sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sheherazade e amigos: quem defende bandido são vocês




Recentemente, a musa dos conservadores brasileiros, a jornalista Rachel Sheherazade, fez uma declaração polêmica e leniente em relação ao grupo de “justiceiros” que agrediu e acorrentou a um poste no Rio de Janeiro um jovem que teria cometido um crime. Houve protestos de todas as partes, até mesmo de outros jornalistas, mas também houve muitas manifestações de apoio. E se você, caro leitor, achou que ela mandou bem em sua declaração, apoia que o cidadão comum faça justiça com as próprias mãos, acha que “bandido bom é bandido morto” e considera que “direitos humanos são para humanos direitos”, este texto é dedicado a você. Mas, primeiro, é preciso começar contando duas historinhas.


João, 18 anos, preto, pobre, mora numa favela de uma grande metrópole, faz o último ano do Ensino Médio durante o dia e frequenta um cursinho pré-vestibular à tarde, pago com o salário mínimo recebido pelo emprego numa rede de fast-food no turno da noite. Seu sonho era estudar Engenharia. Certa vez, cansado depois de passar o dia estudando, ele partiu para mais uma longa jornada de trabalho. Um dos clientes, um jovem de classe média alta visivelmente embriagado pediu o seu lanche, e João o atendeu. Com sono, João entregou o pedido errado do cliente, que ficou irritado. O atendente reconheceu o erro, pediu desculpas, mas alertou que o seu novo pedido iria demorar, porque teriam que fazer outro. O cliente, alterado pelo álcool, então surtou e começou a xingar o rapaz, usando todo tipo de nome para ofendê-lo – inclusive racistas – e terminou proferindo a frase:

“O que você ganha em um ano, eu tiro em uma semana!”.

João ouviu calado às ofensas, mas sua raiva foi subindo, ao ponto que, enfim, bradou: “Você não pode falar assim comigo!”. O cliente, surpreso com a reação, imediatamente chamou o gerente, informando que o seu funcionário tinha errado o pedido e ainda tinha o tratado mal. O gerente então pediu desculpas ao rapaz bêbado, garantindo-lhe que não seria necessário pagar pelo seu pedido, e puxou João para um canto para avisá-lo que estava demitido, e que era para pegar suas coisas e ir embora. João, sem palavras, então saiu furioso de lá, com o sangue nos dentes.

O jovem estudante não se conformava com o que havia acontecido; ele, que sempre fez tudo certo, era honesto, estudava para tentar melhorar de vida, por que lhe fariam isso? O que ele fez para merecer? Sem emprego, não teria nem como pagar o cursinho pré-vestibular, sua única chance de entrar na faculdade. Quanto mais ele pensava, mais a raiva crescia, martelando na cabeça a última frase do playboy que o humilhou. Então, no caminho de volta para casa, ele encontrou um amigo que estava bem de vida por ter entrado para o crime. João sempre recusou os convites para entrar nesta vida, achando que poderia ser melhor do que isso. Porém, desta vez, com a cabeça quente, achou que ele também merecia algo melhor do que a vida lhe reservava. Assim, lhe pediu um favor: uma arma emprestada. Atendido o pedido, dirigiu-se a uma avenida movimentada e procurou o primeiro playboy que passasse num carro bacana. Uma vez encontrado, João sacou a arma e anunciou o assalto. Surpreso, o jovem motorista fez um movimento brusco, assustando João que, acidentalmente, disparou. Não tinha mais volta: João, que queria ser engenheiro, tinha se tornado agora um assassino.

...

Paulo, 45 anos, branco, de classe média, é pai de família e tem uma vida confortável ao lado de sua esposa e dois filhos. Sempre foi um cidadão honesto e de bem, respeitando as leis e as pessoas à sua volta. Um belo dia, voltando para casa de carro, ele sofreu uma tentativa de assalto de um homem mascarado com arma em punho. O ladrão levou dinheiro, carteira e até o carro, que estava sem seguro. Apavorado de medo, Paulo entregou tudo sem reagir, lhe restando voltar a pé e com as mãos abanando para casa. Após uma longa e humilhante caminhada de volta ao lar, Paulo, ainda tremendo de medo, então chorou junto à esposa, pensando em como poderia ter morrido e deixado sua mulher com dois filhos para criar sozinha. Com o tempo, no entanto, o medo e choro começaram a dar lugar à raiva. Por que aquele bandidinho teria que agredi-lo, alguém que nunca fez mal a ninguém, que comprou tudo apenas com o próprio esforço? Tinha que atacar os políticos em Brasília, não ele. Paulo não entendia, e isso o irritava cada vez mais.

No dia seguinte, Paulo teve que andar usar o transporte público para o trabalho. No caminho para a estação de trem, viu um homem correndo em sua direção e outro atrás apontando: “Pega ladrão!”. Com a lembrança ainda viva da noite passada, Paulo não pensou duas vezes: deu uma rasteira no meliante, que caiu no chão indefeso. Tomado pela fúria, Paulo e outros populares em volta começam a bater no ladrão. Bateram, e bateram muito, até se formar uma poça de sangue. Meia hora depois, quando a polícia e a ambulância chegaram, já não havia muito mais o que fazer: o ladrão não resistiu aos ferimentos e morreu. No fim, descobriram que o rapaz havia apenas furtado um pacote de bolachas de um supermercado.


A maioria das pessoas, lendo o ocorrido no jornal e sem saber os fatos anteriores, provavelmente presumiria que João já fosse uma pessoa sem caráter, um marginal em seu enésimo crime, enquanto Paulo seria basicamente um cidadão de bem, um pai de família cansado da violência que assola as grandes cidades. E mesmo depois de conhecer os fatos por trás de cada história, talvez o leitor ainda se identificasse com um caso mais do que o outro, ou então fizesse algumas concessões: “Se João tivesse agredido o primeiro playboy, tudo bem, dava pra entender, mas não precisava matar!”, ou então “E se o ladrão espancado por Paulo e os outros fosse um assassino, um estuprador, um pedófilo?”. A verdade é que diversas ressalvas poderiam ser feitas, mas o fato permaneceria que as duas histórias – fictícias, mas com alusões à realidade – tinham algo em comum: a ocorrência de um crime que acarretou a morte de alguém.

E qual é a diferença fundamental entre os nossos dois personagens? Exatamente isso, o apoio que cada criminoso receberia da sociedade. João seria imediatamente considerado um bandido, com turbas raivosas pedindo a sua condenação sumária. Por outro lado, muitos ponderariam no caso de Paulo: ele é pai de família, nunca fez nada a ninguém, não fez sozinho, estava de cabeça quente pelo ocorrido na noite anterior e, claro, ele fez mal a um bandido, alguém que não prestava. Um mal compensaria o outro. Só que não, parceiro, não compensa. E não adianta nem alegar que, sendo assim, não se poderia agir nem em legítima defesa: isto é previsto por lei e é perfeitamente aceitável. Muito menos então vir com um papo de “legítima defesa preventiva”; ou seja, agir em antecipação a um crime, como alguns gostam de inventar. Isso não apenas não existe como também é uma desculpa para cometer todos os tipos de atrocidades.

Alguns vão ressaltar: “ah, mas os direitos humanos vão querer proteger o João também, dizer que ele é um coitadinho, uma vítima do sistema!”. Se você diz isso, você não sabe nem o que são direitos humanos, nem pelo que seus ativistas lutam. O que estas pessoas vão pedir é para que João tenha acesso aos direitos que lhe são assegurados por lei: um julgamento justo, sem sofrer agressão policial, e preso em condições que proporcionem a sua reabilitação e garantam a dignidade humana (sim, leitor, você considere ou não, ele ou qualquer outra pessoa continua um ser humano, independentemente do crime que cometeu).

Só que as pessoas pedem justiça. E o que é a justiça? Bem, basta olhar para o símbolo da justiça: uma mulher vendada segurando uma balança e uma espada. Ela fica vendada porque a justiça deve ser cega: não pode estar aberta a paixões ou relativismos, devendo tratar todos de forma igual, não importa quem seja. Da mesma forma, a balança representa o equilíbrio que a análise dos fatos deve ter, pesando as evidências pró e contra o réu de forma imparcial. E, por fim, temos a espada, que ilustra o cumprimento das leis e suas sentenças, o que é fundamental para que a justiça seja feita.

O argumento daqueles que apoiam a justiça com as próprias mãos é de que o sistema judiciário é lento e ineficiente, o que favorece a impunidade. Assim, a sociedade deveria agir quando o sistema falha. De fato, o sistema judicial pode cometer erros, mas isso não justifica a atuação de grupos que decidem assumir ao mesmo tempo o papel de polícia e juiz. Por mais que a sua espada seja mais célere, ela não é cega, muito menos equilibrada, seguindo os moldes da imparcialidade. Em outras palavras, ela é cruelinjusta e ilegal.

Portanto, amigo leitor, lamento informar, mas o Paulo, que era um cidadão de bem até aquele momento, tornou-se um criminoso. Da mesma forma que João, ele descumpriu a lei, e deve pagar pelo que fez. E se você relativiza o caso dele, ou assim como a Rachel Sheherazade, apoia a atuação de “justiceiros”, não são os ativistas de direitos humanos que defendem criminosos. Infelizmente, quem defende bandido é você.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Alguns posts divertidos da Internet pós-beijo gay (com comentários)

Em seguida ao "polêmico" beijo gay na novela da Globo, era de se esperar uma pororoca de chorume pela Internet afora. Mas, se não dá pra chorar, pelo menos vamos tentar rir. Seguem, portanto, algumas das melhores pérolas, com direito a comentários meus:

"pronto se era isso que faltava para o mundo acabar esperemos então quem sera o novo Hitler. se alguém duvida teremos acontecimentos estranhos aguarde." - Só jogar Hitler no meio que está tudo certo. Mas se algo de estranho acontecer, pode ter certeza... é culpa do beijo gay!

"Nojo...Credo #anciadevomito A Globo força mas o povo Brasileiro não aceita...Faça um plebiscito...só para ver...Globo Tô fora" - Pensei numa senhorinha coberta de vômito. Tadinha.

"Q absurdo! Vcs têm noção do que é estar vendo a novela e toda a sua família estar dizendo ofensas?! "Nojo, Eca" "Q absurdo!" "Q nojo!", garanto a vcs que ñ é nenhum pouco agradável, pelo contrário, é extremamente humilhante!" - Imagino, eu ia ficar envergonhado se minha família fizesse isso também.

"Esse beijo foi nojento, mas a cena final foi belíssima, dois grandes atores em grandes atuações." - Pelo menos este aqui encontrou um lado positivo, né?

"Essa emissora é o lixo do lixo do lixo. Dela só assisto o Jornal Nacional." - Errou feio, errou rude!

"Aos poucos, o comando gay da rede Globo e de outras esferas tentam tratar com "naturalidade" a releção homossexual. Reparem que homossexual não pode nem ser vilão. Tem que ser o bom moço." - Acho que este aqui perdeu o começo da novela.

"Realmente a vida segue,as crianças sendo molestadas,o mundo em guerra,pessoas comendo grama pra sobreviver e o brasil parado pra ver um beijo gay,tenho pena do meu filho e netos..." - Eu também, ter um pai e avô amargo desses é de dar pena!

E por fim...

"lamentável essa sena" - Também acho. Nunca ganho na mega, acho indigno.