sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Poder do Povo: o Egito e o Facebook

Nas últimas semanas, o Egito sofreu uma série de manifestações pela derrubada de Hosni Mubarak, herói de guerra e presidente do país por 30 anos. Os protestos começaram diante da perspectiva de Mubarak, 82 anos, tentar emplacar o seu filho, Gamal, como seu sucessor e impulsionados pela avassaladora revolta na Tunísia, agora chamada Revolução de Jasmin, que derrubou o ditador Ben Ali, e que se espalha, além do Egito, para países como Jordânia e Iêmen. Por fim, na agora considerada “sexta-feira de despedida”, o dia 11 de fevereiro de 2011 marca o fim de uma era: Mubarak finalmente renunciou, motivando grandes celebrações na praça Tahir, palco da revolução, com carros buzinando e pessoas se abraçando, chorando e balançando bandeiras egípcias.

As revoltas e a subsequente queda de Mubarak no Egito sinalizam a maior mudança no mundo árabe em décadas, mas nada garante que o resultado será democracia, liberdade e secularismo. A principal força de oposição, a Irmandade Muçulmana, é um grupo religioso, o que despertou no Ocidente temores de que pudesse surgir uma nova teocracia como a do Irã, embora outro líder da oposição, o Prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, assegure que não há este risco. De qualquer forma, há muito com o que aprender com a revolução no Egito.

Primeiro, o povo detém o poder de fato em qualquer Estado, qualquer lugar do mundo. Mesmo no século XXI, com um moderno aparato policial, de inteligência e repressão, nenhum regime consegue derrubar um povo se este não permitir, mas um povo sempre terá o poder para derrubar um regime, por mais ditatorial que este seja. Esta é uma verdade histórica, infalível e que se mantém com o passar do tempo, por mais que nos queiram convencer do contrário.

Segundo, não se pode subestimar o poder das redes sociais. A queda de Mubarak é a primeira revolução que se iniciou na Internet, com chamados pelo Facebook e Twitter. A primeira, pelo menos, bem-sucedida, pois os protestos contra o resultado das eleições no Irã em 2009 não tiveram seu fim almejado. Muito já se discutiu sobre o poder das redes sociais, que apesar de proporcionar inúmeras possibilidades, geralmente fracassavam em mobilizações políticas, decepcionando seus maiores entusiastas. O pessimismo em relação às redes sociais mudou principalmente com a eleição de Barack Obama em 2008, impulsionada em grande parte pelo trabalho bem coordenado na Internet. Até no Brasil, nas eleições de 2010, a Internet desempenhou um papel importante, tanto para o bem como para o mal.

Terceiro, e por último, como já ouvi de um ativista mexicano, “a liberdade é boa, mas não enche o estômago”. Valores humanistas são bons ideais de revolução; contudo, as pessoas tendem a levantar-se da poltrona apenas quando a situação torna-se insuportável, principalmente do ponto de vista econômico. O desemprego e a falta de perspectiva profissional para os jovens incendiou o já instável cenário político, abalado pelas críticas à subserviência de Mubarak aos EUA e ao Ocidente.

Agora, é difícil prever quais serão os rumos do Egito e da região. O exemplo foi dado; resta saber quem o seguirá. De qualquer forma, os egípcios parecem ter nos dado uma aula de revolução, uma valiosa lição que não deve ser esquecida. Mais do que isso, agora todo e qualquer governo tem o que temer do poder de mobilização das redes sociais. Afinal, quem diria que a queda de um regime de 30 anos seria o resultado do que um ambicioso nerd, estudante de Harvard e com dor de cotovelo criou?