sábado, 24 de dezembro de 2011

Vende-se um Feliz Natal

Fim de ano é sempre a mesma coisa. Anúncios de TV, felizes e otimistas, celebram com vigor a chegada do Natal e do Ano Novo. Sorrisos, alegria, otimismo, esperança, todos os melhores sentimentos chegam ao seu ápice nessa época do ano. E claro, para os comerciantes, não há melhor momento para lucrar.

Explorar datas comemorativas para fins lucrativos não é novidade. Na verdade, muitas dessas datas apenas se tornaram importantes pela insistência das campanhas de marketing de nos lembrarem delas. Entretanto, em tempos cada vez mais negros, com o ser humano cada vez mais infeliz por ver-se preso a um consumismo desenfreado e impotente de mudar sua condição, as empresas buscam associar seus produtos e suas marcas ao bem mais elusivo de todos: a felicidade.

Isso é algo fácil de perceber até mesmo pelos slogans das empresas. Alguns exemplos como "Viva positivamente"; "Gostoso como a vida deve ser"; "Vem ser feliz!"; "Melhorando a vida, perto de você", etc, evidenciam que, cada uma da sua forma, as empresas tentam convencer o consumidor de que a sua vida será mais completa, mais feliz, se você comprar o produto delas. Se não comprar... bem, azar o seu. Não há mais foco nas vantagens que o produto oferece em relação aos seus concorrentes, ou até mesmo à sua utilidade. O importante é a sensação que comprá-lo traz, as emoções que desabrocham em virtude de sua aquisição, mesmo que essas não existam ou sejam, no máximo, momentâneas.

No Natal, isso tudo adquire uma proporção muito maior. Começa com a farsa de sua própria existência e de seus rituais. O dia celebrado é uma data de nascimento inventada para (sic) o filho de Deus; seu ícone de bom velhinho teve seu traje vermelho popularizado justamente por uma campanha de marketing; a árvore de Natal enfeitada é herança de tradições pagãs para celebrar a fertilidade da natureza; e, por fim, o hábito de trocar presentes vem de outro festival pagão, a Saturnália, que ocorria na mesma época do ano, no solstício de inverno. Misturam-se todos esses ritos corrompidos ao desejo de lucrar infinitamente que temos essa histeria consumista que chamamos hoje de Natal.

Apesar de tudo isso, reitera-se que o blogueiro pessimista aqui não odeia o Natal, e ele até acha que seja bom reunir a família e presentear os outros, nem que seja por apenas um dia no ano. Mas fica o alerta de que todos os sentimentos bons que parecem surgir somente nesta data podem ser praticados durante todo o ano, e que objeto material nenhum pode substituir o afeto nas relações humanas. É isso o que realmente importa no final, não essas mensagens superficiais na TV que querem que nos esqueçamos do quanto essas empresas e bancos estão lucrando às nossas custas com toda essa orgia de consumo.

Portanto, caro leitor, que o seu Natal, independente do significado que ele tenha para você, seja realmente feliz. Não pela data em si, ou pelos presentes que recebeu, mas por ter contigo pessoas que você realmente ama. O amor, por mais que se diga o contrário, ainda não se compra. Pode acreditar.

Feliz Natal a todos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

30 anos de luta contra o HIV/AIDS



Todo dia 1º de dezembro, celebra-se o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, uma doença causada pelo HIV, vírus que ataca o sistema imunológico da pessoa e identificado pela primeira vez em 1981, que já deixou milhões de vítimas por todo o mundo.

No Brasil, a epidemia chegou com força, levando grandes nomes como Cazuza, Renato Russo, entre outras centenas de milhares de desconhecidos. Apesar disso, desde o início o país tentou se mobilizar para agir contra a doença. Começou um programa de controle da doença, promovendo a prevenção, e mesmo antes do surgimento do “coquetel”, o Brasil disponibilizou no sistema público de saúde o AZT, o único medicamento que diminuía a progressão da doença na época, além de outros remédios para tratar infecções oportunistas.

No período de 1995-1996, surgiu, enfim, o “coquetel” de antirretrovirais, uma combinação de remédios que combatia o vírus efetivamente, permitindo uma sobrevida aos pacientes e a possibilidade de retorno a uma vida “normal”. O governo brasileiro, graças a um projeto de lei apresentado pelo então senador José Sarney (é, quem diria!) que garantiria a distribuição gratuita de antirretrovirais para todos pacientes da rede pública, passou a disponibilizar o coquetel para todos os brasileiros, apesar da resistência interna de alguns setores do governo FHC. Em 1997, o país já produziria localmente genéricos de alguns dos antirretrovirais usados no combate à doença.

Assim, em 1998, quando José Serra assumiu o Ministério da Saúde, o programa brasileiro de combate ao HIV já estava em pleno funcionamento, apesar da crença popular contrária. Em razão dos preços altos dos remédios, o ministro Serra ameaçou a quebra de patentes de alguns dos medicamentos utilizados pelo governo brasileiro, mas tudo ficou apenas na ameaça. A quebra de patentes ocorreu de fato apenas no governo Lula, já que o laboratório se recusava a aceitar o preço que o governo estava disposto a pagar. Portanto, diferente do que muitos pensam, Serra não foi criador nem do programa de combate à AIDS, nem dos genéricos, por meio da quebra de patentes. Mas isso é outra história.

Hoje, em 2011, a realidade para quem tem HIV é muito diferente daquela de 20, 30 anos atrás. Há mais de 30 antirretrovirais disponíveis para o combate à doença, e enquanto no começo os pacientes tomavam cerca de 20, 30 remédios por dia, muitos podem tomar hoje não mais do que 4, 5 pílulas, e já está disponível em países desenvolvidos o tratamento com apenas 1 pílula por dia. Uma enorme mudança. Mais impressionante ainda é a expectativa de vida. Antes, quem tinha HIV poderia esperar pouco mais de 10 anos de vida, no máximo. Atualmente, os últimos estudos já colocam a expectativa de vida de soropositivos próxima à de soronegativos. Com o tratamento atual, um indivíduo infectado, hoje, aos 20 anos, poderá viver, em média, além dos 60, 70 anos, o que torna o HIV uma doença crônica, assim como diabetes, hipertensão, etc. E a tendência é o surgimento de tratamentos cada vez mais eficazes.

Entretanto, é importante ressaltar que a doença não deixou de ser grave. Os medicamentos, mesmo quando disponíveis, são fortes, e trazem efeitos colaterais de curto e longo prazo. Além disso, são caros, muito caros. O programa brasileiro funciona, mas depende da produção de genéricos, e mesmo assim custa mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos todo ano. O custo seria ainda muito mais alto se o país não lutasse pela produção local de genéricos. Com remédios originais de marca, o tratamento de um soropositivo pode custar em volta de 2000 a 3000 dólares por mês. E claro, o continente mais afetado pela doença, a África, carece de recursos pra cuidar de sua população.

Por isso, mesmo com os avanços no tratamento, muitos cientistas insistem na necessidade de encontrar uma cura e/ou vacina, pois a epidemia tende a ficar insustentável do ponto de vista financeiro, mesmo para os países desenvolvidos. Embora esteja sob controle em diversos países desenvolvidos, inclusive no Brasil, milhares de novas infecções ocorrem todos os anos, e como menos pessoas morrem da doença, os custos só tendem a aumentar.

Dentre as novas infecções, ressaltam-se os novos casos entre jovens. Não só no Brasil, mas em outras partes do mundo, os jovens de hoje não testemunharam o ápice da epidemia e estão “cansados” das campanhas de prevenção tentando colocar medo de uma doença que aparentemente não mata mais, nem deixa ninguém com aquela aparência cadavérica, como foi com Cazuza. Essa fadiga das campanhas de prevenção apresenta um grande desafio e representa um processo potencialmente irreversível, já que a doença não coloca tanto medo como colocava antes. Assim, os mais afetados hoje são mulheres e homossexuais jovens. Entre os homens heterossexuais, embora seja mais difícil adquirir o vírus da mulher (afinal, o homem que ejacula na mulher e não o contrário), muitos ignoram o risco e pagam o preço por isso. Assim, auxiliados pelos remédios que ajudam a ereção e desacostumados com o uso da camisinha, crescem os casos de homens acima de 40 e 50 anos com o vírus.

E sim, infelizmente, muitos ainda morrem em razão da AIDS. Milhões no mundo todo ano, e milhares só no Brasil. Poderiam ser menos, mas há um ingrediente fatal nisso tudo: preconceito. Talvez nenhuma doença na história da humanidade, com a exceção da hanseníase (lepra), causou tanto temor descabido na população, motivando diferentes formas de preconceito e discriminação. Embora as únicas formas de contágio sejam bem claras à população (praticar sexo desprotegido e compartilhar seringas descartáveis), muitas pessoas têm um medo insensato da doença e de seus portadores. E esse preconceito, além do mal psicológico que causa, tem um efeito ainda mais grave: ele mata.

Por medo do diagnóstico positivo (e do preconceito causado por ele), uma grande quantidade de pessoas tem medo de fazer o teste e prefere esquecer o risco que passou. Agora, convenhamos: todo mundo, uma hora ou outra, vai fazer sexo desprotegido em algum ponto de sua vida. Nós sabemos que temos que usar camisinha e tudo mais, mas em matéria de sexo, o ser humano não pensa direito e frequentemente faz besteira. Aí tem que fazer o teste, mas muitos não fazem, e só descobrem que têm AIDS na cama do hospital. Resultado: mais da metade dos óbitos por AIDS no Brasil poderiam ser evitados se a doença fosse diagnosticada antes. O diagnóstico tardio deixa a pessoa em situação vulnerável e por muitas vezes irreversível, dificultando a eficácia do tratamento para recuperar a imunidade da pessoa.

Mesmo naqueles que têm o diagnóstico mais cedo, o preconceito ainda faz outras vítimas. Muitas pessoas, com medo da doença e de sofrerem discriminação, não aderem ao tratamento, escolhendo o isolamento e, por consequência, uma morte lenta e dolorosa. A ideia de tomar remédios para o resto da vida, além de lidar com o preconceito dos outros, às vezes parece muito dura, e alguns não têm a força para encarar isso, o que resulta em mais mortes desnecessárias. Não é à toa que os soropositivos têm 5 vezes mais chances de ter depressão, e mais da metade deles sofrem disso em algum momento.

Portanto, nesse dia que evoca a lembrança do HIV/AIDS, a “lepra dos tempos modernos”, não nos esqueçamos que essa doença ainda nos assombra e que a cura ainda está por vir (e virá). A humanidade venceu muitas doenças e esta não será diferente. Porém, até lá, é importante se prevenir, usando camisinha e fazendo testes de DSTs frequentemente, principalmente se houve alguma relação desprotegida. Mas principalmente, é bom lembrar que todo preconceito parte da ignorância, e quando discriminamos alguém, ainda mais sem motivo razoável, cometemos um mal muito maior do que podemos imaginar. O combate ao preconceito a portadores do vírus da AIDS torna-se então uma luta de todos: pela vida, pela dignidade do ser humano e, apesar dos pesares, pelo direito de ser feliz.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

(Des)ocupação da Reitoria da USP: o que aprender com o Occupy Wall Street

O que começou mal acabou mal. A insistência em manter a ocupação na Reitoria da USP, mesmo em face de ordem judicial contrária, terminou com a detenção de dezenas de estudantes em razão dessa desobediência, por dano ao patrimônio público e por crime ambiental (pichação). Apesar disso, a maior derrota do movimento fica por conta da imagem perante a sociedade, a completa desmoralização do movimento estudantil resumida pelos grandes jornais e portais de Internet em um jovem encapuzado que tentava se ocultar das câmeras de televisão com um moletom da GAP e óculos de marca. Ou seja: um filhinho de papai, rebelde sem causa, incoerente em suas palavras e ações, saudoso dos ideais revolucionários dos anos 60 e 70, mas que luta por nada mais do que o direito de fumar maconha em paz.

Se essa é a realidade ou não, abre-se outro debate. O fato é que foi assim que a sociedade viu os manifestantes. Muito se culpa a grande mídia, que realmente distorce os fatos e cria histórias quando lhe convém. Mas a imagem de jovens encapuzados como bandidos, arrombando um portão, quebrando câmeras de segurança e agredindo jornalistas não foi manipulada; era real. Não havia necessidade de legenda. A realidade é que nada disso era necessário, e nisso, os manifestantes têm muito a aprender com outro movimento que ocorre no hemisfério norte: o Occupy Wall Street (OWS).

Mas que lições o Occupy Wall Street poderia dar aos manifestantes da USP?

Primeiro, a de não-violência. A sociedade em geral repudia a violência, especialmente quando se torna explícita no noticiário. O que manteve a legitimidade do Occupy Wall Street foi justamente a ausência de atos violentos, sem atacar prédios públicos ou privados, e até mesmo na resistência a policiais. Nesse caso, inclusive, a polícia que foi bastante criticada pelo uso de força excessiva contra civis desarmados.

A segunda lição poderia ser no diálogo com a sociedade. Em uma pesquisa feita entre os norte-americanos, grande parte das pessoas dizia não ter uma opinião formada sobre os manifestantes do Occupy Wall Street porque esperava ver o rumo que eles iriam tomar. Na verdade, o que a sociedade esperava era que os manifestantes cometessem um erro. Um erro apenas, para que pudessem criticar à vontade e desmoralizar completamente seus participantes. Mas esse erro não veio. Enquanto isso, os manifestantes buscaram educar e mostrar às outras pessoas, alheias a tudo aquilo, o que era o OWS, por que estavam se manifestando, por que aquilo era de interesse deles, etc. Se não através da grande mídia, por meio de pequenos jornais (como o brilhante “Occupy Wall Street Journal”), blogs eletrônicos, e no contato com pessoas influentes, como intelectuais, jornalistas independentes, celebridades, etc. Com o lema “Nós somos os 99%”, os manifestantes incluíram o resto da sociedade, não se isolaram em uma causa limitada.

Por fim, a terceira lição seria sobre o contato com a grande mídia. Os noticiários e jornais de grande divulgação zombavam do Occupy Wall Street, acusando-o de não ter foco e não dizer para o quê veio. Assim como a sociedade, esperavam um erro, só que com muito mais ansiedade, já que uma das críticas dos manifestantes era justamente como a grande mídia servia ao capital financeiro. Mais uma vez, o erro não veio, e a insistência de setores conservadores da mídia de pintar o OWS de algo que claramente não era (hippies, vagabundos, socialistas, etc) acabou dando força ao movimento, expondo a fragilidade do jornalismo corporativo em veicular a realidade e em servir aos melhores interesses da sociedade. Em vez do confronto aberto, o OWS fez uso de cartazes, charges, diferentes meios comunicação alternativos, tudo zombando a atuação da grande mídia, tornando os ataques uma piada, e fazendo com que o feitiço voltasse contra o feiticeiro.

Tendo em mente a diferença na dimensão das causas e do tamanho dos movimentos, o sucesso do Occupy Wall Street, pelo menos em manter-se legítimo, ajuda a explicar o fracasso dos manifestantes na USP. Há muitas questões dignas de serem discutidas que são levantadas pelos estudantes, como o autoritarismo do reitor, escolhido autocraticamente pelo governador; a falta de democracia nas decisões da Universidade; a desnecessidade da PM no campus, que sofre mais com a falta de iluminação pública do que com a ausência de policiamento; e até mesmo a descriminalização da maconha. Todas são questões interessantes de trazer para o debate com a sociedade

Entretanto, o estopim da manifestação foi frágil: a prisão de alguns estudantes porque estavam fumando maconha em local público. É importante lembrar que, mesmo se considerarmos que prender alguém por fumar maconha seja incorreto, os policiais estavam apenas fazendo o seu trabalho. Não foram eles que criaram as leis que impediam isso, mas o seu trabalho é de cumpri-las. Há quem conteste a presença da PM justamente porque os mesmos não impediram o assassinato de um estudante há um tempo atrás, quando seriam realmente necessários. Só que a polícia também não impede milhares de crimes na sociedade: isso invalidaria então a sua necessidade?

Depois, os manifestantes reivindicam mais democracia no campus, mas de forma antidemocrática, sem o aval da maioria dos estudantes, ocupam a Reitoria, agindo como se tivessem legitimidade para agir em prol dos outros. De repente, o moletom da GAP deixa de ser a grande contradição, não é?

Inclusive, nesse episódio da GAP, talvez alguém vá dizer que foi tudo uma montagem pra denegrir o movimento. Quem sabe, mas esse tipo de contradição não é único. Anos atrás, eu fui com um amigo, estudante da USP, ver como estava a ocupação na Reitoria naquela época. No meio de discursos revolucionários, e bandeiras e faixas de partidos de extrema-esquerda, eis que surge uma garota, andando agachada por trás da mesa dos “dirigentes” do movimento, com um saco do Mc Donalds em mãos. Um pouco envergonhada, talvez percebendo a incoerência, distribuiu alguns lanches para aqueles a sua volta. E não foi nenhum jornal ou blog que contou; eu vi com meus próprios olhos.

É triste, mas essas contradições não são isoladas, pois fazem parte de um processo que ocorre talvez desde o fim dos “caras pintadas”, que é a perda de foco do movimento estudantil. Hoje, sem grandes causas para lutar, os estudantes são reféns de partidos políticos radicais, sem expressão na sociedade, mas que encontram presas fáceis entre os jovens e incitam essa rebeldia desgovernada. E aí se isolam, em um mundinho saudoso de outros tempos, alheios aos outros alunos, alheios à sociedade, alheios à realidade.

O movimento estudantil é, e sempre será necessário. Dele que surgiu a força motora de grandes momentos da história. Contudo, nesse caso, se há culpados para a desmoralização dos estudantes que ocuparam a Reitoria da USP, são eles mesmos. Impacientes, escolheram a oportunidade errada para protestar por outras questões relevantes, mas que acabaram ficando em segundo plano. E não foi apenas em razão de suas ações, mas também pela falta de diálogo com a sociedade, espectadora alienada dos eventos, e pelo confronto direto com a grande mídia, veículo de maior alcance e influência. Comparados aos manifestantes do Occupy Wall Street, ou até mesmo com um exemplo mais próximo, como os estudantes chilenos, que protestam contra a privatização da educação pública, os estudantes brasileiros têm muito que aprender. Pelo menos, que tudo isso sirva de lição de casa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O câncer de Lula e uma ideia infeliz

Recentemente, o ex-presidente Lula recebeu o diagnóstico de câncer na laringe e hoje começa o tratamento com quimioterapia no moderno Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Muitos se solidarizaram com Lula, até mesmo políticos da oposição, desejando-lhe força para encarar este novo desafio. Entretanto, alguns internautas divulgaram a ideia de que o ex-presidente deveria fazer o tratamento pelo SUS, como a maioria dos brasileiros, para ver o estado da saúde pública no país.

A ideia, sem ser inovadora, é um pouco inocente e até cruel.

Não é inovadora, pois já existe, por exemplo, um projeto de lei, de autoria do Deputado, e ex-Ministro da Educação, Cristovam Buarque, que obrigaria políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas, para que testemunhem o descaso com a educação pública.

Inocente, pois isso não faria um político ter uma revelação e trabalhar para melhorar o setor além do normal; simplesmente matricularia seus filhos em escolas públicas de qualidade (se essas não existissem em seu bairro, criaria uma) e buscaria tratamento nos centros médicos de referência nacional (e até internacional), que existem mesmo no falido sistema de saúde pública.

Cruel, finalmente, pois há um sentimento raivoso por trás disso tudo, em parte por desprezo pela classe política em geral, mas por outro lado que também se regozija com o sofrimento do ex-presidente, pelo ódio inexplicável de quem ainda não se conforma com o “homem do povo” que governou o país por 8 anos e saiu, democraticamente, como o presidente mais popular da história do país.

Por fim, há de ser dito que também impera a hipocrisia. Muitos, se não todos, que sugeriram a ideia também não usam o SUS, o que tira muito da legitimidade da proposta. Muitos também se chocaram quando fizeram uma piada sobre um feto; todavia, de repente torna-se aceitável fazer chacota de um câncer?

Na realidade, há diversas formas válidas para protestar, mas esta não foi uma. O problema da Internet é que, enquanto ela democratiza o acesso à informação, ela também ajuda a propagar toda e qualquer forma de idiotice. Sem contar que, fala sério, se o Lula morre agora, o homem vai se tornar um mito maior do que já é. E a oposição não quer isso... quer?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Poder do Povo: o Egito e o Facebook

Nas últimas semanas, o Egito sofreu uma série de manifestações pela derrubada de Hosni Mubarak, herói de guerra e presidente do país por 30 anos. Os protestos começaram diante da perspectiva de Mubarak, 82 anos, tentar emplacar o seu filho, Gamal, como seu sucessor e impulsionados pela avassaladora revolta na Tunísia, agora chamada Revolução de Jasmin, que derrubou o ditador Ben Ali, e que se espalha, além do Egito, para países como Jordânia e Iêmen. Por fim, na agora considerada “sexta-feira de despedida”, o dia 11 de fevereiro de 2011 marca o fim de uma era: Mubarak finalmente renunciou, motivando grandes celebrações na praça Tahir, palco da revolução, com carros buzinando e pessoas se abraçando, chorando e balançando bandeiras egípcias.

As revoltas e a subsequente queda de Mubarak no Egito sinalizam a maior mudança no mundo árabe em décadas, mas nada garante que o resultado será democracia, liberdade e secularismo. A principal força de oposição, a Irmandade Muçulmana, é um grupo religioso, o que despertou no Ocidente temores de que pudesse surgir uma nova teocracia como a do Irã, embora outro líder da oposição, o Prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, assegure que não há este risco. De qualquer forma, há muito com o que aprender com a revolução no Egito.

Primeiro, o povo detém o poder de fato em qualquer Estado, qualquer lugar do mundo. Mesmo no século XXI, com um moderno aparato policial, de inteligência e repressão, nenhum regime consegue derrubar um povo se este não permitir, mas um povo sempre terá o poder para derrubar um regime, por mais ditatorial que este seja. Esta é uma verdade histórica, infalível e que se mantém com o passar do tempo, por mais que nos queiram convencer do contrário.

Segundo, não se pode subestimar o poder das redes sociais. A queda de Mubarak é a primeira revolução que se iniciou na Internet, com chamados pelo Facebook e Twitter. A primeira, pelo menos, bem-sucedida, pois os protestos contra o resultado das eleições no Irã em 2009 não tiveram seu fim almejado. Muito já se discutiu sobre o poder das redes sociais, que apesar de proporcionar inúmeras possibilidades, geralmente fracassavam em mobilizações políticas, decepcionando seus maiores entusiastas. O pessimismo em relação às redes sociais mudou principalmente com a eleição de Barack Obama em 2008, impulsionada em grande parte pelo trabalho bem coordenado na Internet. Até no Brasil, nas eleições de 2010, a Internet desempenhou um papel importante, tanto para o bem como para o mal.

Terceiro, e por último, como já ouvi de um ativista mexicano, “a liberdade é boa, mas não enche o estômago”. Valores humanistas são bons ideais de revolução; contudo, as pessoas tendem a levantar-se da poltrona apenas quando a situação torna-se insuportável, principalmente do ponto de vista econômico. O desemprego e a falta de perspectiva profissional para os jovens incendiou o já instável cenário político, abalado pelas críticas à subserviência de Mubarak aos EUA e ao Ocidente.

Agora, é difícil prever quais serão os rumos do Egito e da região. O exemplo foi dado; resta saber quem o seguirá. De qualquer forma, os egípcios parecem ter nos dado uma aula de revolução, uma valiosa lição que não deve ser esquecida. Mais do que isso, agora todo e qualquer governo tem o que temer do poder de mobilização das redes sociais. Afinal, quem diria que a queda de um regime de 30 anos seria o resultado do que um ambicioso nerd, estudante de Harvard e com dor de cotovelo criou?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Dilema de Serpentário: o 13° Signo

Recentemente, astrônomos do Planetário de Minnesota reacenderam a briga com a Astrologia. De acordo com o astrônomo Parke Kunkle, o Zodíaco ocidental estaria faltando um signo: o de Serpentário, e que, além disso, devido ao movimento contínuo da Terra e do Sol, este estaria hoje posicionado sobre cada constelação em datas diferentes do estabelecido pela Astrologia há quase 3 mil anos. Ou seja, meu signo, por exemplo, que é de Capricórnio, seria na verdade de Sagitário.

Teremos que mudar de signo então? Para os astrólogos, não necessariamente. A notícia que percorreu o mundo suscitando discussão e dúvidas é, na realidade, apenas mais um episódio da velha guerra entre Astronomia e Astrologia, na qual alguns setores da primeira (junto à mídia) tentam colocar a segunda em descrédito. Assim como o embate entre ciência e religião, o confronto não rende muitos frutos, mexe com a crença e a fé dos outros. A diferença nessa história, contudo, é que ela não é novidade, embora esteja sendo tratada como se fosse a "bomba" que poderia estremecer os pilares da Astrologia.

O fato é que, há muitos anos, a Astronomia já alertava sobre o posicionamento das constelações ser diferente do preconizado pela Astrologia. Esta, por outro lado, também já sabia há muito tempo da existência da constelação de "Ophiuchus", ou melhor, Serpentário. Sua ausência no Zodíaco, entretanto, teria justificativa. Na Astrologia Ocidental, o ciclo zodiacal cobre uma faixa de 360°, dividida em 12 partes, 12 signos, cada um com 30°. A adição de um 13° signo complicaria essa divisão, ainda mais porque, de acordo com os astrólogos, o Sol teria, na transição entre Escorpião e Sagitário, uma curta e pouco significante passagem pela constelação da serpente, o que, por fim, justificou sua exclusão do zodíaco (vale ressaltar que astrônomos discordam: o Sol teria uma curta passagem por Escorpião, e não Serpentário).

De qualquer forma, não é preciso ser astrólogo ou astrônomo para saber que a Astrologia trabalha com símbolos, fato solenemente ignorado ou esquecido por seus críticos. Os signos do Zodíaco são exatamente isso: "signos", símbolos, arquétipos da personalidade humana. Os astrólogos rejeitam a ideia de mudança no Zodíaco justamente porque trata de símbolos tradicionais, não uma transcrição do posicionamento exato das constelações. Como paralelo, os cristãos celebram o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro, mesmo sem provas substanciais de que este seja o dia correto. O importante é o que representa, não o rigor histórico ou científico. Se descobrissem hoje que Jesus nasceu em outro dia, será que as pessoas deixariam de celebrar o Natal na data "errada"?

As críticas, ainda assim, recaem sobre a parte rasa da Astrologia. Os cálculos de mapas astrais, por astrólogos competentes, levam em conta o real posicionamento dos astros, só posteriormente sendo transpostos nos signos tradicionais. Muito diferente de horóscopos, que foram e sempre serão uma superstição: prever como será cada dia de 1/12 da população mundial, aproximadamente 500 milhões de habitantes, foge de qualquer princípio de razoabilidade.

No fim, Astronomia e Astrologia, embora tenham as mesmas origens, continuarão brigando entre si, apesar dos raros chamados por cooperação. Para os astrólogos, independente do que digam os astrônomos, as chances de mudanças no Zodíaco são ínfimas. Portanto, se você acha que vai ter que repensar toda sua personalidade por uma eventual mudança de signo, não há o que se preocupar. Só nascendo de novo mesmo.

PS: Fãs de Cavaleiros do Zodíaco como eu: o criador da série, Masami Kurumada, sabia muito bem da existência da Constelação de Ophiuchus, tanto que seu cavaleiro, ou melhor, amazona, aparece na série. Havia planos para uma possível 13ª casa do Zodíaco e sua armadura de ouro, mas temiam que outra mulher forte tiraria o foco sobre Saori, ou Atena. Já adivinharam quem seria?

sábado, 22 de janeiro de 2011

Presidenta Dilma

O blog entrou em longas férias, verdade, mas não morreu não. O ano inicia-se com uma nova Presidente, Dilma Rousseff, eleita com 56,05% dos votos. Esperava-se que fosse ganhar no 1º turno, mas como previsto aqui muito antes das eleições, o 2º turno ocorreu mais por mérito de Marina Silva do que de José Serra. Este, enfim, perdeu-se no meio de suas artimanhas e mentiras, não conseguindo virar o jogo.

Desde então, Dilma foi recebida bem pela população e pela mídia, inclusive pelos setores contra sua candidatura. Por um lado, boa parte dos que não votaram na Presidente querem o melhor para o país, apenas não acharam a princípio que ela seria a melhor candidata. Por outro, a mídia parece demonstrar mais respeito pela Presidente do que na campanha. Primeiro, talvez, por ser uma mulher, a primeira Presidenta; segundo, por ser uma pessoa mais "estudada", de origem mais "nobre" que a de Lula. As críticas a seu antecessor não cessaram, e o estilo de Dilma, mais sério e altivo, tem sido aclamado, como se agisse em oposição ao governo anterior.

Resta saber por quanto tempo vai durar a lua-de-mel da Presidente com a população e a mídia. É uma grande evolução a mídia tratá-la com mais respeito, um avanço para a nossa democracia, e os brasileiros continuarão satisfeitos enquanto a economia andar bem. Seu primeiro desafio, as enchentes no Rio, foi tratado com seriedade, e sua presença súbita nas áreas devastadas foi bem recebida, evitando o erro que Bush cometeu com o Katrina em New Orleans.

De qualquer forma, o que vai importar no final é a economia. Há previsões boas para a economia brasileira, mas a inflação subiu, o crédito diminuiu e há enormes desafios para a infraestrutura: a Copa de 2014 se aproxima e será um teste de fogo. Além disso, a economia mundial vai mal, com risco de piorar.

Como será então o governo Dilma? Só nos resta acompanhar.