sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mães em Dobro

Que semana movimentada!

Ciro sai da disputa presidencial, Corinthians perde pro Flamengo na Libertadores (pra minha felicidade), o Banco Central eleva os juros pela primeira vez em sei lá quanto tempo, e Lula é eleito pela revista Time como um dos líderes mais influentes do mundo (achava-se que era o mais influente, mas a Time meio que corrigiu isso).

Há uma notícia, no entanto, que recebeu menos atenção e acredito ser muito mais relevante. Em decisão inédita, o STJ manteve a adoção de uma criança por um casal de lésbicas no RS. Quer dizer, uma criança a menos sem família, sem alento, sem amor, esperando em vão ser adotada. Já que o Congresso emperra leis que garantiriam esses e outros direitos a homossexuais, restou ao Judiciário tomar alguma atitude.

Essa resolução é importante porque abre precedente para outros juízes autorizarem a adoção de outros casais do mesmo sexo. Todos concordam que uma criança em uma família é melhor pra todo mundo, mas há quem fique com o pé atrás, alegando a quantidade de preconceito que a criança pode sofrer na sociedade, e principalmente na escola. A realidade é: essa criança irá sofrer preconceito? Com certeza. Mas isso significa que se deve ceder a ele, em vez de encará-lo?

Se há algum problema, é dos preconceituosos, não com quem sofre com isso; não se pode culpar quem é vítima. Mesmo porque criança não tem preconceito, ela o aprende com nós, adultos. Ou seja, a culpa, quando a criança caçoa a outra por ter pais homossexuais, é de seus pais incompetentes que não lhe ensinaram a conviver com a diferença. Pelo menos agora, ela e muitas outras crianças terão a chance de interagir com uma realidade diferente. E de qualquer forma, criança procura qualquer motivo pra zoação. Se não for dois pais ou duas mães, vai ser outra coisa. E se há algo que vence e dá forças na luta contra o preconceito, é o amor da sua família.

Ouvimos todo dia sobre vitórias e derrotas, perdas e ganhos, altas e baixas; seja no futebol, na política, na economia, ou no que for. Assim, torna-se raro, no meio disso tudo, ouvir de uma vitória do amor, que é tão mais precioso. Feliz forma, portanto, de terminar a semana. Aproximando-se do Dia das Mães, essas mulheres podem e devem celebrar. Em dobro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eleições 2010

Já foi dada a largada pras eleições deste ano, embora não oficialmente.

Dilma era a candidata natural do governo, e Serra enrolou pra confirmar o que todos já sabiam, que ele se candidataria a presidente. Há quem pensasse que Aécio fosse se candidatar, ou então aceitasse o cargo de vice. Pura ilusão, ou só se ele fosse muito burro, o que não é.

Pelo que as pesquisas mostram, Serra seria eleito presidente. E há mesmo quem ache que ele vai ganhar. Pois bem, que fique claro: Serra jamais vencerá. Sem chance. Nem que os pólos magnéticos da Terra se invertam. Ok, talvez se houver um grande escândalo no governo que derrube a popularidade de Lula e envolva Dilma de forma comprometedora. Isso, aliado a uma campanha desastrosa do PT, o que é de se duvidar.

O motivo dessa certeza é simples. Por mais incrível que pareça, muitos ainda não sabem que Dilma é a candidata de Lula. Alguns sequer a conhecem. A pesquisa do Datafolha de 15 e 16 de abril confirma essa tese.

Como é possível ver na imagem abaixo:

89% dos entrevistados conhecem Dilma. Serra, 97%.
Apenas 16% conhecem muito bem Dilma. Serra, 34%.
39% só conhecem Dilma de ouvir falar. Serra, 29%.
E 11% nunca ouviram falar de Dilma. Serra, apenas 3%.


A pergunta seguinte mostra que apenas 61% dos entrevistados sabiam que Dilma é a candidata que Lula apoia. Alguns erraram, e outros 28% disseram que não sabiam.


Finalmente, 38% dos entrevistados disseram que votariam com certeza no candidato apoiado por Lula. 27%, talvez. 3% deram outras respostas e 5% não souberam dizer.


Pesquisas refletem a opinião do momento, que pode variar muito para cima e para baixo. No entanto, é de se esperar que dos 28% que não conhecem Dilma, a grande maioria é das classes mais baixas, base do eleitorado de Lula. Quando a campanha começar e Dilma se tornar mais conhecida, é natural que suba bastante nas pesquisas.

Independente disso, Dilma já teria, em tese, 38% dos votos garantidos. E se metade dos 27% que talvez votassem no candidato de Lula decidissem por Dilma, ela teria, no mínimo, 51% dos votos. Ou seja: Dilma presidente, e eleita em 1º turno.

Portanto, menos de 6 meses antes das eleições, este blog faz sua previsão: Dilma será eleita presidente. Talvez, no 1º turno. A ocorrência de 2º turno, contudo, não dependerá do sucesso de Serra. Ele já é conhecido por ter sido candidato antes, atingindo seu limite de intenção de votos, já que não possui nada a oferecer de novo. Tudo dependerá do desempenho de outros candidatos: Ciro Gomes (se conseguir vencer as pressões de Lula e seu partido para se candidatar), mas principalmente Marina Silva, que pode surpreender.

(Imagens retiradas do Blog do Fernando Rodrigues)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Projeto Ficha Limpa: pra que?

Certa vez, andando pelo Conjunto Nacional, fui parado por um velhinho boa gente para eu conhecer o Projeto Ficha Limpa e assinar em favor dele. Sem pensar muito, cedi ao seu apelo e assinei. Hoje, tempos depois, me arrependo.

Agora que a votação desse Projeto está em pauta no Congresso, é importante que a população saiba do que se trata. Em síntese, o projeto de lei (PL) quer fortalecer as regras de inelegibilidade, dificultando a candidatura de políticos com a tal "ficha suja", ou seja, que foram condenados por algum crime grave (desde racismo, homicídio e exploração sexual de menores até crimes contra a administração pública, crimes eleitorais e lavagem ou ocultação de bens). Até aí, parece ótimo.

O problema surge em outra questão. Torna-se inelegível também o político que foi APENAS denunciado por um desses crimes a um tribunal competente. Ou seja, enquanto o candidato não resolver essa denúncia e provar que é inocente, fica fora do pleito. Isso significa acabar com a presunção da inocência, de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Ir contra um dos mais básicos preceitos legais não só é uma idéia absurda como também inconstitucional. Fazendo uma pesquisa, vê-se que o PL vai contra o artigo 5o, inciso LVII da Constituição, que diz: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória", que repete a idéia que ninguém é culpado até que seja julgado e condenado. Resumindo: o Projeto Ficha Limpa é inconstitucionalissimamente (sempre quis usar essa palavra!) absurdo.

Os defensores do projeto dizem que este não é inconstitucional, porque a questão da inelegibilidade é uma questão administrativa, não criminal; quer dizer, o candidato não vai pra cadeia por ser denunciado, nem perde os direitos políticos ou de cidadania, inclusive o de voto. Mas e se ele é denúnciado por algum desses crimes em ano eleitoral, por seja lá quem for, e provar-se depois que era inocente quando já não pode se candidatar mais? Tenta de novo em 4 anos? Não dá.

É importante ressaltar também que, no Brasil, fabricar uma denúncia é fácil pros poderosos; ser condenado, não. Quantos políticos que sabemos que não valem nada foram condenados por crimes que sabemos que cometeram, ou pelos muitos mais que nem sequer imaginamos? Simplificando: quantos políticos são condenados? Além disso, como disse, imagino facilmente políticos criando denúncias contra os adversários, com documento e tudo, pra impedir as suas candidaturas. Isso não é fora da realidade, já vi ocorrer em política estudantil; e pior, funcionar.

Criar mecanismos pra tentar impedir a candidatura de alguns “zé-ninguéns” não vai mudar nada enquanto os poderosos vão continuar livres, elegendo-se independentemente do que façam. Quem tem poder pode até receber denúncia, mas talvez vai estar mais compelido a comprar tudo que é advogado, promotor e juiz pra não ser condenado, o que no fim não mudaria nada. É necessário, sim, ser rígido; é um absurdo que políticos renunciem pra não sofrerem processos de impeachment, mas é preciso lutar contra a impunidade, não por mais leis e regras rígidas que engessam o Estado e a democracia.

Acho que a questão ainda vai além: o advento de um projeto de lei como esse ilustra a visão de que o brasileiro não sabe votar. Isso pode até ser verdade, mas se queremos eleger políticos melhores, precisamos tratar do cerne da questão, que se encontra em duas bases: a nossa consciência social e política; seja na noção de coletivo e sociedade, seja no papel atribuído ao Estado; e o sistema político-eleitoral brasileiro e a necessidade de sua reforma (ambos tópicos sobre os quais dissertarei em outra ocasião). Como o primeiro só se muda com o tempo, pela educação, pela experiência e pelo bom exemplo, mais do que tudo, faz-se urgente a reforma política no Brasil.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Amizade.

O dia do amigo já foi, mas hoje me encontro refletindo sobre a amizade. O que é um amigo? Um parceiro fiel e leal, em quem podemos confiar? Uma pessoa com quem cultivamos um afeto mútuo? Simplesmente alguém com quem mantemos boas relações? Ou uma companhia conveniente pra nos livrar da solidão nos momentos oportunos?

Acho que um pouco de tudo. Há amizades que se formam em uma noite e duram uma vida, enquanto outras amizades que se constroem por uma vida terminam em uma noite. Certa vez li em uma pesquisa que, geralmente, mudamos a maioria de nossos amigos a cada 7 anos. É natural essa mudança, considerando que 7 anos é um espaço grande de tempo, e nesse período, mudamos de casa, trabalho, escola; enfim, mudamos, assim como eles mudam também.

A mudança maior, no entanto, reside dentro da pessoa. Ocorre frequentemente um descompasso entre amigos, um erro de sintonia no passar do tempo que empurra ambos, mesmo quando involuntário, a caminhos separados. Assim, no que um dia seria um reencontro, acham-se perdidos, desencontram-se, pois não reconhecem mais o amigo que um dia deixaram pra trás.

O que não muda, nem deve mudar, é o afeto. Não podemos esquecer o que cada pessoa deixou em nós, como contribuiu em nossas vidas. E se amizade terminar, não devemos guardar rancor, querer o mal. O fim é inevitável, venha ele como vier, e nos resta apenas desejar o bem àqueles que não participam mais de nossa vida, mas que certa vez deixaram o nosso dia mais feliz apenas por existirem.

A amizade é a relação que, por mais que seja temporária, devemos sempre resguardar. É o convívio voluntário por excelência, diferente daquele ungido por laços sanguíneos ou firmado em cartório. É frágil, volátil, vem e volta, como todo bem precioso, mas nunca pode deixar de estar presente. E se um dia uma amizade murchar, como todas coisas belas hão de fazer um dia, logo surgirá outra, na qual devemos nos empenhar novamente, como a primavera que age sem esperar o inverno.

Os amigos são muito nessa vida, é verdade. E em todas as suas possibilidades, encontraríamos maravilhas a serem desfrutadas. Mas se pudesse atribuir a eles uma única função, apenas uma dentre tantas que nos servem, seria a de aliviar o nosso fardo de viver.

Dedico, então, esse texto a todos meus amigos: novos ou velhos; próximos ou distantes; aos que foram e voltarem um dia; aos que foram e não voltam nunca mais.