quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Análise do Horário Eleitoral

Começou uma importante fase da campanha à Presidência: o horário eleitoral gratuito. Há quem anuncie que só agora se iniciou a campanha, que agora é pra valer. As propagandas na TV e rádio fazem, de fato, diferença, principalmente quando o tempo e o dinheiro disponíveis são o bastante, mas os candidatos já estão em campanha faz tempo. De qualquer forma, vejamos o que os principais candidatos apresentaram:

- Serra tem em torno de 7 min disponíveis, e decidiu tornar-se "Zé Serra". Sempre sorrindo, diferente do normal, enfatizou sua origem modesta, que seu pai era vendedor de frutas, embora não tenha dito onde (Mercado Municipal de São Paulo), e depois enumerou sua experiência política e os inúmeros cargos que ocupou. Obviamente, falou muito de saúde, relembrando seu tempo de Ministro da Saúde, cargo pelo qual é mais conhecido. Mas talvez surpreendeu muitos ao dizer que era economista, e não médico. Cumprimentou, em suas casas, pessoas que foram afetadas por seus programas, mostrando um caráter afável pelo qual não é conhecido. Interessante ressaltar que não atacou o governo Lula, nem em seu jingle de samba, que diz "Pro Brasil seguir em frente, sai o Silva e entra o Zé". Mas embora tenha escolhido uma estratégia apropriada, de não confrontar Lula, o "Zé Serra" não vai colar, assim como o "Geraldo" de Alckmin não funcionou.

- Dilma tem mais tempo, em torno de 10 min, e também falou de sua trajetória de vida, sem omitir o fato de ter sido presa, pra não tratar o assunto como tabu. Aproveitou para comentar sobre sua luta na ditadura, sem citar, no entanto, os atos que cometeu. Assim como Serra, tentou mostrar um lado mais humano, e no seu caso, o lado mãe. Emocionou-se e falou com a voz embargada ao citar a luta do governo pelos mais pobres. Quem pensava que Lula iria tomar todo o tempo dedicado à candidata se enganou. Lula apareceu ao seu lado, pra lembrar o povo quem é sua candidata, mas a propaganda do PT focou em Dilma, começando e terminando a propaganda com imagens de uma estrada, sempre em movimento, simbolizando a continuidade. Estratégia clássica em campanhas ao redor do mundo, mas eficiente.

- A Marina, coitada, restou pouco mais de 1 min. Focou esse tempo no meio-ambiente, sua especialidade, e em como o mundo está mudando por razão de ações humanas. Propôs sua candidatura como alternativa, mas precisa ainda apresentar sua biografia, que é admirável e não é muito conhecida pela maior parte da população brasileira. E como possui uma oratória muito superior à dos outros dois candidatos, tem chance de subir nas pesquisas, principalmente por conta dos debates.

Os outros candidatos não farão muita diferença na campanha. Com a exceção, talvez, de Plínio, principalmente como voto de protesto. Mas o começo do horário eleitoral foi marcado pelos candidatos se apresentando ao eleitor. Vejamos como se posicionam futuramente, principalmente com Dilma chegando perto de ganhar no 1º turno.

sábado, 7 de agosto de 2010

O Significado do Vice

Com o fim da Copa, as eleições são o assunto do momento, pelo menos até fim de outubro. Um tópico que surgiu como nunca é a escolha dos vices de candidatos à presidência. Geralmente, ninguém nem sabe o nome deles, muito menos o que fazem. Talvez seja influência de José Alencar, ilustre vice de Lula; ou pelos problemas de saúde de Dilma, que poderia ter um piripaque e termos o vice como presidente; ou ainda o drama todo que fizeram pra tentar emplacar Aécio Neves como vice de Serra, o que já tinha sido dito aqui que era impossível. Mas provavelmente por todos esses fatores e mais uns outros, os vices ganharam espaço nas eleições deste ano. O que muitos não percebem é o que motivou a escolha de cada um.

O vice de Dilma é Michel Temer, do PMDB. Dilma não precisava de um nome popular pra sua chapa, o apoio de Lula é mais do que suficiente pra alavancar votos. De fato, Temer não foi escolhido pras eleições; pensava-se já em um futuro governo. Membro do maior partido do Brasil, sua indicação já garante um grande apoio (pelo menos em tese, pois o PMDB é bastante fragmentado). E por ser Presidente da Câmara, possui experiência e contatos políticos que facilitam a formação de alianças que serão essenciais pra governabilidade, problema que Lula enfrentou em seu primeiro governo.

Serra, por outro lado, escolheu como vice o deputado federal do DEM, Índio da Costa. Reforçou, desta forma, os laços com seu tradicional aliado, o antigo PFL, mas o principal motivo foi outro. Serra padece da eterna comparação entre os governos de FHC e Lula, restando explorar o grande ponto fraco do governo do PT: os escândalos de corrupção. O deputado Índio foi relator do projeto de lei que combate a corrupção e que caiu nas graças do povo, o Projeto Ficha Limpa. Serra busca, assim, por meio de seu vice, colocar-se como um candidato dedicado ao combate à corrupção, atraindo eleitores desiludidos com o governo atual, apesar dos avanços em outras áreas. Foi uma escolha repentina e questionada dentro do próprio PSDB, mas não deixou de ser uma escolha sensata. Há quem defendesse um vice do Nordeste, região onde Serra tem menos apelo, mas faltava um nome de peso. Menos desastroso, com certeza, que o polêmico senador Álvaro Dias, cotado antes para o cargo.

Por fim, Marina Silva escolheu para vice Guilherme Leal, de seu próprio partido, o PV. A sigla, neste caso, não foi tão importante, e sim o que o candidato representa. Leal é empresário, foi um dos fundadores da Natura, e é um dos homens mais ricos do mundo. Soa estranho pra chapa de uma candidata com um histórico de esquerda, mas exceto por Gabeira, candidato ao governo do Estado do RJ, não há um nome forte no partido de Marina. Cogitou-se uma aliança com o PSOL, para indicar um vice, mas o radicalismo do partido de Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio (que deveria ter indicado a primeira, não o segundo à presidência) impediu qualquer acordo. Inclusive, radicalismo foi o problema em questão na escolha do vice. A candidatura de Marina se apoia no seu histórico, não o de seu partido, mas havia um temor do mercado dela ser um Evo Morales de saia. Guilherme Leal serve então para acalmar o mercado, similar ao papel de José Alencar como vice de Lula, e também para dar um ar de sobriedade à campanha da candidata do PV, que ainda sofre com a acusação um pouco injusta de fundamentalismo religioso.

Cada um dos três principais candidatos, portanto, tem uma grande preocupação na indicação de seus vices: Dilma, o governo; Serra, as eleições; e Marina, o mercado. Se vão atingir seus respectivos objetivos são outros quinhentos. O que é óbvio é que apenas a indicação de um vice não resolve estas questões. E como Marina já disse em uma entrevista, muita água ainda vai rolar.