeira, ao ver um estádio repleto de pessoas que não representam nem de longe a totalidade brasileira e ler que a popularidade da presidente nem é tão baixa assim, não entendeu de forma diferente. Ou seja, antes de mostrarem a insatisfação geral do brasileiro, os manifestantes apenas se envergonharam ao deixarem claro ao resto do mundo a mesquinhez de sua classe, para não dizer da falta de respeito.


Uma leitora, ao comentar meu texto, perguntou se eu, também, por estar no estádio, não faria parte desta elite branca. Respondo: é evidente que sim. Talvez nem tanto financeira, como estar no cheque especial e pedir dinheiro emprestado para comprar o ingresso evidenciam.  Mas, pelo menos, tenho consciência dos privilégios de ser branco dos olhos claros. Isso, por si só, não define que a minha vida foi mais ou menos fácil que a dos outros. Afinal, a vida não é fácil pra ninguém. Mas significa que, de todas as dificuldades que tive na vida, ser branco, certamente, não estava entre elas.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Impressões de dentro da Copa



Tendo o privilégio de assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, creio ser interessante relatar algumas coisas sobre esta experiência única, detalhes que a TV não consegue (ou quer) mostrar.

Primeiro, chegar ao estádio foi tranquilo. O “Expresso da Copa”, partindo da Estação da Luz direto a Itaquera, foi tranquilo, sem percalços. Na chegada na estação Corinthians-Itaquera, uma grande multidão lentamente se dirigia ao estádio que, de acordo com as placas, ficava a uns 900m da estação. Nada muito problemático; afinal, qualquer torcedor consciente se dirigiu ao jogo com bastante antecedência. No meu caso, saí da região central de São Paulo às 13h e consegui chegar, andando tranquilamente e parando para tirar fotos do percurso, às 14h30. Nas imediações do estádio, tudo muito bem organizado e razoavelmente rápido para entrar. Bastou passar por um detector de metais, validar o ingresso e só. E nem fizeram questão de ver se tinha o meu nome escrito nele ou não.

A propósito, dica para quem quer ir a um jogo e não tem ingresso: havia várias pessoas procurando ingresso e um ou outro querendo vender. E essa estratégia funcionou, pois algumas pessoas conseguiram comprar e assistir ao jogo, e até mesmo sem pagar absurdos. Então, para quem quer tentar a sorte, vale a pena chegar cedo na estação perto do estádio, colocar uma plaquinha de que procura ingresso e negociar.

Dentro do estádio, diversas atrações eram colocadas para os torcedores, assim como stands para venda de refrigerantes, cervejas e uma disputada loja de souvenirs. As filas eram um pouco grandes, mas até que as coisas fluíam rapidamente. Um latão de Brahma 500ml era 10 reais; Budweiser era 13. Caro, mas razoável para eventos de grande porte. O mais legal era que você ganhava um copo comemorativo do jogo: uma ótima lembrança daquele dia.


Depois de pegar duas fichinhas de cerveja e comprar uma delas para levar para dentro do estádio (as latas ficavam com os vendedores, só podia levar o copo de plástico), foi tranquilo achar o meu lugar, e sentei 10min antes de começar a cerimônia de abertura. No caminho, não notei obras inacabadas ou improvisadas. Poderia até haver, mas não havia nada de chamar a atenção. Contudo, algo a se notar era a quantidade de lugares vazios quando a cerimônia começou. Alguns podem pensar que era em razão de alguma dificuldade dos torcedores de acessar ao estádio, mas não é verdade: o fato é que muitos não pareciam estar se importando muito com isso, e ficaram curtindo os arredores do estádio, ou estavam ainda nas filas para bebidas, comidas e souvenir.

Quanto à cerimônia, a impressão era a mesma: uma apresentação fraca, com exceção da parte final, com o show de Pitbull, Jennifer Lopez e Claudia Leitte, que conseguiu animar a galera. Mas até aí, não me lembro de cerimônias de abertura de Copa do Mundo que foram memoráveis. O maior destaque, e assim estava descrito no programa da abertura distribuído no estádio, seria a demonstração do projeto Walk Again do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, no qual um paraplégico iria andar graças a um exoesqueleto controlado pelo cérebro e dar o chute inicial do dia. Entretanto, se não foi possível ver na TV, de dentro do estádio menos ainda. Não foi possível nem ver ou perceber que já tinha ocorrido. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que ninguém iria prestar atenção no canto do estádio. Nem os telões deram ênfase ao momento. Uma tremenda bola fora da Fifa, que pareceu até proposital.

Não tecerei comentários em relação ao jogo em si, mas antes do mesmo, é inevitável não citar a parte do hino. Muitos me perguntaram se me emocionei ao cantar o hino junto a todo mundo. Na verdade, não. Imagino que seja que nem uma cena de guerra: se você assiste a todos aqueles guerreiros gritando juntos enquanto partem pro combate, você se emociona. Agora, se você é um desses guerreiros, você está tão compenetrado que nem consegue prestar atenção no que está ocorrendo. Se eu parasse para prestar atenção, talvez me emocionasse. Só que antes de ser um hino, foi mesmo um grito de guerra, e o grande culpado por eu estar levemente sem voz no momento. E saber que pelo menos centenas de milhões de pessoas assistiram àquilo, que emocionou tanta gente, principalmente os próprios jogadores, é algo que dá muito orgulho. É um momento que eu vou guardar pro resto da vida.

O que não deu tanto orgulho foram as vaias e xingamentos à presidente Dilma Rousseff. Ela ocorreu pelo menos umas quatro vezes, o que é lamentável. O motivo para isso tinha uma origem ainda mais nefasta: quem olhasse os torcedores do estádio poderia pensar que o Brasil é um país de gente branca, com muitos loiros, e um ou outro japonês. Negros? Não existem. Sim, havia um ou outro no estádio, mas nenhum entre os mais ou menos 500 torcedores à minha volta. Portanto, as vaias e xingamentos partiam claramente de uma elite branca e despolitizada, que de educada não tinha nada. Mas, se serve de consolo, o ato não era consensual: enquanto muitos ficavam quietos, uma minoria criticava quem estava xingando, e diziam frases como: “se veio xingar a presidente, vai pra casa, está fazendo o quê aqui?”, “coxinhas!”, “torcedores de pay-per-view!”, e até mesmo “ei, Aécio, vai tomar no c...”.

Por outro lado, ainda de notável em relação ao comportamento da torcida foi o apoio incondicional à seleção brasileira em campo. Não era o torcedor típico de estádio, então a animação era contida, mas as vaias ao campo eram só para a Croácia, para tentar desestabilizar o time rival. No gol contra de Marcelo, uma cena bonita: um choque inicial, seguido de gritos de “Marcelo, Marcelo!” para animar o jogador. O incentivo ao time só era interrompido por momentos de tensão. Houve diversas tentativas de “ola”, mas a maioria, frustrada. Perto do fim, até houve uma rápida e estúpida briga entre dois torcedores brasileiros, mas foi criticada pelos outros e separada pelos seguranças no local de imediato.

Durante o jogo, algumas falhas. Aparentemente, alguns refletores desligaram no meio do jogo, mas eu nem percebi, já que (felizmente) ainda era dia. Ainda assim, é uma falha grave. No estádio, era possível ver algumas pessoas com lata, e até mesmo um ou outro com isqueiros e fumando, o que não era permitido. Só que o problema mesmo foi no intervalo: havia poucos pontos de venda de bebida dentro do estádio, o que formou filas que se mantinham mesmo após o 2º tempo começar. Pra piorar, fui pegar a outra cerveja que tinha comprado, e tive que ouvir em duas ocasiões, após duas filas diferentes, que a ficha não era válida ali, em uma evidente desorganização. Felizmente, após reclamar bastante com a atendente, que não tinha culpa de nada, ela foi compreensiva o suficiente de aceitar a ficha por conta própria e fornecer a minha cerveja. Portanto, houve falhas, mas são erros facilmente consertáveis para os próximos jogos, se a organização do evento aprender com eles.

No final, saída tranquila do estádio. Conversei um pouco com algumas pessoas que trabalharam no estádio, querendo saber a opinião sobre a organização e o jogo. Um deles me perguntou quem fez os gols. Infelizmente, os seguranças precisam ficar virados de costas para o campo, apenas observando a torcida, então não conseguiam ver os lances. Eles fizeram algumas leves críticas à organização, mas, no geral, estavam felizes. Perguntei a um voluntário se tinha valido a pena, e a resposta foi rápida e curta: “Muito”. Inclusive, os voluntários fizeram uma bela cena na saída: formaram uma linha em torno do estádio, dando tchau para os torcedores e cantando com um sorriso no rosto: “Eu sou brasileiro/com muito orgulho/com muito amor”. Um tapa na cara de quem criticou quem iria trabalhar de graça, pois não teriam benefícios.

E assim, a impressão geral é de que tudo correu bem e de que o Brasil tem, sim, condições de organizar uma copa. Houve falhas e atitudes deploráveis de parte da torcida elitizada, mas há pontos positivos. E se há algo que compensa tudo de errado é o povo brasileiro. Os brasileiros cumprimentavam, faziam graça e tiravam fotos com os croatas, além de estarem sempre dispostos a ajudar. Se havia algum estrangeiro perdido, logo surgia um brasileiro para ajudar, mesmo sem solicitarem ou mesmo sem falar alguma palavra de inglês. Um deles, após explicar sobre as linhas de metrô, apertou a mão dos croatas e disse com um sorriso: “Welcome to Brazil”. Então se há uma coisa que deve nos dar orgulho é a recepção calorosa e hospitaleira do nosso povo. Essa é, certamente, a lembrança mais valiosa que os estrangeiros vão levar daqui.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

“Se não têm pão, que comam brioches”



Diz a lenda que a rainha Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, declarou a frase acima em deboche (ou, quem sabe, por inocência) aos pobres que se revoltavam por não haver comida. Ninguém sabe se ela realmente disse a frase, mas o fato é que o rumor correu a França, o que acendeu mais ainda a turba já enfurecida contra os desmandos da realeza. Aí o resto é história, como dizem.

Mas a memória deste caso inusitado da história não é por acaso. Neste momento, os metroviários de São Paulo entram no seu 5º dia de greve, mesmo depois da justiça tê-la declarado “ilegal e abusiva”, e ameaçando multas diárias de R$ 500 mil. E o que muitas pessoas andam dizendo? Que os metroviários agem sem pensar na população e, se estão mesmo insatisfeitos, que procurem outro emprego, já que eles escolheram estar lá.

É triste que as pessoas pensem que tudo é tão simples assim, que basta trocar de emprego e procurar outro com um salário melhor quando você está infeliz. De fato, isso é o que prega o ideário liberal de forma utópica. Mas a realidade, como sabemos, é bem diferente: você não sai escolhendo o seu emprego livremente, pesando as diferentes opções e ofertas de salário. Só uma elite privilegiada tem esse benefício. Para a maioria, você pega o que aparece pela frente simplesmente porque precisa trabalhar. Precisa de um salário, precisa pagar as contas. E as contas nunca esperam por você.

Quem prestou concurso para trabalhar no metrô também não sonhava necessariamente em ser metroviário, ou nem mesmo com o salário: queria um emprego público, acessível às suas qualificações, que lhe desse estabilidade e segurança, o que o setor privado não providencia. Mas isso não significa que, uma vez lá dentro, o trabalhador vai ficar satisfeito com o pouco que tem. O piso salarial dos metroviários é de R$ 1.323,55. Menos que duas vezes o salário mínimo, e muito menor que o salário mínimo sugerido pelo Dieese como suficiente para atender as necessidades básicas do trabalhador, que seria de R$ 3.079,31. É compreensível, portanto, que os metroviários queiram um reajuste bem acima da inflação. Ainda mais depois de saber que pelo menos quase 1 bilhão de reais, que deveriam ter sido destinados ao metrô, foram desviados pelo cartel do metrô, envolvendo membros importantes do governo estadual e do PSDB.

Alguns vão dizer: “Ah, mas veja a linha 4-Amarela, que beleza, ela não tem nada disso, porque está sob os cuidados da iniciativa privada. É só automatizar tudo também!”. Primeiro de tudo, metroviários não são apenas aqueles que conduzem os trens, incluem todo o pessoal que trabalha nas estações de metrô: seguranças, pessoal da manutenção, da bilheteria, etc. Mas a verdade é que a linha 4-Amarela só é bonita esteticamente; afinal, ela é mais nova. Tirando isso, padece de diversos problemas. Que desastre de engenharia é aquele túnel que conecta a estação Paulista com a Consolação, da linha 2-Verde? E as esteiras que, nos horários que mais precisa, estão desligadas? Quem utiliza a linha frequentemente também sabe: quantas vezes o metrô parou de funcionar, sem avisos, sem orientações ao usuário? É a famosa eficiência do setor privado em ação (só que não). Os funcionários da concessionária não pertencem ao sindicato dos metroviários; portanto, se não entraram em greve, isso não significa que seus direitos estão garantidos. Pelo contrário, trabalhadores desmobilizados têm muito mais chance de terem seus direitos desrespeitados. E isso tudo sem falar no princípio geral que transporte público deve servir aos interesses públicos, e não aos interesses privados, que só visam o lucro.

“Mas a Justiça declarou que a greve é abusiva e ilegal!” A mesma Justiça afirmou que os trabalhadores em greve deveriam trabalhar em 70% de sua capacidade nos horários normais, e em 100% nos horários de pico. Que raios de greve patética é essa em que você é forçado a trabalhar mantendo 100% do funcionamento de algo? Lembremos que o direito a greve é garantido pela Constituição. Não só isso, mas a Justiça não é perfeita, muito menos tem efeito moralizante. Ela é falha, e muitas vezes serve a interesses mais poderosos, o que justifica o seu questionamento.

E pra quem acha que os metroviários não estão nem aí pra população, vale a pena lembrar: eles sugeriram trabalhar de graça, liberando a catraca durante a greve, para não prejudicar a população. Só que, pra isso, seria necessária a autorização do governador; pelo contrário, os trabalhadores poderiam ser demitidos por justa causa. A resposta do governador, no entanto, foi “não”. E pra não ficar nisso, ele ainda mandou a Polícia Militar bater nos grevistas que impedissem a abertura de estações, forçando seus supervisores a trabalharem em seus lugares.
 
Assim, enquanto o governador se ausenta do problema, o governo do PSDB em São Paulo faz, mais uma vez, o que sabe melhor: colocar o povo contra si mesmo. O exemplo mais irônico disso tudo foi a declaração do capitão da PM, que comandou a ação para expulsar à força os grevistas da estação, de que, apesar de tudo, ele era a favor da greve. E nem adianta dizer que os metroviários são oportunistas por causa da Copa do Mundo: eles avisaram sobre a possibilidade de greve há semanas, decidindo começá-la uma semana antes do evento. Se quisessem mesmo, poderiam iniciá-la já durante a realização do mesmo, o que causaria um efeito muito mais desastroso.

É verdade que tudo isso causa um transtorno para a população, mas é preciso atacar o alvo acerto, o governador Geraldo Alckmin, que não quer nem dialogar nem buscar uma solução. Não adianta sugerir que os metroviários busquem outro emprego: isso é tão tolo quanto a suposta frase da Maria Antonieta. Os metroviários têm todo o direito de lutar por condições melhores, assim como toda classe de trabalhadores, pois não se trata de buscar privilégios, e sim de querer um pouco mais de dignidade. Afinal, não basta entregar os pães; é preciso repartir os brioches também.