quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Importância do Equilíbrio

Pois é, a grande final da copa será Holanda x Espanha. O Brasil, infelizmente, nem vai disputar o 3º lugar. Um fracasso, nas quartas-de-final. Como em 2006.

Igual? Nem tanto. Em 2006, havia uma certa arrogância, uma certeza da vitória, que viria sem grandes esforços. O time relaxou, já tinha ganho a Copa passada, e muitos jogadores já sabiam a alegria de vencer, o repeteco não teria a mesma graça. E a derrota veio.

Veio novamente em 2010, mas de outra forma. Muitos culpam Felipe Melo, Dunga, o time inteiro, até o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Não duvido nem que culpem o Lula. Longe de partilhar dessa busca por um algoz, embora Felipe Melo tenha se esforçado pra assumir esse papel, creio que houve outro motivo pra desclassificação: o desequilíbrio emocional. A raiz desse surto é difícil de localizar. Seria leviano chamar de imaturidade, afinal, a Seleção era formada por jogadores experientes, inclusive, com a média de idade mais alta da história do Brasil nas Copas. Pode ter sido o regime fechado que estressou os jogadores; o treinador que não soube lidar com a situação; a pressão de todos os lados, principalmente da imprensa, etc. O que é claro é que isso não surgiu de uma hora pra outra.

No jogo de abertura, o Brasil ganhou de 2 a 1 da Coréia do Norte, com uma certa dificuldade. A ansiedade de marcar o 1º gol deixou o time nervoso, buscando qualquer abertura em um time fechado, que impedia a Seleção de jogar livremente. O gol veio; dois, na verdade, mas achando que estava prestes a golear, deu bobeira e levou o gol. No finalzinho, mas aí se intimidou e passou o restante do jogo se protegendo de mais um.

Vieram então os outros jogos. Contra a Costa do Marfim, um time mais aberto, os gols vieram mais facilmente. Abriram 3 a 0, e mais uma vez, confiantes no resultado, levaram um gol bobo. Portugal aprendeu a lição de como jogar contra o Brasil, e manteve-se fechado. Já classificado, o Brasil jogou pouco, tendo novamente dificuldade em achar gol. Mereceu o resultado: 0 a 0. Finalmente, pelas oitavas-de-final, enfrentou o Chile, que parece não ter aprendido nada com os adversários anteriores da Seleção e tentou lançar-se ao ataque. Dando a liberdade que o time queria, o Brasil ganhou fácil, 3 a 0.

Antes do fatídico jogo contra a Holanda, há no interlúdio o episódio já relatado no blog entre o técnico Dunga e a imprensa. Por mais pleno de razão que estivesse, seu destempero demonstrou certa insegurança, a necessidade de confronto, mesmo depois da conquista. O treinador, geralmente, dá sua cara ao time, portanto...

Brasil e Holanda, enfim. Ótimo 1º tempo, poderia ter definido o jogo, mas ficou no 1 a 0. Diferente do que alguns pensam, o time voltou igual do vestiário, nada mudou. Voltaram com a confiança de que podiam abrir goleada. E fizeram um gol... contra. Falta cobrada por Sneijder, choque entre Felipe Melo e Júlio César, a bola resvala levemente na cabeça do primeiro e segue rumo ao gol. Erros ocorrem, como ocorreram contra Coréia do Norte, Costa do Marfim... mas desta vez, o erro deixou o placar em 1 a 1. Não havia uma zona de conforto, só tensão.

Alie-se a isso, quem diria, a malandragem holandesa. Os laranjas caíam, rolavam no chão em cada encontro mais forte, testando a paciência dos brasileiros. E essa catimba, tão típica do futebol brasileiro, desestabilizou o time. O velho feitiço voltou contra o feiticeiro. Dunga, inconformado com a situação e a atitude do árbitro, grita, briga, bate. O time também. Aí a virada veio, em uma falha geral na defesa de um escanteio. Sneijder, baixinho, sozinho, de cabeça. Jogador mais próximo? Felipe Melo.

O Brasil, então, entra em desespero. Jogava melhor e passa a perder o jogo. E os holandeses só no cai-cai. Em uma dessas, Robben fez mais um drama, e em um misto de raiva e pressa, ele, é claro, Felipe Melo, pisa no jogador como se procurasse a bola, mesmo que fosse pra arrancar de dentro dele. Cartão vermelho. O desespero cresce, mas dá espaço à desilusão. A raiva se perde em olhares perdidos, perguntando-se o que houve. Tudo dando errado, cada um tenta resolver como pode, não acreditando no desfecho. Mas as cortinas fecham e a derrota é uma certeza. Fim de jogo: Holanda 2, Brasil 1.


Moral da história: o Brasil de 2006 mostrou que não basta ser o melhor, é preciso fazer o seu melhor para vencer. Um indivíduo menos capaz sempre pode superar aquele mais hábil compensando o déficit de habilidade com esforço. Por outro lado, o Brasil de 2010 nos mostrou mais um aspecto essencial para o sucesso. Não basta ser o melhor nem fazer seu melhor se em face a adversidades, você perde o controle. O equilíbrio psicológico e emocional evita o pânico, mantém o foco e traz consistência nos resultados. Sem isso, todo grande obstáculo provar-se-á o fim do caminho, antes tão simples.

Que sirva de lição pra próxima Copa. Até 2014.