terça-feira, 5 de novembro de 2013

O "Rei dos Camarotes" está nú

O que era matéria, virou piada, e agora tenta ser trollagem. Será? O suposto "Rei dos Camarotes" agora tenta afirmar que foi tudo uma farsa, mas aparentemente a Veja São Paulo confirma que a pauta foi real. Me parece que o cara só está tentando, de alguma forma, limpar a sua barra, já que se ferrou legal, e sendo empresário, pode (e deve) perder clientes. Logo, vai tentar usar isso como jogada de marketing.

De qualquer modo, acho engraçado como vários pessoas ficaram irritadas ou simplesmente se surpreenderam que alguém pudesse desperdiçar tanto dinheiro e ser tão fútil assim. Sim, camarote VIP é normal, isso de fila de champanhe servido com foguinho acontece, milhares de reais gastos numa noite também. A surpresa com esses fatos mostra um total desconhecimento de como age boa parte da elite (aqui brasileira, mas não exclusivamente).

Felizmente, ou infelizmente, não sei, convivi por um tempo razoável com esse estrato social, e sei como ele age e pensa. E lamento informar, mas é bem por aí mesmo. Vivem vidas superficiais, vazias, e gastam sem pudor, bebendo, transando e se entorpecendo a rodo, numa tentativa de preencher o vácuo que a solidão deixa. É, solidão, porque se você tem muito dinheiro, as pessoas se atraem a ele, não a você. E quando o champanhe não dá conta, vai mais uma cacetada de antidepressivos para cuidar dessa gente, as famosas "happy pills".

Tem gente que se pergunta: "Poxa, mas esse cara não percebe o papel ridículo que ele fez?" Não, não percebe. Porque o poder sobe à cabeça, e a pessoa passa a se ver como inatingível. "Eu sou foda, as pessoas gostam mesmo de mim, nada de ruim pode acontecer comigo." Nunca ouviram o conto "A Roupa Nova do Rei"? É uma forma de autodefesa, o ser humano é assim. Não viram o caso do fiscal da prefeitura que, de acordo com a ex-mulher, dizia para todos os cantos que "roubava mesmo"? Pois então. A ganância, assim como a vaidade (e, dizem, a zoeira), não tem limites.

Um indivíduo mais pobre, de vida miserável, assiste a tudo isso e se irrita, porque ele também quer tudo aquilo: dinheiro, fama, mulheres. E ele se revolta, sem entender muito bem porque alguém pode, e ele não. Só que ele não consegue atingir a elite, protegida por muros altos e seguranças. Então atacam o que podem: a classe média. Aí, esta classe média, em vez de criticar essa elite que esfrega na cara dos outros a sua opulência, prefere se juntar a ela contra os mais pobres, dizendo que estes são apenas vagabundos, que não trabalham, que não são pessoas de bem, etc.

E por que a classe média não se revolta também? Primeiro, porque a sua vida não é tão ruim. E, depois, a classe média admira a elite. É o que ela almeja ser. Por que vai atacar o que ela gostaria de ser um dia? Então ela acredita na promessa que, se trabalhar bastante, vai conseguir chegar lá. Mas nada, absolutamente nada é maior do que o medo de virar pobre. Então se aliar a eles, nem pensar. Melhor mantê-los longe, vai que pobreza é contagiosa?

Este não é um problema só do Brasil, embora a gritante desigualdade social daqui torne tudo mais visível e urgente. Resta saber por mais quanto tempo uma situação assim pode perdurar. Mas os protestos, Black Blocs, e até mesmo a criminalidade alertam: a paciência, esta sim, tem limites.

PS: Quem não conhece o conto "A Roupa Nova do Rei", pode ler em: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Roupa_Nova_do_Rei