terça-feira, 8 de novembro de 2011

(Des)ocupação da Reitoria da USP: o que aprender com o Occupy Wall Street

O que começou mal acabou mal. A insistência em manter a ocupação na Reitoria da USP, mesmo em face de ordem judicial contrária, terminou com a detenção de dezenas de estudantes em razão dessa desobediência, por dano ao patrimônio público e por crime ambiental (pichação). Apesar disso, a maior derrota do movimento fica por conta da imagem perante a sociedade, a completa desmoralização do movimento estudantil resumida pelos grandes jornais e portais de Internet em um jovem encapuzado que tentava se ocultar das câmeras de televisão com um moletom da GAP e óculos de marca. Ou seja: um filhinho de papai, rebelde sem causa, incoerente em suas palavras e ações, saudoso dos ideais revolucionários dos anos 60 e 70, mas que luta por nada mais do que o direito de fumar maconha em paz.

Se essa é a realidade ou não, abre-se outro debate. O fato é que foi assim que a sociedade viu os manifestantes. Muito se culpa a grande mídia, que realmente distorce os fatos e cria histórias quando lhe convém. Mas a imagem de jovens encapuzados como bandidos, arrombando um portão, quebrando câmeras de segurança e agredindo jornalistas não foi manipulada; era real. Não havia necessidade de legenda. A realidade é que nada disso era necessário, e nisso, os manifestantes têm muito a aprender com outro movimento que ocorre no hemisfério norte: o Occupy Wall Street (OWS).

Mas que lições o Occupy Wall Street poderia dar aos manifestantes da USP?

Primeiro, a de não-violência. A sociedade em geral repudia a violência, especialmente quando se torna explícita no noticiário. O que manteve a legitimidade do Occupy Wall Street foi justamente a ausência de atos violentos, sem atacar prédios públicos ou privados, e até mesmo na resistência a policiais. Nesse caso, inclusive, a polícia que foi bastante criticada pelo uso de força excessiva contra civis desarmados.

A segunda lição poderia ser no diálogo com a sociedade. Em uma pesquisa feita entre os norte-americanos, grande parte das pessoas dizia não ter uma opinião formada sobre os manifestantes do Occupy Wall Street porque esperava ver o rumo que eles iriam tomar. Na verdade, o que a sociedade esperava era que os manifestantes cometessem um erro. Um erro apenas, para que pudessem criticar à vontade e desmoralizar completamente seus participantes. Mas esse erro não veio. Enquanto isso, os manifestantes buscaram educar e mostrar às outras pessoas, alheias a tudo aquilo, o que era o OWS, por que estavam se manifestando, por que aquilo era de interesse deles, etc. Se não através da grande mídia, por meio de pequenos jornais (como o brilhante “Occupy Wall Street Journal”), blogs eletrônicos, e no contato com pessoas influentes, como intelectuais, jornalistas independentes, celebridades, etc. Com o lema “Nós somos os 99%”, os manifestantes incluíram o resto da sociedade, não se isolaram em uma causa limitada.

Por fim, a terceira lição seria sobre o contato com a grande mídia. Os noticiários e jornais de grande divulgação zombavam do Occupy Wall Street, acusando-o de não ter foco e não dizer para o quê veio. Assim como a sociedade, esperavam um erro, só que com muito mais ansiedade, já que uma das críticas dos manifestantes era justamente como a grande mídia servia ao capital financeiro. Mais uma vez, o erro não veio, e a insistência de setores conservadores da mídia de pintar o OWS de algo que claramente não era (hippies, vagabundos, socialistas, etc) acabou dando força ao movimento, expondo a fragilidade do jornalismo corporativo em veicular a realidade e em servir aos melhores interesses da sociedade. Em vez do confronto aberto, o OWS fez uso de cartazes, charges, diferentes meios comunicação alternativos, tudo zombando a atuação da grande mídia, tornando os ataques uma piada, e fazendo com que o feitiço voltasse contra o feiticeiro.

Tendo em mente a diferença na dimensão das causas e do tamanho dos movimentos, o sucesso do Occupy Wall Street, pelo menos em manter-se legítimo, ajuda a explicar o fracasso dos manifestantes na USP. Há muitas questões dignas de serem discutidas que são levantadas pelos estudantes, como o autoritarismo do reitor, escolhido autocraticamente pelo governador; a falta de democracia nas decisões da Universidade; a desnecessidade da PM no campus, que sofre mais com a falta de iluminação pública do que com a ausência de policiamento; e até mesmo a descriminalização da maconha. Todas são questões interessantes de trazer para o debate com a sociedade

Entretanto, o estopim da manifestação foi frágil: a prisão de alguns estudantes porque estavam fumando maconha em local público. É importante lembrar que, mesmo se considerarmos que prender alguém por fumar maconha seja incorreto, os policiais estavam apenas fazendo o seu trabalho. Não foram eles que criaram as leis que impediam isso, mas o seu trabalho é de cumpri-las. Há quem conteste a presença da PM justamente porque os mesmos não impediram o assassinato de um estudante há um tempo atrás, quando seriam realmente necessários. Só que a polícia também não impede milhares de crimes na sociedade: isso invalidaria então a sua necessidade?

Depois, os manifestantes reivindicam mais democracia no campus, mas de forma antidemocrática, sem o aval da maioria dos estudantes, ocupam a Reitoria, agindo como se tivessem legitimidade para agir em prol dos outros. De repente, o moletom da GAP deixa de ser a grande contradição, não é?

Inclusive, nesse episódio da GAP, talvez alguém vá dizer que foi tudo uma montagem pra denegrir o movimento. Quem sabe, mas esse tipo de contradição não é único. Anos atrás, eu fui com um amigo, estudante da USP, ver como estava a ocupação na Reitoria naquela época. No meio de discursos revolucionários, e bandeiras e faixas de partidos de extrema-esquerda, eis que surge uma garota, andando agachada por trás da mesa dos “dirigentes” do movimento, com um saco do Mc Donalds em mãos. Um pouco envergonhada, talvez percebendo a incoerência, distribuiu alguns lanches para aqueles a sua volta. E não foi nenhum jornal ou blog que contou; eu vi com meus próprios olhos.

É triste, mas essas contradições não são isoladas, pois fazem parte de um processo que ocorre talvez desde o fim dos “caras pintadas”, que é a perda de foco do movimento estudantil. Hoje, sem grandes causas para lutar, os estudantes são reféns de partidos políticos radicais, sem expressão na sociedade, mas que encontram presas fáceis entre os jovens e incitam essa rebeldia desgovernada. E aí se isolam, em um mundinho saudoso de outros tempos, alheios aos outros alunos, alheios à sociedade, alheios à realidade.

O movimento estudantil é, e sempre será necessário. Dele que surgiu a força motora de grandes momentos da história. Contudo, nesse caso, se há culpados para a desmoralização dos estudantes que ocuparam a Reitoria da USP, são eles mesmos. Impacientes, escolheram a oportunidade errada para protestar por outras questões relevantes, mas que acabaram ficando em segundo plano. E não foi apenas em razão de suas ações, mas também pela falta de diálogo com a sociedade, espectadora alienada dos eventos, e pelo confronto direto com a grande mídia, veículo de maior alcance e influência. Comparados aos manifestantes do Occupy Wall Street, ou até mesmo com um exemplo mais próximo, como os estudantes chilenos, que protestam contra a privatização da educação pública, os estudantes brasileiros têm muito que aprender. Pelo menos, que tudo isso sirva de lição de casa.