quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Por que a vitória de Serra é uma derrota para o Brasil

O blog se ausentou por um tempo neste momento crucial da história brasileira justamente pelos esforços de mobilização da campanha do 2º turno. Porém, há momentos, na vida e na política, nos quais é preciso tomar partido e se posicionar de forma clara. Portanto, este blog declara-se integralmente a favor da candidatura de Dilma, mas principalmente contra a candidatura de Serra à Presidência por crer que sua vitória é prejudicial ao país. Mais do que isso: será uma derrota para o Brasil.

Existe hoje uma inquietação no ar, uma movimentação que não ocorre desde 1989. São estudantes, professores, trabalhadores, sindicalistas, intelectuais, artistas, gente de diversos setores da sociedade se mobilizando por uma causa. Esta causa é a eleição de Dilma.

Dilma, hoje, representa muito mais que a manutenção e continuidade dos avanços sociais e econômicos do governo Lula. Ela é também uma vitória para as mulheres, a primeira a ser presidente. Ela não veio do nada, como gostam de dizer; são mais de 20 anos de vida pública: foi Secretária da Fazenda no governo de Porto Alegre; Secretária Estadual de Energia, Minas e Comunicações do governo do Rio Grande do Sul; participou do grupo que elaborou o programa de governo de Lula na área energética e, destacando-se entre os demais, a “companheira com um computadorzinho na mão” foi escolhida para Ministra de Minas e Energia; e finalmente, devido a sua competência e lealdade, foi nomeada Ministra-Chefe da Casa Civil, o cargo mais próximo do presidente. Uma carreira exclusivamente ascendente, por meio do mérito e sem máculas.

O simbolismo da eleição de Dilma, no entanto, vai além. Ela representa o “não” da sociedade para o retrocesso, para as calúnias e manipulações perpetradas por uma elite raivosa que não se contenta em estar fora do poder. Um “não” ao anseio pernicioso de devolver ao Brasil o status de país de segunda categoria, uma república de bananas retrógrada e arcaica. Mais do que isso, um “não” à perda de soberania do povo brasileiro sobre o seu próprio destino. Tudo isso ao qual Dilma se opõe é o que, hoje, a candidatura de Serra representa.

É preciso conhecer quem é José Serra. Sua carreira, primeiro de tudo, não é tão bela como gostam de ilustrar. Como deputado na constituinte, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) lhe deu nota (de 0 a 10) 3,75 por sua atuação. Ainda como parlamentar, declarou ser o criador do FAT e do Seguro Desemprego; porém, o primeiro foi criado pelo deputado Jorge Uequed, e o segundo pelo presidente José Sarney. Ok, mas como ministro fez muito. Foi chefe do Programa Nacional de Desestatização e coordenou as grandes privatizações do governo FHC. Depois, como ministro da Saúde, inventou os genéricos, pelo menos de acordo com ele; o criador foi, na realidade, Jamil Haddad, ministro da Saúde de Itamar Franco.

Depois desses cargos, foi candidato a presidente da República, perdendo a disputa com Lula. Sem cargo e buscando uma plataforma para uma futura candidatura ao Planalto pela 2ª vez, Serra elege-se prefeito de São Paulo. Questionado se iria deixar o cargo para concorrer ao governo do Estado, o tucano assina uma declaração, registrada em cartório, na qual garante ficar na prefeitura pelos 4 anos de governo. Não cumpriu, e foi candidato ao governo do Estado. Recentemente, disse que, como prefeito, criou o Bilhete Único e o programa “Mãe Paulistana”; contudo, mais uma vez, apropriou-se de feitos dos outros: ambos foram criações de Marta Suplicy. Enfim, como governador, mais uma vez não cumpriu o mandato, o qual, por sua vez, foi marcado por CPIs enterradas, policiais invadindo a USP e batendo em professores grevistas, polícia militar e civil se batendo na rua, vigas do Rodoanel despencando e deixando feridos, entre outros casos.

Mesmo assim, Serra conseguiu tornar possível a sua 2ª candidatura à presidência. Desde então, sua campanha passou por vários momentos. Começou como “Zé Serra”, o digno sucessor de Lula. Como não funcionou, atacou Dilma pela quebra de sigilo de pessoas próximas a ele, que como se descobriu mais recentemente, partiu do jornalista Amaury Ribeiro Jr., acusado de ser ligado ao PT. Na verdade, ele trabalhava na época para um jornal ligado a Aécio Neves, do PSDB. Logo, surgiu a hipótese de um possível fratricídio tucano na disputa pela candidatura à Presidência. Agora, o jornalista divulgou uma carta que, de acordo com suas investigações, revelaria corrupção no processo de privatizações durante o governo FHC, envolvendo, inclusive, José Serra.

De qualquer forma, como a quebra de sigilos ocorreu em 2009, e já era de conhecimento do próprio candidato no começo do ano, seu uso oportuno na campanha falhou. Vieram então as acusações de tráfico de influência contra Erenice Guerra, ex-assessora e sucessora de Dilma na Casa Civil. Finalmente, deteve a ascensão de Dilma nas pesquisas e reverteu a sua tendência de queda. Serra passou então a adotar um tom nacionalista e depois conservador. Ciente de que apenas a comparação entre os dois projetos jamais lhe daria a vitória, colocou a religião na campanha, e sem medo de colocar o país em um retrocesso político, tornou as eleições em um plebiscito sobre o aborto. Deu certo, e graças a Marina Silva, a disputa foi levada ao 2º turno.

A questão do aborto evidenciou a clara tentativa de manipulação sobre a sociedade e a fragilidade do debate político brasileiro por permitir que a população se deixasse levar por um tema insignificante para a agenda dos interesses nacionais. Revelou, também, um conservadorismo e uma certa hipocrisia, características infelizes das relações sociais no Brasil. A hipocrisia maior, entretanto, restou a Monica Serra, esposa do candidato tucano. Depois de alertar uma eleitora que a “Dilma é a favor de matar criancinhas”, duas de suas ex-alunas vieram a público declarar que a mesma Monica, enquanto professora, admitiu ter feito um aborto durante a ditadura. A campanha divulgou uma tímida nota negando o fato, enquanto as alunas confirmaram a história. Desde então, a esposa de Serra tem feito aparições mais tímidas junto ao candidato, e o tema em questão, “abortado” do debate.

No 2º turno, Serra continuou com sua postura nacionalista, pseudo-carismática e religiosa, com direito a imagens de bebês nascendo e uma fileira de mulheres grávidas em seu programa de TV. Não cessou os ataques ao PT, explorando o que fosse possível para envolver Dilma em escândalos, sem grande sucesso. O ataque mais eficiente, contra Erenice, foi então contrabalanceado pelo caso de Paulo Preto, ex-diretor da Dersa, que teria desviado R$ 4 milhões de um caixa dois tucano. O mesmo ainda foi preso meses antes por receptação de joias roubadas, sendo solto por pressão de membros do governo do Estado à delegacia. Sua influência e presença são tão grandes no PSDB de São Paulo que uma de suas filhas trabalha no governo de Serra desde quando prefeito, e depois que ameaçou publicamente que “não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada”, Serra, que a princípio sequer reconheceu sua existência, voltou atrás e admitiu conhecê-lo.

Todavia, ainda há um elemento mais sorrateiro, subterrâneo e sujo nessa campanha que circula longe do noticiário e do horário político. Desde antes do início da campanha eleitoral, houve uma central de boatos que, com a conivência ou omissão da grande mídia, passou a influenciar os eleitores. Tudo começou com a infame ficha criminal de Dilma durante a ditadura, que detalharia seus crimes e delitos da época. A ficha foi divulgada inclusive pela Folha. Após a análise de peritos, no entanto, descobriu-se que a ficha era forjada, com claros indícios de manipulação. Em sua defesa, a Folha declarou que recebeu a ficha por e-mail e não podia atestar a sua veridicidade. Pois é: por e-mail.

Por e-mail que também começaram a circular os mais diversos rumores e calúnias. Foi dito que Dilma havia matado alguém na ditadura; que estava morrendo e iria morrer em breve; que seu vice, Michel Temer, era satanista; que sua candidatura havia sido impugnada pela Justiça Eleitoral; que disse “nem Cristo” tirar-lhe-ia a vitória; que era proibida de entrar nos Estados Unidos pelos atos que teria cometido na ditadura, etc. A mais recente foi a que Dilma teria nascido na Bulgária e, portanto, não era brasileira. O repertório de fábulas é interminável, e seus disseminadores, anônimos.

Ou nem sempre. Descobriu-se que uma das “centrais” da rede de boatos na Internet era coordenada de Brasília por Nei Mohn, presidente da “Juventude Nazista” em 1968. Fora da Internet, a trama de boatos também vazou. A mais recente edição da IstoÉ identificou a origem dos 2 milhões de panfletos ilegais apreendidos pela Polícia Federal em uma gráfica de São Paulo. A trama é tão complexa, que os panfletos teriam sido encomendados por um monarquista e católico ultratradicionalista, parceiro de um integralista (o equivalente ao fascismo no Brasil) que já havia doado R$ 3,5 mil a uma campanha do vice de Serra, em nome de um bispo, na gráfica da irmã de um dos coordenadores de campanha de Serra.

Não bastasse neo-nazistas, monarquistas e integralistas, Serra também conseguiu a adesão dos setores mais conservadores da Igreja Católica, como a Opus Dei e a Tradição, Família e Propriedade (TFP), além de grande parte dos pastores evangélicos mais radicais, com destaque ao pastor Silas Malafaia, que apareceu no horário eleitoral de Serra pedindo votos para o candidato, e é inimigo número um de homossexuais em razão de sua cruzada de ódio contra a conquista de direitos civis pelos mesmos.

E falando em nazismo, Serra parece ter aprendido bem com eles. Sabe-se que a propaganda nazista era das mais brilhantes e influentes. Goebbels, ministro de propaganda do regime, uma vez disse que “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Baseado nessa ideia, Serra repetiu, incessantemente, o mantra “Serra é do bem / Serra é do bem” em seu horário eleitoral da TV e rádio, como se quisesse convencer pelo cansaço.

Hitler, por outro lado, afirmou que “as grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha”. Serra é notório por sua postura arrogante e autoritária, além de fazer de tudo pra conseguir o que quer. Nas palavras de Ciro Gomes, “se precisar, o Serra passa com um trator por cima da cabeça da própria mãe”. Portanto, a campanha tucana utiliza uma eficiente tática psicológica de afirmar o total oposto do que algo aparenta ser. Se diversas pessoas próximas ao candidato afirmam que ele é mau caráter, por que tanta gente no programa dele fala, dia após dia, que ele é uma boa pessoa? Essa antítese gera uma confusão mental que acaba admitindo a possibilidade: “Serra é do bem / Serra é do bem”.

Na realidade, não é do “bem” que Serra é candidato, mas de seu principal aliado: o DEM (ex-PFL/PDS/ARENA/UDN), partido que reúne conservadores, latifundiários e políticos que sustentavam o regime militar. O vice de Serra hoje é Índio da Costa, mas antes o mais cotado para o cargo era José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, preso depois do seu envolvimento em um escândalo de corrupção. Não se pode esquecer também de um de seus mais ilustres membros, agora falecido: Antônio Carlos Magalhães, o ACM. Também conhecido, para os mais íntimos, como Toninho Malvadeza.

Serra ainda conta com um importante aliado que tem feito a diferença nas eleições: a grande mídia. A Globo, o Estadão, a Editora Abril (principalmente por meio da Revista Veja) e, em menor escala, a Folha, que são os mais poderosos meios de comunicação no país, têm apoiado sistematicamente o candidato tucano, seja por ataques contínuos a Dilma, seja por acobertar ou omitir o que poderia prejudicar Serra. O Estadão, depois das críticas de Lula à suposta imparcialidade da mídia, declarou ser abertamente a favor de Serra. Os outros, no entanto, ainda fingem imparcialidade. A Veja, semana após semana, procura derrubar Dilma com um novo escândalo, real ou fabricado. A última edição passou dos limites e inventou grampos que indicariam que Dilma teria ordenado dossiês contra adversários. Se fosse verdade, o fato seria amplamente divulgado e investigado. Na ausência de provas factíveis, a edição da revista mostra o desespero em derrubar o PT do poder.

O caso mais emblemático das farsas e do apoio da grande mídia foi causado por uma simples bolinha de papel. Em um comício no Rio de Janeiro, houve confusão entre militantes tucanos e petistas, e do caos, alguém teria arremessado um objeto pesado na cabeça de Serra, que passou mal. Houve quem disse que o objeto parecia ter 2kg, depois apenas 0,5kg, um rolo de fita crepe. O tucano então foi ao hospital, fez tomografia, e após o médico não constatar nada, recomendou repouso.

Tudo estava armado para culpar os petistas por violência, se não fosse uma câmera do SBT que flagrou nada além de uma bolinha de papel sendo atirada no candidato e o seu drama após um telefonema, possivelmente do marqueteiro recomendando explorar o episódio. Os aliados de Serra insistiram na tese da violência, alegando que o objeto em questão era outro, além da bolinha de papel. E neste circo, a Globo mostrou em seu noticiário um borrão que, de acordo com um perito de reputação questionável, seria o segundo objeto que feriu o candidato. Tudo seria perfeito se não fosse a Internet. Especialistas desmentiram o video e mostraram que Serra nem se abalou pelo suposto objeto: era apenas o cabelo da pessoa logo atrás.

Em suma, há algo de muito errado quando os setores mais conservadores e poderosos da sociedade, juntos à grande mídia, aliam-se a um candidato. Não surpreende então que eles busquem, por meio de qualquer artifício, manipular o povo brasileiro para elegê-lo. Sabiam que, na comparação entre os governos FHC e Lula, Serra sairia na desvantagem; portanto, arquitetaram a desconstrução da imagem de Dilma, distanciando-a de Lula e dos valores morais do brasileiro. Se não era possível provar que Serra era melhor, que ao menos fosse o menos pior. De fato, Dilma pode não ser a candidata perfeita: não possui nem o carisma de Lula nem a oratória eloquente de FHC; porém, ela representa hoje a única força que luta contra o que há de mais arcaico e nefasto por trás de Serra.

Chegamos em 2010 no melhor momento de nossa história. Avançamos muito nos últimos 8 anos e, atualmente, o governo Lula tem 83% de aprovação popular. Com uma aprovação tão alta, ficam as perguntas: como podemos eleger então um candidato de oposição ao governo? Aceitaremos passivamente a manipulação da mídia em busca de seus interesses? Permitiremos que a mentira prevaleça e triunfe sobre a verdade como fórmula para o sucesso? É essa a mensagem que enviaremos ao mundo? No dia 31 de outubro, há uma única mensagem que vale a pena, pelo bem do Brasil: votar em Dilma para presidente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Reta Final da Campanha

Faltando menos de uma semana para as eleições, a disputa para a Presidência se acirra. Paira no ar a dúvida se haverá vitória de Dilma no 1º turno ou se ela e Serra disputarão um 2º turno. Tudo indica que o resultado, independente de qual seja, será por uma pequena margem. Vejamos, portanto, como andam as campanhas dos candidatos.

Serra já fez de tudo até agora. Primeiro, colocou-se como candidato do povo, tornando-se o "Zé Serra", sucessor legítimo de Lula, com direito a imagens do presidente em seu programa de TV. Como previsto antes aqui no blog, não funcionou. Ainda evitando atacar Lula, preferiu partir pro ataque a Dilma. Começou explorando a quebra de sigilo dos dados de sua filha; porém, como também previsto aqui, não funcionou mais uma vez. Veio então a denúncia da revista Veja sobre o tráfico de influência cometido pelo ex-braço direito e sucessora de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra. O ataque teve efeito, e com a queda de Erenice, Serra furou a blindagem de Dilma, mas pouco. Percebendo que os ataques não funcionariam, o tucano mudou de tom mais uma vez, e desta vez até que acertou. Se não era possível provar que Dilma era ruim, tentou mostrar que ele é bom. Serra virou o candidato "do bem", evocando experiência, competência e patriotismo na tentativa de compensar a falta de carisma. Resta saber até onde vai funcionar esta nova estratégia, que pelo menos rendeu a recuperação de alguns pontinhos nas pesquisas.

A campanha de Dilma, por outro lado, continuou insistindo no apoio de Lula e no sucesso de seu governo com vídeos cinematográficos, dignos de Hollywood. Parece, no entanto, que esta estratégia saturou o eleitor. Por não apresentar mais nada de novo, alguns eleitores da petista começaram a olhar pro outro lado. Além disso, Dilma também falhou em se defender de forma mais clara dos ataques de Serra, deixando a Lula o trabalho de dizer que a oposição fazia uma campanha suja. Ignorar os ataques e deixar aos outros o trabalho de respondê-los provou-se um erro. Assim como Mercadante percebeu que apenas se defender de Alckmin não funcionava, Dilma deveria ter explorado as fraquezas de seu adversário, o que não fez. Isso, e a falta de carisma demonstrada nos debates, apesar de melhores respostas que seu oponente tucano, têm desgastado sua liderança nas pesquisas e colocado em risco sua vitória no 1º turno.

Nesse embate azul e vermelho, é a verde que tem mais se beneficiado. Marina tem subido sistematicamente nas pesquisas, ponto a ponto, destacando-se nos debates enquanto Dilma e Serra duelam entre si. Apesar do tempo diminuto nos programas de TV, Marina apresentou sua história de vida e explorou o apoio de artistas e personalidades famosos à sua campanha. Buscando mostrar-se como alternativa, a estratégia tem funcionado, roubando votos principalmente de Dilma. Com pouco tempo para 3 de outubro, contudo, a candidata do PV dificilmente terá tempo suficiente para subir o bastante e alcançar o 2º lugar. Ademais, Marina tem conquistado as classes alta e média, mas tem dificuldade de angariar votos dos mais pobres, que carecem de um conhecimento profundo do que ela já fez ou defende. A falta de clareza nas suas propostas para outras áreas além do meio ambiente também desestimula eleitores que buscam uma alternativa.

Por fim, para o governo do Estado, há pesquisas que indicam o desgaste de Alckmin com ascensão de Mercadante, o que pode também levar a disputa ao 2º turno. Agora tudo depende desta última semana e o tom que cada candidato vai adotar em seus respectivos programas de rádio e TV, além do debate na Rede Globo, o mais importante. Resta acompanhar o que promete ser uma semana bem movimentada.

domingo, 19 de setembro de 2010

Por que Alckmin e 20 anos de PSDB são ruins pra São Paulo

No fim deste ano, o PSDB completará 16 anos no poder em São Paulo. Se Geraldo Alckmin for eleito, São Paulo completará 2 décadas sob o domínio do PSDB, praticamente o mesmo tempo que o Brasil viveu sob a ditadura militar. Será possível que isso é bom?

Antes de tudo, é importante saber quem é Alckmin. E, falando em ditadura, é interessante saber o que cada candidato ou político fez neste período histórico. Lula, como se sabe, era líder sindical; Dilma era membro de organizações da luta armada; Serra foi exilado; e Mercadante foi líder estudantil e militante pela causa democrática junto a pastorais. E Alckmin? Bem, em seus pronunciamentos, Alckmin se gaba de ter sido um dos vereadores mais jovens do país, aos 19 anos, e depois prefeito aos 23, em sua cidade natal de Pindamonhangaba. Isso ocorreu em 1972 e 1976, ou seja: enquanto os outros estavam na luta contra a ditadura, Alckmin quis ser político.

Tudo bem, podem dizer, mas ele se candidatou pelo MDB, partido de oposição ao regime militar, e não pelo ARENA. Ele poderia ter lutado contra a ditadura por dentro, do seu modo. A realidade, contudo, é bem diferente. Alckmin nunca levantou a bandeira de democratização; pelo contrário, elogiou publicamente o presidente Médici, o maior carrasco do regime. Não era à toa: seu pai era militante da UDN, o partido conservador da elite nacional antes do golpe de 1964; seu tio foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal pela ditadura; e pra terminar, seu tio-avô foi ninguém menos que o vice-presidente do general golpista, o presidente Castelo Branco. Com uma família tão poderosa, há de se entender a facilidade de Geraldo Alckmin para subir rapidamente na política.

Independente disso, sua aparência e postura sóbria, ainda que sem sal, faz crer que Alckmin é sério, honesto. Um de seus primeiros atos como prefeito, no entanto, foi nomear seu pai como chefe de gabinete. Como governador, tratou movimentos sociais, sindicatos e greves com desdém. Nada de diálogo, apenas repressão. Também sucateou a Febem, que virou uma escola do crime, deixando milhares de menores em condições subumanas. Ao todo, 23 adolescentes foram mortos dentro da instituição, o que rendeu uma condenação formal da Organização dos Estados Americanos (OEA) ao governo tucano por grave desrespeito aos direitos humanos.

Posando de “paladino da ética”, Alckmin também deu um péssimo exemplo. Ao todo, ele impediu, junto a seus aliados na Assembleia Legislativa, a formação de 69 CPIs, das quais 37 eram pra investigar irregularidades, fraudes e corrupção em seu governo, sendo o caso mais notório o da empresa francesa Alstom.

A Alstom é uma fabricante francesa de equipamentos de infra-estrutura nas áreas de energia e transporte; a mesma que construiu os trens do metrô de São Paulo. A justiça suíça denunciou ao Ministério Público francês que a Alstom havia movimentado milhões de dólares para propina em países como Venezuela, Indonésia e Brasil. O MP francês alertou que as propinas seriam da ordem de US$ 6 milhões no Brasil, enquanto a justiça suíça acredita que seja o dobro, tudo para obter contratos com o Metrô e a CPTM em São Paulo. Desta forma, a Alstom “ganhou” a licitação de todos os contratos durante a gestão tucana. Pior, durante a gestão de Alckmin, o governo do estado comprou 12 trens da Alstom, sem licitação, no valor de US$ 223,5 milhões, em um contrato que o Tribunal de Contas do Estado julgou irregular.

A ligação entre o PSDB e a Alstom foi tão forte que o dinheiro usado em propina foi utilizado para caixa de campanha. As doações, entretanto, foram justificadas como dinheiro pago para convites de um jantar de campanha. Naturalmente, o governo tucano impediu a abertura de uma CPI que investigasse o caso, e ainda hoje, o Ministério Público Federal continua suas investigações com base nos documentos suíços. Enquanto isso, Alckmin, ao mesmo tempo que se diz contra a CPI por falta de “fato concreto”, argumenta que o que ocorre na Assembleia Legislativa, o impedimento da abertura de CPIs, não lhe diz respeito, pois o Legislativo e Executivo são poderes diferentes e independentes. Argumento fraco, pois a base do governo se encontra no Legislativo.

Muitos não sabem sobre esses casos. Se são graves, por que poucos sabem sobre isso? A imprensa paulista em geral blinda o governo tucano: Rede Globo, Veja, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, ou seja, os grandes veículos de comunicação nacionais estão ao seu lado. A revista Veja é o caso mais alegórico, que dispensa apresentação. O elo é tão forte que a Secretaria do Estado de São Paulo fez compra de mais de 5.000 assinaturas da Veja para a revista ser distribuída na rede de ensino público do estado. Tudo, é claro, sem licitação. O mesmo foi feito com outras revistas e jornais que apoiam de alguma forma o governo tucano. Ao todo, foram R$ 9 milhões gastos nessas compras, todas sem licitação, e em geral nos meses de Maio/Junho de 2010, período próximo ao início oficial das campanhas.

Com apoio maciço da mídia, cria-se um ambiente estável, com a crença de que está tudo bem. Comparado ao resto do país, muitos setores estão, de fato, à frente, o que é esperado do estado mais rico da Federação, detentor de 1/3 do PIB nacional. Em outros, nem tanto. A educação é o maior exemplo.

Com a Progressão Continuada, idealizada por Paulo Freire, o aluno é empurrado para a frente mesmo sem ter aprendido. Assim, diminuem-se os números de evasão escolar e de reprovações, o que mascara a realidade. O que Paulo Freire previa era não punir o aluno com a reprovação, mas ajudá-lo com uma educação de qualidade, professores bem preparados, aulas especiais de reforço, etc. Sem tudo isso, torna-se apenas uma aprovação automática, que é o sistema vigente e o mesmo que FHC fez para melhorar os números da educação no Brasil. Pra piorar, o governo do PSDB instituiu um bônus para escolas e professores do estado com os melhores resultados. Parece bom, mas na prática, os professores criam trabalhos e atividades extras com o mero intuito dos alunos ganharem pontos de outros formas e passarem com uma boa nota, compensando o resultado pífio das provas. Ou seja, mais uma vez se esconde a realidade.

O transporte público também evoluiu pouco, enquanto o trânsito só piora. O governo se gaba de expandir o metrô, mas muito pouco foi feito nos últimos 16 anos. O metrô da Cidade do México foi iniciado na mesma época que o metrô de São Paulo, e hoje, tem em volta de 200km em linhas, ao custo de menos de R$ 0,50 por passagem. O de São Paulo, todavia, tem apenas 69km, enquanto o preço de um bilhete é R$ 2,65. Os recentes projetos de expansão apenas surgiram sob pressão, já que o tráfego da metrópole está saturado e porque é necessário melhorar a infra-estrutura para a Copa do Mundo no Brasil.

Pior do que isso é a questão do pedágio. Atualmente, a população de São Paulo paga o pedágio mais caro do Brasil e um dos mais caros do mundo, tudo feito sob o esquema de concessão de rodovias. O lucro das concessionárias é tão grande que é maior que a rentabilidade dos bancos no Brasil. São estradas construídas com dinheiro público e depois entregues ao cuidado de companhias que abusam do cidadão para lucrar.

O pior é que o preço do pedágio é repassado a diversos produtos que consumimos diariamente, devido ao custo de transporte. Ou seja, produtos simples da cesta básica ficam mais caros em razão dos altos preços do pedágio no estado de São Paulo. Tudo por um modelo de gestão do PSDB, espelhado nas privatizações de FHC e repetidas no estado por Mário Covas. E de privatizações Alckmin entende bem: ele foi o coordenador do Programa Estadual de Desestatização do governo Covas.

Muito mais pode ser explorado nos 16 anos de governo tucano em São Paulo. O que importa, no final, é a necessidade de mudança. Quem não conhecia bem Alckmin, agora conhece. Quem não sabia das falcatruas do PSDB no estado, agora sabe. Resta à sabedoria do povo querer mudar e arriscar algo novo, diferente, que tire o estado das mãos de poucos para colocar nas mãos de todos. Neste 3 de outubro, não anule seu voto: vote em qualquer candidato diferente; menos Alckmin. É preciso mudar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Continuação ou Mudança: O Efeito Lula

Com Dilma disparada nas pesquisas, pouco se pode creditar a sua bem produzida campanha ou às trapalhadas de seu adversário. O grande “culpado” é, indubitavelmente, Lula. Muito já se questionou sobre o poder do presidente de transferir sua popularidade para votos em seus candidatos. Houve, de fato, esta transferência, em razão da confiança que as pessoas têm no presidente, mas ela tem limites: Lula tem aproximadamente 80% de aprovação, mas Dilma tem “apenas” pouco mais de 50% nas pesquisas. Por outro lado, Mercadante, seu candidato ao governo do estado de São Paulo, não engrenou sua candidatura, e está em volta dos 20%. Não se deve considerar esta diferença o mérito de um e o demérito de outro: a explicação se encontra na natureza humana.

A força motriz do ser humano é o seu instinto de sobrevivência. Tudo que fazemos é para garantir ou melhorar as chances de sobreviver. E uma vez conquistadas as condições para isso, busca-se uma forma de assegurar sua manutenção em prol de segurança e estabilidade. Por consequência, o ser humano é geralmente adverso a mudanças bruscas no seu estilo de vida por medo de como elas podem afetar as condições às quais está habituado e sob as quais vive de modo satisfatório.

Naturalmente, as pessoas são muito diferentes umas das outras, e algumas estão mais propensas a encarar mudanças frequentes do que outras. Além disso, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, cada indivíduo possui suas necessidades e anseios particulares. Porém, quando o ser humano encontra-se em uma situação que considera desconfortável ou prevê uma que seja claramente melhor, considera então a ideia de mudar. Em seu raciocínio, pesará os prós, que são as condições que proporcionam um maior nível de satisfação; e os contras, que incluem o dispêndio necessário para se adaptar às novas circunstâncias. Sendo os prós maiores do que os contras, inicia-se o processo de mudança.

Nas eleições, este processo fica muito claro. Dilma está na frente porque o povo quer que as coisas continuem como estão. Há um nível de satisfação muito elevado em relação ao governo Lula, e o presidente conseguiu convencer a população, ou boa parte dela, de que sua candidata significa a continuidade do que já foi feito. Por isso a dificuldade de Serra de ser uma alternativa plausível, pois a população não quer mudança, como quis em 2002. Muito menos pode ele assegurar um processo de continuidade, já que é o candidato da oposição e sua imagem sempre será remetida ao governo de FHC, amplamente rejeitado pela opinião pública. O anseio político do momento é melhor expresso pelo slogan da campanha de Dilma, uma frase paradoxal que captou perfeitamente o sentimento do povo brasileiro em 2002 com o de agora: “Para o Brasil seguir mudando”.

O mesmo ocorre no estado de São Paulo. O mais rico da Federação, concentrando aproximadamente 1/3 do PIB nacional, São Paulo está sob o governo do PSDB há 16 anos, rumo a mais 4. Comparado ao resto do país, a situação no estado é visivelmente melhor, e colhendo os frutos desta diferença, o partido tucano conseguiu manter-se no poder por todo este tempo. Alckmin, por já ser conhecido pelo seu tempo como governador, tem facilidade em conquistar votos, porque as pessoas ficam mais tranquilas em saber o que esperar. Apesar da popularidade de Lula, e até de Dilma estar na frente de Serra no estado onde era governador, Mercadante tem dificuldades para subir nas pesquisas, porque não há um anseio por mudança, há uma relutância da população em mudar para algo que não conhecem, principalmente se no presente as coisas funcionam, mesmo que não da forma ideal.

Sabe-se, contudo, que a relutância em mudar gera o comodismo, o que bloqueia a perspectiva de melhoras. Na política, isso é mais evidente e pernicioso. A permanência de um mesmo grupo no poder por muito tempo pode ser extremamente nocivo, pois gera raízes, que buscam consolidar-se cada vez mais fundo na terra, sugando cada vez mais os seus recursos; e galhos, que se espalham e se expandem por cada vez mais áreas e setores, principalmente onde não pertencem. Este seria o caso do PSDB em São Paulo. Por que é ruim manter os tucanos no estado por mais 4 anos será analisado melhor em breve aqui no blog.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O surto golpista de Serra

Faltando um mês pras eleições, com Dilma em eterna ascensão e Serra em eterna queda, surge um novo factóide: a quebra de sigilo dos dados fiscais de Veronica Serra, filha do candidato tucano. Essa história facilmente lembra o que ocorreu com o caseiro Francenildo, o que derrubou Antonio Palocci do Ministério da Fazenda; e, para quem tem boa memória, o que Collor fez nas históricas eleições de 1989 ao atacar Lula também por meio de uma de suas filhas.

Relatos mais recentes indicam que a tal quebra de sigilo ocorreu em setembro de 2009, muito antes do início da campanha. Pode ter partido de algum aloprado do PT, é verdade. Mas nem Lula nem Dilma seriam tão irresponsáveis a este ponto, colocando em risco uma vitória que mesmo antes da campanha era provável. Isso não impediu, no entanto, a leviandade da campanha de Serra de acusar Dilma de ter ordenado o ato, e da candidata ser “uma ameaça à democracia”, palavras do presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Retorna, assim, o foco negativo das campanhas eleitorais: tão presente no passado, e ausente neste ano. Até então.

Serra acusou Dilma de fazer o mesmo que Collor fez com Lula em 1989. Só que, mais uma vez para quem lembra, Collor, para ser eleito, aproveitou-se do temor das classes média e alta em relação a Lula. Inclusive, falando em Collor, o início da ofensiva tucana teve como foco os aliados da candidata petista, como Dirceu, Sarney, Collor, etc, que poderiam voltar ao governo com sua eleição. Argumento fraco, se alguém parar pra olhar em quem são os aliados de Serra. De qualquer forma, o que Serra está fazendo não é diferente. Se Lula era antes uma ameaça à economia, com a prevista fuga de empresários do país, agora Dilma é acusada de ser uma ameaça à democracia. Tentaram já insinuar isso por sua luta durante a ditadura, o que não colou. Mas buscava-se desde o início, como antes, conquistar o povo pelo medo.

Entretanto, o momento de 1989 é muito diferente de hoje. O Brasil saía do impopular governo de Sarney, com a inflação galopante e um desejo de mudanças reais, mas responsáveis. A tática do medo foi então eficaz. Ela foi empreendida novamente em 2002, com toda a especulação financeira no temor da eleição de Lula. Desta vez, o atual presidente se comportou como a mudança necessária e, mais do que tudo, responsável, para substituir o também impopular governo da época de FHC. Assim, o terrorismo midiático e antidemocrático só serviu para assustar os investidores, e não os eleitores, que enfim elegeram Lula.

Em 2005, no auge do escândalo do “mensalão”, a democracia brasileira entrou em risco. Mesmo na falta de provas que ligassem o presidente Lula aos esquemas de corrupção, a oposição do PSDB e PFL (agora DEM) sugeriu o impeachment do presidente, assim como o que ocorreu com Collor. Seria um enorme retrocesso, uma derrota para a democracia, mas era a arma que a oposição queria usar, sem ainda aceitar a derrota de 2002. Só não contavam com a popularidade do presidente. Com o mínimo de sensatez, percebeu-se que derrubar o presidente soaria como um golpe, abalando as instituições ainda frágeis da democracia brasileira. Portanto, seria melhor vencê-lo nas urnas.

Em 2006, havia de fato certa insatisfação com os escândalos do governo, mas também uma consciência de que isso sempre ocorreu. Os avanços socioeconômicos eram maiores do que isso, e o clima era de continuidade. Alheia a isso, a campanha de Alckmin atacou tanto Lula e o PT pelos casos de corrupção que a população solidarizou-se com o presidente, que introduziu mudanças reais na vida de tantos. Consequentemente, Alckmin conseguiu a incrível façanha de ter menos votos no 2º turno do que no 1º.

Hoje, em 2010, Serra não para de cair nas pesquisas, enquanto Dilma caminha a passos largos para a vitória no 1º turno. Ciente de que é sua última chance de ser presidente, sua campanha deu um ataque de desespero: entrou com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral pela cassação da candidatura de Dilma. Alega que a petista quis investigar ilegalmente pessoas associadas a ele por medo de sua vitória.

É um verdadeiro desvario acreditar que alguém com mais de 20 pontos de vantagem nas pesquisas teria medo de que o outro candidato vencesse e, portanto, cometeria atos ilegais pra tentar prejudicar este candidato. É óbvio que a quebra de sigilo dos dados fiscais da filha de Serra só beneficia ele. Coloca-se assim como vítima, perseguido, e acusa Dilma de ser antidemocrática, quando ele busca desesperadamente a vitória a qualquer custo, mesmo que seja derrubando a candidatura do PT na justiça eleitoral, não nos votos, desrespeitando a vontade do povo. Muito “democrático” de sua parte.

É evidente que se Dilma estivesse mesmo envolvida no caso, ela deveria ser punida. Todavia, o pedido de cassação é feito sem provas, apenas para fazer barulho, evocar o medo e exaltar o golpismo. Um surto totalitário, que não aceita a derrota e não aprende com os erros. O pior é que não vai funcionar. A população brasileira esperava da campanha eleitoral deste ano a troca de ideias de como continuar a melhorar o país, não havia um anseio por ataques e escândalos, mas de ver o caminho certo ser mantido, o que a campanha de Dilma ilustra bem, com seus modernos videos e imagens de alta qualidade que consagram o otimismo, ou quem sabe até o ufanismo. A oposição do PSDB e DEM ainda teima em não conhecer o Brasil e deu mais um tiro no pé.

Os eleitores não vão se solidarizar com Serra, pelo contrário: ele será recriminado pelo tom para o qual quer levar a campanha. Assim, deve cair mais ainda nas pesquisas e, quem sabe, ajudar a campanha de Marina a apresentar-se como verdadeira alternativa. Serra pode estar indo de uma derrota legítima a um fracasso vergonhoso.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Análise do Horário Eleitoral

Começou uma importante fase da campanha à Presidência: o horário eleitoral gratuito. Há quem anuncie que só agora se iniciou a campanha, que agora é pra valer. As propagandas na TV e rádio fazem, de fato, diferença, principalmente quando o tempo e o dinheiro disponíveis são o bastante, mas os candidatos já estão em campanha faz tempo. De qualquer forma, vejamos o que os principais candidatos apresentaram:

- Serra tem em torno de 7 min disponíveis, e decidiu tornar-se "Zé Serra". Sempre sorrindo, diferente do normal, enfatizou sua origem modesta, que seu pai era vendedor de frutas, embora não tenha dito onde (Mercado Municipal de São Paulo), e depois enumerou sua experiência política e os inúmeros cargos que ocupou. Obviamente, falou muito de saúde, relembrando seu tempo de Ministro da Saúde, cargo pelo qual é mais conhecido. Mas talvez surpreendeu muitos ao dizer que era economista, e não médico. Cumprimentou, em suas casas, pessoas que foram afetadas por seus programas, mostrando um caráter afável pelo qual não é conhecido. Interessante ressaltar que não atacou o governo Lula, nem em seu jingle de samba, que diz "Pro Brasil seguir em frente, sai o Silva e entra o Zé". Mas embora tenha escolhido uma estratégia apropriada, de não confrontar Lula, o "Zé Serra" não vai colar, assim como o "Geraldo" de Alckmin não funcionou.

- Dilma tem mais tempo, em torno de 10 min, e também falou de sua trajetória de vida, sem omitir o fato de ter sido presa, pra não tratar o assunto como tabu. Aproveitou para comentar sobre sua luta na ditadura, sem citar, no entanto, os atos que cometeu. Assim como Serra, tentou mostrar um lado mais humano, e no seu caso, o lado mãe. Emocionou-se e falou com a voz embargada ao citar a luta do governo pelos mais pobres. Quem pensava que Lula iria tomar todo o tempo dedicado à candidata se enganou. Lula apareceu ao seu lado, pra lembrar o povo quem é sua candidata, mas a propaganda do PT focou em Dilma, começando e terminando a propaganda com imagens de uma estrada, sempre em movimento, simbolizando a continuidade. Estratégia clássica em campanhas ao redor do mundo, mas eficiente.

- A Marina, coitada, restou pouco mais de 1 min. Focou esse tempo no meio-ambiente, sua especialidade, e em como o mundo está mudando por razão de ações humanas. Propôs sua candidatura como alternativa, mas precisa ainda apresentar sua biografia, que é admirável e não é muito conhecida pela maior parte da população brasileira. E como possui uma oratória muito superior à dos outros dois candidatos, tem chance de subir nas pesquisas, principalmente por conta dos debates.

Os outros candidatos não farão muita diferença na campanha. Com a exceção, talvez, de Plínio, principalmente como voto de protesto. Mas o começo do horário eleitoral foi marcado pelos candidatos se apresentando ao eleitor. Vejamos como se posicionam futuramente, principalmente com Dilma chegando perto de ganhar no 1º turno.

sábado, 7 de agosto de 2010

O Significado do Vice

Com o fim da Copa, as eleições são o assunto do momento, pelo menos até fim de outubro. Um tópico que surgiu como nunca é a escolha dos vices de candidatos à presidência. Geralmente, ninguém nem sabe o nome deles, muito menos o que fazem. Talvez seja influência de José Alencar, ilustre vice de Lula; ou pelos problemas de saúde de Dilma, que poderia ter um piripaque e termos o vice como presidente; ou ainda o drama todo que fizeram pra tentar emplacar Aécio Neves como vice de Serra, o que já tinha sido dito aqui que era impossível. Mas provavelmente por todos esses fatores e mais uns outros, os vices ganharam espaço nas eleições deste ano. O que muitos não percebem é o que motivou a escolha de cada um.

O vice de Dilma é Michel Temer, do PMDB. Dilma não precisava de um nome popular pra sua chapa, o apoio de Lula é mais do que suficiente pra alavancar votos. De fato, Temer não foi escolhido pras eleições; pensava-se já em um futuro governo. Membro do maior partido do Brasil, sua indicação já garante um grande apoio (pelo menos em tese, pois o PMDB é bastante fragmentado). E por ser Presidente da Câmara, possui experiência e contatos políticos que facilitam a formação de alianças que serão essenciais pra governabilidade, problema que Lula enfrentou em seu primeiro governo.

Serra, por outro lado, escolheu como vice o deputado federal do DEM, Índio da Costa. Reforçou, desta forma, os laços com seu tradicional aliado, o antigo PFL, mas o principal motivo foi outro. Serra padece da eterna comparação entre os governos de FHC e Lula, restando explorar o grande ponto fraco do governo do PT: os escândalos de corrupção. O deputado Índio foi relator do projeto de lei que combate a corrupção e que caiu nas graças do povo, o Projeto Ficha Limpa. Serra busca, assim, por meio de seu vice, colocar-se como um candidato dedicado ao combate à corrupção, atraindo eleitores desiludidos com o governo atual, apesar dos avanços em outras áreas. Foi uma escolha repentina e questionada dentro do próprio PSDB, mas não deixou de ser uma escolha sensata. Há quem defendesse um vice do Nordeste, região onde Serra tem menos apelo, mas faltava um nome de peso. Menos desastroso, com certeza, que o polêmico senador Álvaro Dias, cotado antes para o cargo.

Por fim, Marina Silva escolheu para vice Guilherme Leal, de seu próprio partido, o PV. A sigla, neste caso, não foi tão importante, e sim o que o candidato representa. Leal é empresário, foi um dos fundadores da Natura, e é um dos homens mais ricos do mundo. Soa estranho pra chapa de uma candidata com um histórico de esquerda, mas exceto por Gabeira, candidato ao governo do Estado do RJ, não há um nome forte no partido de Marina. Cogitou-se uma aliança com o PSOL, para indicar um vice, mas o radicalismo do partido de Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio (que deveria ter indicado a primeira, não o segundo à presidência) impediu qualquer acordo. Inclusive, radicalismo foi o problema em questão na escolha do vice. A candidatura de Marina se apoia no seu histórico, não o de seu partido, mas havia um temor do mercado dela ser um Evo Morales de saia. Guilherme Leal serve então para acalmar o mercado, similar ao papel de José Alencar como vice de Lula, e também para dar um ar de sobriedade à campanha da candidata do PV, que ainda sofre com a acusação um pouco injusta de fundamentalismo religioso.

Cada um dos três principais candidatos, portanto, tem uma grande preocupação na indicação de seus vices: Dilma, o governo; Serra, as eleições; e Marina, o mercado. Se vão atingir seus respectivos objetivos são outros quinhentos. O que é óbvio é que apenas a indicação de um vice não resolve estas questões. E como Marina já disse em uma entrevista, muita água ainda vai rolar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Importância do Equilíbrio

Pois é, a grande final da copa será Holanda x Espanha. O Brasil, infelizmente, nem vai disputar o 3º lugar. Um fracasso, nas quartas-de-final. Como em 2006.

Igual? Nem tanto. Em 2006, havia uma certa arrogância, uma certeza da vitória, que viria sem grandes esforços. O time relaxou, já tinha ganho a Copa passada, e muitos jogadores já sabiam a alegria de vencer, o repeteco não teria a mesma graça. E a derrota veio.

Veio novamente em 2010, mas de outra forma. Muitos culpam Felipe Melo, Dunga, o time inteiro, até o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Não duvido nem que culpem o Lula. Longe de partilhar dessa busca por um algoz, embora Felipe Melo tenha se esforçado pra assumir esse papel, creio que houve outro motivo pra desclassificação: o desequilíbrio emocional. A raiz desse surto é difícil de localizar. Seria leviano chamar de imaturidade, afinal, a Seleção era formada por jogadores experientes, inclusive, com a média de idade mais alta da história do Brasil nas Copas. Pode ter sido o regime fechado que estressou os jogadores; o treinador que não soube lidar com a situação; a pressão de todos os lados, principalmente da imprensa, etc. O que é claro é que isso não surgiu de uma hora pra outra.

No jogo de abertura, o Brasil ganhou de 2 a 1 da Coréia do Norte, com uma certa dificuldade. A ansiedade de marcar o 1º gol deixou o time nervoso, buscando qualquer abertura em um time fechado, que impedia a Seleção de jogar livremente. O gol veio; dois, na verdade, mas achando que estava prestes a golear, deu bobeira e levou o gol. No finalzinho, mas aí se intimidou e passou o restante do jogo se protegendo de mais um.

Vieram então os outros jogos. Contra a Costa do Marfim, um time mais aberto, os gols vieram mais facilmente. Abriram 3 a 0, e mais uma vez, confiantes no resultado, levaram um gol bobo. Portugal aprendeu a lição de como jogar contra o Brasil, e manteve-se fechado. Já classificado, o Brasil jogou pouco, tendo novamente dificuldade em achar gol. Mereceu o resultado: 0 a 0. Finalmente, pelas oitavas-de-final, enfrentou o Chile, que parece não ter aprendido nada com os adversários anteriores da Seleção e tentou lançar-se ao ataque. Dando a liberdade que o time queria, o Brasil ganhou fácil, 3 a 0.

Antes do fatídico jogo contra a Holanda, há no interlúdio o episódio já relatado no blog entre o técnico Dunga e a imprensa. Por mais pleno de razão que estivesse, seu destempero demonstrou certa insegurança, a necessidade de confronto, mesmo depois da conquista. O treinador, geralmente, dá sua cara ao time, portanto...

Brasil e Holanda, enfim. Ótimo 1º tempo, poderia ter definido o jogo, mas ficou no 1 a 0. Diferente do que alguns pensam, o time voltou igual do vestiário, nada mudou. Voltaram com a confiança de que podiam abrir goleada. E fizeram um gol... contra. Falta cobrada por Sneijder, choque entre Felipe Melo e Júlio César, a bola resvala levemente na cabeça do primeiro e segue rumo ao gol. Erros ocorrem, como ocorreram contra Coréia do Norte, Costa do Marfim... mas desta vez, o erro deixou o placar em 1 a 1. Não havia uma zona de conforto, só tensão.

Alie-se a isso, quem diria, a malandragem holandesa. Os laranjas caíam, rolavam no chão em cada encontro mais forte, testando a paciência dos brasileiros. E essa catimba, tão típica do futebol brasileiro, desestabilizou o time. O velho feitiço voltou contra o feiticeiro. Dunga, inconformado com a situação e a atitude do árbitro, grita, briga, bate. O time também. Aí a virada veio, em uma falha geral na defesa de um escanteio. Sneijder, baixinho, sozinho, de cabeça. Jogador mais próximo? Felipe Melo.

O Brasil, então, entra em desespero. Jogava melhor e passa a perder o jogo. E os holandeses só no cai-cai. Em uma dessas, Robben fez mais um drama, e em um misto de raiva e pressa, ele, é claro, Felipe Melo, pisa no jogador como se procurasse a bola, mesmo que fosse pra arrancar de dentro dele. Cartão vermelho. O desespero cresce, mas dá espaço à desilusão. A raiva se perde em olhares perdidos, perguntando-se o que houve. Tudo dando errado, cada um tenta resolver como pode, não acreditando no desfecho. Mas as cortinas fecham e a derrota é uma certeza. Fim de jogo: Holanda 2, Brasil 1.


Moral da história: o Brasil de 2006 mostrou que não basta ser o melhor, é preciso fazer o seu melhor para vencer. Um indivíduo menos capaz sempre pode superar aquele mais hábil compensando o déficit de habilidade com esforço. Por outro lado, o Brasil de 2010 nos mostrou mais um aspecto essencial para o sucesso. Não basta ser o melhor nem fazer seu melhor se em face a adversidades, você perde o controle. O equilíbrio psicológico e emocional evita o pânico, mantém o foco e traz consistência nos resultados. Sem isso, todo grande obstáculo provar-se-á o fim do caminho, antes tão simples.

Que sirva de lição pra próxima Copa. Até 2014.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dunga x Rede Globo

O grande destaque do fim de semana não foi a vitória do Brasil por 3 a 1 sobre a Costa do Marfim, e sim o impasse de Dunga com o jornalista da Rede Globo, Alex Escobar, envolvendo alguns palavrões do treinador nem tanto em "off". Na mesma noite, Tadeu Schmidt, no Fantástico, criticou em tom de editorial a postura do técnico da Seleção, dizendo que a emissora estava do lado da seleção, independente de seu comandante.

Quem está certo nessa história? É claro que não é correto se estressar com a imprensa e ficar fazendo sarcasmo, xingando, etc. Mas convenhamos: qual é a postura da Rede Globo nessa história?

Não é necessário dizer que a imprensa em geral tem atacado o Dunga desde que virou técnico. Na verdade, ele já tinha sofrido com isso quando jogador, o que explica o seu pé atrás com a mídia, mas isso é outra história. Sim, todos nós já criticamos ele, seja por seus resultados iniciais, seja por sua cabeça dura, em especial na convocação para a Copa. Mas é inegável que tenha sido bem-sucedido. Venceu a Copa América, a Copa das Confederações, e conseguiu a classificação para a Copa em 1º lugar. Ainda assim, quem já assistiu a uma coletiva de imprensa provavelmente viu a agressividade das "perguntas" de alguns jornalistas, demonstrando pouco ou nenhum respeito pelo técnico da Seleção.

O caso da Rede Globo vai além. Maior emissora nacional, ela crê em naturais privilégios para cobrir a Seleção, assim como os teve em 2006. Um espetáculo de cobertura, entrevistas exclusivas com o quarteto mágico, tudo com um resultado: vexame. Dunga foi contratado em seguida justamente por sua fama de durão, de jogar com raça e nada de estrelismos. A Seleção precisava de cara nova, descer do salto. E foi o que fez. Quem não o fez foi a Globo.

Há uma indignação da emissora com Dunga em razão dos treinos fechados, a falta de entrevistas exclusivas, nada de privilégios, nada de agrados. Este sentimento, explicam seus jornalistas, é porque "o povo quer saber". Mas quer mesmo? O povo quer que a Seleção jogue bem, bonito, com raça e, principalmente, que vença todos os jogos pra conquistar o Hexa. Só. O resto é resto.

É importante ressaltar quem representa quem nessa história. Queiram ou não, a Seleção representa a nação brasileira. Podem até jogar por interesses pessoais como fama, sucesso, ou até esquecerem por que estão ali. Mas ainda jogam sob a nossa bandeira. E a Globo? Oras, ela representa a si mesma. Seu único interesse é lucro.

Portanto, nesse embate, o povo ficou ao lado da Seleção. Depois do "Cala a Boca, Galvão", veio o "Cala a Boca, Tadeu Schmidt", logo se tornando o tópico mais comentado no Twitter. Derrotada, a Globo recuou. E que sirva de exemplo. Sem negar a importância da imprensa, ainda mais livre, a mídia corporativa, o "Quarto Poder", não representa uma sociedade, e muito menos fala por ela. Move-se por seus próprios interesses: poder e dinheiro. Nada mais.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A Copa do Mundo é Nossa!

Faltando pouco tempo para o primeiro jogo do Brasil na Copa, venho por meio desta assegurar que não abandonei o blog. Sabe como é, férias, Copa, vai tudo acumulando.

E que Copa mais sem gols! Me ferrei no Bolão. Tudo time retranqueiro, com medo de se soltar. Tirando a Alemanha. Ah, a Alemanha... mas enfim, a questão é: o que é tão fascinante na Copa do Mundo? Pra responder isso, seria preciso definir primeiro por que o futebol é fascinante, e isso é outro papo.

O que gosto tanto na Copa é a união que ela proporciona. Eu nunca fui a uma (ainda!), mas pude testemunhar a Eurocopa de 2004 em Portugal. Era incrível ver pelos bares, dia e noite, torcedores de diferentes países e línguas celebrando, bebendo e dançando. E quem disse que não se entendiam? A alegria é uma língua universal, e um sorriso independe de gramática. Festa na Torre de Babel.

Naturalmente, eu torço pelo Brasil. Chorei em 94, chorei mais ainda (será?) em 2002. Que nem uma criança. Nacionalismo, patriotismo, ismos do tipo? Nem é tanto. Me emociono porque vejo 190 milhões, alguns destes bem próximos, depositando tantas esperanças em apenas 11 indivíduos em um campo de batalha, como se a vida deles dependesse disso. Não depende, mas faz a gente sonhar.

É difícil de explicar isso, mas relato o que ocorreu em 2002. A TV exibiu comemorações da conquista do penta ao redor do mundo. O primeiro país foi o Haiti, e era possível ver pessoas pulando e chorando de alegria, como eu e muitos outros por aqui. Parecia insensato, nem brasileiros eram! O repórter perguntou a um homem então por que tanta emoção com a vitória brasileira. O alegre entrevistado disse: "O Brasil é um país pobre como o nosso, e vencer os países ricos na Copa do Mundo nos dá esperança de que podemos ser melhores do que eles em outras coisas também". Caí em prantos. Como um simples jogo de futebol tem tanta magia, tanto poder? Chorei de emoção, de orgulho, como se eu fizesse parte daquele time. E sou.

Nesta Copa, no ônibus da Seleção está escrito: "Lotado! O Brasil inteiro está aqui dentro!". Não podia ser verdade maior. Mas eu diria que não só o Brasil, há muitos mais ali dentro, todos aqueles que podem sonhar, seja qual for o sonho. Sonhemos mais uma vez, então. Avante, Brasil! Rumo ao Hexa!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mães em Dobro

Que semana movimentada!

Ciro sai da disputa presidencial, Corinthians perde pro Flamengo na Libertadores (pra minha felicidade), o Banco Central eleva os juros pela primeira vez em sei lá quanto tempo, e Lula é eleito pela revista Time como um dos líderes mais influentes do mundo (achava-se que era o mais influente, mas a Time meio que corrigiu isso).

Há uma notícia, no entanto, que recebeu menos atenção e acredito ser muito mais relevante. Em decisão inédita, o STJ manteve a adoção de uma criança por um casal de lésbicas no RS. Quer dizer, uma criança a menos sem família, sem alento, sem amor, esperando em vão ser adotada. Já que o Congresso emperra leis que garantiriam esses e outros direitos a homossexuais, restou ao Judiciário tomar alguma atitude.

Essa resolução é importante porque abre precedente para outros juízes autorizarem a adoção de outros casais do mesmo sexo. Todos concordam que uma criança em uma família é melhor pra todo mundo, mas há quem fique com o pé atrás, alegando a quantidade de preconceito que a criança pode sofrer na sociedade, e principalmente na escola. A realidade é: essa criança irá sofrer preconceito? Com certeza. Mas isso significa que se deve ceder a ele, em vez de encará-lo?

Se há algum problema, é dos preconceituosos, não com quem sofre com isso; não se pode culpar quem é vítima. Mesmo porque criança não tem preconceito, ela o aprende com nós, adultos. Ou seja, a culpa, quando a criança caçoa a outra por ter pais homossexuais, é de seus pais incompetentes que não lhe ensinaram a conviver com a diferença. Pelo menos agora, ela e muitas outras crianças terão a chance de interagir com uma realidade diferente. E de qualquer forma, criança procura qualquer motivo pra zoação. Se não for dois pais ou duas mães, vai ser outra coisa. E se há algo que vence e dá forças na luta contra o preconceito, é o amor da sua família.

Ouvimos todo dia sobre vitórias e derrotas, perdas e ganhos, altas e baixas; seja no futebol, na política, na economia, ou no que for. Assim, torna-se raro, no meio disso tudo, ouvir de uma vitória do amor, que é tão mais precioso. Feliz forma, portanto, de terminar a semana. Aproximando-se do Dia das Mães, essas mulheres podem e devem celebrar. Em dobro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eleições 2010

Já foi dada a largada pras eleições deste ano, embora não oficialmente.

Dilma era a candidata natural do governo, e Serra enrolou pra confirmar o que todos já sabiam, que ele se candidataria a presidente. Há quem pensasse que Aécio fosse se candidatar, ou então aceitasse o cargo de vice. Pura ilusão, ou só se ele fosse muito burro, o que não é.

Pelo que as pesquisas mostram, Serra seria eleito presidente. E há mesmo quem ache que ele vai ganhar. Pois bem, que fique claro: Serra jamais vencerá. Sem chance. Nem que os pólos magnéticos da Terra se invertam. Ok, talvez se houver um grande escândalo no governo que derrube a popularidade de Lula e envolva Dilma de forma comprometedora. Isso, aliado a uma campanha desastrosa do PT, o que é de se duvidar.

O motivo dessa certeza é simples. Por mais incrível que pareça, muitos ainda não sabem que Dilma é a candidata de Lula. Alguns sequer a conhecem. A pesquisa do Datafolha de 15 e 16 de abril confirma essa tese.

Como é possível ver na imagem abaixo:

89% dos entrevistados conhecem Dilma. Serra, 97%.
Apenas 16% conhecem muito bem Dilma. Serra, 34%.
39% só conhecem Dilma de ouvir falar. Serra, 29%.
E 11% nunca ouviram falar de Dilma. Serra, apenas 3%.


A pergunta seguinte mostra que apenas 61% dos entrevistados sabiam que Dilma é a candidata que Lula apoia. Alguns erraram, e outros 28% disseram que não sabiam.


Finalmente, 38% dos entrevistados disseram que votariam com certeza no candidato apoiado por Lula. 27%, talvez. 3% deram outras respostas e 5% não souberam dizer.


Pesquisas refletem a opinião do momento, que pode variar muito para cima e para baixo. No entanto, é de se esperar que dos 28% que não conhecem Dilma, a grande maioria é das classes mais baixas, base do eleitorado de Lula. Quando a campanha começar e Dilma se tornar mais conhecida, é natural que suba bastante nas pesquisas.

Independente disso, Dilma já teria, em tese, 38% dos votos garantidos. E se metade dos 27% que talvez votassem no candidato de Lula decidissem por Dilma, ela teria, no mínimo, 51% dos votos. Ou seja: Dilma presidente, e eleita em 1º turno.

Portanto, menos de 6 meses antes das eleições, este blog faz sua previsão: Dilma será eleita presidente. Talvez, no 1º turno. A ocorrência de 2º turno, contudo, não dependerá do sucesso de Serra. Ele já é conhecido por ter sido candidato antes, atingindo seu limite de intenção de votos, já que não possui nada a oferecer de novo. Tudo dependerá do desempenho de outros candidatos: Ciro Gomes (se conseguir vencer as pressões de Lula e seu partido para se candidatar), mas principalmente Marina Silva, que pode surpreender.

(Imagens retiradas do Blog do Fernando Rodrigues)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Projeto Ficha Limpa: pra que?

Certa vez, andando pelo Conjunto Nacional, fui parado por um velhinho boa gente para eu conhecer o Projeto Ficha Limpa e assinar em favor dele. Sem pensar muito, cedi ao seu apelo e assinei. Hoje, tempos depois, me arrependo.

Agora que a votação desse Projeto está em pauta no Congresso, é importante que a população saiba do que se trata. Em síntese, o projeto de lei (PL) quer fortalecer as regras de inelegibilidade, dificultando a candidatura de políticos com a tal "ficha suja", ou seja, que foram condenados por algum crime grave (desde racismo, homicídio e exploração sexual de menores até crimes contra a administração pública, crimes eleitorais e lavagem ou ocultação de bens). Até aí, parece ótimo.

O problema surge em outra questão. Torna-se inelegível também o político que foi APENAS denunciado por um desses crimes a um tribunal competente. Ou seja, enquanto o candidato não resolver essa denúncia e provar que é inocente, fica fora do pleito. Isso significa acabar com a presunção da inocência, de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Ir contra um dos mais básicos preceitos legais não só é uma idéia absurda como também inconstitucional. Fazendo uma pesquisa, vê-se que o PL vai contra o artigo 5o, inciso LVII da Constituição, que diz: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória", que repete a idéia que ninguém é culpado até que seja julgado e condenado. Resumindo: o Projeto Ficha Limpa é inconstitucionalissimamente (sempre quis usar essa palavra!) absurdo.

Os defensores do projeto dizem que este não é inconstitucional, porque a questão da inelegibilidade é uma questão administrativa, não criminal; quer dizer, o candidato não vai pra cadeia por ser denunciado, nem perde os direitos políticos ou de cidadania, inclusive o de voto. Mas e se ele é denúnciado por algum desses crimes em ano eleitoral, por seja lá quem for, e provar-se depois que era inocente quando já não pode se candidatar mais? Tenta de novo em 4 anos? Não dá.

É importante ressaltar também que, no Brasil, fabricar uma denúncia é fácil pros poderosos; ser condenado, não. Quantos políticos que sabemos que não valem nada foram condenados por crimes que sabemos que cometeram, ou pelos muitos mais que nem sequer imaginamos? Simplificando: quantos políticos são condenados? Além disso, como disse, imagino facilmente políticos criando denúncias contra os adversários, com documento e tudo, pra impedir as suas candidaturas. Isso não é fora da realidade, já vi ocorrer em política estudantil; e pior, funcionar.

Criar mecanismos pra tentar impedir a candidatura de alguns “zé-ninguéns” não vai mudar nada enquanto os poderosos vão continuar livres, elegendo-se independentemente do que façam. Quem tem poder pode até receber denúncia, mas talvez vai estar mais compelido a comprar tudo que é advogado, promotor e juiz pra não ser condenado, o que no fim não mudaria nada. É necessário, sim, ser rígido; é um absurdo que políticos renunciem pra não sofrerem processos de impeachment, mas é preciso lutar contra a impunidade, não por mais leis e regras rígidas que engessam o Estado e a democracia.

Acho que a questão ainda vai além: o advento de um projeto de lei como esse ilustra a visão de que o brasileiro não sabe votar. Isso pode até ser verdade, mas se queremos eleger políticos melhores, precisamos tratar do cerne da questão, que se encontra em duas bases: a nossa consciência social e política; seja na noção de coletivo e sociedade, seja no papel atribuído ao Estado; e o sistema político-eleitoral brasileiro e a necessidade de sua reforma (ambos tópicos sobre os quais dissertarei em outra ocasião). Como o primeiro só se muda com o tempo, pela educação, pela experiência e pelo bom exemplo, mais do que tudo, faz-se urgente a reforma política no Brasil.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Amizade.

O dia do amigo já foi, mas hoje me encontro refletindo sobre a amizade. O que é um amigo? Um parceiro fiel e leal, em quem podemos confiar? Uma pessoa com quem cultivamos um afeto mútuo? Simplesmente alguém com quem mantemos boas relações? Ou uma companhia conveniente pra nos livrar da solidão nos momentos oportunos?

Acho que um pouco de tudo. Há amizades que se formam em uma noite e duram uma vida, enquanto outras amizades que se constroem por uma vida terminam em uma noite. Certa vez li em uma pesquisa que, geralmente, mudamos a maioria de nossos amigos a cada 7 anos. É natural essa mudança, considerando que 7 anos é um espaço grande de tempo, e nesse período, mudamos de casa, trabalho, escola; enfim, mudamos, assim como eles mudam também.

A mudança maior, no entanto, reside dentro da pessoa. Ocorre frequentemente um descompasso entre amigos, um erro de sintonia no passar do tempo que empurra ambos, mesmo quando involuntário, a caminhos separados. Assim, no que um dia seria um reencontro, acham-se perdidos, desencontram-se, pois não reconhecem mais o amigo que um dia deixaram pra trás.

O que não muda, nem deve mudar, é o afeto. Não podemos esquecer o que cada pessoa deixou em nós, como contribuiu em nossas vidas. E se amizade terminar, não devemos guardar rancor, querer o mal. O fim é inevitável, venha ele como vier, e nos resta apenas desejar o bem àqueles que não participam mais de nossa vida, mas que certa vez deixaram o nosso dia mais feliz apenas por existirem.

A amizade é a relação que, por mais que seja temporária, devemos sempre resguardar. É o convívio voluntário por excelência, diferente daquele ungido por laços sanguíneos ou firmado em cartório. É frágil, volátil, vem e volta, como todo bem precioso, mas nunca pode deixar de estar presente. E se um dia uma amizade murchar, como todas coisas belas hão de fazer um dia, logo surgirá outra, na qual devemos nos empenhar novamente, como a primavera que age sem esperar o inverno.

Os amigos são muito nessa vida, é verdade. E em todas as suas possibilidades, encontraríamos maravilhas a serem desfrutadas. Mas se pudesse atribuir a eles uma única função, apenas uma dentre tantas que nos servem, seria a de aliviar o nosso fardo de viver.

Dedico, então, esse texto a todos meus amigos: novos ou velhos; próximos ou distantes; aos que foram e voltarem um dia; aos que foram e não voltam nunca mais.

sábado, 27 de março de 2010

Sobre esse tal de BBB10...

Quanta polêmica um programa de entretenimento pode causar?

Muita. Mas no BBB10, a polêmica tem nome: Marcelo Dourado.

Lutador (não muito bem-sucedido) e "repetente" do programa (já havia participado em outra edição).

Começou o jogo isolado, discriminado pela sua postura bruta, além de já ter tido a sua vez. Em uma conversa com outros participantes, que vêm cobrar uma mudança do lutador, ele chora. Sensibilizado, o povo toma as dores, e a popularidade de Dourado aumenta.

Entra um outro elemento. Pela 1a vez, três participantes eram abertamente homossexuais, os "Coloridos". O resto, digamos "preto-e-branco", lidava com naturalidade com isso, tornando este BBB o mais liberal de todos. Mas havia Dourado.

Incomodado, ele não entrou na onda da diversidade. Em brados de "Orgulho Hétero", declarou asneiras como que apenas homossexuais pegavam AIDS, comparou-os (sem pensar) a bandidos, além de reagir com nojo e desprezo quando o assunto tratava de gays. A sociedade brasileira, ainda não habituada com homossexuais em seu círculo social e acostumada a velhos preconceitos, se identificou com o lutador. Era muita liberdade, liberalidade, que, aos olhos da população conservadora, se tornou libertinagem. Resultado: Dourado torna-se o favorito do programa.

Disse mais: declarou que, se estivesse fora do confinamento, quebraria os dedos de uma participante (se fosse homem) e a mandaria ao hospital por ter apontado o dedo a ele; que chutava poodles pra desestressar; que o participante drag-queen deveria ser homem, "apesar" de viado; e mais recentemente, que a gripe suína não passava de um golpe de mídia.

Na análise de um psicanalista, Dourado é "manipulador, ditatorial, dissimulado e violento". Apesar disso, ele não é o pior dos seres humanos; despertou, no entanto, o pior em alguns seres humanos. Tornou-se símbolo da "resistência hetero", referência para os preconceituosos. Herói, mestre, mito! Capitão Nascimento contemporâneo. Sua torcida (parte dela, é importante ressaltar) age de forma organizada, trabalhando arduamente para eliminar todos participantes adversários de Dourado, utilizando programas para acelerar votos e, mais recentemente, hackeando sites que são contra o lutador.

Preocupa mais, contudo, os berros de "morte aos viados" e as ameaças, inclusive de morte, àqueles que se opõem ao "mestre". Evangélicos radicais, homofóbicos e até neonazistas saíram de suas tocas em apoio a Dourado. Este último grupo é motivado, além de tudo, pelo lutador possuir uma cruz gamada, a suástica, tatuada. Ele alega ter tatuado pelo significado do símbolo na religião hindu, o que é questionável, considerando que ele também é ateu, e possui tatuada a frase "Sem Fé". De qualquer forma, Dourado ganhou, assim, uma legião de adoradores e inimigos.

É verdade que o próprio Dourado reprovaria as ações de muitos de seus seguidores, mas sua postura fomentou as atitudes da chamada "Máfia". Involuntariamente, tornou-se um símbolo, representante indireto dessas pessoas, e agora arca com os custos e benefícios.

Hoje, está no paredão com Dicésar, um drag-queen, seu maior adversário no programa. Se ganhar, o que é provável, chega muito próximo de ser o vencedor do prêmio. Não será, entretanto, o grande vencedor. Com a sua vitória, ganham todos os grupos citados, todo o preconceito, a violência e a discórdia. Sua glória coroa valores nefastos de séculos passados, e convence esses indivíduos sem caráter que o seguem de que estão certos, e que a população está ao seu lado.

Há o resto de seus fãs, que não pensa assim, e apenas o apoia porque achou que Dourado foi uma vítima, e é um cara sincero, verdadeiro, diferente do resto.

Isso me lembra o auge do escândalo do mensalão. Na ocasião, fui convidado para discutir e debater sobre uma passeata para demonstrar a revolta com o ocorrido. Percebi, no entanto, o oportunismo de alguns grupos com a situação. Grupos similares, partidários de políticos conservadores, skinheads, ultra-nacionalistas, etc, todos queriam se envolver para divulgar suas ideologias. O que era pra ser apartidário, logo se tornou um palco para os que esperavam a fraqueza do regime atual pra mostrar o que pensam, dizer aquilo que no dia-a-dia não lhes é permitido. Assim, retirei-me rapidamente de qualquer envolvimento com a passeata, que ocorreu da forma que esperava: pessoas de bem lado a lado com indivíduos violentos, preconceituosos e autoritários.

O mesmo ocorre agora. Quem apoiar Dourado, ficará ao lado desses grupos radicais que semeiam o ódio, mesmo que involuntariamente. O que começou como um jogo, agora mexe com os valores da nossa sociedade.

E então: de que lado você quer ficar?

terça-feira, 23 de março de 2010

Yes, he can.

Obama deu uma dentro, e como.

No domingo (21/03), os democratas conseguiram aprovar a bendita reforma do sistema de saúde americano por 219 votos a favor e 212 contra. Parece simples, mas Obama fez o que diversos presidentes tentaram fazer no passado, sem sucesso. Este era um dos grandes projetos de Hillary Clinton, caso fosse presidente, retomando o que já havia tentado no governo do seu marido e ex-presidente Bill Clinton.

Essa é uma vitória importante, porque o presidente Obama teve um primeiro ano de governo bem "modesto", sem grandes realizações. Ganhou o Prêmio Nobel (apenas por ser um símbolo), e só. Ah, matou uma mosca ao vivo. É, isso até que foi legal. Mas só.

Ainda há muito chão pra ele ser a mudança que prometeu ser, mas até que já conseguiu algo. Há ainda questões cruciais e sempre presentes como a Guerra do Iraque, Afeganistão, a prisão de Guantánamo, o desemprego gerado pela crise, etc. No entanto, creio que o próximo pepino será a essencial reforma migratória, que Bush fez de tudo em 8 anos pra empurrar pro próximo governo.

Esse pode ser um problema até maior que a reforma do sistema de saúde, porque lida com várias das questões cruciais que citei. Como regularizar a situação de milhões de imigrantes ilegais, desestimular que outros venham da mesma forma, mas manter a oferta de mão-de-obra barata, hoje tão importante para a economia americana? Sem contar que isso mexe muito mais com os brios do partido republicano.

Obama já se comprometeu a tentar realizar ainda este ano a reforma. Veremos se a sua recente vitória foi um "acidente", ou o começo de uma série de sucessos.

Pra começar...

A ideia desse blog caiu, assim, no meu colo, sem muito alarde ou insistência. Já faz um tempo, então ignorei. Ela foi adquirindo peso, incomodando, até que me rendi. Enfim, o blog.

Por que “Ideias Cadentes”? Bem, a palavra “cadente” tem diferentes significados.

O primeiro, o mais comum, seria “o que cai ou está caindo”. Pois bem, um dos objetivos desse blog é jogar as ideias no chão. Isso pode ser feito por diferentes motivos. Há aquelas ideias que se fazem de imponentes, quase unânimes, então é um dever derrubá-las, destroçar aqueles velhos clichês e proselitismos baratos que perduram de séculos passados. No entanto, há também as ideias, presas em cristais que precisam ser atirados ao chão pra que se espalhem por aí, em milhões de pedaços, sementes que darão fruto a outras ideias, em outros campos. Sabe como é: “As ideias estão no chão / Você tropeça e acha a solução”, etc e tal.

O outro significado da nossa palavra-chave seria “o que possui cadência”, ou seja, o que possui um ritmo, um compasso, uma harmonia. Não que o conflito (das ideias) não seja bom (para as ideias), mas sendo harmônicas, serão coerentes, em especial no que tange a realidade.

De qualquer forma, a proposta é cair no debate, tentar interpretar o que ocorre lá fora. Às vezes através da reflexão, mas às vezes a crítica mordaz será de bom gosto. Afinal, tem hora que é preciso cair na real, não é? De resto, é só cair dentro. Caio, sim. E você? Caiamos todos então. :)