segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O câncer de Lula e uma ideia infeliz

Recentemente, o ex-presidente Lula recebeu o diagnóstico de câncer na laringe e hoje começa o tratamento com quimioterapia no moderno Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Muitos se solidarizaram com Lula, até mesmo políticos da oposição, desejando-lhe força para encarar este novo desafio. Entretanto, alguns internautas divulgaram a ideia de que o ex-presidente deveria fazer o tratamento pelo SUS, como a maioria dos brasileiros, para ver o estado da saúde pública no país.

A ideia, sem ser inovadora, é um pouco inocente e até cruel.

Não é inovadora, pois já existe, por exemplo, um projeto de lei, de autoria do Deputado, e ex-Ministro da Educação, Cristovam Buarque, que obrigaria políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas, para que testemunhem o descaso com a educação pública.

Inocente, pois isso não faria um político ter uma revelação e trabalhar para melhorar o setor além do normal; simplesmente matricularia seus filhos em escolas públicas de qualidade (se essas não existissem em seu bairro, criaria uma) e buscaria tratamento nos centros médicos de referência nacional (e até internacional), que existem mesmo no falido sistema de saúde pública.

Cruel, finalmente, pois há um sentimento raivoso por trás disso tudo, em parte por desprezo pela classe política em geral, mas por outro lado que também se regozija com o sofrimento do ex-presidente, pelo ódio inexplicável de quem ainda não se conforma com o “homem do povo” que governou o país por 8 anos e saiu, democraticamente, como o presidente mais popular da história do país.

Por fim, há de ser dito que também impera a hipocrisia. Muitos, se não todos, que sugeriram a ideia também não usam o SUS, o que tira muito da legitimidade da proposta. Muitos também se chocaram quando fizeram uma piada sobre um feto; todavia, de repente torna-se aceitável fazer chacota de um câncer?

Na realidade, há diversas formas válidas para protestar, mas esta não foi uma. O problema da Internet é que, enquanto ela democratiza o acesso à informação, ela também ajuda a propagar toda e qualquer forma de idiotice. Sem contar que, fala sério, se o Lula morre agora, o homem vai se tornar um mito maior do que já é. E a oposição não quer isso... quer?