quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Cuba venceu a guerra





Os Estados Unidos já se envolveram em inúmeras guerras ao redor do mundo. A sua maior vitória, talvez, não foi nem militar, mas ideológica, com a queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria. Mesmo assim, também há várias derrotas em seu currículo. No quesito militar, talvez a mais vergonhosa foi contra o pequeno e pobre Vietnã. E, ontem, encerrou-se uma longa guerra militar e ideológica contra mais um pequeno e pobre país, desta vez no Caribe. Com o anúncio da retomada das relações diplomáticas com Cuba, o presidente dos EUA, Barack Obama, admite o óbvio: apesar de todos os esforços e da tentativa de isolamento do regime dos irmãos Castro, nada funcionou, e Cuba prevaleceu. O pequeno David venceu, mais uma vez, o gigante Golias.

Talvez não fique claro de imediato porque isso simboliza uma derrota americana. Mas um passeio rápido pela história explica. Apesar do que se pode acreditar, a Revolução Cubana começou nacionalista, e não socialista. Tornou-se socialista, uma vez no poder, por conveniência. Contrariando os interesses americanos na ilha ao retirar do poder Fulgencio Batista, aliado dos EUA, restou a Fidel Castro a opção de se alinhar ao bloco socialista para, entre outras razões, obter certa ajuda e proteção da União Soviética. A partir de então, foram inúmeras as tentativas americanas de derrubar o regime castrista, desde a fracassada invasão militar na Baía dos Porcos, até as repetidas tentativas de assassinato de Fidel, por envenenamento, explosão, etc. Se um gato tem 7 vidas, Fidel Castro tem 700.

A iniciativa mais duradoura, no entanto, visando a derrubada do regime cubano, foi o embargo econômico à ilha. Se não era possível derrotá-la militar nem politicamente, restava então sufocar a economia do país até que ele entrasse em colapso por si só. O governo americano acreditou que, submetendo o país a um isolamento que impedisse seu desenvolvimento econômico, a população cubana iria, eventualmente, se revoltar contra o regime e derrubar os irmãos Castro do poder. Entretanto, não foi o que ocorreu.

Diferentemente do que uma direita raivosa pode acreditar (e sem querer apoiar aqui o regime castrista), a repressão em Cuba foi muito menor e diferente do que no totalitarismo stalinista. Enquanto a União Soviética existia, o país ainda viveu uma certa prosperidade, embora dependente do regime soviético. Com a queda do bloco socialista na Europa, a ilha caribenha amargou o isolamento e sérias dificuldades econômicas. Ainda assim, ostentando índices sociais surpreendentes, apesar dos problemas econômicos, o regime cubano sobreviveu sem tantos percalços políticos, mesmo com a saída de Fidel para a entrada de seu irmão, Raúl Castro, no poder.

O mais relevante da história toda, contudo, é a inexistência de ameaça que Cuba apresentava aos EUA ou à região depois do fim da Guerra Fria. Enquanto aliado da União Soviética, ainda se podia dizer que o país representava um perigo, como na Crise dos Mísseis de 1962, quando o mundo chegou mais perto de uma guerra nuclear do que se imagina. Porém, após a queda do bloco socialista, o único interesse de Cuba era sobreviver e prosperar. Sendo assim, o embargo econômico imposto pelos EUA servia apenas para insistir na derrota do velho inimigo, mesmo que por orgulho. Como esta derrota não veio, e já se passaram mais de 20 anos desde a queda da União Soviética, o embargo se tornou anacrônico, uma relíquia da Guerra Fria que se mantém apenas para não admitir o seu fracasso.

É verdade que, mesmo com o gesto inicial de Obama, o embargo não foi encerrado. Isso ainda precisa passar pelo conservador Congresso americano, que não vai engolir a ideia tão facilmente. E o que será de Cuba? Há quem pense que será o início do fim do regime socialista na ilha. Afinal, era fácil culpar os problemas sociais e econômicos do país no embargo econômico. Com o seu fim, e sem ver melhoras em suas vidas, os cubanos podem começar a questionar a manutenção do regime. Todavia, é mais fácil supor que isso ocorra já com a morte dos irmãos Castro, e não com o fim do embargo econômico. É mais provável, então, que ocorra o outro cenário, também destacado por analistas, que é a formação de uma “China do Caribe”; ou seja, o mesmo capitalismo de Estado praticado pelo regime chinês, mantendo-se uma mão forte na economia e na vida social. Quem viver, verá.

De resto, palmas para o presidente Barack Obama, que teve a coragem de admitir que a situação não era mais sustentável do jeito que estava, e para o Papa Francisco, que se revelou um importante mediador entre os dois países, retomando um papel de protagonismo do Vaticano na política internacional. Ambos serão chamados de comunistas pelos comentaristas raivosos, é claro, mas não se pode exigir racionalidade a essa gente. E, no fim, o Brasil mostra que estava certo o tempo todo em financiar o porto cubano em Mariel, apesar das críticas. O pragmatismo da diplomacia brasileira mostrou-se, mais uma vez, à frente do seu tempo, muito além de questões ideológicas, como alguns, infelizmente, insistem em afirmar. Ganham todos; perde quem ainda acredita estar na Guerra Fria.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Votamos na Dilma, elegemos o Aécio



A realidade é mais dura do que o esperado. Depois de uma campanha tomada por um discurso de esquerda, acusando os adversários de quererem governar para os mais ricos e o mercado, e de plantar juros para colher desemprego, a presidente reeleita Dilma Rousseff faz justamente tudo o que criticou. Primeiro, seu governo eleva os juros; agora, nomeia Joaquim Levy para ministro da Fazenda, sinalizando uma guinada à direita nos rumos da economia.

E quem é Joaquim Levy? Com doutorado na Universidade de Chicago, ninho do pensamento neoliberal, Levy é um economista que teve passagens pelo FMI e o Banco Central Europeu, além de ter trabalhado em ambos os governos FHC e Lula. Mais recentemente, antes de assumir o ministério, o economista ainda trabalhava para o Bradesco. Porém, o mais notável de sua trajetória é a sua fama pela insistência no corte de gastos, o que lhe valeu o apelido de “mãos de tesoura”. É mole?

Tudo bem, nós sabemos que, no fim das contas, há poucas diferenças entre um governo do PT e do PSDB. A diferença é que do PSDB a gente já sabe o que esperar, e não é nada de bom; do PT, ainda mantemos alguma esperança, alguns raios de luz ainda surgem no horizonte. Desta vez, no entanto, o horizonte é sombrio. Não bastasse a contradição entre a Dilma candidata e a Dilma reeleita, escolher um rumo de austeridade para a economia, enquanto a Europa sofre e questiona a eficácia da mesma, é um tremendo retrocesso. Não só para a economia, mas também para a política, pois reforça a crença de que os partidos e os políticos são todos iguais.

Só que a escolha não é por mera preferência ideológica, ou porque a direita neoliberal tem um receituário mais eficaz para superar a crise. A nomeação de Levy tem um motivo muito menos nobre: agradar o mercado. Sim, esta entidade mítica, sem rosto, que aterroriza líderes políticos que pretendem mexer na economia. Dilma tinha perdido a credibilidade do mercado e dos investidores, que apoiaram em peso a candidatura de Aécio, e agora faz um agrado para tentar fazer as pazes. Algo similar ao que Lula fez em seu 1º governo, depois da “Carta ao Povo Brasileiro”, para assegurar ao mercado que iria manter a política macroeconômica de seu antecessor.

Contudo, se Dilma perdeu a credibilidade do mercado e dos investidores, não é só por causa do fraco crescimento da economia e do intervencionismo de seu governo, mas também pela falta de diálogo. A atual presidente não dialogou com os setores produtivos, que ficaram ressentidos com o seu governo, além de nunca saberem o que esperar. Agora, para compensar a falta de diálogo, dá de presente o ministro dos sonhos, assim como um pai que compra um presente caro para o filho para compensar sua ausência. Tanto que ouvi de um investidor que, se soubesse que Dilma nomearia Levy para o ministério da Fazenda, teria votado nela.

Agora, o problema é que todo presente tem seu preço. No caso de Dilma, ele será primordialmente político. Será que o eleitorado que a apoiou terá paciência para tolerar a sua contradição? Não sabemos ainda o grau de liberdade que Levy terá à frente do ministério; afinal, lembremos que Dilma também é economista e gosta de dar seus pitacos no assunto. De qualquer modo, dependendo da profundidade de medidas austeras na economia, será que o povo vai ficar calado com um eventual aumento de desemprego, dos juros e um arrocho salarial? Dilma foi reeleita justamente para coibir esse tipo de política. Com essa guinada, entretanto, a presidente apenas reforça a ideia de que o poder político é absolutamente submisso ao poder econômico. No fim, talvez o mercado saia mesmo feliz dessa história. Dilma e o PT, por outro lado, podem estar cavando a sua cova política e preparando o cenário para a entrada de Aécio em 2018. E aí sim, teremos uma direita sem (tantas) contradições no poder.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um novo 1964



Um Congresso hostil; a grande mídia e setores religiosos contra o governo; milhares nas ruas protestando contra o presidente eleito de viés progressista, pedindo a sua saída e uma intervenção militar, com gritos de “O Brasil não é Cuba” e “Fora Comunismo”. Soa familiar? Podia ser 2014, mas o ano aqui é 1964. E a intervenção militar veio, com a promessa de nos “salvar” do comunismo. Porém, com ela, veio uma ditadura de mais de 20 anos que matou, torturou e envergonhou o Brasil.

Agora, exatos 50 anos depois, assistimos novamente a eventos similares aos que antecederam o golpe que depôs João Goulart. Será que não aprenderam nada? Parece que não. Afinal, não existe “intervenção militar constitucional”, como alguns dos manifestantes querem acreditar. Podem dar o nome que quiserem, mas o ato de 1º de novembro foi antidemocrático e golpista. Em 1964, esperava-se que os militares fizessem apenas um governo de transição. Hoje, a história ensina que é muita inocência esperar que os militares tirem um presidente do poder e voltem ao quartel logo em seguida.

Felizmente, o contexto é outro. A mídia pode ser contra o governo Dilma, e é responsável em partes por fomentar o ódio ao PT, mas parece ter aprendido a lição do que significa uma intervenção militar. O cenário internacional também é diferente: não estamos na Guerra Fria, nem há um embate Capitalismo x Comunismo. Se grande parte da historiografia concorda que não havia risco do Brasil se tornar comunista no governo Jango, hoje, então, muito menos. Se o golpe, em 1964, obteve reconhecimento e apoio internacional, hoje, teria apenas repúdio. E o Congresso, apesar de dar trabalho para a presidente, está interessado apenas em discutir a sua fatia do poder, que seria diminuída com um golpe militar.

Sobretudo e mais importante, a realidade é que não há um respaldo popular a um golpe militar no Brasil. Em 1964, centenas de milhares saíram às ruas em protestos contra o governo e pedindo uma intervenção militar. Em 2014, foram apenas 2.500 pessoas.  E esses 2.500 não representam nem de longe a totalidade dos eleitores do candidato derrotado Aécio Neves. Inclusive, causam-lhes vergonha. A grande maioria da sociedade brasileira quer e prefere a democracia. Contudo, inflamada com o cenário pós-junho de 2013, a extrema-direita também quer mostrar suas asinhas. Não há a menor chance de um novo 1964. Mas eles bem querem. Os gritos e frases de ordem são os mesmos. O que não podemos é deixar esse discurso ganhar mais força e crescer. Porque, como andam dizendo por aí, é fácil pedir por uma ditadura na democracia. Já o contrário...


terça-feira, 28 de outubro de 2014

“Foi só pelos 20 centavos?”



As redes sociais estão perplexas com a eleição de Dilma. Não bastou os patrões doutrinarem suas empregadas e funcionários ou os médicos alertarem seus pacientes em postos públicos de saúde que Aécio seria o melhor para o país. Dilma ganhou mesmo assim, mesmo que por uma margem estreita de votos. Tem quem relate não conhecer ninguém que vota nela, ache que foi só por causa do Bolsa Família no Nordeste, acredite que o povo não lê sobre a corrupção do PT ou lamente que o gigante que tinha acordado em junho de 2013 tenha voltado a dormir. Era só mesmo pelos 20 centavos, dizem. Será mesmo? Eu temo ter que dizer outra coisa: saia da sua bolha!

Para entender por que Dilma foi reeleita, apesar de toda a torcida contra, é preciso esclarecer cada uma dessas crenças. Primeiro, não se engane: as jornadas de junho do ano passado não eram contra a Dilma e muito menos a favor do PSDB ou do Aécio. Se você assistiu a tudo pela janela ou pela televisão, até dá para perdoar um pouco que não tenha compreendido o que ocorreu naquele período. Mas se você esteve lá, o caso é grave, pois você não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo à sua volta. Não, não era só pelos 20 centavos: começou assim, nos protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa. Entretanto, com a repressão violenta da Polícia Militar a manifestantes pacíficos, parte da população se indignou e saiu às ruas em protesto pelos abusos vistos na TV. Dos 20 centavos, partiu para a PEC 37, a reforma política, e o anseio por melhores serviços públicos de transporte, saúde e educação. Não era contra algum político específico, seja o prefeito, o governador ou a presidente, apesar de um ou outro grito de “for a Fulano”. Era contra a forma de se fazer política no país, a falta de representatividade e a sensação de não ter sua voz ouvida (sobre isso e o resultado das eleições no 1º turno, ver aqui no blog). E, acreditem ou não, se há algum governante que entendeu essa situação, foi a própria Dilma ao colocar em pauta a questão da reforma política.

“Mas olha a corrupção do PT!”. Olha, se o motivo da sua aversão ao PT é por ele ser corrupto, e com isso você vota no PSDB, o mal-informado aqui é você. Não quero dizer que o PT é um exemplo de ética. Infelizmente, não é. Mas o PSDB muito menos. Há inúmeros escândalos envolvendo os tucanos, muitos deles mais graves e envolvendo montantes muito maiores que o mensalão petista, como, por exemplo, o cartel do metrô em São Paulo. O problema é que a mídia não noticia os casos do PSDB com a mesma intensidade que faz com o PT. O Manchetômetro, iniciativa de um grupo de estudantes e professores da UERJ para analisar as manchetes dos principais veículos de imprensa, comprova que o PT recebe mais manchetes negativas. Você pode dizer que isso ocorre simplesmente porque o PT tem mais coisas negativas para se noticiar, mas isso seria inocência, não? Basta andar até qualquer banca de jornais para ver como a mídia tem um lado. Talvez seja hora de parar e refletir sobre o quanto você está sendo manipulado por ela.

“O PT só ganhou por causa do Nordeste, que vive de Bolsa Família!” Se isso fosse verdade, o Aécio ganharia, pois Dilma ainda precisava ter uma votação expressiva no resto do país. E isso, de fato, ocorreu: Dilma venceu em Minas Gerais (terra onde o tucano governou), Rio de Janeiro, e ainda obteve votações expressivas em outras partes mais ricas do país, como o Rio Grande do Sul, onde Aécio ganhou com apenas 53% dos votos válidos. Agora, achar que o Nordeste vota em Dilma apenas por causa do Bolsa Família não passa de preconceito. A realidade é que o governo do PT investiu numa região que era esquecida pelos antigos presidentes do Brasil, e eles sentiram a diferença. Não foram apenas programas sociais, mas investimentos em infraestrutura, a atração de indústrias, empregos, que revolucionaram a economia da região (ver aqui). Enquanto o resto do país está com baixo crescimento econômico, ou então em recessão, é o Nordeste que tem puxado o país para frente, liderando o crescimento no Brasil. Sim, quem diria, o Nordeste sendo a locomotiva do país. Uma região que antes era assolada pela seca, a fome e a falta de oportunidades agora teve um governo que mudou a sua realidade. Vai muito além do Bolsa Família. Talvez você não saiba, ou porque nunca colocou os pés no Nordeste, ou porque só foi para curtir as praias e o Carnaval. Mas quem mora lá sabe. Não é lógico que um povo vote num governo que lhe fez bem?

“Mas todo mundo que eu conheço votou no Aécio!” Repito: saia da sua bolha. Sabe aquela diarista sua, que vai até sua casa uma vez por semana? Ou aquela manicure que fez as suas unhas na semana passada? Quem sabe até mesmo o seu porteiro, ao qual você raramente dá bom dia? Pois é, talvez eles todos tenham votado na Dilma. Talvez você até tenha perguntado a essas pessoas em quem elas iriam votar, e todas elas tenham dito que no Aécio. E talvez tenham votado mesmo. Mas talvez – e ressalto aqui o talvez – essas pessoas não se sintam à vontade para dizer a verdade para você. Infelizmente, o que mais tem se visto é pessoas terem que falar baixo ou se calar sobre votar na Dilma e no PT por medo de seus patrões, clientes, etc. Por um lado, é ótimo que o voto seja secreto, e que cada um possa fazer o que quiser, sem precisar dar satisfação a ninguém. Por outro, é triste o preconceito nas ruas, principalmente aqui em São Paulo, contra quem vota no PT. Chamam de “ignorantes”, “alienados”, “burros”, ou se acham que você está no “nível” delas, demonstram decepção com a sua escolha. “Nossa, mas pensei que você era uma pessoa esclarecida, como pode votar no PT?” Pois é, o problema é que, quem sabe, o ignorante pode ser você.

É claro, nem quero dizer aqui que todo eleitor do Aécio é ignorante. Se você disser que votou nele por causa da corrupção e realmente acredita nisso, então direi que sim, você está, no mínimo, mal-informado; caso contrário, talvez você esteja fazendo a escolha mais adequada aos seus interesses e às suas crenças pessoais. Se você acha que a meritocracia realmente funciona, que o Estado deve intervir menos na economia, deixando a maior parte dos serviços para a iniciativa privada, e que a desigualdade social não é um problema tão grave e que faz parte da sociedade, o Aécio parece ser mesmo a melhor opção para você. É uma opção informada, em conformidade com os seus interesses. Dito isto, não é lógico, portanto, que alguém que não concorde com essa visão de mundo vote também de acordo com seus interesses? Oras, o pobre querer votar num partido que se dirija a ele é apenas uma forma de defender seus interesses também. Igualmente para aquele que, mesmo de classe social similar à sua, discorde da sua ideologia, e acredite que o Estado deve, sim, intervir mais na economia, oferecer mais serviços públicos, e tentar reduzir as disparidades na sociedade. Um voto pode ser por falta de informação, mas também pode ser por pura e simples defesa de interesses. E se o rico faz isso, por que o pobre também não pode?

Por fim, eu queria ainda voltar à pauta do ódio. Porque uma coisa está bem clara: Aécio até poderia ter ganho as eleições, se não fosse o ódio e preconceito de muitos (não todos, provavelmente nem a maioria) de seus eleitores. Afinal, há uma insatisfação moderada da população com o governo atual, e muita gente estava disposta a tentar algo novo, dar uma chance. Mas esse discurso de ódio afastou um número considerável de pessoas e provocou a militância contrária de outras, o que foi determinante para virar a balança. Pois uma coisa é discordar do voto de alguém; outra muito diferente é ter ódio pelos adversários. Então vamos refletir: de alguma maneira, esse ódio é justificável? Ou será o ódio em qualquer circunstância justificável? Não imagino que alguém tenha tido a sua casa invadida por petistas, que roubaram tudo, estupraram e mataram toda a sua família. Aí sim daria para entender tanto sangue nos olhos, mas na ausência disso, por quê? Será que este ódio não é alimentado por uma mídia comandada por gente muito mais rica do que você, com interesses bem diferentes dos seus? Ou você acha que por ganhar 5 mil, 6 mil, quem sabe até 10 mil reais por mês, já faz parte da elite brasileira? Sabe de nada, inocente. Ou será então que este ódio é pela perda de privilégios, por ver outro tipo de gente, com a qual você não está acostumado a conviver, concorrendo pelos mesmos postos de emprego, as mesmas vagas nas universidades, jantando nos mesmos restaurantes e embarcando nos mesmos aviões rumo a Buenos Aires (pra não dizer Miami)? Bons tempos aqueles quando toda família de classe média podia ter sua empregada, não? Mas já parou para pensar que ela, a sua empregada, talvez quisesse ser também uma engenheira, uma advogada, ou uma médica? É este o seu medo?

E nem entremos no medo do Brasil virar Cuba, Venezuela ou Bolívia. Pra começar, a maioria dos brasileiros acha que sabe algo sobre esses países, mas não sabe nada. A Bolívia, a propósito, tem sido elogiada mundo afora pelo crescimento econômico e redistribuição social. Mas deixemos esses países de lado, pois o governo atual nem em plano quer ser parecido com esses países. A realidade é que já tivemos 12 anos de PT no governo federal e nunca, em nenhum momento, a nossa democracia entrou em risco. Não caminhamos um centímetro para o autoritarismo, muito menos para o comunismo.

Também esqueça esse discurso que o país está dividido. Democracia não é a tirania da maioria, mas uma forma de governo onde a vontade da maioria prevalece sem deixar de proteger os direitos das minorias. “Ah, mas a maioria não elegeu Dilma, porque tem os votos brancos, nulos, as abstenções...” Em quase nenhum lugar do mundo alguém se elege com a maioria absoluta do eleitorado. Disputas acirradas são comuns, assim como são divisões regionais. Nos EUA, o norte e o litoral são mais Democratas; o sul e o interior, mais Republicanos. No Reino Unido, o norte é mais Trabalhista; o sul, Conservador. E assim vai, assim que funciona a democracia representativa. Se você quer que o seu candidato vença da próxima vez, faça militância, converse com as pessoas, mostre que suas ideias são melhores. Sair pedindo impeachment e não aceitar a vontade da maioria é querer impor a sua à força.

Assim, se há um espectro que ronda o Brasil, não é o do comunismo, mas o do fascismo. Não por causa do governo, mas por causa de um discurso reacionário e conservador que ecoa com cada vez mais força na sociedade. Democracia significa aceitar a opinião dos outros quando ela for diferente da sua. Agora, se você está pregando a separação do país, ou assinou e divulgou uma lista de impeachment da presidente Dilma, você não é um democrata. Você é um fascista. Não é o PT que quer uma ditadura no país. Quem quer uma ditadura é você, onde apenas a sua opinião vale, apesar de ser minoritária. Pelo menos Aécio e grandes figuras do PSDB aceitaram a derrota e pediram a união dos brasileiros, prometendo não fazer uma oposição destrutiva. Está na hora de seguir o exemplo.

domingo, 26 de outubro de 2014

O orgulho venceu o ódio



Com mais de 3 milhões de votos, e uma diferença de cerca de 3%, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves na eleição presidencial mais dura desde a redemocratização brasileira.

Foi uma disputa acirrada, cheia de reviravoltas. O resultado do 1º turno, que elegeu o Congresso mais conservador desde 1964, já tinha causado uma ressaca forte na esquerda brasileira.  Mas a virulência da militância de Aécio e o risco de perder as eleições mexeu com muita gente que, mesmo com suas críticas ao atual governo, se levantou para lutar contra o retrocesso. O ódio que espumava nas ruas, nas bancas e nas redes sociais acabou ferindo o orgulho: o orgulho de ter origem humilde, o orgulho de ser da periferia, o orgulho de ser LGBT, o orgulho de ser negro, o orgulho de ser nordestino, o orgulho de ser petista, o orgulho de ser de esquerda. E esse orgulho ferido saiu às ruas, numa mobilização que não se via desde 1989 por um político. Se, em 2002, a esperança venceu o medo, podemos dizer que, em 2014, o orgulho venceu o ódio.


Há muito o que se fazer, é verdade. Mudanças são necessárias. Mas nem a tentativa desesperada da mídia de ganhar no grito foi o suficiente para mudar a vontade do povo. E essa mobilização, até por setores críticos da esquerda em prol da candidatura de Dilma, não deve ser esquecida no próximo governo. Que sirva de lição de que não se pode se acomodar, mesmo quando há avanços; ao mesmo tempo, que a oposição lembre que não dá para querer ganhar uma eleição com base no ódio, isso só afasta as pessoas. Agora, resta desejar que sejam 4 anos melhores para todos os brasileiros, sem ódio, sem rancor, e em união por um país melhor. Vermelhos, azuis ou não, ainda vivemos sob a mesma pátria. Essa é a beleza da democracia.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Por que votarei em Dilma



Joseph Pulitzer, um renomado jornalista norte-americano, uma vez disse: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”

Neste 2º turno das eleições presidenciais, declaro que não votarei em Aécio. Eu poderia citar diversas razões, como a sua visão econômica (como foi detalhada aqui no blog), a construção de um aeroporto em terras de sua família, casos de corrupção e/ou improbidade administrativa na sua gestão (como na saúde), censura e perseguição a jornalistas de oposição (ver aqui e aqui), ter aliado e amigo pessoal envolvido com o tráfico de drogas (ver o mini-documentário Helicoca), entre outras. Só que eu não vou votar no Aécio por outro motivo, bem mais pontual: por causa dos eleitores de Aécio.

Apesar de tudo que citei, talvez Aécio pudesse ser a melhor opção para o país. Acreditem ou não, mas eu sempre me questiono sobre as minhas crenças, analiso ideias diferentes da minha e me pergunto se eu não poderia estar errado e, os outros, certos. Talvez a visão do candidato tucano seja a melhor para o Brasil. Quem sabe? Mas a prova de fogo, para mim, trata-se da seguinte questão: se eu apoiasse Aécio, ao lado de quem eu iria ficar? Quem seriam as pessoas à minha volta?

Aí começa o problema. Não mais que de repente, eu me veria ao lado de pessoas raivosas, irracionais, racistas, homofóbicas, xenófobas, intolerantes e preconceituosas de todo tipo, que, sem razão, usam da violência contra minorias e todos aqueles que possuem uma visão diferente. E eu não quero estar ao lado desse tipo de gente, que vocifera asneiras, como se a Guerra Fria ainda existisse, tudo em prol de um "fora PT", "fora Dilma", "fora comunismo" (?), e só. Afinal, se esse é o eleitor do cara, é para eles que Aécio deverá prestar contas, uma vez eleito, não é?


Você, eleitor do Aécio mais ponderado, já deve estar me xingando, dizendo que você e muita gente não é assim. Talvez você apenas acredite que a visão neoliberal seja melhor para a economia. Discordo, mas posso respeitar. Talvez você creia que o PT roubou muito e o Brasil precisa de ética. Eu diria que, na melhor das hipóteses, você está sendo enganado, pois o PSDB não é nenhum exemplo de ética ou combate à corrupção, já que os maiores escândalos envolvem justamente este partido, e com montantes muito superiores ao mensalão petista. Mesmo que você conteste os números abaixo, uma pesquisa pela internet mostra que a realidade não está distante disso.


Mas eu lhe digo, eleitor tucano, que compreendo que nem todo mundo é assim. Não diria nem que é a maioria, ou que os eleitores de Dilma são todos santos. Contudo, é muita gente. E não adianta dizer que são fakes, que é só na internet (leia os comentários de qualquer notícia sobre política). Basta sair às ruas e ver o que muitos de seus eleitores falam. Como o filho do dono de uma rede de supermercados em Pato Branco que fez este singelo vídeo. Antes de deletar sua conta nas redes sociais, estavam lá as suas mensagens de apoio ao Aécio. É impossível aceitar que eu fique ao mesmo lado deste tipo de gente.


E nem são só seus eleitores. Quem apoia Aécio? Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia, etc. Ou seja, as forças mais conservadoras e reacionárias do país. E tem mais: vá a qualquer banca de jornal e veja as principais revistas e jornais. Quase todos possuem capas em prol de Aécio ou contra a Dilma. Sem falar que, toda vez que ele sobe nas pesquisas, a bolsa de valores sobe e o mercado financeiro se anima. A grande mídia e o mercado financeiro quer, e muito, a sua eleição. Me diga então: por que eu ficaria ao lado dos mais poderosos? Que interesses escusos eu estaria defendendo sem saber ao elegê-lo apenas em razão de um discurso vago de “mudança”?

Tendo consciência de tudo isso, eu não posso votar no Aécio. Não mesmo. Mais do que tudo, ele reforça a minha certeza de que o correto nesta eleição é votar em Dilma. Mesmo sendo um voto crítico. Não acho que seu governo foi perfeito, tenho inúmeras críticas que eu poderia fazer. Entretanto, sempre apoiarei um projeto de país que vise os mais pobres, os mais necessitados, e que busque a redução contínua da desigualdade social, o maior mal assola este país. Talvez a eleição de Aécio me beneficie. Afinal, fui e sou uma pessoa privilegiada, por ser branco, de olhos claros, paulista, vindo de classe alta, etc. Mas voto em Dilma porque não posso pensar apenas em mim. É preciso pensar no outro também. E o outro precisa mais do que eu.

Você, que pensa em votar branco ou nulo por achar que são todos iguais, sugiro que reconsidere a ideia. A virulência no discurso dos eleitores de Aécio é tóxica demais para tomar para si o país. A sua eleição representa a vitória do ódio, alimentado pela mídia que busca apenas seus próprios interesses, e isso nunca é bom em lugar algum. E se eles fossem tão iguais, não haveria esse apoio tão escancarado, embora não-declarado, da grande mídia e do mercado financeiro.


Neste momento, se as pesquisas estiverem corretas, cada vez se torna mais provável a derrota de Aécio. Mas parece que, pela 1ª vez, um candidato pode perder não por seus próprios defeitos (que são muitos), mas pelos de seus eleitores. Em reação a todo esse ódio, tem ocorrido uma bela mobilização pelas ruas em defesa da candidatura de Dilma, num grau que não se via talvez desde 1989, culminando no grande comício na PUC de São Paulo. Que seja um lembrete a ela e ao PT de que, apesar de todo o apoio, é preciso repensar o modo de fazer política no país. Neste ano de disputa acirrada, trata-se muito mais de um repúdio ao ódio do que de um voto por paixão.

Deixo, por fim, um último vídeo que ilustra a situação. E ao vê-lo, refaço a pergunta que fiz a mim mesmo: com que pessoas você quer estar no final? De que lado você quer ficar? Eu, com convicção, já escolhi o meu.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

A política econômica de Aécio e Dilma



O principal tópico que diferencia as candidaturas de Dilma e Aécio é a política econômica. Aliás, este tem sido um dos principais argumentos (quando existem) pelos eleitores de Aécio para justificar o seu voto.  Portanto, é importante esclarecer um pouco mais sobre as diferenças entre o que Dilma fez em sua política econômica e como cada candidato lidaria com a situação econômica atual para fazer o país voltar a crescer. E embora economia não seja exatamente a minha especialidade, creio que posso contribuir para desmistificar algumas questões em debate.

Primeiramente, é necessário contextualizar a situação econômica do Brasil em relação ao momento pelo qual passa o mundo neste momento. Nos tempos do governo Lula, é verdade que o país foi amplamente beneficiado pela alta de commodities (minérios, produtos agrícolas, etc, dos quais o Brasil é um grande exportador), alavancada pela forte demanda da China, o que facilitou a grande expansão econômica. Com a grave crise financeira internacional de 2008 e a queda nos preços dos commodities, o Brasil teve que mudar sua estratégia e, diferentemente de outros países ao redor do mundo que recorreram ao arrocho salarial e ao corte de benefícios sociais, apostou no mercado interno para impulsionar o crescimento, aumentando o crédito e cortando impostos em alguns setores-chave da economia, como construção civil, automóveis, eletrodomésticos, etc. A tática funcionou, e enquanto muitos países ricos sofriam com o alto desemprego, privatização de instituições públicas e cortes em salários e benefícios, o Brasil manteve o pleno emprego, com taxas históricas mínimas de desemprego, e a economia em movimento.

Com a eleição de Dilma, foi dado um passo além. Uma demanda antiga do empresariado era a redução da taxa de juros para impulsionar o investimento privado, e até o momento isso não tinha sido feito por temor de que a inflação voltasse. Seu governo então ousou e reduziu a taxa Selic ao nível mais baixo de sua história, facilitando o crédito para a população que quisesse fazer algum financiamento e para o empresariado que quisesse fazer novos investimentos. A população, de fato, aproveitou a facilidade de crédito para a compra de imóveis, automóveis, entre outros bens; o empresariado, no entanto, não respondeu aos incentivos como era esperado. Talvez por falta de confiança no governo, temor em relação à economia internacional, ou falta de ousadia mesmo, a verdade é que a indústria não seguiu os passos que o governo antecipava. Ao mesmo tempo, o alto consumo gerou inflação, que levou ao endividamento, e com os temores de um retorno aos tempos de inflação alta, o governo Dilma recuou na sua estratégia e aumentou os juros de volta. Esgotava-se a estratégia de focar no mercado interno para lidar com a crise, e desta vez era necessário buscar outras alternativas para fazer o Brasil voltar a crescer.

É verdade que o governo Dilma teve que lidar com outros problemas também. Primeiro, a crise internacional continua – apesar de alguns esboços de recuperação –, o que, junto a um dólar relativamente baixo, insiste em prejudicar a indústria e a balança comercial do país. Depois, houve alguns “acidentes de percurso” da gestão Dilma-Mantega. A maior reclamação do mercado em relação a Dilma é o seu intervencionismo na economia, pois isso traria instabilidade e desconfiança. Por exemplo, a presidente renegociou os contratos de distribuição de energia, baixando as tarifas praticadas para a indústria e o consumidor. Entretanto, a falta de chuvas no último ano prejudicou o setor, que recorreu às usinas termoelétricas para a geração de energia, que são mais caras. Assim, com as tarifas mais baixas, o setor está tendo prejuízo. Além disso, a presidente é acusada de congelar os preços para não fazer a inflação subir ainda mais, como da gasolina, que estava defasado devido aos preços internacionais do petróleo, o que vem causando prejuízo à Petrobrás e outras indústrias de petróleo e gás. Por isso, esses setores têm demonstrado insatisfação há algum tempo com Dilma, e pedindo a cabeça do ministro Mantega.

Agora, o Brasil está com a economia no freio de mão e uma inflação no limite da meta. O que fazer? Aécio e Dilma apresentam as duas alternativas mais frequentes num momento de crise: a neoliberal e a keynesiana.

Aécio Neves já sinalizou que Armínio Fraga seria seu Ministro da Fazenda. Quem é Armínio? Para quem não lembra, ele foi o presidente do Banco Central no segundo governo de FHC, quando promoveu juros altos que aumentaram e muito o desemprego da época. Economista influente, com dupla cidadania americana e de viés liberal: não é de se espantar, portanto, que Aécio e Armínio sejam os favoritos do mercado. De fato, Aécio defende bastante o que ele fez em Minas Gerais, classificando como “choque de gestão”. O que ele prega, na verdade, é seguir o receituário neoliberal para se lidar com uma crise: corte de gastos do governo, elevação da taxa de juros (diminuindo a oferta monetária, o que causa lá na frente a queda da inflação), aumento de privatizações, cortes em gastos sociais, etc. Ele defende a forte redução na inflação, e na macroeconomia, há um trade-off entre a inflação e o desemprego. Ou seja, de acordo com a curva de Phillips, ao se buscar diminuir a inflação, reduzindo a circulação de dinheiro na economia e dificultando o crédito, o que temos é o aumento do desemprego (menos pessoas consumindo, diminui-se a produção, o que leva a demissões). Isso sem falar no arrocho de salários, e mais outra mazelas, tudo para deixar o mercado “se reestruturar” para fazer a economia “voltar a crescer”. Isso é o que seu discurso quer dizer, embora não admita em público. Afinal, declarar que pretende congelar programas sociais e que haverá aumento de desemprego seria suicídio político.


Por outro lado, Dilma já tem adotado outro antídoto para fazer a economia voltar a ter um crescimento maior. O seu governo parece seguir uma linha mais keynesiana, que defende o aumento dos investimentos públicos para movimentar a economia. Como o modelo de crescimento baseado no consumo do mercado doméstico parece ter se estagnado, Dilma decidiu tirar do papel as inúmeras obras de infraestrutura que o país tanto precisava para diminuir o “custo Brasil” e aumentar a competitividade da indústria brasileira. Só que o governo não tinha os recursos e a capacidade para fazer os investimentos sozinho sem ter que aumentar os impostos ou tirar dinheiro de outras áreas; portanto, a solução foi ceder às parcerias público-privadas para que as coisas andassem. E assim começaram inúmeras obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc, que devem alterar bastante a infraestrutura deficiente do país, ao mesmo tempo em que gera emprego e faz a roda da economia girar.

Essas obras já estão em andamento, e os próximos presidentes vão se beneficiar disso daqui a uns 5, 10 anos. No entanto, quem vencer pode adotar políticas diferentes em relação a isso: Dilma continuará o foco nessa estratégia, enquanto Aécio deverá adotar as medidas mencionadas de combate à inflação e de reforço do poder do mercado. Dificilmente ele fará uma interrupção nas obras, mas a continuidade deste tipo de política pode entrar em risco. A verdade é que este é um movimento cíclico: um país consegue melhorias sociais, eventualmente entra em recessão, e surge o receituário neoliberal como "salvador da Pátria", desmantelando os avanços anteriores como se a culpa dos gastos com programas sociais. O que é melhor para o país? Cabe ao eleitor decidir, mas talvez seja melhor tentar algo diferente deste ciclo, como o que Dilma tem buscado. E caso haja dúvidas, melhor perguntar ao povo de Espanha, Portugal, Grécia, entre outros países europeus sofrendo com a tal da “austeridade” neoliberal. Eles, certamente, não parecem muito felizes com isso.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Campanha suja no Whatsapp



Neste domingo, dia 12 de outubro, recebi uma mensagem de vídeo de um número +1-240-436-2706, o que significa que vem dos EUA. O vídeo era do Danilo Gentili, zombando do Aécio por cheirar cocaína, este aqui. Eu não conhecia este número, ou a pessoa que enviou, então se tratava de spam. Tratei de enviar uma mensagem, para ver se a pessoa respondia. Imediatamente, recebi  a seguinte resposta automática:

“Sorry, we can’t deliver your message to the advertiser. This message was sent from http://www.whatsgateway.com/ for bulk messaging services.”

Além disso, a mensagem dava algumas instruções, como saber o número de celular de quem enviou:

“To view the mobile number of last sender, write * followed by number 1.”

Enviei *1, e fui olhar do que se tratava esse Whatsgateway. Aparentemente, é um site pago para quem quer divulgar algum produto por meio de mensagens em massa do Whatsapp. A tabela de preços pode ser vista aqui.

No dia seguinte, recebi a resposta com o número de telefone do indivíduo. Não vou postar o número aqui, mas era de Minas Gerais. E como o Facebook permite que você encontre perfis por meio do celular, a pessoa encontrada foi esta aqui: https://www.facebook.com/eduardomesquita01

Não saberia dizer se o ato foi por iniciativa própria, se foi um laranja, ou algo orquestrado pela militância do PT. O fato é que este tipo de campanha não só é imoral, como é ilegal. Mesmo assim, antes que alguém comece a bradar contra o PT, dizendo que eles são tudo assim mesmo, etc, a verdade é que eu já tinha ouvido sobre esse tipo de campanha suja pelo Whatsapp, só que vindo da militância do PSDB. O Sakamoto dá um exemplo de campanha viral aqui. Ou seja, não há santos nesta história.

Golpes baixos e imorais fazem parte do histórico da militância do PSDB ao longo das últimas campanhas eleitorais. A novidade em 2014 é ver o PT, talvez pelo medo de perder as eleições, chafurdando na mesma lama e em grau semelhante. E não falo apenas de mensagens depreciativas pelo Whatsapp, mas da disseminação de diversos sites e blogs inventando boatos sobre Aécio Neves. Sinceramente, acho que nem precisa, pois o próprio candidato já possui esqueletos demais no armário. Desconstruir o candidato, mostrando suas contradições e fraquezas, faz parte da campanha eleitoral, como já reforcei aqui. Mas recorrer à mentira e a atos ilegais é perder a razão.

Assim, o pior legado destas eleições não vai depender de quem se eleger. Este legado já ocorreu: foi a falência moral dos dois principais partidos do país, que não medem os esforços para vencer e recorrem a qualquer artifício para ludibriar seu eleitorado em potencial. Quem perdeu fomos nós. Uma lástima.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os bons protestam, os maus elegem



Depois da festa da democracia, veio a ressaca. E das fortes...

Marina Silva, que por várias semanas liderou a disputa para a presidência, acabou fora do 2º turno, numa arrancada de última hora de Aécio Neves. Em São Paulo, o PSDB não só assegurou, como reforçou o seu domínio no estado, apesar de todos os problemas (e são muitos), em especial a falta d’água. E ainda teve como deputados mais votados Celso Russomanno, Tiririca, Pastor Marco Feliciano e Bruno Covas (cujo assessor foi preso recentemente pela Polícia Federal com R$ 100 mil em espécie). Enquanto isso, no Rio de Janeiro, teremos um 2º turno entre Pezão (PMDB), sucessor do impopular Sérgio Cabral, e Crivella (PRB), ex-bispo da Igreja Universal e sobrinho de Edir Macedo. Além disso, Jair Bolsonaro e Clarissa Garotinho foram os deputados mais votados. E pra fechar com chave de ouro, de acordo com o Diap, temos o Congresso eleito mais conservador desde 1964. Parece que a única coisa a se dizer é: “Tudo aquilo que rolou em junho de 2013 foi para isso?”

Primeiro de tudo, a derrota de Marina ainda no 1º turno não é absurda. Eu já tinha alertado aqui no blog sobre os percalços que uma candidatura de 3ª via precisa enfrentar, e Marina não se saiu bem ao lidar com eles. O povo queria mudanças, mas acabou tendo, mais uma vez, o velho embate PT x PSDB, com Aécio aparecendo mais forte do que se esperava. Como explicar isso? Bem, a direita apoiou Marina até onde deu, na esperança de vencer o PT, mas vendo sua candidatura se esvaziar e suas chances de vitória diminuírem, migrou de volta em peso para o PSDB. Além disso, o que acontece geralmente na política – e isso em toda parte do mundo – é que, quando as pessoas querem mudança, elas não querem mudar exatamente tudo. Tipo, até querem, mas elas têm medo. Medo do novo, medo de arriscar, medo de experimentar algo que nunca provaram. Então elas mudam, sim, só que para o velho, o conhecido, o que não surpreende. E isso ocorre de forma até irracional. Por exemplo: o partido de esquerda no governo não investe direito na saúde pública. O que o povo insatisfeito faz? Elege o partido de direita, que vai lá, e tenta privatizar a saúde. O povo sabe que a direita é capaz disso? Até sabe. Mas a insatisfação e o desejo de mudança pode cegar o eleitor, fazendo um voto irracional apenas por fazer. Foi assim no Reino Unido, foi assim na Espanha... pode ser assim no Brasil.

E voltando ao nosso país, lembremos de junho. Sim, aquela massa de pessoas nas ruas, lutando por seus direitos, conseguindo impor uma derrota nos governos e colocando medo nos políticos. Foi um grande momento histórico. Ainda assim, que fique bem claro: junho de 2013 não foi um despertar do povo para tudo que há de errado na política; não foi um movimento revolucionário de esquerda de luta rumo ao socialismo; não foi nem uma revolta contra o governo do PT. Junho foi uma catarse, uma resposta caótica aos preços altos, à violência policial e à descrença na política. As pessoas estavam insatisfeitas e extravasaram isso nas ruas. E isso é bom, porque o brasileiro redescobriu o poder das ruas. Mas não foi algo muito além disso.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar outro fator: enquanto mais de 1 milhão foi às ruas, a maioria da população ficou em casa. Alguns dos que viram tudo da janela talvez quisessem se juntar ao povo, mas tiveram medo da violência; outros até estavam insatisfeitos, mas com outras coisas, e tinham medo das pautas nas ruas; enquanto uns outros poucos só estavam com medo, porque queriam manter tudo como estava. Ou seja, um monte de gente com medo, assistindo àquilo tudo sem entender nada. Um ano depois, todas essas pessoas tiveram agora a sua chance de dizer o que pensam nas urnas. E quem tem medo faz o quê? Se agarra nos candidatos que prometem restabelecer a ordem. Lembram que na Turquia houve protestos e mais protestos também? Pois é, na hora das urnas, o primeiro-ministro Recep Erdogan saiu vitorioso mesmo assim. A maioria das janelas assim decidiu.

Aí entra outro fator nestas eleições: a participação. Como agiu o eleitor insatisfeito com a política? Alguns podem ter apoiado a Marina, vendo-a como expoente, de fato, de uma nova política (seja lá o que isso for agora); outros, podem ter militado por candidaturas mais à esquerda, como a de Luciana Genro e Eduardo Jorge. Mas a verdade é que muita gente simplesmente se isentou de participar. Em São Paulo, a abstenção foi de 19,5%, enquanto os votos brancos e nulos totalizaram 17%; no Rio, a abstenção foi de 20,1%, e os votos brancos e nulos, 17,5%. E isso na votação para governador. Ou seja, 36% dos eleitores, mais do que o suficiente para impedir a eleição de Alckmin no 1º turno, simplesmente não participaram do pleito. Para deputados federais e estaduais então, os votos brancos e nulos foram próximos de 20% nos dois estados. E para o Senado, em São Paulo, pior ainda: chegou a 26,2%, o que contribuiu para a derrota de um dos melhores políticos brasileiros, Eduardo Suplicy.

Longe de mim, é claro, querer culpar os resultados assustadores nas eleições apenas em quem votou branco e nulo ou se absteve. Nem mesmo pretendo dividir a política no maniqueísmo do bem x mal. Mas a realidade é que tem muito eleitor consciente deixando de votar por desânimo, descrença, protesto, enquanto os maus eleitores – aqueles que só pensam no próprio umbigo, que vendem seu voto, que votam em qualquer um ou no primeiro santinho que veem pela frente –, esses continuam votando. O voto nulo, como protesto, é apenas isso. Não impede ninguém de se eleger; pelo contrário, até facilita. Quem vê a sujeira na política e se torna descrente pode se ausentar de participar dela, mas quem contribui para o retrocesso, como os reacionários, os que vendem seu voto, os fundamentalistas, etc, esses vão continuar elegendo o que há de pior. E são eles que vão governar.

A imagem no começo do texto serve para ilustrar como se sente esse eleitor. “PT ou PSDB, tanto faz!” Mas será mesmo? Por mais críticas que se possa fazer ao governo atual, há ainda fortes diferenças ideológicas entre os dois partidos e, em especial, entre suas bases eleitorais. Agora, no 2º turno entre Dilma e Aécio, é razoável concluir que nenhum projeto representa exatamente como você pensa. Contudo, é bom pensar se um voto crítico não é melhor. Uma vez, um colega espanhol levantou uns números mostrando que os votos na direita espanhola eram praticamente sempre os mesmos a cada eleição; não cresciam, nem desciam muito. O que mudava, no entanto, era o número de votos que a esquerda recebia. Sempre que houvesse uma decepção com a esquerda, a abstenção crescia, e era o suficiente para a direita vencer as eleições. Portanto, é preciso pensar se é isso que o Brasil quer daqui para frente, pois podem ter certeza de uma coisa: vendo, enfim, a possibilidade de retornar ao governo depois de 12 anos, a direita vai usar todas as suas armas para vencer. Estejam preparados: serão semanas árduas até 26 de outubro.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O que Alckmin e o PSDB fizeram por São Paulo em 20 anos?


Quem assistiu ao longo do tempo a campanha de Geraldo Alckmin, do PSDB, para reeleição ao governo de São Paulo, talvez imaginou que vive no Reino de Deus na Terra. Metrô para todo lado, saúde e educação de 1º mundo, uma população segura, saudável e feliz. Isso sem falar no ufanismo paulista, que é de revirar o estômago. Passa-se mais tempo falando de projetos que um dia, quem sabe, serão feitos, em vez do que já foi realizado. E como sabemos, infelizmente, a realidade é muito diferente. Alckmin já governou São Paulo por 10 anos; o PSDB, por 20. E por todo esse tempo, São Paulo sofreu, em absolutamente todos os aspectos. Duvida? Vejamos um por um, então.

Muito se fala na riqueza de São Paulo. Mais uma vez, quem assistiu aos programas de Alckmin na TV pode pensar que, antes do PSDB, São Paulo era um estado pobre e devastado. Mais um pouco, e eles alegariam que começaram o ciclo do café por aqui. A verdade é que São Paulo é, e tem sido desde antes dos fundadores do PSDB nascerem, o estado mais rico da federação. E embora isso não tenha mudado, São Paulo ficou, sim, relativamente mais pobre. Em 1995, a participação de São Paulo no PIB nacional era de cerca de 35%. Hoje, em 2014, está em 31,4%. Foi sob o atual governo de Alckmin, inclusive, que São Paulo teve sua maior queda. Em 2010, era de 33,1%. Ou seja, em 4 anos, houve uma queda igual ao que PSDB causou nos outros 16.

Mesmo assim, São Paulo continua o estado mais rico da federação, um eleitor tucano poderia afirmar. Pois é, e sendo assim, é de se esperar que o estado mais rico da federação tenha os melhores serviços de saúde e educação, não? Não. A verdade é que ambas as áreas estão em péssima situação.

Na saúde, o negócio vai de mal a pior. Espera-se que uma gestão da saúde abra mais leitos para a população, não é mesmo? Muito pelo contrário, o governo Alckmin conseguiu fazer o oposto. Em seu governo, somente na capital, 383 leitos foram fechados. Usando um exemplo mais claro, quem mais sofreu com o descaso da saúde foram os portadores do vírus HIV. O governo Alckmin fechou leitos para essa população, além de fechar a histórica Casa da Aids, transferindo os seus 3 mil pacientes para o Hospital Emílio Ribas. Onde já se viu concentrar mais pacientes num lugar já lotado para aumentar a eficiência do tratamento? Pois é, somente no mundo fabuloso de Alckmin.

A educação, então, não dá nem para passar de ano. Neste ano, os estudantes da rede estadual tiveram o pior desempenho em 6 anos. Mas se São Paulo é o estado mais rico da nação, então deve ter mesmo assim os melhores índice de educação, certo? Errado. De acordo com os dados do Pisa, São Paulo tem apenas a 5ª melhor rede estadual, e que, mesmo assim, está abaixo da média nacional. Talvez o que explique isso seja o baixíssimo investimento em educação no estado. São Paulo é apenas o 18º no ranking dos estados que mais gastam com educação em relação a seu PIB. Ou seja, comparativamente, estados como Piauí, Amapá, Acre, Roraima, etc, gastam mais do que São Paulo.

Isso se reflete também na situação das universidades estaduais. Apesar de serem as melhores do país, USP, Unesp e Unicamp entraram em crise neste ano por falta de recursos. O caso da USP se torna mais grave pela péssima gestão de João Grandino Rodas, que nem foi eleito pelo conselho universitário, mas indicado de forma autoritária pelo então governador José Serra. O resultado foi o congelamento de salários e discussões sobre privatização, quando a crise foi causada pura e simplesmente por má administração. Isso causou uma longa greve, em grande parte devido à teimosia e arrogância do atual reitor e do governador Alckmin, que não queriam negociar.

“Pelo menos o Alckmin colocou mais policiais na rua.” Pode até ser, mas isso não resultou em maior segurança, pelo contrário. A polícia nos protege de quem? Afinal, a PM paulista matou duas pessoas por dia em 2014. De 2006 a 2010, ela matou mais do que todas as polícias dos EUA juntas. E nada disso resultou em redução da criminalidade, pois houve um aumento no número de latrocínios e roubos de cargas em 2013. Isso sem falar na prisão arbitrária de manifestantes pouco antes da Copa do Mundo, de forma a ludibriar a população de que havia preso líderes do grupo black blocs.

E o metrô então? A malha metroviária de São Paulo, que é responsabilidade do governo do estado, é uma vergonha. O paulista parece ignorar este fato, comparando com o resto do país. Mas e se comparar com o resto do mundo? Vejamos alguns exemplos. Londres? 408km. Nova York? 368km. Tokyo? 292km. Seoul? 287km. E São PauloApenas 78,4km. Alguém pode dizer que a comparação é inválida, porque estas cidades começaram a construção de seus metrôs muito antes. Algumas cidades, sim. Mas Seoul começou em 1974; o mesmo ano que São Paulo. Pegue outra cidade comparável a São Paulo, como a Cidade do México. O metrô foi inaugurado em 1969 e tem 201km. Mais que o dobro. Agora, quer uma comparação ainda mais deprimente? O metrô de Shanghai foi inaugurado em 1993, pouco antes do início da gestão do PSDB em São Paulo. Hoje? Possui 538km de linhas. Um ritmo de 25km de metrô construídos por ano. Enquanto isso, em 20 anos, o PSDB entregou apenas 32km. Ou seja, um pouco mais do que Shanghai entrega por ano. O que significa uma média de 1,6km construído por ano durante a gestão tucana. Absolutamente lamentável.

E o descaso com o metrô não para por aí. Em 2010, Alckmin havia prometido entregar 30km de metrô até 2014. Vai entregar apenas 4km, ou seja, 13% das obras prometidas. E quando o PSDB entrega as obras, 79% delas são em anos eleitorais. Mas por que tanta ineficiência? Talvez o cartel do metrô explique, um esquema de fraude nas licitações para a construção e manutenção de suas linhas. Estima-se que o estado tenha sido lesado em, pelo menos, R$ 450 milhões. Ou seja, pelo menos três vezes mais do que a estimativa mais pessimista do mensalão do PT, tão alardeado pela mídia conservadora como o maior esquema de corrupção da história brasileira. E pra fechar com chave de ouro – talvez literalmente –, o candidato Alckmin recebeu pelo menos R$ 4 milhões em doações para sua campanha eleitoral de três das empresas investigadas pela formação de cartel. Dá para acreditar?

Isso lembrando que o metrô é apenas parte do problema. Pergunte ao povo da Baixada Santista, por exemplo, há quanto tempo eles esperam a construção de um túnel ou ponte (cada eleição é uma promessa diferente) entre Santos e Guarujá. Em 2014, o percurso entre as duas cidades é feito da forma mais arcaica: por balsa.

“Ah, mas as estradas de São Paulo são um tapete!”. Dá uma raiva ouvir isso, não? Como se isso justificasse os altíssimos pedágios cobrados nas estradas paulistas. Para se ter uma ideia, em 2011, o brasileiro gastou em média R$ 9,13 em pedágio por cada 100km de rodovia; o paulista, enquanto isso, pagou R$ 16,04, quase o dobro. Isso os torna não somente os mais caros do país, mas como uns dos mais caros do mundo, especialmente se levar em conta a renda per capita. Além disso, a lucratividade das concessionárias de rodovias de São Paulo é abismal. Acredite, a empresa que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, por exemplo, foi duas vezes mais lucrativa do que bancos como o Bradesco e o Banco do Brasil. Ou seja, a privatização das estradas paulistas foi uma irresponsabilidade do governo do estado que priorizou o lucro de grandes empresas em vez do bem-estar do seu cidadão. Mais uma "grande" obra da gestão tucana.

Por fim, há ainda uma questão extremamente alarmante que surgiu neste ano: a crise da falta d’água. Sim, pode ter sido a maior seca em 80 anos, é verdade que há muito desperdício no uso da água, mas a realidade é apenas uma: a crise é primordialmente por falta de investimentos do governo do estado. Se tem dúvidas, pergunta a esta relatora da ONU. E Alckmin, visando a sua reeleição, finge não haver racionamento, que é praticado não-oficialmente por toda a região metropolitana, principalmente nas periferias. Tudo isso lembrando que o governo do PSDB negociou os papéis da Sabesp na Bolsa de Nova York, que acumularam alta de 601% em 10 anos (ou seja, foram negociados por uma pechincha, lesando o estado), e que tem seus lucros distribuídos entre acionistas estrangeiros. Ou seja, a água que falta na sua torneira se tornou dinheiro na conta de investidores de outros países.

A situação é tão grave que, para pessoas que trabalham no setor de recursos hídricos, já se comenta sobre uma contagem regressiva para o juízo final; ou seja, o dia em que as reservas vão secar e não vai ter água na torneira para mais ninguém. Apesar do estado crítico, a mídia parece tratar uma questão gravíssima como esta com extrema tranquilidade. Imagine se fosse um governador do PT? Por enquanto, a Sabesp garante o abastecimento até março de 2015. Veremos o que dirão depois das eleições. Talvez "salve-se quem puder".

Há ainda outras questões que poderiam ser citadas, como a poluição e o meio-ambiente, tendo como exemplo esta promessa não cumprida de Alckmin em 2003 de tornar o rio Tietê limpo e navegável, mas este é um balanço geral da atual situação do estado de São Paulo. E como pode se ver, a realidade é que temos um estado mal administrado, abandonado e saqueado. Mesmo assim, Geraldo Alckmin segue incrivelmente firme para a reeleição no 1º turno. Como explicar isso? Há diversas hipóteses. É verdade que o povo paulista é muito conservador, especialmente o interior; que a mídia paulista blinda o governo tucano da maior parte dos ataques e denúncias, deixando a população pouco informada sobre o que realmente acontece; que as pessoas nem sabem o que um governador faz, culpando o presidente ou o prefeito por problemas de responsabilidade do estado em vez disso; que há um anti-petismo fortíssimo no estado – em grande parte devido, mais uma vez, à mídia –, o que impede a formação de uma oposição viável, e assim vai. Eu ainda adicionaria uma tese minha de que o paulista acredita que o PSDB protege São Paulo e sua riqueza do resto da nação, reforçando a imagem ufanista de locomotiva do país, etc. Mas o problema é que este orgulho cego está levando o estado ao abismo. É preciso fazer algo para mudar.

Você, que está lendo este texto, precisa fazer a sua parte. Converse com amigos, família, qualquer um. Se quiser, pode votar no Padilha, do PT. Odeia o PT ou a esquerda? Então tem o Skaf, do PMDB, que é tudo, menos um candidato de esquerda, representando mais o setor do empresariado liberal. Não gosta dele também? Ainda há vários outros candidatos para escolher. O que não se pode é votar em branco ou nulo, e muito menos no próprio Alckmin. Entregar mais 4 anos para o PSDB seria nada menos do que premiar a incompetência. São Paulo merece e pode muito, muito mais do que este péssimo governo. O que falta é o povo paulista descobrir isso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Todo mundo pode; menos o PT



Muito tem se falado nos últimos dias dos ataques e da campanha de medo promovida pelo PT contra a candidata do PSB, Marina Silva. “Oh meu Deus, como pode o PT recorrer a esse tipo de artimanha, que coisa feia!” E eu pergunto: é sério mesmo que tem gente com melindre por conta disso?

Primeiro de tudo, é importante lembrar: isso é algo que foi feito com o PT sistematicamente desde a sua fundação. Depois da massificação da Internet então, nem se fala. Quem não lembra da Regina Duarte dizendo que tinha medo caso o Lula ganhasse as eleições em 2002? E isso era só a cereja do bolo. A própria Marina Silva reconhece quantas andanças eles tinham que fazer para convencer as pessoas de que o PT não iria tomar a propriedade das pessoas, fazer com que elas aceitassem moradores de rua em casa, entre outros absurdos.

Tudo isso é imoral, é verdade. Mas tem um sério problema: funciona. Não é à toa que o lema do PT em 2002 era “a esperança vai vencer o medo”.  As pessoas tinham muito medo do Lula no poder, e não era por acaso. Havia um discurso amedrontador infiltrado na população que, uma vez enraizado, era difícil mudar. Só que esse terrorismo psicológico nunca deixou de existir, mesmo depois de 2002. Por exemplo, setores de oposição, juntos à mídia que os apoia, conseguiram convencer a população de que o mensalão era “o maior esquema de corrupção da história”, quando, na verdade, mesmo nas previsões mais pessimistas, ele ficaria longe até do top 10. Mas a questão nunca foi realmente essa: todo mundo podia ser corrupto; menos o PT.

Claro que o PT sempre posou de partido da ética, então o choque de estar envolvido num esquema de corrupção é maior. Mas o caso nem de longe foi tratado com a isenção necessária. Logo, fixou-se a ideia entre muita gente de que este foi mesmo o maior esquema de corrupção já visto, que nunca houve tanta roubalheira no Brasil, e que o PT era mais corrupto do que os outros. Aquela ideia de “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”, sabe?

Pois bem, voltando às eleições. A campanha negativa existe porque ela funciona. Não totalmente, porque também pode criar uma imagem ruim de quem está atacando. Mas ela desconstrói o outro candidato, planta a dúvida e acende a insegurança no eleitor. Pra isso que existe o marketing político, pra mexer com as emoções das pessoas. Não é bonito, é claro. Mas funciona. E funciona, principalmente, porque o eleitor brasileiro ainda se mede muito pelas emoções, e pouco pelas ideias. Caso se pautasse meramente pelas propostas de cada candidato, e as compreendesse de fato, ataques e campanhas de medo não teriam sucesso. Muito pelo contrário.

“Ah, mas o PT não precisava descer o nível, podia sair com moral dessas eleições.” Moral não ganha eleições, parceiro. E isso é o mais importante. Muito pior é ver o PT fingindo que não há nada de errado no país, que não há nenhum corrupto no seu governo, ou apertando a mão de Maluf, Sarney, Collor, etc. Isso, sim, deveria chocar e ser preocupante. Agora, críticas por descer o nível de campanha vindas dos mesmos partidos que sempre utilizaram esse tipo de artimanha ou das mesmas pessoas que compatilham inverdades pela internet? Ora essa, me poupem...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O que deu errado para a campanha de Aécio?



Conforme as pesquisas eleitorais demonstram, Aécio Neves encontra-se cada vez mais distante das duas primeiras colocadas, Dilma Rousseff e Marina Silva, e se consolida num distante 3º lugar. Logo, pela 1ª vez em 20 anos, o PSDB corre o sério risco de ficar de fora do 2º turno das eleições presidenciais – um golpe pesado no partido que já governou o país por 8 anos e se manteve como principal opositor do governo do PT. Mas o que deu errado para o PSDB e seu candidato, Aécio Neves?

Primeiro de tudo, é importante repetir o mantra que todo mundo já sabe: desde que perdeu as eleições em 2002, o PSDB não soube ser oposição. Pois é, depois de saírem do governo federal, os tucanos nunca mais encontraram um discurso próprio: primeiro, o partido negou seu passado das privatizações; depois, se fez de conservador, o que não era; e agora, volta a reafirmar o passado que antes negou. E as contradições não param por aí: antes, o PSDB foi contra o Bolsa-Família; agora, promete reforçá-lo. Antes, atacava Lula sem piedade; agora, reconhece seu bom governo e declara-se como seu melhor sucessor. E assim vai. A coerência nunca mais foi seu forte, entrando numa grave crise de identidade que consolidou a imagem do PSDB de partido dos ricos, e não da ética, como tentou formar, ainda mais depois de escândalos como o cartel do metrô em São Paulo, o aeroporto em Minas Gerais, etc.

Aí entra um problema chamado Aécio Neves. Já que nem Alckmin, nem Serra (duas vezes) emplacaram, o PSDB tentou lançar o neto de Tancredo Neves e duas vezes governador de Minas Gerais como candidato à presidência. Quando, em junho de 2013, centenas de milhares de brasileiros foram às ruas, as pessoas protestaram por melhores serviços públicos e contra os partidos tradicionais e a corrupção na política brasileira. Só que, em vez de dar ouvido a essas vozes, Aécio preferiu ouvir aqueles que assistiram aos protestos lá de cima – no alto do ar-condicionado de seus confortáveis escritórios – que pediam menos impostos, menos encargos, menos Estado. O problema é que a ideia de melhores serviços públicos soa incompatível com menos Estado, não?

Aécio também cometeu um erro que foi retomar um discurso de defesa do governo FHC. Não negar o passado até pode parecer honrado, alguns podem argumentar. Contudo, a estratégia é errônea, pois só agrada seus eleitores. A maioria da sociedade brasileira lembra o governo FHC de forma negativa, então louvar um governo que é repudiado pela maioria dificilmente vai cativar a mesma, reforçando a imagem de partido de elite.

Depois, é claro, entra o fator Marina. A candidata do PSB defende uma política econômica similar àquela do tucano, mas não foca nisso. Pelo contrário, ela enfatiza a questão da “nova política” – isso, sim, o que as vozes das ruas pediam. Sem falar, é claro, na promessa de manter o que está bom e melhorar os serviços públicos. Não a pergunte como, mas pelo menos ela promete isso. Já o Aécio até tenta... mas quem acredita?

Por fim, há uma última questão que é mais da tradição da política brasileira: o declínio histórico dos partidos conservadores no Brasil. Ao longo da nossa história, os grandes partidos conservadores sempre passaram por um estranho e forte declínio para serem, enfim, substituídos por outros em seu lugar. O caso mais recente foi o do DEM, ex-PFL. Lembram dele? Do Antônio Carlos Magalhães, todo poderoso no governo FHC, com uma das maiores bancadas no Congresso Nacional? Pois é, hoje não é nem sombra do que já foi. Esses partidos crescem, chegam ao seu auge, aí vão se desintegrando eleição a eleição, até se reduzirem a pó.

Será que este também é o caminho do PSDB? É muito cedo para concluir. Aécio vai tentar se utilizar ao máximo que puder do novo escândalo da Petrobrás – que envolveria políticos dos partidos de Dilma e Marina – para subir nas pesquisas, mas as chances de reverter sua situação são baixas. Além disso, o PSDB, que realmente se tornou o principal partido conservador no Brasil, mostra-se enfraquecido. Neste momento, os tucanos lideram somente em 4 estados na disputa para governador – a metade do que conseguiu eleger em 2010. Se a história se repetir, talvez estejamos mesmo testemunhando o princípio de seu derradeiro declínio.

Mas se o futuro parece sombrio, pelo menos nem tudo está perdido. Em São Paulo, o estado mais rico da nação, o PSDB parece assegurar seu domínio, rumo a 24 anos no poder. Para os paulistas, infelizmente, a temporada de caça a tucanos deve ser adiada mais uma vez.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Marina e a “maldição” da 3ª via



As pesquisas comprovam: se as eleições ocorressem hoje, Marina Silva seria eleita presidente da República, vencendo a presidente Dilma no segundo turno. O furacão Marina não para de crescer e de assustar petistas e tucanos. Sendo assim, muitas pessoas já se renderam ao “já ganhou”, à crença de que já está tudo decidido. Mas não é bem assim. Marina ainda tem que lidar com um grande problema histórico: a “maldição” da 3ª via.

Ser a 3ª via nas eleições não é nada simples. É fato que há uma crise da democracia representativa, e não somente no Brasil, de forma que as sociedades ocidentais andam cansadas dos partidos tradicionais e de uma disputa bipolar. Assim, surgem as candidaturas de 3ª via, de partidos que nunca tiveram a chance de governar, ora apresentando projetos mais radicais, ora prometendo um caminho do meio. O problema é que, apesar da comoção que causam, esses partidos dificilmente ganham.

Olhando o caso brasileiro, temos vários exemplos da história recente:  em 2002, Ciro Gomes chegou a ultrapassar Lula nas pesquisas, mas aí cometeu o grave erro de dizer que o papel de sua esposa na campanha era “dormir com ele”, o que o fez despencar e amargar um distante 3º lugar. Em 2010, Marina Silva foi ganhando cada vez mais espaço durante a campanha e conseguiu quase 20% dos votos no final, surpreendendo a todos e forçando um 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra. E, mais recentemente, nas eleições para prefeito de São Paulo em 2012, o candidato Celso Russomanno liderou as pesquisas até a última semana, mas acabou em terceiro, ficando de fora do 2º turno por poucos votos.

Aí alguns vão dizer: “Ah, mas o caso de Marina é diferente, sua candidatura está mais consolidada.” Sim, isso é verdade. Mas ela ainda terá que lidar com as grandes dificuldades que todo candidato da 3ª via tem que lidar. Em alguns casos, como o de Marina em 2010, este tipo de candidato vai ganhando fôlego durante a campanha, mas não rápido o suficiente para conseguir ficar entre os 2 primeiros no dia das eleições. Em outros, como pode ser com Marina em 2014, quando o candidato consegue chegar ao topo, começam a aparecer os ataques de todos os lados, causando a queda de sua popularidade e demonstrando que seu fôlego era nada mais do que passageiro.

Há diferentes motivos para isso ocorrer. Primeiro, o eleitor de candidatos de 3ª via é volátil: ele não tem uma fidelidade partidária, está apenas cogitando algo novo. Isso explica o rapidíssimo crescimento de Marina no período de duas semanas. E se este eleitor é volátil, ele facilmente se decepciona se o candidato comete algum deslize, diferentemente dos eleitores de partidos tradicionais, que têm uma fidelidade maior a seus partidos. Segundo, os partidos tradicionais possuem uma plataforma mais sólida: você sabe o que esperar deles, porque, provavelmente, já tiveram a chance de governar. Um partido de 3ª via, sem ter uma experiência para apresentar, acaba sendo um tiro no escuro. O eleitor até pode querer algo novo, mas para arriscar, seu grau de insatisfação tem que estar muito alto. E, por fim, candidatos de partidos tradicionais estão amparados por máquinas partidárias e coligações que sustentam seu projeto. Candidatos de 3ª via geralmente apresentam ao eleitorado mais perguntas do que respostas: como irão governar? Com o apoio de quem? Suas propostas são viáveis? E assim vai.

Estes são alguns dos problemas que Marina Silva terá que enfrentar. E agora que a candidata aparece à frente das pesquisas, os ataques à sua candidatura, justificáveis ou não, já começaram. Como fazer uma “nova política” tendo banqueiros como aliados? Como prometer melhor saúde e educação com a proposta de redução do tamanho do Estado na economia? São contradições difíceis de explicar, e Marina tem se mostrado incapaz de respondê-las adequadamente. Os primeiros deslizes também já começam a aparecer, como a volta atrás em alguns pontos de seu programa logo após a pressão do Pastor Silas Malafaia, ou a admissão de que recorre à Bíblia quando está em dúvidas sobre alguma decisão. O seu eleitor, eufórico com a ideia do “novo”, pode rapidamente tirar o corpo fora ao perceber que ela não era tudo aquilo que parecia. E em frente à urna, o medo pode falar mais alto e determinar a escolha pelo que é mais “confiável”.

É difícil dizer qual é o fôlego de Marina. Neste momento, é bem provável que ela passe para o 2º turno; contudo, não seria prudente concluir que Aécio Neves já está fora da disputa. Por um lado, os ataques a Marina devem fazer efeito, freando a sua ascensão; por outro, eleitores tradicionais da direita e do PSDB podem ver Marina como a única capaz de vencer o PT, migrando então o seu apoio de Aécio para a candidata do PSB. A única certeza neste momento é que é muito cedo para cantar vitória. Falta ainda um mês para o 1º turno e muita água ainda vai rolar. A maldição para Marina está apenas começando. Aí sim veremos se o seu santo é dos bons mesmo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Análise do horário eleitoral para presidente



Ontem (19/08) começou o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio. É o momento mais esperado das campanhas políticas, pois é quando as pessoas passam a prestar mais atenção na política e nas eleições que se aproximam. Até então, o cenário era razoavelmente estável. Agora, os marqueteiros farão de tudo para mudar o humor do eleitor e alterar os resultados das pesquisas de opinião. Como o primeiro programa mostra um pouco do que cada candidato pretende apresentar ao logo da campanha, segue então uma breve análise do que foi apresentando por quem considero os 5 principais candidatos da disputa à presidência.

O PSB dedicou o seu curto tempo de 2 minutos e 3 segundos para fazer uma homenagem a Eduardo Campos. O programa mostrou imagens dele nas campanhas de 2006 e 2010, além de momentos junto a família e a Marina Silva, terminando com a frase que se tornou agora o lema de sua memória: “Não vamos desistir do Brasil”. Resta a Marina incorporar esse mote à campanha conforme ela recebe o bastão para liderar a coligação.

O programa do PSDB, de Aécio Neves, de duração de 4 minutos e 35 segundos, começou com um pequeno relato da candidato lamentando a morte de Eduardo Campos, contando um pouco da relação entre os dois. Depois, Aécio deu um discurso artificial, citando basicamente todas as questões que as pesquisas de opinião já identificaram sobre o que o brasileiro quer ou pensa, inclusive de que o Brasil melhorou durante o governo Lula. Deste modo, Dilma teria piorado o país e só ele poderia levar o Brasil de volta aos trilhos. O programa termina dizendo “Bem-vindos a um novo jeito de governar”. Mote difícil de convencer, quando alguém lembra que o PSDB já teve a sua vez no governo federal.

Enquanto isso, com seus longos 11 minutos e 24 segundos, o programa de Dilma, do PT, começou valorizando as conquistas sociais dos últimos 12 anos e se isentando de responsabilidade dos problemas recentes na economia, atribuindo a culpa à crise internacional. Depois, mostrou o dia-a-dia de Dilma em sua casa, desde cuidando do jardim até cozinhando e brincando com os cachorros. Uma tentativa de mostrar uma Dilma mais humana, dona-de-casa, mãe, distante da imagem de mera “gerentona”. Pra completar, foram mostradas diferentes imagens da presidente cumprimentando, beijando e abraçando pessoas em diferentes lugares. Parte do tempo ainda foi dedicada para falar dos diferentes programas sociais implementados por seu governo, além dos projetos de infraestrutura atualmente em andamento no país. Pra terminar, Lula aparece defendendo a sua candidata, lembrando como o seu segundo mandato foi melhor do que o primeiro, e prometendo que Dilma fará o mesmo. Além de um jingle meio sem graça que não deve pegar.

Por fim, dois candidatos menores, com cerca de 1 minuto de TV, e totalmente opostos um ao outro. O primeiro, Pastor Everaldo, do PSC, incorporou um discurso de direita em sua totalidade: seja na defesa da família e da ordem, no âmbito social, seja na defesa do estado mínimo, no âmbito econômico. Em reflexão, torna-se curiosa a relação estreita que se forma entre o pentecostalismo e a ideologia do capital. Por outro lado, Luciana Genro, do PSOL, apresenta-se aos eleitores mostrando um pouco da sua biografia e focando nas jornadas de junho e o desejo de mudança dos brasileiros, principalmente no sentido de que é possível governar de um modo diferente.

Isso foi apenas o começo, mas algumas previsões e questionamentos já podem ser feitos. Marina terá pouco tempo na TV, embora mais do que em 2010, e terá que aproveitá-lo bem para incrementar o seu capital político atual, além de se defender dos eventuais ataques de seus opositores. Já Aécio parece que começou do jeito que o PSDB sempre começa: uma mensagem de idealismo pouco convincente, pautada no que as pesquisas de opinião dizem, e que, ao longo da campanha, parte para um tom mais agressivo de ataque ao PT. Se assim for o caso, o PSDB será, mais uma vez, derrotado. Só que, desta vez, corre o risco de sair no 1º turno. Neste momento, o inimigo de Aécio deve ser Marina, não Dilma.

O PT acertou o tom a mostrar uma Dilma mais humana. Seu erro foi se trancar no palácio do governo em vez de falar mais das conquistas de seu governo. Agora, com mais tempo de TV que todos os outros candidatos juntos, ela terá amplas oportunidades de expor tudo o que fez e o que está fazendo, de forma aumentada ou não. Só não pode se acomodar com isso. De qualquer modo, ter um cabo eleitoral como Lula é uma grande ajuda, e o discurso de que o segundo mandato de Dilma será melhor, assim como foi o dele, pode colar entre aqueles saudosos do ex-metalúrgico presidente, mas ainda descrentes de sua sucessora.

Por fim, o Pastor Everaldo, apesar do caráter caricato e de ser uma figura política despreparada, tem uma base forte entre alguns setores evangélicos. Além disso, é o único candidato claramente de direita (claramente porque Aécio finge que não é). Portanto, sua postura franca em relação ao conservadorismo e à defesa do Estado mínimo pode conquistar a adesão de mais eleitores, mesmo entre não-evangélicos. Ainda assim, não vai alcançar grandes voos. Enquanto isso, Luciana Genro sofre com o pouco tempo de TV que o seu partido, o PSOL, possui. Mais uma vez, a esquerda não conseguiu formar uma frente única, restando ao partido a militância nas ruas e virtual. Ela não deve subir muito nas pesquisas, mas talvez ganhe um ou outro ponto a mais se cativar os insatisfeitos das manifestações das ruas.

O tom dos candidatos deve subir conforme as eleições se aproximam, mas o primeiro programa tende a delinear um pouco da estratégia de cada um. Veremos como a campanha se desenrola; afinal, imprevistos acontecem, como a morte de Eduardo Campos. Muita água ainda vai rolar. E o jogo apenas começou.

PS: Dispenso a análise para a campanha de deputados federais. Infelizmente, é a mesma piada de sempre.